Cinema e Argumento

As Vantagens de Ser Invisível

Right now we are alive and in this moment I swear we are infinite.

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Direção: Stephen Chbosky

Roteiro: Stephen Chbosky, baseado em romance homônimo de autoria própria

Elenco: Logan Lerman, Ezra Miller, Emma Watson, Paul Rudd, Dylan McDermott, Johnny Simmons, Kate Walsh, Nina Dobrev, Nicholas Braun, Adam Hagenbuch, Erin Wilhelmi, Zane Holtz, Reece Thompson, Landon Pigg

The Perks of Being a Wallflower, EUA, 2012, Drama, 102 minutos

Sinopse: Charlie (Logan Lerman) é um jovem que tem dificuldades para interagir em sua nova escola. Com os nervos à flor da pele, ele se sente deslocado no ambiente. Seu professor de literatura, no entanto, acredita nele e o vê como um gênio. Mas Charlie continua a pensar pouco de si… Até o dia em que dois amigos, Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), passam a andar com ele. (Adoro Cinema)

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É complicado entrar no terreno adolescente quando o assunto é cinema. Obras particulares sobre esse universo são normalmente estereotipadas, escrachadas e, em casos extremos, comédias de mau gosto. Claro que depende da proposta, mas bons filmes sobre jovens são cada vez mais raros e menos originais. Em tempos que os maiores hits sobre esse público são séries de TV extremamente comerciais (Glee, que hoje já foi esquecida), é recompensador se deparar com As Vantagens de Ser Invisível, um filme que surpreende por ser um exemplar alternativo muito controlado sobre a temática. Mesmo não escapando de pequenos clichês no que se refere à personalidade de alguns personagens, o trabalho de  Stephen Chbosky como diretor, produtor executivo e roteirista (adaptando seu próprio romance homônimo) demonstra pleno controle nas devidas doses de drama, romance e comédia para desenvolver uma história que, nas mãos erradas, teria tudo para se tornar facilmente insuportável.

A essência de As Vantagens de Ser Invisível não traz qualquer novidade, pois estamos diante de um protagonista que atende a vários estereótipos dramáticos do gênero: o garoto isolado, tímido, assombrado por um trauma do passado e que agora volta à escola após certo tempo internado em uma clínica. Por isso, é normal ficar com um pé atrás durante os minutos iniciais do filme de Chbosky, mas vale a pena relevar: o que segue é cheio de desenvoltura. Até porque todo o elenco jovem está muito bem. Quem encabeça o elenco é Logan Lerman, um ator que não tem um rosto muito marcante, mas que segura muito bem as pontas, nunca se acomodando na meiguice e no coitadismo de um personagem que poderia ser construído apenas em cima de melodramas. Sua paixonite é interpretada por Emma Watson, também muito controlada e mais simpática do que habitual, mantendo a boa média de atuação que apresentou nas partes finais de Harry Potter. O destaque, entretanto, fica mesmo com Ezra Miller, superando qualquer resquício de seu asqueroso personagem em Precisamos Falar Sobre o Kevin e fazendo uma louvável composição de um personagem gay que está longe de ser fake.

É bom ver um elenco tão afinado representando personagens bem desenvolvidos em uma história muito crível, que equilibra vários gêneros com segurança. No roteiro, Chbosky não pesa a mão quando deseja fazer rir (o humor aqui é genuíno, muito em função da química dos atores) e sabe mostrar os dilemas da adolescência sem ser nada superficial como os dramas batidos e mal encenados de uma  Malhação da vida. Sendo o retrato de uma geração ainda em busca de uma identidade e que tenta abraçar todas as possibilidades de um mundo com muito a ser desbravado, As Vantagens de Ser Invisível cumpre sua missão com direito a elogios. Se Chbosky não sabe o que fazer com os adultos (o professor interpretado por Paul Rudd é avulso e só aparece uma vez ou outra para ser o mentor do protagonista e lançar frases de efeito), em contrapartida, tem pleno domínio sobre alguns dramas em particular. O romance secreto entre um homossexual assumido com um colega enrustido é um exemplo: mastigado até onde deve, nunca parece avulso ou invasivo demais para o contexto daquele universo.

