Cinema e Argumento

Os indicados ao Globo de Ouro 2013

No sentido de dar uma noção do que veremos nos indicados do próximo Oscar, a lista divulgada ontem pelo SAG foi muito mais pé no chão. A maior prova disso é o amor do Globo de Ouro por Django Livre, por exemplo, que só teve maiores repercussões na lista divulgada pela HFPA hoje – o que não deve se repetir no Oscar. Na realidade, a lista do Globo de Ouro oscilou entre o previsível e o irrelevante – o que é recorrente no prêmio – onde algumas surpresas pouco acrescentam às tendências da award season. Lincoln, de Steven Spielberg, lidera com sete indicações.

A lista completa – também com os indicados em TV – pode ser conferida aqui. A de cinema encontra-se abaixo. Ah, e um adendo: o Globo de Ouro precisa reformular urgentemente a forma como faz o anúncio de seus indicados. Levam quase meia hora para revelar a lista, colocam intervalo e ainda escolhem nomes aleatórios para segurar várias folhas de papel na mão frente às câmeras. Não à toa, Jessica Alba chegou a confundir uma categoria. Não rola nem um PPT para os convidados se guiarem? Os vencedores serão conhecidos no dia 13 de janeiro, em cerimônia apresentada por Tina Fey e Amy Poehler. Breves comentários sobre os indicados:

– Ainda não entendo tanto amor por O Exótico Hotel Marigold, que falha, inclusive, em aproveitar os veteranos atores. A indicação a melhor filme comédia/musical é, sem dúvida, mais afetiva do que qualquer outra coisa. Pelo menos lembraram de Judi Dench, a única do elenco que realmente merece menção.

– Falando em Judi Dench, ainda na categoria dela tem outras atrizes de calibre, como Maggie Smith (por Quartet) e Meryl Streep (Um Divã Para Dois). Trio de respeito, hein? Mas o prêmio deve ficar com a Jennifer Lawrence.

– Colocaram Tom Hooper de escanteio por Os Miseráveis para celebrar ainda mais o Django Livre de Quentin Tarantino. É bem provável que isso não se repita no Oscar. Até porque O Discurso do Rei teve DOZE indicações na lista da Academia. O que falar, então, de um musical de época baseado em um clássico?

– Se o SAG esqueceu de The Master (só Philip Seymour Hoffman foi indicado), o Globo de Ouro lembrou. E com as esperadas indicações para Joaquin Phoenix e Amy Adams. É tendência ou isso morre aqui?

– Marion Cotillard consolidou seu caminho para o Oscar com mais uma indicação por Ferrugem e Osso. Mas será que os membros da Academia vão mesmo escolher essa performance sutil ao invés de Emmanuelle Riva, que tem um papel tematicamente mais atraente para eles (a idosa enferma que é cuidada pelo marido)?

– Adele tem tudo para vencer o Globo de Ouro. Afinal, sempre pesa o nível da fama. De qualquer forma, a ótima Skyfall tem cara de que vence a categoria e sequer é lembrada no Oscar, como já aconteceu muitas vezes em anos anteriores. E pena que Javier Bardem e Judi Dench ficaram de fora pelo filme…

– As Aventuras de Pi conseguiu importantes indicações, assim como Argo. Os dois filmes estavam um tanto apagados até então. Com o Globo de Ouro conseguiram novo fôlego. Mas qual será a repercussão deles no Oscar?

– Dario Marianelli indicado pela belíssima trilha de Anna Karenina. Por mim, o italiano poderia vencer todos os prêmios.

– Nicole Kidman e Helen Mirren de novo? Só é complicado saber o que essas indicações duplas (ontem no SAG e hoje no Globo de Ouro) realmente significam.

– No mais, é muito simples: basta subtrair aquelas indicações que só o Globo de Ouro deu para termos um panorama do que é a temporada de premiações. No sentido de embaralhar a award season, como fez o SAG ontem, o Globo de Ouro serviu mais para esclarecer, já que as “surpresas” não dizem muita coisa.

