Cinema e Argumento

Rapidamente

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CINDERELA BAIANA (idem, 1998, de Conrado Sanchez): Hoje é visto como um clássico trash do cinema brasileiro, mas na época do lançamento não deve ter sido lá muito engraçado. E, mesmo hoje, tudo é muito sofrido: dá até para se divertir aqui ou ali com uma bobagem, mas, no geral, só testa a paciência do espectador. Renegado pela própria Carla Perez, o filme foi um verdadeiro fiasco de bilheteria, e dá para entender o porquê. Cinderela Baiana simplesmente não é cinema – e não se encaixa nesse universo porque nada faz sentido na história dirigida por Conrado Sanchez. Todos os personagens tem uma notável escalada social e profissional (o que anula a existência de qualquer conflito, já que todos vencem na vida) e é muito questionável a forma um como certas cenas são desenvolvidas: afinal, é drama ou comédia? Vamos também considerar o fato de que Cinderela Baiana dedica 80% de sua duração a acompanhar cenas de dança infinitas que nada acrescentam sequer ao mundo musical tão almejado pela protagonista. O elenco é também um destaque dos horrores: de Carla Perez a Alexandre Pires, todos são incrivelmente ruins. Mas o mistério mesmo é saber de onde Perry Sales tirou tanto fôlego para gritar o tempo inteiro como o vilão maquiavélico que, por ganância, marca dois shows para a protagonista em dois países diferentes no mesmo horário.

HOJE (idem, 2012, de Tata Amaral): Infelizmente, Denise Fraga é mais conhecida pelo quadro cômico Retrato Falado, do Fantástico, do que por seus atributos como atriz dramática. E Hoje é uma bela maneira de conhecer toda essa vertente da carioca que é pouco conhecida pelo grande público. O filme de Tata Amaral é quase que inteiramente encenado em um apartamento, apoiado na dinâmica entre Fraga e o uruguaio César Troncoso. Mesmo com uma breve duração (não são nem 90 minutos), Hoje é quase arrastado, muito em função de ser um filme bastante silencioso e construído apenas em cima de diálogos. Por falar em diálogos, o texto se sai bem ao lidar com várias questões, desde a forma como a ditadura afetou o casal principal aos acertos de contas dos dois com o passado e a vida. Mas a verdade é que Tata Amaral se sai muito melhor quando fala sobre sentimentos. A temática da ditadura aqui foge de discussões banais, mas é quando o filme resolve mostrar como essa terrível fase da história brasileira transformou emocionalmente os personagens durante os anos posteriores é que o filme ganha um fôlego diferenciado. E Denise Fraga, claro, aproveita cada minuto em uma interpretação que já deve figurar entre as mais importantes de sua carreira.

OBLIVION (idem, 2013, de Joseph Kosinski): Em Tron: O Legado, o diretor Joseph Kosinski já havia provado ter uma aptidão muito grande para filmes de ficção. E, com Oblivion, ele continua demonstrando esse talento. No entanto, Kosinski precisa urgentemente de roteiros melhores. Nessa nova produção estrelada por Tom Cruise, o diretor não tem muito o que fazer com um roteiro que não consegue casar uma abordagem mais contemplativa e “cabeça” com os momentos de ação. O resultado é um filme estranho, cansativo, quase tedioso, que, ao longo de 130 minutos, raramente empolga. A trilha de M83, o visual e as escolhas de Kosinski estão ali fazendo uma ótima ambientação, mas a história beira o desinteressante e a má execução de vários elementos da história impede que Oblivion seja sequer um esquecível filme-pipoca. Sem falar que os mais atentos vão perceber várias propostas escancaradamente copiadas, especialmente aquelas envolvendo o mundo de Lunar, exemplar filme de ficção dirigido por Duncan Jones. O trabalho de Kosinski é cheio de boas intenções, mas, infelizmente, o resultado é dos mais decepcionantes.

