Cinema e Argumento

A Separação

Direção: Asghar Farhadi

Elenco: Peyman Moadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini, Sarina Farhadi, Kimia Hosseini, Sahabanu Zolghadr, Babak Karimi

Jodaeiye Nader az Simin, Irã, 2011, Drama, 123 minutos

Sinopse: Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami) divergem sobre a possibilidade de deixar o Irã. Simin quer deixar o país para dar melhores oportunidades a sua filha, Termeh. Nader, no entanto, quer continuar no Irã para cuidar de seu pai, que sofre do Mal de Alzheimer. Chegam a conclusão de que devem se separar, mesmo ainda estando apaixonados. Sem uma esposa para cuidar da casa, Nader contrata uma empregada para ser responsável pelos afaseres domésticos e por tratar da rotina de seu pai. A empregada, que está grávida, aceita o trabalho sem avisar o seu marido. (Adoro Cinema)

Para um filme conseguir alcançar significativa repercussão internacional, principalmente no que se refere ao circuito de premiações, é necessário que ele tenha a humanidade como essência. Por essa razão que, por exemplo, Tropa de Elite 2 não foi selecionado para concorrer ao Oscar, uma vez que trata de um tema muito interno do Brasil – o que, certamente, não tem muito apelo lá fora. O oposto acontece com histórias que falam de pessoas comuns ou de dilemas que poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo – e o nosso cinema já colheu frutos com isso em longas como Central do Brasil e O Quatrilho. Agora, em 2012, o iraniano A Separação alcança respeitável sucesso fora de seu país exatamente por conseguir contar uma história universal, nunca limitando a sua narrativa aos costumes do Irã.

Dirigido por Asghar Farhadi, A Separação também tem um estilo que é facilmente envolvente: aquele em que um pequeno incidente toma proporções cada vez maiores. E o melhor de tudo: o filme não mostra esse incidente de forma clara, deixando para o espectador decidir qual personagem é o culpado de toda a situação. Assim, a dúvida se instala de forma intensa, fazendo com que todos personagens sejam dignos de desconfiança. A tal separação do título, então, vira assunto de segundo plano nessa história muito bem amarrada em sua tensão. Grande feito de um roteiro que, em momento algum, é tendencioso ao tentar fazer com que o espectador tome partido por um personagem A Separação, além de ter um desenvolvimento bem humano de seus personagens (é tocante a cena em que o protagonista começa a chorar ao ter que dar banho no seu pai que sofre do mal de Alzheimer), ainda consegue despertar angústia ao trabalhar tanto essa dúvida.

Com um ótimo elenco, o longa é um excelente exemplar do cinema iraniano e deve ser visto por todos aqueles que, por alguma razão, têm algum tipo de preconceito com as produções do país. É mais um caso onde um filme consegue quebrar barreiras, tornando-se acessível, envolvente e universal. Tudo isso está evidente não só na temática, mas na própria forma como o diretor Asghar Farhadi constrói a história. A Separação não perde ao ritmo ao longo das duas horas de duração e mesmo que, em determinados momentos, o roteiro pareça repetir certas discussões, nada tira o interesse pela trama, que permanece interessante até o último minuto. Portanto, ainda que o diretor peça que não façam muito alarde em relação ao filme (já que a censura no Irã é forte e isso pode trazer problemas para ele por lá), A Separação merece sim reconhecimento. Se você tem preconceitos com filmes iranianos, chegou a hora de quebrá-los.

FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne

How’s your thirst for adventure, Captain?

Direção: Steven Spielberg

Elenco (performance capture): Jamie Bell, Andy Serkins, Daniel Craig, Toby Jones, Nick Frost, Simon Pegg, Daniel Mays, Gad Elmaleh, Tony Curran

