Cinema e Argumento

Um intervalo…

…mais uma vez, para colocar a vida em dia e voltar ao ritmo de sempre do blog. Porque prefiro ficar ausente por alguns dias e voltar com tudo do que postar só quando dá tempo, sem poder revisar os textos ou planejar o que publico por aqui. Logo logo voltaremos! =)

Na TV… a despedida de Breaking Bad

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Sem qualquer exagero, Breaking Bad terminou, no domingo do dia 29 de setembro, com um nível de qualidade que o coloca como o melhor seriado contemporâneo desde que Six Feet Under teve seu épico desfecho exibido em 2005. Desde lá, raramente vimos um programa que soubesse administrar com tanta maestria as evoluções dramáticas de personagens e a hora certa de encerrar seus ciclos. Sim, mesmo com o sucesso (relativamente recente, diga-se de passagem, mais ou menos a partir do quarto ano), Breaking Bad encerra sua jornada na hora certa, não sucumbindo à tão corriqueira tentação de dar continuidade a uma história que já chegou ao seu limite apenas em função da audiência – como foi o caso de Dexter, série que se arruinou ano após ano.

A trama envolvendo Walter White (Bryan Cranston), um professor de química que entra no mundo das drogas após descobrir que tem câncer de pulmão, não teve suas reviravoltas planejadas com grande antecedência. Isso é o que dizem os roteiristas. E, se eles realmente estiverem falando a verdade, podem se orgulhar ainda mais, uma vez que a precisão com que Breaking Bad cria, retoma e encerra arcos dramáticos é absurdamente cirúrgica. Isso fica mais evidente especialmente neste quinto ano, quando começou explorando o crescente descontrole do ego de Walter White para, lá na metade, trazer eventos tão esperados há anos que culminaram nos acontecimentos não menos que eletrizantes dos últimos episódios (que chegam a ter momentos realmente perturbadores). Nada sobra na temporada, que fecha de forma exemplar a trajetória como um todo do programa criado por Vince Gilligan.

Se a ganância e a auto-destruição do protagonista podem ser considerados o norte da temporada, não dá para deixar de elogiar o fato de Breaking Bad ter aprimorado essa grande construção dramática de Walt ao mesmo tempo em que lidava com inúmeras tramas e personagens paralelos. Todos tiveram os seus momentos aqui, de coadjuvantes a atores convidados. A morte de uns, a total mudança de personalidade de outros e a infelicidade quase que geral nunca soaram bruscas ou descontroladas. Tudo foi muito crível na quinta temporada, onde a equipe formada por grandes roteiristas soube orquestrar os devidos detalhes para mostrar ao espectador como o protagonista desconstruiu não apenas a sua própria vida, mas também a de todos a sua volta. E o resultado não faz concessões, sendo frequentemente surpreendente em momentos de pura tensão e intensa dramaturgia.

Com uma concepção visual fascinante (destaque para as direções impecáveis de Michelle MacLaren em To’jahiilee e Rian Johnson em Fifty-OneOzymandias – este segundo o ponto alto de toda a série), o quinto ano também teve grande amadurecimento no que diz respeito ao trabalho de elenco. Elogiar Bryan Cranston é chover no molhado (difícil lembrar de outro ator que impressione tanto atualmente quanto ele), mas é injusto falar da série sem mencionar o próprio Aaron Paul (que nunca deve ter sofrido tanto com o seu Jesse Pinkman) e a subestimada Anna Gunn, que passou a receber atenção tardiamente por seu minucioso e difícil trabalho como Skyler White. Nos últimos episódios, os atores são uma força ainda maior em Breaking Bad. Impossível não se comover, torcer (para o bem ou para o mal) e se importar com cada um deles.

É quase sempre triste dar adeus a um seriado, mas, no caso de Breaking Bad, não há o que se lamentar, pois a história já não tinha mais para onde andar e terminou especialmente bem em função dessa consciência, finalizando suas storylines na hora certa e mostrando que são esses os programas que ficam: os que entendem que a lógica e a coesão de uma trama são mais importantes do que os números da audiência. Breaking Bad fez história: criou personagens fascinantes, desenvolveu admiravelmente bem propostas difíceis, desafiou o espectador (que programa resiste a um protagonista que se torna cada vez mais detestável?) e alinhou tudo isso com uma inteligente linguagem visual. Breaking Bad já faz falta.