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FILME DRAMA

Argo
Django Livre
As Aventuras de Pi
Lincoln
A Hora Mais Escura

FILME COMÉDIA/MUSICAL

O Exótico Hotel Marigold
Os Miseráveis
Moonrise Kingdom
Amor Impossível
O Lado Bom da Vida

ATOR DRAMA

Daniel Day-Lewis (Lincoln)
Richard Gere (A Negociação)
John Hawkes (The Sessions)
Joaquin Phoenix (The Master)
Denzel Washington (O Voo)

ATRIZ DRAMA

Jessica Chastain (A Hora Mais Escura)
Marion Cotillard (Ferrugem e Osso)
Helen Mirren (Hitchcock)
Naomi Watts (O Impossível)
Rachel Weisz (The Deep Blue Sea)

ATOR COMÉDIA/MUSICAL

Jack Black (Bernie)
Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)
Hugh Jackman (Os Miseráveis)
Ewan McGregor (Amor Impossível)
Bill Murray (Hyde Park on Hudson)

ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL

Emily Blunt (Amor Impossível)
Judi Dench (O Exótico Hotel Marigold)
Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida)
Maggie Smith (Quartet)
Meryl Streep (Um Divã para Dois)

ATOR COADJUVANTE

Alan Arkin (Argo)
Leonardo DiCaprio (Django Livre)
Philip Seymour Hoffman (The Master)
Tommy Lee Jones (Lincoln)
Christoph Waltz (Django Livre)

ATRIZ COADJUVANTE

Amy Adams (The Master)
Sally Field (Lincoln)
Anne Hathaway (Os Miseráveis)
Helen Hunt (The Sessions)
Nicole Kidman (The Paperboy)

DIREÇÃO

Ben Affleck (Argo)
Kathryn Bigelow (A Hora Mais Escura)
Ang Lee (As Aventuras de Pi)
Steven Spielberg (Lincoln)
Quentin Tarantino (Django Livre)

ROTEIRO

Argo
Django Livre
Lincoln
O Lado Bom da Vida
A Hora Mais Escura

CANÇÃO ORIGINAL

“For You” (Ato de Valor)
“Safe and Sound” (Jogos Vorazes)
“Suddendly” (Os Miseráveis)
“Skyfall” (007 – Operação Skyfall)
“Not Running Anymore” (Stand Up Guys)

TRILHA SONORA

Anna Karenina
Argo
A Viagem
As Aventuras de Pi
Lincoln

ANIMAÇÃO

Valente
Frankenweenie
Hotel Transilvânia
A Origem dos Guardiões
Detona Ralph

FILME ESTRANGEIRO

Amour
Kon-Tiki
Intocáveis
En kongelig affære 
Ferrugem e Osso

Os indicados ao SAG 2013

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Surpreendente. Essa é a palavra que define a lista de indicados ao SAG 2013. O prêmio, exclusivo para categorias de atuação, trouxe muitas surpresas em várias categorias. Se a temporada de premiações continuar assim, teremos um ano realmente memorável. Além disso, com o anúncio dos indicados ao Critics’ Choice ontem e os do Globo de Ouro amanhã, é dada a largada para a award season, até então muito vaga, já que associações de críticos não dizem muito sobre os vencedores de Oscar, SAG, Globo de Ouros e afins. Confira, abaixo, breves comentários sobre cada categoria do SAG (lista completa com indicados de tv podem ser conferidas aqui), que tem sua cerimônia de premiação marcada para o dia 27 de janeiro:

ELENCO

Argo

O Exótico Hotel Marigold

Os Miseráveis

Lincoln

O Lado Bom da Vida

A surpresa aqui foi a indicação para O Exótico Hotel Marigold. O filme tem veteranos de respeito, mas eles são apenas nomes, já que  John Madden não aproveita como deveria cada um deles. Judi Dench era a única que merecia ser lembrada. A disputa fica entre Os MiseráveisLincoln O Lado Bom da Vida (que lidera as indicações).

ATOR

– Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)

– Daniel Day-Lewis (Lincoln)

– John Hawkes (The Sessions)

– Hugh Jackman (Os Miseráveis)

– Denzel Washington (O Vôo)

A categoria mais previsível de todas. Ainda que Bradley Cooper e Denzel Washingtos não sejam necessariamente surpresas, suas inclusões também não podem ser consideradas inesperadas. Ao que tudo indica, Day-Lewis deve ser consagrado por seu papel em Lincoln.