The Adventures of Tintin, EUA, 2011, Animação

Sinopse: Tintim (Jamie Bell) é um jovem repórter, que está sempre atrás de boa matéria. Um dia, ele vê à venda na rua o modelo de um galeão antigo e resolve comprá-lo. Logo dois outros interessados o abordam, querendo adquirir o objeto, mas Tintim não o vende. Ele leva o galeão à sua casa, onde o coloca em destaque. Só que a entrada de um gato faz com que Milu, seu cachorro, o persiga dentro de casa e, por acidente, derrube o galeão. Ele fica danificado e um pequeno cilindro sai de seu interior, sem que Tintim perceba. Logo Tintim e Milu vão à biblioteca, onde tentam encontrar mais informações sobre o navio retratado no modelo. Ao retornar percebem que o galeão foi roubado. Tintim vai até a mansão recentemente comprada pelo doutor Sakharine (Daniel Craig), um dos interessados em comprar o modelo, mas nada descobre. Ao retornar ele encontra o cilindro e percebe que, dentro dele, há uma pista para um tesouro perdido. É o início de uma nova aventura, onde Tintim e Milu se juntam ao capitão Haddock (Andy Serkis) na disputa contra Sakharine para encontrar o tesouro. (Adoro Cinema)

Antes de ser uma animação, As Aventuras de Tintim: O Segredo de Licorne é um filme de aventura. Tal estilo não se refere apenas ao modo como Steven Spielberg dá vida ao personagem com planos e tomadas atípicas para um filme de animação, mas também ao estilo narrativo da trama. As Aventuras de Tintim requer a atenção do público, além de adotar um ritmo movimentado – o que, claro, não o classifica como uma animação convencional. Por isso mesmo, não se surpreenda caso crianças comecem a chorar na sua sessão ou caso os pais impacientes deixem a sala de cinema com os pequenos. O longa de Steven Spielberg não é mesmo para eles. Como filme solo, abandonando qualquer relação com as origens do protagonista, As Aventuras de Tintim, em termos narrativos e técnicos, poderia muito bem ser um filme live action – e só não o é porque, dessa forma, perderia parte do encanto nostálgico envolvendo o protagonista.

Certas escolhas de As Aventuras de Tintim não poderiam existir em um filme com pessoas de carne e osso. O humor, as situações absurdas e a ação imaginativa não teriam lugar em uma aventura de verdade – soaria falso, exagero e histérico. Tintim, portanto, apresenta-se assim para o público leigo, como uma animação com espírito de cinema live action mas que, ao mesmo tempo, seria impossível de ser contada em tal formato. O filme de Spielberg se beneficia justamente por encontrar na animação essa possibilidade de ser descontraído e quase ingênuo sem medo de errar. A diversão está garantida em personagens excêntricos e até mesmo naqueles cujo humor é previsível. A sensação agradável de que estamos assistindo a uma matinê também está ali presente, mostrando que Spielberg acertou no seu trabalho atrás das câmeras.

Produzido com a já conhecida técnica de performance capture, As Aventuras de Tintim impressiona pela qualidade dos detalhes. Em determinados momentos, parece que estamos diante de paisagens verdadeiras (notem, em especial, as cenas passadas no oceano), beneficiando-se, claro, das “locações” escolhidas por Spielberg para encenar a história. Por um outro lado, as expressões dos personagens ainda ficam devendo nesse aspecto. Falta, aqui, o impacto causado por Andy Serkins em Planeta dos Macacos: A Origem, por exemplo. Spielberg, entretanto, cumpriu sua missão e entregou um filme divertido, ainda que prolongado e com uma trama cheia de informações que não são amarradas com o devido impacto no final. Vale, enfim, por ser comandado por um diretor experiente. Nas mãos de outro qualquer, cairia na histeria.

FILME: 8.0

Oscar 2012: indicados (comentários)

Pois é, o Oscar surpreendeu. Apesar de uma ou outra decepção, essa deve ser a lista mais diferente dos últimos anos. Repleta de surpresas, coloca A Invenção de Hugo Cabret na frente com 11 indicações, mesmo que o favoritismo ainda se divida entre O Artista e Os Descendentes. Abaixo, breves comentários sobre os indicados:

– Nunca subestime Stephen Daldry. Mesmo quando o cara não consegue indicação para diretor, o filme dele está lá na categoria principal. Não significa nada a indicação de Tão Forte e Tão Perto, só comprova o amor incondicional da Academia pelo britânico.

– Melissa McCarthy em atriz coadjuvante? Essa entra para o hall das indicações mais absurdas e inexplicáveis do Oscar nos últimos anos.

– Não falem mal de Carlinhos Brown! “Real in Rio” é excelente e, pelo jeito, o Brasil terá seu primeiro Oscar. Merecido, por sinal.