A alquimia musical de Marcelo Zarvos

Compositor de trilhas de filmes como "Flores Raras", "O Bom Pastor" e "Lembranças", além dos seriados "The Big C" e "Ray Donovan", Marcelo Zarvos fala ao Cinema e Argumento sobre sua carreira e sobre o trabalho com trilhas para cinema e TV

Compositor de filmes como Flores Raras, O Bom Pastor e Lembranças, além dos seriados The Big C e Ray Donovan, Marcelo Zarvos fala ao Cinema e Argumento sobre sua carreira e o trabalho com trilhas para cinema e TV. Foto: arquivo pessoal

“A alquimia da música e da imagem é algo muito misterioso. Mesmo depois de ter feito quase 50 trilhas, ainda fico frequentemente surpreso e maravilhado com o poder do cinema”, diz o compositor brasileiro Marcelo Zarvos. Ele, que está em cartaz nos cinemas brasileiros com Flores Raras (filme que tem trilha sonora com a sua assinatura), já tem trajetória de 15 anos nos Estados Unidos, mas tudo começou aqui no Brasil mesmo, quando ainda tinha dez anos de idade. Vindo de uma família sem qualquer raiz musical, o compositor revela que sua relação com a música começou de forma muito intuitiva, em uma busca de puro empenho: “Tive que buscar tudo sozinho, mas sempre com muita confiança no caminho que eu queria percorrer. Aos 14 anos, não só sabia que queria fazer música como também que meu desejo era especificamente trabalhar com trilhas para o cinema”.

A adolescência de Marcelo Zarvos foi, portanto, marcada pela prática da música, mesmo que ainda não em termos cinematográficos. Depois de ter passado o início de sua juventude rock na banda Tokyo, ao lado do até então desconhecido Supla, ele deixou o Brasil em 1998, levando na bagagem a certeza de que o estilo de música que tocara durante três anos com aquele grupo musical não era para ele. O último ano em São Paulo foi marcado por uma atenção especial ao universo acadêmico, com aulas de Koelreutter a Antonio Beazan, já se preparando para finalmente se mudar para Boston, onde estudaria composição de cinema no Berklee College of Music. “Quando cheguei lá, percebi que estava muito cedo para me especializar. Assim, passei dez anos tocando e compondo muitos tipos de música, passando por clássico, jazz e MPB. Foi a minha verdadeira base musical na qual me apoio até hoje”, conta.

Mas não demorou muito para que Zarvos começasse a colocar sua verdadeira paixão em prática. Agora, em 2013, o compositor já contabiliza trilhas para os mais variados filmes, como Lembranças, Você Não Conhece Jack e Um Novo Despertar. Dos trabalhos que já realizou, os que mais marcaram o compositor foram Provocação (“Minha primeira trilha orquestral! Não era um filme de grande orçamento, mas, do meu ponto de vista, era enorme. A partir desse projeto, muitas portas se abriram para mim”) e O Bom Pastor (“Foi incrível. Era realmente um filme muito grande, épico. Eu sempre fui fã do Robert DeNiro e a oportunidade de trabalhar com ele foi muito especial”). Tendo como referência nomes como Ennio Morricone, Bernard Hermann, Philip Glass e Hans Zimmer, o compositor diz que o interesse pelo filme em si é sempre o fator principal na hora de assinar um projeto: “Tento trabalhar em filmes que eu também gostaria de assistir. Procuro desafios tanto no estilo do filme como na trilha em si, analisando o que eu posso fazer e o que ainda não fiz. E, obviamente, o roteiro e diretor sempre pesam muito, além do que eles esperam da música e se vão ser bons colaboradores”.

Estendendo seu trabalho musical também ao mundo televisivo, ele já assinou a trilha de seriados premiados e de repercussão. É o caso do recente The Big C, da Showtime, que rendeu um Globo de Ouro e um Emmy de melhor atriz à protagonista Laura Linney. Para esse formato, ele aponta que o processo de criação é bastante similar, mas que os prazos fazem toda a diferença na hora de se pensar a música. “Em um filme, costumamos ter cerca de seis semanas pra completar uma trilha, mas, na TV, temos, no máximo, uma semana por episódio. Outra grande diferença é a possibilidade de criar um mundo musical muito mais amplo, pois temporadas de seriados como The Big C ou Ray Donovan se estendem por doze horas ou mais”.