ATRIZ

– Jessica Chastain (A Hora Mais Escura)

– Marion Cotillard (Ferrugem e Osso)

– Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida)

– Helen Mirren (Hitchcock)

– Naomi Watts (The Impossible)

Curioso ver Helen Mirren lembrada por Hitchcock, filme que não foi muito bem recebido lá fora e que, supostamente, era para ser um show de Anthony Hopkins (preterido por todas as listas até agora). Naomi Watts, relativamente bem cotada mas ainda incerta por The Impossible, parece ganhar novo fôlego agora. O mesmo pode ser dito de Marion Cotillard, por Ferrugem e Osso, que desbancou Emmanuelle Riva, nome que já era aposta certa para Amor.

ATOR COADJUVANTE

– Alan Arkin (Argo)

– Javier Bardem (007 – Operação Skyfall)

– Robert De Niro (O Lado Bom da Vida)

– Philip Seymour Hoffman (The Master)

– Tommy Lee Jones (Lincoln)

Perceberam como todos os indicados já têm um Oscar em casa? Ansioso para saber qual deles será consagrado… Fico feliz com a indicação para Javier Bardem e um tanto incomodado com a presença de Alan Arkin, que está bem em Argo mas não muito diferente de seus outros papeis cômicos – especialmente quando divide cena com John Goodman. Que indicassem os dois, então…

ATRIZ COADJUVANTE

– Sally Field (Lincoln)

– Anne Hathaway (Os Miseráveis)

– Helen Hunt (The Sessions)

– Nicole Kidman (The Paperboy)

– Maggie Smith (O Exótico Hotel Marigold)

Nicole Kidman indicada por The Paperboy? Isso parece coisa do Globo de Ouro, que de vez em quando inventa de bajular alguém sem razão… Ainda não vi o filme, mas a indicação veio totalmente do nada, até porque o longa de Lee Daniels não agradou muito por onde passou (foi considerado o fiasco de Cannes em 2012). Maggie Smith também surgiu de surpresa, talvez uma certa consequência do carinho especial pelos grandes atores de O Exótico Hotel Marigold. Quem ficou de fora foi Amy Adams, por The Master, considerada presença certa até então. Judi Dench, por 007 – Operação Skyfall também merecia lembrança.

A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2

Forever isn’t as long as I’d hoped.

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Direção: Bill Condon

Roteiro: Melissa Rosenberg, baseado no romance homônimo de Stephenie Meyer

Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Michael Sheen, Dakota Fanning, Kellan Lutz, Peter Facinelli, Billy Burke, Joe Anderson, Ashley Greene, Nikki Reed, Jamie Campbell Bower, Lee Pace, Cameron Bright

The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 2, Aventura, 115 minutos

Sinopse: Após dar a luz a Renesmee (Mackenzie Foy), Bella Swan (Kristen Stewart) desperta já vampira. Ela agora precisa aprender a lidar com seus novos poderes, assim como absorver a ideia de que Jake (Taylor Lautner), seu melhor amigo, teve um imprinting com a filha. Devido ao elo existente entre eles, Jake passa a acompanhar com bastante atenção o rápido desenvolvimento de Renesmee, o que faz com que se aproxime cada vez mais dos Cullen. Paralelamente, Aro (Michael Sheen) é informado por Irina (Maggie Grace) da existência de Renesmee e de seus raros poderes. Acreditando que ela seja uma ameaça em potencial para o futuro dos Volturi, ele passa a elaborar um plano para atacar os Cullen e eliminar a garota de uma vez por todas. (Adoro Cinema)

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Foram necessários cinco filmes para que um diretor finalmente compreendesse por completo a essência da saga Crepúsculo. No caso, Bill Condon, que já havia dirigido Amanhecer – Parte 1, mas que só agora conseguiu reunir, de forma escancarada, os elementos que tanto “enlouquecem” as fãs: o romance idealizado sem medo de ser cafona, a trilha sonora pensada exatamente para exaltar os momentos apaixonados dos protagonistas, as cenas que nem precisariam existir se não fosse… a necessidade de fisgar ainda mais o público-alvo. A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 certamente merece reconhecimento por não tentar ser mais do que realmente é. Só que se esse desfecho cai com uma luva em níveis açucarados para atender as expectativas das fãs, por outro lado também deixa sempre evidentes as maiores fragilidades de Crepúsculo: do roteiro frouxo a pequenos detalhes muito questionáveis do ponto de vista dramático, Amanhecer – Parte 2 continua a decepcionar quem não aprecia a obra de Stephenie Meyer.