O SOM AO REDOR (idem, 2012, de Kleber Mendonça Filho): Começou sua trajetória no 40º Festival de Cinema de Gramado (onde levou melhor filme pelo júri popular e da crítica, entre outros) e, aos poucos, ganhou o Brasil e também o mundo – chegando a ficar no TOP 10 de melhores filmes do ano do New York Times. E as honrarias para O Som ao Redor são mesmo merecidas, especialmente porque poucas vezes vimos no cinema brasileiro uma radiografia tão bem realizada sobre uma comunidade específica. Dirigido por Kleber Mendonça Filho – que fez carreira como crítico de cinema e hoje está atrás das câmeras – o filme é todo de personagens que dividem uma zona em comum, sem necessariamente destinar tramas isoladas a cada um deles. A simetria de O Som ao Redor é, possivelmente, o ponto alto do filme: aqui, ninguém sobra ou falta e impressiona a segurança com que Kleber conduz esse elemento tão importante, indo e voltando na vida dos personagens sem deixar pontas soltas. Ou seja, tudo que é mostrado tem alguma razão de estar ali. Não é o tipo de filme que desperta grandes sentimentos – aí cabe a você decidir até que ponto isso é bom ou ruim – mas, certamente, deve ser reconhecido por sua notável harmonia entre roteiro e direção.

Ferrugem e Osso

Direção: Jacques Audiard

Roteiro: Jacques Audiard e Thomas Bidegain, baseado em história de Craig Davidson

Elenco: Matthias Schoenaerts, Marion Cotillard, Armand Verdure, Céline Sallette, Corinne Masiero, Bouli Lanners, Jean-Michel Correia, Fred Menut, Mourad Frarema, Katia Chaperon, Yannick Choirat

De Rouille et d’os, França/Bélgica, 2012, Drama, 122 minutos

Sinopse: Ali (Matthias Schoenaerts) está desempregado e vive com o filho, de apenas cinco anos. Ele parte para a casa da irmã em busca de ajuda e logo consegue um emprego como segurança de boate. Um dia, ao apartar uma confusão, ele conhece Stéphanie (Marion Cotillard), uma bela treinadora de orcas. Alain a leva em casa e deixa seu cartão com ela, caso precise de algum serviço. O que eles não esperavam era que, pouco tempo depois, Stéphanie sofreria um grave acidente que mudaria sua vida para sempre. (Adoro Cinema)

A história de Ferrugem e Osso é essencialmente trágica: de um lado, Stéphanie (Marion Cotillard), uma treinadora de orcas que perde as duas pernas em um acidente de trabalho; de outro, Ali (Matthias Schoenaerts), sujeito solitário que veio da Bélgica com o filho pequeno e tenta se encontrar na vida, seja como pai ou como um simples trabalhador para conseguir sustentar o pequeno. Os mundos de Stéphanie e Ali se encontram e os dois passam a encarar a vida com uma outra percepção. Ferrugem e Osso, caso fosse produzido em solo estadunidense, teria grandes chances de ser um filme trabalhado em cima de melodramas. Mas em território francês, onde foi dirigido por Jacques Audiard (vencedor de vários prêmios por O Profeta), o resultado é justamente o oposto, onde a depressão é substituída por uma louvável sutileza, em um longa que utiliza a tragédia como pretexto para falar sobre esperança.

Acompanhamos, na realidade, a reconstrução de duas vidas, especialmente a de Stéphanie, cuja dolorosa situação é mostrada com muita naturalidade, sem maiores coitadismos. E Marion Cotillard também se desnuda de qualquer vaidade para mostrar com o máximo de verossimilhança a vida dessa mulher que antes, como ela mesmo aponta, era capaz de virar a cabeça de qualquer homem e que, hoje, está praticamente sozinha tentando simplesmente… viver. E a entrada de Ali em seu universo traz o que existe de mais belo em Ferrugem e Osso: ao contrário do que os críticos e o próprio filme (em cartazes e trailers) tentam vender, não estamos necessariamente diante de uma história de amor, mas sim de companheirismo. Convivendo com Stéphanie sem qualquer preconceito ou sentimento de pena, o personagem nos lembra que pessoas como ela não precisam apenas de ajuda física, de segurança, amizade e conforto emocional. Precisam de alguém presente. Sempre.

Selecionado para a mostra competitiva da 65ª edição do Festival de Cannes, Ferrugem e Osso é, em linhas gerais, um filme sobre redenção e segundas chances. Só que além de acertar nessa opção dramática, o longa de Jacques Audiard também é muito bem sucedido na estrutura: o resultado consegue ser certeiro ao trabalhar os personagens juntos ou individualmente. Nós torcemos por Ali e Stéphanie e queremos que eles vençam na vida, mesmo que isso não esteja atrelado ao foto do relacionamento dar certo. Ferrugem e Osso ainda leva a devida calma para desenvolvê-los, mostrando pequenos momentos do cotidiano de forma bastante naturalista – e, por isso mesmo, especial. Cada momento ou pequena felicidade mostrada pelo roteiro de Jacques Audiard e Thomas Bigedain diz um pouco mais sobre cada um deles.