A dosagem certa dos elementos e da importância de cada personagem e cada storyline é, certamente, o ponto alto de As Vantagens de Ser Invisível. O filme apresenta algumas características negativas que podem ser ressaltadas pelos depreciadores: uma vez ou outra, é possível encontrar certas liberdades românticas que existem apenas com o propósito de deixar o filme mais queridinho, alternativo e apaixonante. Também não poderia faltar a garota indie que gosta The Smiths (a jogada mais velha de todas só que eficiente para o público-alvo), os extremos (os estranhos são legais, os populares são detestáveis) e os dramas pessoais do protagonista estendidos além da conta só para mostrar que ele pode sustentar o filme sozinho sem o destaque de seus colegas. Mas, de novo: controla o açúcar e nunca descamba para o forçado. É um longa jovem que consegue suprir seus erros com um clima muito agradável, verossímil e na medidade. Não é uma grande obra, mas é fácil saber porque ela encontra seu público – e merecidamente.

FILME: 8.0

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Globo de Ouro 2013: resultados

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É comum uma cerimônia de premiação ser cansativa. Principalmente uma como o Globo de Ouro, que distingue drama de comédia e ainda distribui prêmios entre cinema e TV. É, também, uma cerimônia que não tem espaço para ser um espetáculo: tudo acontece em um local onde as celebridades, dispostas em mesas de acordo com filmes/séries, jantam e bebem, como em um encontro mais informal. No caso do Globo de Ouro, portanto, os vencedores fazem toda a diferença. E esse ano eles fizeram: na comemoração de seus 70 anos, poucas vezes a Hollywood Foreign Press apresentou um resultado tão coerente e surpreendente ao mesmo tempo.

O primeiro prêmio da noite já foi um susto: nada de Philip Seymour Hoffman (vencedor do Critics’ Choice Awards) ou do favorito Tommy Lee Jones (de um má vontade insuportável durante a festa), mas sim Christoph Waltz, por Django Livre. E se a surpresa mais decepcionante da noite foi na categoria de animação (com os ótimos Frankenweenie e Detona Ralph na disputa, pra quê puxar o saco da Pixar com o mediano Valente?), o resto foi do previsível inofensivo ao diferente entusiasmante. Interessante ver como os prêmios de Django Livre vão influenciar a award season, descobrir se a trajetória bem sucedida de Os Miseráveis para por aqui ou se outras premiações vão continuar tão harmônicas como essa (quem mais levou foi o musical de Tom Hooper, com apenas uma estatueta a mais que Argo e Django Livre).

O Oscar, agora, deve estar se remoendo de remorso. Os vencedores do Globo de Ouro já tinham sido selados antes do anúncio das escolhas da Academia (o que anula qualquer relação entre os dois), mas a vitória de Argo, apesar de parecer um divisor de águas na award season, diz menos do que parece. Tomo como exemplo mais recente o excelente Desejo e Reparação, que ganhou o Globo de Ouro e o BAFTA, mas foi completamente esnobado pelo Oscar (não foi indicado à direção e só ganhou um prêmio de trilha sonora). O (merecido) sucesso de Argo no Critics’ Choice e no Globo de Ouro não muda o favoritismo de Lincoln, até porque os votantes do Globo são da imprensa estrangeira (o filme de Spielberg tem uma história dirigida ao público estadunidense) e, óbvio, o Oscar não vai dar o braço ao torcer. Eles nunca vão reconhecer que deixaram Argo de lado em função do preconceito com Ben Affleck.

Mas no meio dessa cerimônia, que ainda contou com uma boa apresentação de Tina Fey e Amy Poehler (e elas mereciam muito mais tempo tem cena!), o grande momento não ficou com uma concorrente de alguma categoria do Globo de Ouro. E sim com Jodie Foster, que compareceu à cerimônia para receber o Cecil B. Demille em homenagem à sua carreira. Se a lembrança poderia parecer precoce, logo a atriz surpreendeu. Com um discurso extremamente humano (vários na plateia estavam em lágrimas!) sobre carreira e amigos, ela foi de uma elegância extrema ao falar sobre sua vida íntima. Fez um discurso de veterana mesmo. Aliás, bem pelo contrário: fosse outro astro empoeirado esquecido pelo tempo, faria piadas internas e só estaria ali relembrando velhos tempos que a nova geração pode não conhecer tão bem. Jodie Foster, seja pelo belo discurso e pela merecida homenagem, certamente resumiu o que foi o Globo de Ouro: um verdadeiro acerto! Que continue assim. Abaixo, a lista completa de vencedores:

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA: Argo
MELHOR ATRIZ DRAMA: Jessica Chastain (A Hora Mais Escura)
MELHOR ATOR DRAMA: Daniel Day-Lewis (Lincoln)
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Os Miseráveis
MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida)
MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Hugh Jackman (Os Miseráveis)
MELHOR ANIMAÇÃO: Valente
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Amor (Áustria)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Anne Hathaway (Os Miseráveis)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Christoph Waltz (Django Livre)
MELHOR ROTEIRO: Django Livre
MELHOR TRILHA SONORA: As Aventuras de Pi
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Skyfall” (007 – Operação Skyfall)

TV

MELHOR SÉRIE DRAMA: Homeland
MELHOR ATRIZ DRAMA: Claire Danes (Homeland)
MELHOR ATOR DRAMA: Damian Lewis (Homeland)
MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL: Girls
MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Lena Dunham (Girls)
MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Don Cheadle (House of Lies)
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Virada no Jogo
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Julianne Moore (Virada no Jogo)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Kevin Costner (Hatfields & McCoys)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Maggie Smith (Downton Abbey)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Ed Harris (Virada no Jogo)

Globo de Ouro 2013: apostas

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Tina Fey! Amy Poehler! Independente do que aconteça na edição do Globo de Ouro 2013, tenho certeza que será uma festa memorável em função dessas duas atrizes. Não importa se tudo será óbvio com a vitória massiva de Lincoln ou se, de repente, o prêmio surpreender e ir de acordo com o Critics’ Choice Awards elegendo Argo como melhor filme e direção. Aposto todas as minhas fichas que as duas vão fazer a diferença. Então, vamos ao que interessa: os possíveis vencedores. Um vídeo com comentários mais detalhados foi publicado na nossa fanpage no Facebook. Abaixo, nossas apostas (incluindo alternativas) em todas as categorias de cinema:

MELHOR FILME DRAMA: Lincoln / alt: Argo

MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Os Miseráveis / alt: O Lado Bom da Vida

MELHOR DIREÇÃO: Steven Spielberg (Lincoln) / alt: Ben Affleck (Argo)

MELHOR ATOR DRAMA: Daniel Day Lewis (Lincoln) / alt: não tem

MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Hugh Jackman (Os Miseráveis) / alt: Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)

MELHOR ATRIZ DRAMA: Jessica Chastain (A Hora Mais Escura) / alt: Naomi Watts (O Impossível)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida) / alt: Maggie Smith (Quartet)

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Philip Seymour Hoffman (The Master) / alt: Tommy Lee Jones (Lincoln)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Anne Hathaway (Os Miseráveis) / alt: não tem

MELHOR ROTEIRO: Argo / alt: Lincoln

MELHOR TRILHA SONORA: As Aventuras de Pi / alt: Anna Karenina

MELHOR ANIMAÇÃO: Frankenweenie / alt: Valente

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Amor / alt: não tem

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Skyfall” (007 – Operação Skyfall) / alt: não tem

Amor

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Direção: Michael Haneke

Roteiro: Michael Haneke

Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell, Rita Blanco, Ramón Agirre, Carole Franck, Dinara Drukarova, Laurent Capelluto, Jean-Michel Monroc

Amour, Áustria/França/Alemanha, 2012, Drama, 127 minutos

Sinopse: Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal de aposentados, que costumava dar aulas de música. Eles têm uma filha musicista que vive com a família em um país estrangeiro. Certo dia, Anne sofre um derrame e fica com um lado do corpo paralisado. O casal de idosos passa por graves obstáculos, que colocarão o seu amor em teste. (Adoro Cinema)