Mas Bill Condon estava certo em fazer um desfecho devidamente “apelativo” para o público-alvo. Não faria sentido, nessa altura do campeonato, tentar realizar algo diferente. Seria tempo perdido. Até porque vários diretores de perfis bem distintos já passaram pela saga e nunca conseguiram dar um perfil mais autoral ou ousado para a história de amor de Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson). Então vamos aos fatos: primeiramente, impressiona o fato de Crepúsculo ser uma saga de forte sucesso nas bilheterias e ainda ter efeitos visuais tão desleixados. Só investem o dinheiro arrecadado no salário dos atores? E antes o problema fosse apenas os lobos mal concebidos: o verdadeiro horror aqui é Renesmée, filha do casal protagonista, que parece ter saído diretamente do clássico jogo The Sims de tão explicitamente computadorizada. É um atentado ao espectador de bom senso, que pode muito bem se constranger com a criança. A corrida de Bella e Edward na floresta, logo no início, também é lamentável. Sem falar da maquiagem, que continua péssima, a ponto de deformar alguns atores – como Kellan Lutz, sempre irreconhecível. Já em termos de história, podemos confirmar o que sempre foi muito claro: não existe razão – além da financeira, claro – para Amanhecer ser narrado em dois capítulos.

Ao contrário de Harry Potter e as Relíquias da Morte, que, a princípio, tinha uma divisão muito duvidosa mas que, depois, revelou-se uma grata surpresa, em Amanhecer não existe qualquer fator novidade: os dois filmes poderiam sim ser apenas um. Com isso, a trama seria mais enxuta e o arco dramático (do casamento até o desfecho) não deixaria margens para prolongamentos desnecessários que, claro, sucumbem a verdadeiras bobagens. Mas se existe uma surpresa no segundo longa da série dirigido por Bill Condon, essa é a própria Bella. A partir do momento em que se torna vampira, ela muda completamente: não só por se tornar uma espécie de guerreira e dona do próprio nariz, mas por estar melhor fotografada e sem suas eternas caretas de desamparada incompreendida. E isso prova que, quando quer, Kristen Stewart sabe ser diferente. Já Robert Pattinson continua engessado e apático, murchando frente a nova abordagem de seu par. Enquanto isso, Taylor Lautner está meio de escanteio no grande conflito da trama. O único que parece rir secretamente de tudo, como se revelasse de forma sutil que está ali só para ganhar dinheiro, é Michael Sheen, ator que cada vez mais se torna um expert em construir personagens divertidos de tão exagerados e caricatos.

Caindo no velho esquema do filme que é praticamente todo sobre uma preparação para um grande momento, Amanhecer – Parte 2 ainda revela uma surpresa para os seus últimos momentos: a cena da batalha na neve. Só que esse clímax é uma faca de dois gumes, e se você não quiser ler spoilers, abandone o texto. De um lado, a melhor cena de toda a série (com restrições ao padrão da saga, claro), que consegue ser movimentada e bem fluida. De outro, uma mudança brusca: essa cena não existe. É a previsão de um futuro que não acontece na história. Ou seja: com essa cena, Amanhecer – Parte 2 irrita por fazer o espectador de bobo. E não é nem em relação a enganação em si, mas como ela brinca com as emoções do espectador, visto que, nela, inclusive, um personagem do elenco fixo chega a morrer. Porém, sem a cena, o filme de Bill Condon seria ainda mais frouxo, com uma resolução totalmente desestimulante e fácil, reafirmando que uma divisão de filmes não era necessária. Cabe a você decidir se o filme ficaria melhor ou pior sem a tal batalha na neve.

Muito se foi dito que Amanhecer – Parte 2 é o “melhor” filme da saga Crepúsculo e que, inclusive, ele chega a surpreender positivamente. Não vejo dessa forma. Comparado aos outros longas, ele é, repetindo, o que melhor compreende para quem está falando: seja quando conduz o romance de forma bastante idealizada ou quando encerra a história com uma retrospectiva (homenagem?) de todos os personagens que passaram pela história de Stephenie Meyer. Não tenho dúvidas que Bill Condon se saiu bem nesse sentido. No entanto, o resultado não é nada além disso: Crepúsculo continua sem um roteiro consistente, um enredo que justifique tanta mobilização dos personagens e motivações convincentes. É mais do mesmo, apenas com a diferença de que um longa da série nunca foi tão endereçado às fãs. Para elas, deve ter sido o desfecho perfeito. Já eu, cinéfilo isento de qualquer amor por Bella e Edward, ainda fiquei por ver um longa realmente interessante sobre essa história de amor.