– Surpreendente A Árvore da Vida chegando nas categorias principais. Não faz o estilo do Oscar e, se levarmos em consideração outros prêmios, não estaria ali. Pelo menos sinalizou uma mudança de atitude da Academia.

– Steven Spielberg esnobado por As Aventuras de Tintim. Pena. E olha que venceu o PGA, hein…

– Onde os votantes estavam com a cabeça ao deixar Tilda Swinton de fora por Precisamos Falar Sobre o Kevin, hein? Além da atriz ter sido indicada a todos os prêmios da temporada, merecia demais estar ali. E o filme em si também merecia mais reconhecimento.

– Apenas dois indicados em canção? Por que não acabam logo com a categoria? É triste e desrespeitoso ver uma situação dessas. Como questionou Randy Newman ano passado: qual a razão dessa categoria ter menos indicados que as outras? É uma desvalorização escancarada.

A Dama de Ferro indicado em atriz (Meryl quebrando seu próprio recorde de novo!) e maquiagem. Será que teremos uma dobradinha de vitória ao estilo Piaf – Um Hino ao Amor?

– Não coloco minha mão no fogo por O Artista. Olha A Invenção de Hugo Cabret surpreendendo...

– E, por fim, ainda bem que alguém parou o sucesso descontrolado de Histórias Cruzadas. Quatro indicações (sendo três delas para o elenco feminino) já são muito mais do que o suficiente. Muito mais.

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Os vencedores do Oscar serão conhecidos no dia 26 de fevereiro. Confira no Cultnews a lista completa de indicados.

Oscar 2012: apostas (indicados)

Na próxima terça-feira (24), conheceremos os indicados ao Oscar 2012. Abaixo, os meus palpites (apenas categorias principais):

MELHOR FILME

O Artista

Os Descendentes

Histórias Cruzadas

O Homem Que Mudou o Jogo

A Invenção de Hugo Cabret

Meia-Noite em Paris

Tudo Pelo Poder

MELHOR DIRETOR

Michel Hazanavicius (O Artista)

Alexander Payne (Os Descendentes)

Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret)

Tate Taylor (Histórias Cruzadas)

Woody Allen (Meia-Noite em Paris)

MELHOR ATRIZ

Glenn Close (Albert Nobbs)

Viola Davis (Histórias Cruzadas)

Meryl Streep (A Dama de Ferro)

Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin)

Michelle Williams (Sete Dias Com Marylin)

MELHOR ATOR

George Clooney (Os Descendentes)

Leonardo DiCaprio (J. Edgar)

Jean Dujardin (O Artista)

Michael Fassbender (Shame)

Brad Pitt (O Homem Que Mudou o Jogo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Bérénice Bejo (O Artista)

Jessica Chastain (Histórias Cruzadas)

Janet McTeer (Albert Nobbs)

Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)

Shailene Woodley (Os Descendentes)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Kenneth Branagh (Sete Dias Com Marilyn)

Jim Broadbent (A Dama de Ferro)

Albert Brooks (Drive)

Jonah Hill (O Homem Que Mudou o Jogo)

Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Os Descendentes

Histórias Cruzadas

O Homem Que Mudou o Jogo

A Invenção de Hugo Cabret

Precisamos Falar Sobre o Kevin

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

50%

O Artista

Ganhar ou Ganhar – A Vida é Um Jogo

Meia-Noite em Paris

Jovens Adultos

Livro – Prayers for Bobby

Bobby Griffith fazia parte de uma família extremamente religiosa. Ele, inclusive, acreditava em Deus e era um católico praticante. Todavia, Bobby escondia um segredo que ia contra todos os ensinamentos cristãos pregados por sua família: ele era gay. O cenário? Estados Unidos dos anos 1970, onde homossexuais eram vistos como seres pecadores. Também era a época em que Harvey Milk, um político e ativista gay de grande popularidade, foi assassinado. A AIDS começava a se alastrar e era exclusivamente relacionada ao mundo homossexual. Ou seja, já não bastasse a família extremamente religiosa, Bobby ainda enfrentava tempos difíceis, onde o mundo não fazia questão de abraçar os gays. Ele se assumiu, e a família o rejeitou, especialmente a mãe, Mary. Tal situação permaneceu até o último minuto de sua breve vida, quando, aos 20 anos, Bobby se atirou de uma ponte e faleceu ao ser atingido por um caminhão. Sua mãe, devastada, passa a compreender o mundo do filho tempos depois, quando lê os diários deixados por ele. A partir daí, muda a sua visão do mundo e passa a lutar pelos direitos gays. A vida de Bobby, bem como a mudança de Mary, é relatada no livro Prayers for Bobby – A Mother’s Coming to Terms With the Suicide of Her Gay Son, que, em 2009, chegou a ser adaptado para um telefilme estrelado por Sigourney Weaver.