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É bem provável que Amor seja o filme mais acessível de toda a carreira do diretor Michael Haneke – o que não quer dizer muito, visto que o alemão sempre realiza obras bastante difíceis, seja em função da temática ou da narrativa. Só que Amor não tem os dramas desafiadores de A Professora de Piano ou uma narrativa sujeita a várias interpretações como a de A Fita Branca, por exemplo. Em termos de formato, é o filme que abrange um público muito maior do que o diretor normalmente consegue alcançar. Só que, como já dito, nem por isso deixa de ser difícil. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes (incluindo prêmios especiais, o alemão já tem nove prêmios do Festival), é um filme denso justamente por tratar a vida de forma tão simples e realista: em seu mais novo trabalho, o diretor mostra que não precisa ser mirabolante para mostrar que a vida por si só já pode ser bastante dolorosa.

A fórmula de Amor não tem mistérios: no filme, acompanhamos a vida de um casal idoso, em especial a total degradação de Anne (Emmanuelle Riva), que sofreu um derrame e teve o lado direito do corpo paralisado. Georges (Jean-Louis Trintignant), então, promete que nunca deixará a esposa definhar em um hospital e passa a cuidá-la dia e noite. E ponto. Amor não é nada além disso. O que existe de mais interessante no filme é como ele é o mais cru possível com essa situação que é normalmente “romantizada” no cinema. Se pegarmos como exemplo filmes como Iris e Longe Dela, onde maridos cuidam de esposas enfermas, podemos perceber que: primeiro, o que mais importa é mostrar um casamento sendo abalado; e, segundo, que uma clínica bem chique isenta o diretor de ter que mostrar a enfermidade como ela é. Haneke tem uma proposta diferente, fugindo de sentimentalismos e proteções, mas sem nunca ser apenas racional: em Amor, ele mostra a degradação sem qualquer economia de detalhes, especialmente naqueles que se referem à triste condição da protagonista. Ele não poupa ninguém ao mostrar uma mulher debilitada que já não consegue mais se movimentar e precisa de ajuda até mesmo para ir ao banheiro.

Amor também não é apenas sobre uma vida acabando, mas sim sobre duas. Se de um lado temos a esposa que nada pode fazer devido a suas condições, de outro temos o marido que precisa ser forte e que passa a ter uma vida resumida apenas a cuidar da companheira de tantos anos. A dor está nos dois lados do filme, que é particularmente angustiante por não ser nada apelativo. O choro e o desespero não são mostrados por Haneke, o que deixa o espectador ainda mais claustrofóbico naquele mundo. Nós esperamos que alguém quebre um prato ou que um personagem comece a chorar compulsivamente. Isso não acontece. E não precisa. Por apenas observar e não “idealizar” a situação, o longa faz com que fiquemos angustiados e solidários com essa possível condição de vida a que ninguém está imune – e que, por isso mesmo, é tão amedrontadora. E esse é o grande mérito de Amor, que surpreende por trazer uma visão completamente diferente da temática. Inclusive, não é exagero algum dizer que esse é o filme mais humano e pé no chão sobre a condição mostrada. E também o mais doloroso e reflexivo em função disso. Pelo menos entre os mais contemporâneos.

O lado negativo de Amor é que, por ser tão específico sobre o universo de seus protagonistas, acaba se privando de explorar outras possibilidades. Algumas tentativas de abrir o leque da vida de Anne e Georges são um pouco falhas – ou, então, ineficientes – como a personagem interpretada por Isabelle Huppert, que parece ser apenas uma formalidade no meio de toda a situação, fazendo o previsível papel da filha ocupada e distante que não ajuda os pais tanto quanto deveria. Em termos dramáticos, a personagem não acrescenta muito ao filme e subutiliza o gigantesco talento da atriz. Amor também é um filme lento, pois, junto com os longos planos silenciosos de Haneke, a história se resume apenas ao convívio do casal. Ela se aprofunda e se sensibiliza com o passar dos minutos, mas também deixa a sensação de que tem muitas repetições que poderiam dar lugar a outras abordagens (a exemplo da interação com a filha).