FILME: 5.5

2*

Na coleção… Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban assustou vários fãs da série. De verdade. Inclusive, é fácil encontrar quem ainda não consegue aceitar muito bem a brusca mudança de tom com a entrada do diretor Alfonso Cuarón. Sai todo aquele universo de fábula criado por Chris Columbus para a entrada de um clima mais pesado, seco e pé no chão. Evolução mais do que necessária e que foi de encontro com o próprio público, que já precisava começar a se desprender do esquema repetitivo da saga para dar chance a algo novo e mais cinematográfico. E o mexicano Cuarón se mostrou a escolha certa para isso, conseguindo, pela primeira vez, fisgar a atenção da crítica que, a partir desse filme, deixou de elogiar apenas a parte técnica para também valorizar os detalhes da trama criada por J.K. Rowling.

Os primeiros minutos de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban não são lá muito interessantes: a formalidade de apresentar o verão do protagonista com os seus tios unilaterais pode até ser divertida, mas fica cada vez mais evidente que nada acrescenta ao momento de constante autodescoberta de Harry Potter (Daniel Radcliffe). Sem falar da maluca viagem no Noitibus Andante, que é muito frenética e fora de tom. Assim, até que Harry se encontre com Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson), O Prisioneiro de Azkaban é desinteressante e, apesar da abordagem inovadora (notem como Cuarón se dá até o direito de acompanhar o protagonista com câmera na mão), dá para perceber que essa nova fase da série ainda estava tentando se encontrar.

Entretanto, não demora muito para que o filme comece a impressionar. A viagem de trem para Hogwarts é notável (especialmente em função do suspense envolvendo a invasão dos Dementadores), a chegada na escola com o coral cantando Double Trouble também mostra que o compositor John Willians conseguiu se reinventar (é seu melhor momento na saga) e todo o trabalho com o novo elenco – que agora inclui nomes como David Thewlis, Emma Thompson e Michael Gambon – atestam o amadurecimento de Harry Potter. Ainda é importante ressaltar aqui a própria forma como a direção de arte transformou Hogwarts em um novo lugar, adequado ao tom apresentado pelo novo diretor, mas sem abandonar os elementos que tornaram os filmes de Columbus tão encantadores nesse sentido.

Mais enxuto que o habitual (excetuando os longos créditos finais de quase 15 minutos, o filme tem apenas pouco mais de duas horas de duração), Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban também se mostra mais evoluído em função de seus protagonistas, que já entraram na pré-adolescência. Eles mostram plena segurança como protagonistas, incluindo Daniel Radcliffe, que, apesar de não ser impecável, segura muito bem os dilemas de seu personagem. A exceção no trio é Emma Watson, que já começa a dar fortes sinais da sua série de caras e bocas que seria uma marca (negativa) sua durante os próximos três filmes (em As Relíquias da Morte – Parte 1, ela corrigiu isso de forma louvável). Da parte técnica repaginada à direção que trouxe uma reviravolta essencial para o mundo de Harry Potter, O Prisioneiro de Azkaban foi um marco por ser o pontapé inicial que a série precisava para deixar de ser um produto personalizado para os fãs: com ele, o jovem bruxo despertou a curiosidade de novos públicos.

FILME: 8.5

Holy Motors

Who were we when we were who we were back then?

Direção: Leos Carax

Roteiro: Leos Carax

Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Kylie Minogue, Eva Mendes, Michel Piccoli, Elise Lhomeau, Jeanne Disson, Leos Carax, Nastya Golubeva Carax, Reda Oumouzoune, Annabelle Dexter-Jones, Elise Caron, Corinne Yam

França/Alemanha, Drama, 115 minutos

Sinopse: Oscar (Denis Lavant) transita solitário em vidas paralelas, atuando como chefe, assassino, mendigo, monstro, pai… Mergulha profundamente em cada um dos papéis e é transportado por Paris e arredores em uma luxuosa limusine, comandada pela loira Céline (Edith Scob). Ele é um homem em busca da beleza do movimento, da força motriz, das mulheres e dos fantasmas de sua vida. (Adoro Cinema)

Louco. Complexo. Desafiador. Intrigante. Incompreensível. É bom, de vez em quando, assistir a um filme que ultrapassa todas barreiras do convencional e convida o espectador a entrar em uma viagem totalmente nova e diferente de tudo aquilo que estamos acostumados a ver nos cinemas. Holy Motors é um desses exemplares que uns amam, outros odeiam. Não existe meio termo. Talvez todo esse caráter polêmico tenha lhe tirado maiores chances no último Festival de Cannes, onde perdeu a coroação máxima para o elogiado Amour, de Michael Haneke. Porém, assim como o filme vencedor da Palma de Ouro, o novo trabalho de Leos Carax tem tudo para se tornar um clássico “cult”, para quem gosta desse tipo de definição. Bom ou ruim, Holy Motors não causa indiferença. E isso é algo a ser considerado.