Marion Cotillard (muito subestimada depois de Piaf – Um Hino ao Amor) e Matthias Schoenaerts realizam um trabalho admirável e em plena sintonia com a proposta de Ferrugem e Osso. Cotillard, em um belo momento, tem uma interpretação de minúcias. A francesa, que só tem uma cena mais “apelativa” do ponto de vista dramático, cria uma personagem toda trabalhada em detalhes: sua Stéphanie não precisa chorar ou sorrir a todo momento. E Cotillard, sempre muito expressiva com apenas um olhar, impressiona com a velha lógica de que menos é sempre mais. Schoenaerts não fica atrás e está muito humano ao lado de Cotillard. Seu papel não está em uma situação tão atípica quanto ao de Cotillard, mas mesmo assim conquista o espectador, especialmente em função de seu perfil sensível, mesmo que perdido.

Perto do desfecho, o longa parece seguir um caminho diferente, praticamente esquecendo Cotillard para dar mais destaque a Schoenaerts. Por um lado, é uma boa escolha, já que a angustiante cena no rio congelado é simplesmente exemplar em sua execução, mas, por outro, priva Ferrugem e Osso de ter um final mais contundente – e isso se reflete nos últimos minutos, que, ilustrados por uma narração em off, parecem apenas costurar formalmente a preterição da atriz. As falhas só ficam mais evidentes nesse ato final, mas, mesmo assim, Ferrugem e Osso nunca deixa de demonstrar plena sutileza no roteiro, nas atuações e na direção – o que certamente vai surpreender quem, por tantas razões e pelo lindíssimo trailer britânico, esperava algo mais lacrimoso. Tudo isso, aliado a uma excelente fotografia, torna a experiência no mínimo inspiradora. Afinal, até Firework, canção da cantora pop Katy Perry, consegue ter um valor simbólico aqui. O tom europeu fez toda a diferença para o que é contado em Ferrugem e Osso.

FILME: 8.5

Melhores de 2012 – Filme

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Não é a unanimidade do ano. Muito menos o filme mais acessível de 2013. Só que Precisamos Falar Sobre o Kevin foi o filme que mais me impactou no ano que passou. Nem mesmo o fator que muitos consideram o grande problema (Kevin como um personagem unidimensional) sabotou a minha experiência com o longa de Lynne Ramsay. Adaptando a obra homônima de Lionel Shriver com várias (justificáveis) liberdades, Precisamos Falar Sobre o Kevin acerta ao utilizar um tom muito subjetivo para narrar a vida interrompida da protagonista Eva Katchadourian, cujo sofrimento é muito bem transmitido não só pelo texto e pela direção (atenção para as várias rimas visuais apresentadas por Ramsay) mas, principalmente, pelo extraordinário desempenho de Tilda Swinton. Denso, Precisamos Falar Sobre o Kevin deixa muitos pontos abertos para discussão e interpretação, o que só torna a experiência ainda mais interessante. Como drama – o gênero favorito desse escriba que vos fala – o filme de Lynne Ramsay consegue colocar o espectador a par de todas as angústias de sua protagonista. Sem concessões. E, por isso mesmo, único.

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2. Guerreiro

Uma das grandes surpresas de 2012, Guerreiro não recebeu a devida atenção. Além do ótimo elenco masculino, o filme de Gavin O’Connor é exemplar na hora de transformar histórias essencialmente simples em uma verdadeira viagem sensorial. Das eletrizantes lutas de MMA aos confrontos familiares devidamente pontuados nas emoções, o filme envolve todos os públicos e nunca se restringe a um perfil específico.

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3. A Separação

Qualquer preconceito com o cinema iraniano é imediatamente desfeito após A Separação. Asghar Farhadi apresenta uma verdadeira aula de roteiro em um filme muito bem atuado. De pequenos dramas universais a dilemas angustiantes (quem não ficou tenso durante todos os confrontos dos personagens?), o filme surpreende pela firmeza com que conduz todos os seus elementos, do texto ao elenco. Merecidamente, venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro.

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4. 007 – Operação Skyfall

Dos filmes da série James Bond que vimos recentemente, 007 – Operação Skyfall é, certamente, o mais completo. Além da elegante direção de Sam Mendes, o filme estrelado por Daniel Craig é contemporâneo, tem um notável elenco de suporte e ainda consegue homenagear elementos que fizeram o personagem se tornar um verdadeiro ícone do cinema. Resta saber se o alto nível será mantido daqui para frente agora que foi anunciada a saída de Sam Mendes da franquia.

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5. Argo

É o auge da carreira de Ben Affleck, que já vinha mostrando uma boa evolução, e não dá para negar seus méritos. Realizado com uma simplicidade que nunca descamba para o superficial, Argo sabe muito bem balancear os complicados detalhes de uma trama política com uma linguagem super acessível. Tem um ou outro excesso (no desfecho, principalmente), mas não é nada que tire a grande eficiência alcançada por Affleck. Fique de olho no elenco, repleto de nomes consagrados da TV.

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6. O Impossível

Foi uma das melhores surpresas do ano por reverter qualquer expectativa em torno de excessos e melodramas. O Impossível poderia ser insuportável de tão forçado, mas o resultado segue um caminho completamente oposto: no filme de Juan Antonio Bayona, toda e qualquer decisão tomada para emocionar o espectador funciona. Humano e muito bem realizado (destaque para trilha e direção de arte), ainda entrega um belo trabalho de elenco.

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7. Holy Motors

Inventivo em todo o seu DNA, Holy Motors foi a experiência cinematográfica mais difícil de 2013. Nem todos conseguem embarcar no alucinante mundo criado por Leos Carax – o que é totalmente compreensível. Porém, os que entram são brindados com uma diversidade infinita de interpretações. Analisado de forma mais prática, Holy Motors tem um desempenho fantástico de Denis Lavant, um eficiente trabalho de maquiagem e uma direção pra lá de autoral.

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8. Weekend

Retrato intimista e muito delicado da breve relação de dois jovens que se conhecem em uma festa, Weekend nunca se restringe ao mundo homossexual. O filme de Andrew Haigh quer, antes de mais nada, falar sobre as dúvidas e expectativas de qualquer ser humano envolvido em um relacionamento – o que só valoriza ainda mais os vários méritos dessa pequena produção britânica que merece ser descoberta por sua sinceridade e simplicidade.

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9. Moonrise Kingdom

Auge de Wes Anderson como realizador, Moonrise Kingdom consegue trazer todos os maneirismos do diretor sem que o filme se torne insuportável ou bastante questionável como em investidas anteriores dele (destaque para o incompreensível A Vida Marinha). Aqui, toda a técnica, o elenco em plena sintonia e a direção muito inventiva de Anderson caminham juntos em um resultado bem divertido e também nostálgico. Recomendável para todos os públicos.

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10. Heleno

Jogadores de futebol raramente têm bom resultado no cinema brasileiro (Garrincha e Pelé amargaram filmes terríveis), mas esse Heleno é um verdadeiro achado. Contando os altos e baixos da vida pessoal e profissional de Heleno de Freitas, jogador do Botafogo, o filme é esteticamente irrepreensível (atenção para a belíssima fotografia) e traz mais um grande desempenho de Rodrigo Santoro (que colocou dinheiro do próprio bolso na produção).

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ESCOLHA DO PÚBLICO:

1. Precisamos Falar Sobre o Kevin (27.27%, 12 votos)

2. A Separação (20.45%, 9 votos)

3. 007 – Operação Skyfall (11.36%, 5 votos)

4. Guerreiro (9.09%, 4 votos)

5. Argo (9.09%, 4 votos)

6. O Impossível (6.82%, 3 votos)

7. Holy Motors (6.82%, 3 votos)

8. Weekend (6.82%, 3 votos)

9. Moonrise Kingdom (2.27%, 1 voto)

10. Heleno (0%, 0 votos)

Três atores, três filmes… com Tatiana Nassr

tatianatresDando continuidade ao que começamos semana passada nessa seção, temos mais uma convidada escolhendo três atores e respectivos três momentos da carreira deles. Quem faz a lista, dessa vez, também é uma conhecida minha do ambiente acadêmico: Tatiana Nassr, colega de jornalismo que fui conhecer só no último semestre de faculdade, mas com quem tive o prazer de dividir o palco de formatura. Sem falar que, além da profissão em comum, a Tatiana também é cinéfila de carteirinha. E fã de séries! Encontro mais do que inevitável. Ao contrário do Luan Pires, que escolheu três atuações masculinas, a Tatiana selecionou três intérpretes femininas. E a lista não poderia estar mais eclética, tanto nos estilos das performances escolhidas quanto nos próprios filmes. De veteranas a jovens talentos, confira as escolhas e os comentários da Tatiana:

Kate Hudson (Quase Famosos)

Uma atuação diferente daquelas apresentadas em comédias românticas que tomaram conta de boa parte do currículo da atriz. Como uma grande fã de rock e daqueles que fazem parte deste mundo, Penny Lane acompanha astros da música em suas turnês (é o que muitos definem como groupie, mas a própria personagem prefere se classificar como uma “ajudante” movida pela paixão musical). É legal ver que, mesmo no meio de toda a loucura dos bastidores da rotina de uma banda de rock, Penny Lane procura por um pouco de realidade. E ela encontra. Vocês vão ver uma Kate Hudson que encanta, em uma personagem que só poderia ter sido dela e para ela!

Diane Keaton (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa)

Duvido que alguém discorde de mim nessa. Até a Academia apoia minha decisão! Filme e atriz são igualmente incríveis! Sou suspeita para tudo que envolve Woody Allen, mas é fundamental citar o nome dele como forma de destacar o trabalho da atriz. Digo isso porque o roteiro foca muito nas personagens e, para sustentar essa responsabilidade de forma primorosa, só mesmo uma Diane Keaton da vida. No título original (Annie Hall), a personagem dá nome ao longa-metragem. Já podemos notar como ela é especial… Diane nos entrega uma atuação natural, talvez porque, de fato, tem muito da realidade no filme. E podem notar que o “nervosismo da noiva” não parece nada demais se comparado à paranoia do noivo.

Chloë Moretz (A Invenção de Hugo Cabret)

Ela não é a protagonista, mas está sempre ao lado de Hugo em suas aventuras. Mais do que isso, ela é (ou tem) a chave para o grande desfecho do filme. Ainda mais: a personagem é Isabelle Méliès. Para quem não reconheceu o sobrenome, Chloë interpreta a afilhada de um dos precursores do cinema, o francês George Méliès. Em meio a uma declaração de amor à sétima arte, ganhamos uma interpretação doce, madura e inspiradora como uma pequena amostra do talento e de tudo que a atriz tem a oferecer.

Anna Karenina

Anna isn’t a criminal, but she broke the rules.

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Direção: Joe Wright

Roteiro: Tom Stoppard, baseado no romance homônimo de Leo Tolstoy

Elenco: Keira Knightley, Aaron Taylor-Johnson, Jude Law, Kelly Macdonald, Matthew Macfayden, Michelle Dockery, Marinne Batier, Olivia Williams, Emily Watson, Ruth Wilson, David Wilmot, Henry Lloyd-Hughes, Pip Torrens

Inglaterra, 2012, Drama, 129 minutos

Sinopse: Século XIX. Anna Karenina (Keira Knightley) é casada com Alexei Karenin (Jude Law), um rico funcionário do governo. Ao viajar para consolar a cunhada, que vive uma crise no casamento devido à infidelidade do marido, ela conhece o conde Vronsky (Aaron Johnson), que passa a cortejá-la. Apesar da atração que sente, Anna o repele e decide voltar para sua cidade. Entretanto, Vronsky a encontra na estação do trem, onde confessa seu amor. Anna resolve se separar de Karenin, só que o marido se recusa a lhe conceder o divórcio e ainda a impede de ver o filho deles. (Adoro Cinema)

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Com apenas cinco longa-metragens no currículo, o britânico Joe Wright já consolidou um estilo muito claro. Por mais que, de vez em quando, insista em comandar histórias contemporâneas, o seu forte mesmo é o universo das produções de época. Filmes como O SolistaHanna murcham frente a  toda elegância e sentimento que podemos ver em Orgulho e Preconceito e, principalmente, Desejo e Reparação. Seu mais recente trabalho, Anna Karenina, não está à altura do que já realizou de mais precioso, mas consegue, pelo menos, reafirmar todo o estilo e firmeza de Wright para filmes de época. Na terceira parceria com Keira Knightley como musa, o diretor nunca esteve tão seguro de seus talentos como realizador de obras do gênero, apresentando uma estética cada vez mais minuciosa e uma linguagem técnica que chega ao nível do incomparável. A obra, porém, em termos de dramaturgia, não engrena – o que, infelizmente, tira as chances de Anna Karenina se tornar uma experiência transcendente.