Por fim, o nome do filme é Amor, mas em nenhum momento esse sentimento é necessariamente colocado em palavras ou romantizado como fio condutor da história. Haneke não precisa disso: desde o início, sabemos, por cada pequeno momento mostrado, que o casal é especial, companheiro e que viveu anos felizes. E isso está mais do que visível nas performances dos protagonistas, com destaque para a de Emmanuelle Riva, que, apesar de se beneficiar bastante com o papel mais desafiador (e ela se sai magnificamente bem ao reproduzir as sequelas físicas do derrame de Anne), tem uma sensibilidade e uma capacidade assombrosa de passar grande emoção com uma simples expressão, deitada na cama, com o corpo imóvel. É em função de detalhes como esse que o filme acaba e fica com o espectador… Afinal, Amor transcende a sala de cinema porque não convidou ninguém apenas para ficar no escuro esquecendo o mundo lá fora. Há quem encare o cinema como uma fuga, como uma idealização – e, muitas vezes, também o faço (e isso é legal!). Mas, para mim, o cinema mais gratificante é aquele que dialoga da forma mais fiel possível com a realidade. Assim é Amor.

FILME: 8.5

4

Os indicados ao Oscar 2013

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A esperança é a última que morre. E, depois de uma premiação pavorosa como a última, podemos dizer que o anúncio dos indicados ao Oscar 2013 deu um certo gás para esse prêmio que precisa urgentemente se reinventar. As mudanças parecem ter começado na própria revelação da lista: o cenário agora é limpo (sem a pequena bancada), onde os dois apresentadores, livres para circularem, fazem o anúncio ao lado de um telão. Sai o presidente da Academia (o que tira o tom engessado) para dar lugar ao apresentador da vez, acompanhado de um convidado. No caso, Seth MacFarlane e Emma Stone. Farlane, por sinal, fez brincadeiras até com o poderoso Harvey Weinstein. Interessante. Mas como a Academia vai receber o humor do comediante?

Os pequenos detalhes também contam: percebam como os indicados agora não são listados mais por ordem alfabética de sobrenome – e o suspense dobra! Já sobre os indicados, não dá para dizer que o resultado foi ruim. Bem pelo contrário: foram poucas as surpresas desagradáveis e o Oscar conseguiu surpreender com nomes que – apesar de não serem favoritos – eram considerados por alguns experts. Lincoln, de Steven Spielberg, lidera com 12 indicações, seguido de As Aventuras de Pi (com 11) e O Lado Bom da Vida e Os Miseráveis (cada um com 8). A cerimônia de entrega do Oscar acontece no dia 24 de fevereiro. Abaixo, breves comentários e a lista completa de indicados:

– O Lado Bom da Vida concorre em todas as categorias de atuação. É um acontecimento histórico no Oscar. O último filme que conseguiu essa façanha foi Reds, na década de 1980.

– Intocáveis fez sucesso mundialmente e foi indicado a todos os grandes prêmios, mas ficou de fora do Oscar. Não tinha minha torcida. E sua ausência não chega a ser uma surpresa.

– Por falar em estrangeiros, os votantes gostaram bastante de Amor. É um filme pesado e difícil, mas muito humano, que mostra a velhice como ela é. E essa sinceridade merecia ser reconhecida.

– Triste pela ausência de Marion Cotillard, por Ferrugem e Osso. Deve ser a terceira ou quarta vez que o Oscar ignora um excelente desempenho da atriz. Ferrugem e Osso é, no entanto, ao lado de Nine, a maior injustiça.

– As maiores surpresas ficaram na categoria de direção: Kathryn Bigelow, Tom Hooper e Ben Affleck ficaram de fora. Só vi o terceiro. E considero uma injustiça.

– Todos os indicados na categoria de ator coadjuvante já têm um Oscar em casa. Quem vai ser agraciado novamente? Difícil dizer. O retorno parece uma tendência esse ano: dos 20 atores indicados, apenas quatro estão na primeira indicação.

– 007 – Operação Skyfall até que teve um bom resultado (canção, trilha, fotografia, edição de som, mixagem de som), mas merecia ser levado mais a sério, pelo menos com indicações para Javier Bardem e Judi Dench.

– Bem que poderiam ter colocado Moonrise Kingdom na categoria de melhor filme para fechar dez indicados, né?