Nunca eu indicarei Holy Motors a alguém. Nunca. Isso porque corro o sério risco de irritar aqueles que comprarem o conselho. Mas é bem provável que, de repente, acerte em cheio o gosto de alguns (raros) interessados. É uma experiência atípica, um delírio que deixa a lógica de lado, onde o espectador precisa de tempo para se acostumar com o universo do longa de Leos Carax. Mas a verdade é que não é necessário compreender todo o filme para entrar no clima. Quem se propor a embarcar nessa viagem maluca e bizarra certamente sairá recompensado da sessão. Alguns podem dizer que Holy Motors é mais um experimento do que propriamente cinema – e existe certa razão nessa afirmativa – mas é impossível não reconhecer o brilhantismo de Carax ao manipular signos e metáforas sem nunca se distanciar de uma narrativa cinematográfica bem orquestrada e instigante.

Explorando o lado mais metropolitano e menos a abordagem sonhadora e cartão-postal de Paris, o diretor cria um clima eficiente: os movimentos de câmera, a fotografia e o clima sombrio constroem uma narrativa extremamente intrigante, que varia do drama ao mistério. Afinal, quem é o protagonista interpretado por Denis Lavant? O que ele faz? O que significa cada uma de suas “tarefas”? Quais são as suas motivações? É um filme que desafia o espectador a juntar as peças e achar as respostas sozinho. Explicações são quase nulas em Holy Motors. Há quem ache isso um demérito e um empecilho para se criar qualquer conexão com aquele universo, mas é aí que reside uma das maiores qualidades do trabalho de Carax: nem todo filme precisa de respostas. Ok, não dá para evitar a sensação de que muitas situações estão ali só tornar a experiencia “experimental” e underground. Contudo, o diretor não perde o equilíbrio porque, apesar desses momentos, consegue realizar outros muito sensíveis, especialmente os mais dramáticos.

Importante notar que Holy Motors tem uma estrutura episódica: o que importa é cada personalidade assumida pelo protagonista, a situação em que ela está inserida e o que ela de fato representa. E a boa notícia é que o filme não se torna cansativo em função das nove identidades do personagem principal. Para driblar a mesmice que seria tão comum em um formato como esse, o diretor se vale de muitas abordagens: drama, crime, nudez, cemitérios, mortes e relações mal resolvidas. Quem obviamente se beneficia dessa variedade  é o ator Denis Lavant, que impressiona com a sua total entrega ao personagem. Do homem convencional ao mendigo repugnante, ele se despe (literalmente) de vaidades para lidar com uma figura extremamente desafiadora. E seu resultado não é menos que louvável.

Quando se encaminha para o final, Holy Motors ainda nos reserva outra grata surpresa: a participação da cantora pop Kylie, naquele que é, sem dúvida o momento mais interessante de todo o filme. A australiana, que começou sua carreira como atriz de TV, estava afastada das telas desde que fez uma ponta no musical Moulin Rouge – Amor em Vermelho. Aqui, ela afastou-se do seu marcante guarda-roupa e de qualquer vaidade para dar vida a uma personagem que é o coração de Holy Motors e que também é uma viagem ao passado para o protagonista. Soltando a voz com Who Were We? (canção originalmente escrita para o filme e interpretada em uma cena musical muito bem pontuada), ela segura tudo com notável segurança e sensibilidade, não fazendo feio ao lado do impecável Denis Lavant. Holy Motors certamente é um filme incômodo e que precisa de revisões para ser devidamente mastigado. Mas, como bem apontou o crítico Tim Robey, do The Telegraph, você dificilmente vai conseguir tirá-lo da cabeça (fazendo referência a Can’t Get You Out of My Head, outro hit de Kylie parte da trilha sonora). E vamos ser sinceros: poucos filmes conseguem esse feito.

FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO: