360

Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Peter Morgan, baseado na peça “La Ronde”, de Arthur Schnitzler
Elenco: Anthony Hopkins, Maria Flor, Jude Law, Ben Foster, Rachel Weisz, Juliano Cazarré, Lucia Siposová, Jamel Debbouze, Marianne Jean-Baptiste
Inglaterra/Áustria/França/Brasil, 2011, Drama, 110 minutos
Sinopse: Inspirado em “La Ronde”, clássica peça de Arthur Schnitzler, 360 é uma reunião de histórias dinâmicas e modernas, passadas em diversas partes do mundo. Laura (Maria Flor) é uma mulher que deixou a vida na terra natal para tentar a sorte em Londres ao lado do namorado Rui (Juliano Cazarré). Ao descobrir que o parceiro está tendo um caso com Rose (Rachel Weisz), ela decide voltar para o Brasil. Na volta pra casa, ela conhece um simpático senhor (Anthony Hopkins) e Tyler (Ben Foster), duas pessoas em momentos difíceis em suas vidas. Num outro lado da história, Mirka (Lucia Siposová) é uma jovem tcheca que começa a trabalhar como prostituta para juntar dinheiro. Ao mesmo tempo, lida com a desaprovação da irmã Anna (Gabriela Marcinkova). O primeiro cliente de Mirka é Michael (Jude Law), que por sua vez é casado com Rose. (Adoro Cinema)

Nunca eu diria que 360 é um filme de Fernando Meirelles. Nunca. Passaria pela minha cabeça qualquer diretor, menos ele. Primeiro porque 360 é um filme convencional. Segundo porque Fernando Meirelles não é de contar histórias sem deixar algum tipo de marca. Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e o subestimado Ensaio Sobre a Cegueira – para mencionar seus trabalhos mais conhecidos – possuem algo de contundente e que atesta o vigor atrás das câmeras. Não é o caso de 360, um filme menor – e, como o diretor aponta, mais intimista – que não consegue se expressar muito bem. Realizado com baixo orçamento, essa investida pessoal de Meirelles ao invés de mostrar um lado autoral e sensível do diretor, mostra que ele só funciona com histórias que fogem do convencional e que sejam diferentes em seu formato.
Não que Meirelles realize 360 com desleixo. Não é isso. Só que vindo de um diretor tão criativo, era de se esperar que o filme mostrasse uma outra vertente desse profissional que é um dos expoentes do cinema nacional. Só que 360, dentro do que se propõe, é mais do mesmo. E o pior: cai na velha armadilha da narrativa multiplot. Isso quer dizer que a proposta se perde em um infinito emaranhado de personagens que, como de costume, deixam o longa muito irregular, com histórias mais interessante do que outras. O formato acarreta, também, o desperdício de vários atores que, frente a um espaço tão limitado em cena, não conseguem sequer desenvolver algo de mais especial, como é o caso de Jude Law e Rachel Weisz, dois atores que não têm muito a fazer a não ser emprestar a pompa de suas presenças ao projeto.
O sopro de vitalidade de 360 está mesmo com Anthony Hopkins. É claro que, nesse longa, ele está interpretando a si mesmo e não necessariamente um personagem – o que o próprio ator confessou. Entretanto, é gratificante vê-lo tão à vontade em cena. Isso, por sinal, nos recorda de como veteranos como Hopkins não são frequentemente explorados com papeis e cenas mais livres, onde possam esbanjar todo o talento que lhe fizeram grandes. Por isso, pouco importa se a cena de seu personagem no Alcoólicos Anônimos parece batida. Ele, contracenando com a iluminada Maria Flor (que em nenhum momento se intimida perto de Hopkins), é um dos pontos altos do longa, que ainda dá destaque para outro excelente ator (Ben Foster). Pena que tantos saiam perdendo por não ter qualquer profundidade, como é o caso do brasileiro Juliano Cazarré, que sai do nada para o lugar nenhum.
360, apesar de tudo, tem várias tentativas de contar sua história com certo estilo. Nesse sentido, Meirelles usa recursos bem interessantes, especialmente quando mostra dois personagens conversando por telefone em ambientes diferentes ou quando faz conexões entre algumas histórias. Só que tanto as investidas quanto a ótima trilha escolhida cuidadosamente por Ciça Meirelles não conseguem trazer empolgação a esse filme que sofre com a narrativa multiplot. Na exibição em Gramado, o diretor assumiu que sofreu demais para fazer 360 e que admira Robert Altman por conseguir fazer tanto com milhares de personagens. Meirelles também revelou que nunca mais se arriscará no formato. Não seria essa, de certa forma, uma pequena confissão de que 360 não saiu do jeito que ele imaginava?
FILME: 6.0

* Exibido no 40º Festival de Cinema de Gramado