– Adoro Naomi Watts e ela, como sempre, está ótima em O Impossível. Mas não é muito justo ela ser a única lembrança do filme: todo o elenco merecia (em especial Tom Holland) e também o notável trabalho de direção de arte e maquiagem.

– Teve mais Indomável Sonhadora do que eu gostaria e esperava. Só a indicação para a garota Quvenzhané Wallis – que, de fato, está um arraso – já bastava.

•••

MELHOR FILME

Amor
Argo
Indomável Sonhadora
Django Livre
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
Lincoln
O Lado Bom da Vida
A Hora Mais Escura

MELHOR DIREÇÃO

Michael Haneke (Amor)
Benh Zeitlin (Indomável Sonhadora)
Ang Lee (As Aventuras de Pi)
Steven Spielberg (Lincoln)
David O. Russell (O Lado Bom da Vida)

MELHOR ATOR

Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)
Daniel Day-Lewis (Lincoln)
Hugh Jackman (Os Miseráveis)
Joaquin Phoenix (O Mestre)
Denzel Washington (O Voo)

MELHOR ATRIZ

Jessica Chastain (A Hora Mais Escura)
Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida)
Emmanuelle Riva (Amor)
Quvenzhané Wallis (Indomável Sonhadora)
Naomi Watts (O Impossível)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Alan Arkin (Argo)
Robert De Niro (O Lado Bom da Vida)
Philip Seymour Hoffman (O Mestre)
Tommy Lee Jones (Lincoln)
Christoph Waltz (Django Livre)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Amy Adams (O Mestre)
Sally Field (Lincoln)
Anne Hathaway (Os Miseráveis)
Helen Hunt (The Sessions)
Jacki Weaver (O Lado Bom da Vida)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Argo
Indomável Sonhadora
As Aventuras de Pi
Lincoln
O Lado Bom da Vida

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Amor
Django Livre
O Voo
Moonrise Kingdom
A Hora Mais Escura

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Amor (Áustria)
Kon-Tiki (Noruega)
No (Chile)
O Amante da Rainha (Dinamarca)
War Witch (Canadá)

MELHOR ANIMAÇÃO

Valente
Frankenweenie
ParaNorman
Piratas Pirados
Detona Ralph

MELHOR FIGURINO

Anna Karenina
Os Miseráveis
Lincoln
Espelho, Espelho meu
Branca de Neve e o Caçador

MELHOR DOCUMENTÁRIO

5 Broken Cameras
The Gatekeepers
How to Survive a Plague
The Invisible War
Searching for Sugar Man

MELHOR DOCUMENTÁRIO (CURTA-METRAGEM)

Inocente
Kings Point
Mondays at Racine
Open Heart
Redemption

MELHOR MONTAGEM

Argo
As Aventuras de Pi
Lincoln
O Lado Bom da Vida
A Hora Mais Escura

MELHOR MAQUIAGEM

Hitchcock
O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
Os Miseráveis

MELHOR TRILHA SONORA

Anna Karenina
Argo
As Aventuras de Pi
Lincoln
007 – Operação Skyfall

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

“Before My Time” (Chasing Ice)
“Everybody Needs a Best Friend” (Ted)
“Pi’s Lullaby” (As Aventuras de Pi)
“Skyfall” (007 – Operação Skyfall)
“Suddenly” (Os Miseráveis)

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

Adam and Dog
Fresh Guacamole
Head Over Heels
Maggie Simpson in “The Longest Daycare”
Paperman

MELHOR CURTA-METRAGEM

Asad
Buzkashi Boys
Curfew
Death of a Shadow (Dood van een Schaduw)
Henry

MELHOR EDIÇÃO DE SOM

Argo
Django Livre
As Aventuras de Pi
007 – Operação Skyfall
A Hora Mais Escura

MELHOR MIXAGEM DE SOM

Argo
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
Lincoln
007 – Operação Skyfall

MELHORES EFEITOS VISUAIS

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
As Aventuras de Pi
Os Vingadores
Prometheus
Branca de Neve e o Caçador

MELHOR FOTOGRAFIA

Anna Karenina
Django Livre
As Aventuras de Pi
Lincoln
007 – Operação Skyfall

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Anna Karenina
O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
Lincoln