Sobre as trilhas realizadas atualmente no Brasil, Zarvos diz não ser tão familiarizado com o material. A distância, porém, não o impede de ter suas raízes profissionais por aqui. Uma prova disso é a recente trilha do brasileiro para Flores Raras, de Bruno Barreto, um dos trabalhos mais sensíveis e minimalistas tanto do diretor quanto de Zarvos. Ambos já haviam trabalhado juntos no longa Última Parada 174, e a repetição da parceria foi, para o compositor, um verdadeiro prazer. “Ele me chamou para fazer o filme quando mal tinha um roteiro. E o Bruno tem idéias musicais muito boas, mas também uma grande qualidade que poucos diretores têm: a de escutar o compositor. Embora, obviamente, a decisão final seja sempre dele, o diálogo entre nós sempre é muito legal”.

Com mais dois longas-metragens que levam sua trilha estreando nos Estados Unidos pelos próximos meses, o compositor se mostra entusiasmado com o envolvimento em tais projetos, refletindo a sua vontade de fazer trilhas para filmes que possuem sua admiração. O primeiro é Enough Said, “uma comédia maravilhosa” dirigida por Nicole Holofcener, o outro é The Face of Love, “um drama psicológico muito bacana” estrelado por Annete Benning e Ed Harris. Daqui para frente, ainda sonha em trabalhar com Terrence Malick, Martin Scorsese, Fernando Meirelles e Gaspar Noé, mas, quando questionado sobre qual conselho o Marcelo Zarvos de hoje daria para aquele que começou a trabalhar com música anos atrás, ele indica que a dica seria a mesma para qualquer fase de sua vida: “Acho que seria ter muita paciência e foco, duas coisas difíceis de conquistar em qualquer idade”. Que ele continue com essas duas virtudes por muito tempo!

* Fica registrado por aqui também o nosso agradecimento mais do que especial ao Marcelo, que gentilmente topou dar essa entrevista para o Cinema e Argumento!

Pelos Olhos de Maisie

You know who your mother is, right?

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Direção: Scott McGehee e David Siegel

Roteiro: Nancy Doyne e Carroll Cartwright, baseado no romance “What Maisie Knew”, de Henry James

Elenco: Julianne Moore, Alexander Skarsgård, Steve Coogan, Joanna Vanderham, Onata Aprile, Sadie Rae, Jesse Stone Spadaccini, Diana García, Amelia Campbell, Maddie Corman, Paddy Croft, Trevor Long

What Maisie Knew, EUA, 2012, Drama, 99 minutos

Sinopse: Em meio ao conturbado divórcio dos pais, Maisie (Onata Aprile), uma garotinha de sete anos, tenta entender o que se passa. De um lado a mãe, Susanna (Julianne Moore), uma estrela do rock. Do outro o pai, Beale (Steve Coogan), um influente galerista. Unindo os dois, a menina, que logo descobre um novo significado para a palavra “família”. (Adoro Cinema)

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Já está na hora de Maisie (Onata Aprile) dormir, mas, antes ela quer ouvir uma canção para pegar no sono. Sua mãe, Susanna (Julianne Moore), pergunta o que a pequena quer ouvir, e a menina logo responde que uma das canções da própria Susanna, que é uma estrela do rock. A mãe diz que suas músicas não são feitas para momentos como esse, mas Maisie insiste e Susanna, sem parecer muito contrariada, logo pega um violão e começa a cantar um de seus sucessos. Mais tarde, vamos descobrir que essa cena é uma bela metáfora para as relações familiares estabelecidas ao longo de Pelos Olhos de Maisie. Para Susanna e o marido, suas vidas e egos são mais importantes que a própria filha. Ela e Beale, na verdade, não nasceram para ter filhos. São pessoas que só sabem olhar para o próprio umbigo, nunca conseguindo colocar a pequena Maisie frente a suas próprias necessidades. “Você não merece a filha que tem”, diz uma personagem à Susanna, em determinado ponto do filme, reforçando bem essa importante temática de Pelos Olhos de Maisie: a da incapacidade de certos indivíduos de saber criar um filho e a de que, sim, adultos esquecem fácil, mas as crianças não. São marcas para a vida inteira.

Só que o filme da dupla Scott McGehee e David Siegel (do bom Até o Fim, que traz um dos melhores desempenhos de Tilda Swinton) se diferencia por não apresentar uma narrativa convencional focada no dia-a-dia dos dois pais ou em suas discussões e batalhas judiciais pela guarda da filha. A história tem foco, como o próprio título brasileiro indica, nas percepções da pequena Maisie sobre tudo o que está acontecendo em sua volta. E a jogada dos diretores e do roteiro escrito por Nancy Doyne e Carroll Cartwright, baseado no romance What Maisie Knew, de Henry James, é ótima. Uma discussão corriqueira entre os pais logo se torna mais impactante quando a câmera acompanha Maise chegando em casa da escola com, aos fundos, os pais se ofendendo aos berros. A câmera permanece com ela por mais alguns segundos, a menina se afasta daquilo tudo sem compreender muito do que está sendo dito e o som se abafa, fazendo com que ela volte para o seu mundo. É uma jogada muito interessante, pois traz um novo ângulo para essa história que poderia ser perfeitamente clichê caso contada apenas do ponto de vista dos pais.