Leroy Aarons, jornalista e escritor falecido em 2004, conheceu a família Griffith no ano de 1989. A partir de seu envolvimento com as histórias do jovem Bobby contadas pela mãe, Mary, Aarons escreveu Prayers for Bobby, um livro até hoje sem tradução para o português, e que preserva muito a linguagem jornalística de seu autor. Qualquer pessoa que tiver a oportunidade de entrar em contato com o trabalho, notará a frequente característica do escritor em contar histórias paralelas e, principalmente, em situar o leitor no contexto social e político dos Estados Unidos dos anos 70. Prayers for Bobby, se assim podemos dizer, é um livro de relatos, e não especialmente uma obra com traços daquela dramaturgia com início, meio e fim, onde fatos reais recebem linguagem e tratamento ficcionais. O trabalho de Leroy Aarons, na realidade, é quase exclusivamente informativo, apenas apresentando fatos e situações, deixando de lado maiores interpretações sobre os personagens e seu sentimentos.

Aqui, conhecemos Bobby e somos apresentados a momentos que marcaram sua autodescoberta, mudanças que foram definitivas na sua vida e pessoas que tiveram grande influência em suas decisões – sejam elas positivas ou negativas. Também ficamos a par da vida de Mary, desde a sua formação religiosa e seu cotidiano como esposa até o trágico fato envolvendo Bobby que mudou a sua vida. Mesmo que Prayers for Bobby não se utilize de maiores romantismos para contar a vida dos dois, também não faz a mínima questão de tomar partido. Bobby foi sim injustamente incompreendido e sua breve vida tão promissora foi completamente marcada por tristezas. Entretanto, o autor não quer endeusá-lo. Bobby tinha falhas, gênio difícil e frequentemente tomava decisões que não eram as mais inteligentes para o estilo de vida daquela época (o jovem chegou a ser, por livre e espontânea vontade, garoto de programa, o que dificultaria ainda mais sua aceitação na sociedade). A mãe também está longe de ser vilanizada. Aarons aproveita a oportunidade para mostrar que a religião de Mary tinha um propósito em sua vida e que seu sentimento de controle não era só em relação aos filhos, mas também ao próprio marido, uma vez que o casamento dos dois passou por fortes turbulências devido ao ciúmes obsessivo de Mary.

Dessa forma, Prayers for Bobby é bem sucedido como um registro humano e histórico da luta pelos direitos gays e, mais do que tudo, pela necessidade de diálogo entre pais e filhos. É uma história universal e que, bem como o filme estrelado por Sigourney Weaver, mostra que, antes de hetero/homossexuais (ou qualquer outro termo que preferirem), somos humanos. Leroy Aarons, em cerca de 260 páginas (considerando a versão da editora HarperOne lançada nos Estados Unidos), luta por isso, pela conscientização de que todos somos iguais, independente de sexualidades. E isso é o que mais importa em Prayers for Bobby. É certo que o autor poderia ter apresentado um estilo mais elaborado do ponto de vista narrativo (a forma como vai e volta no tempo, alternando capítulos entre Mary e Bobby não chega a ser tão atraente), livrando-se do previsível caráter jornalístico, onde, a todo momento, cita datas, nomes e cidades – algo que, no final das contas, o leitor não absorve muito. De qualquer forma, é apenas detalhe de um livro que cumpre sua missão de mostrar como a falta de conhecimento, bem como a intolerância, pode tornar esse mundo ainda mais doloroso. Não chega a ser tão impactante ou emocionante quanto o telefilme exibido em 2009 pela Lifetime, mas também tem o seu valor humano. É o retrato de uma sociedade desinformada e ignorante que, infelizmente, até hoje tem o seu legado.