Todo o apuro visual visto nessa mais recente adaptação do clássico romance homônimo de Leo Tolstoy também é resultado de grandes parcerias que Joe Wirght veio firmando nos últimos anos. Aqui, repete-se o trabalho de trilha com o italiano Dario Marianelli, a elaboração de figurinos com Jaqueline Durran (vencedora do Oscar 2013 pelo que realizou aqui) e a concepção de fotografia com Seamus McGarvey. É o auge do requinte em toda a filmografia do britânico, principalmente porque, em Anna Karenina, tais elementos estão a serviço de uma proposta muito mais ousada: das liberdades narrativas proporcionadas por encenações em ambientes teatrais a todas as escolhas pensadas exclusivamente para trazer um ar mais do que clássico para o filme, a técnica se consolida junto a um impressionante trabalho de cenografia. Mais ainda: tudo o que existe de teatral em Anna Karenina funciona também cinematograficamente porque só tem a acrescentar ao clima proposto e ao que está sendo contado (vale destacar a belíssima cena do baile, o ponto alto do filme). É uma opção de estilo perigosa, mas que Wright soube conduzir com grande precisão.

Conforme Anna Karenina se desenvolve, é possível pensar que toda essa meticulosa e inigualável técnica está caminhando lado a lado com uma história igualmente interessante. Não existe nada de muito novo na história da mulher que, contra todos as “regras” da época que vive, resolve trair o marido com um garoto mais jovem. Mas o objetivo do roteiro de Tom Stoppard não é surpreender e sim recontar a história  de um jeito tradicional. E se, durante um bom tempo, o texto conversa diretamente com a linguagem estética de Joe Wright, envolvendo o espectador na atração proibida de Anna (Keira Knightley) por Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), logo tudo vira um chororô enjoado quando se encaminha para a segunda parte já conhecida da história: aquela em que a protagonista resolve se entregar à paixão. Aí, a indefectível técnica fica apenas com a missão de dar um toque especial a uma história que, mal conduzida, vira praticamente uma novela repetitiva, suscetível a poucas análises e compaixões do espectador. O roteiro de Stoppard divide Anna Karenina: de um lado, um filme promissor em todos os sentidos; de outro, uma experiência frustrante por não manter um diálogo harmônico entre todos os aspectos

O deslumbre – que nunca sufoca o filme – merecia uma conclusão melhor e, principalmente, um elenco mais apropriado. Não podemos dizer que os atores de Anna Karenina estão em um mau momento, mas eles simplesmente não dão a devida força para seus personagens – o que se torna ainda mais evidente na segunda parte da história, onde o enredo exige muito mais deles. Keira Knightley sustenta vestidos de época como ninguém, mas repete papel, dificilmente convence por completo e não dá a dimensão ideal para uma personagem que poderia se tornar clássica nas mãos de uma atriz mais competente. Jude Law, que só murchou nos últimos anos, surge novamente inexpressivo como o marido traído da protagonista, nunca o construindo como uma figura forte ou frágil, amedrontadora ou alentadora. Completando o triângulo amoroso, vem o jovem Aaron Taylor-Johnson, o menor dos problemas, mas também igualmente indiferente. Entre os coadjuvantes que surgem apenas para dar o ar da graça, encontramos: Emily Watson, precisando de um papel digno há horas, e Michelle Dockery, a iluminada lady Mary Crawley do seriado Downton Abbey. Ou seja, Anna Karenina não é um filme de elenco.

Retomando a conversa sobre Joe Wright, acredito que seja importante analisar Anna Karenina de uma maneira bastante específica: existe o diretor e o resto. Se em Desejo e Reparação praticamente tudo se ligava em uma história que tinha visual arrebatador e um coração grandioso, aqui o resultado é muito mais racional. A refilmagem flerta com a frieza – e só não assume tal característica de vez porque todo o estilo cria uma atmosfera de encantamento que é difícil ficar indiferente. O que acontece é que toda essa visceralidade magnificamente apresentada em elementos como trilha (outro trabalho grandioso de Marianelli!), fotografia, figurino e direção de arte nunca se repercute no texto de Tom Stoppard. A direção orquestra tudo com precisão, mas a “música” do roteiro não é lá tão interessante. Portanto, o que fica mesmo desse elegante Anna Karenina é a prova de que Joe Wright é um cara que sabe o que faz e que sempre merece toda a atenção do mundo para o seu desempenho atrás das câmeras. Vendo dessa forma, talvez Anna Karenina baste.

FILME: 7.0

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