Também existe ao favor de Pelos Olhos de Maisie o fato da menina Onata Aprile ter uma desenvoltura absurda. Adorável em cada segundo de projeção, ela ganha o coração do espectador que, no final das contas, não torce nem pelo pai nem pela mãe, mas sim pela felicidade da garota, independente de com quem ela fique. Além do divórcio dos pais, Maisie ainda precisa lidar com uma constante reposição de figuras na sua vida: a sua babá passa a ser a madrasta e a mãe logo se envolve com um sujeito muito mais novo.  E a adaptação lida bem com essa troca de elenco na vida da garota, mesmo que de vez em quando banalize demais a ferramenta de colocar tudo pelos olhos da pequena (várias sequências são repetitivas, mostrando a garotinha na escola apenas brincando ou procurando algo para fazer). Pelos Olhos de Maisie também perde um pouco de sua força nos momentos finais, quando coloca a personagem de Julianne Moore de escanteio (ela faz uma grande falta) e resolve bagunçar um pouco demais a vida de Maisie com troca-trocas e desenvolvimentos excessivos das figuras adultas. Mas o que fica é que todos se saem bem (vale mencionar, claro, a sempre ótima Moore) nesse filme cuja mensagem atemporal é sublinhada com uma sensibilidade que disfarça suas pequenas falhas.

FILME: 8.0

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O Tempo e o Vento

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Direção: Jayme Monjardim

Roteiro: Letícia Wierzchowski, Marcelo Ruas e Tabajara Ruas, baseado no livro “O Continente”, da trilogia “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo

Elenco: Thiago Lacerda, Cléo Pires, Fernanda Montenegro, Marjorie Estiano, Paulo Goulart, José de Abreu, César Troncoso, Leonardo Medeiros, Luiz Carlos Vasconcelos, Marat Descartes, Janaína Kremer, Leonardo Machado

Brasil, 2013, Drama, 127 minutos

Sinopse: Rio Grande do Sul, final do século XIX. As família Amaral e Terra-Cambará são inimigas históricas na cidade de Santa Fé. Quando o sobrado dos Terra-Cambará é cercado pelos Amaral, todos os integrantes da família são obrigados a defender o local com as armas que têm à disposição. Esta vigília dura vários dias, o que faz com que logo a comida escasseie. Entre eles está Bibiana (Fernanda Montenegro), matriarca da família que recebe a visita de seu falecido esposo, o capitão Rodrigo (Thiago Lacerda). Juntos eles relembram a história não apenas de seu amor, mas de como nasceu a própria família Terra-Cambará. (Adoro Cinema)

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O povo gaúcho deve ser o mais bairrista do Brasil. Excetuando certos exageros nessa paixão por vezes descabida, não dá para negar que a literatura do Estado é realmente digna de orgulho. O que dizer, então, da obra de Erico Verissimo – e, mais especificamente, da trilogia O Tempo e o Vento? Lançada pela primeira vez em 1949, a primeira parte, intitulada O Continente, foi a merecidamente que ganhou o Brasil, até mesmo com uma minissérie produzida pela Globo na década de 1980 (muito digna, por sinal). É neste tomo que estão os personagens mais marcantes da obra de Verissimo e, sem dúvida, os melhores acontecimentos de toda a série literária escrita pelo autor gaúcho. Apesar do título ser O Tempo e o Vento, todas as produções relevantes sobre a obra se focam em O Continente, e não nas outras partes (O RetratoO Arquipélago).

Foi assim com a minissérie dirigida por Paulo José e é agora com o filme de Jayme Monjardim, que chega aos cinemas de todo Brasil após estreia antecipada no circuito comercial do Rio Grande do Sul. Só que se, por ser televisiva, a minissérie dirigida por Paulo José teve o tempo necessário para desenvolver os dois séculos de história retratados na obra original, o longa de Monjardim sofre por não conseguir dar a devida intensidade aos fatos em meras duas horas de duração. Ainda que não seja a tragédia e o oportunismo que poderia se esperar, O Tempo e o Vento é corrido e abarrotado de personagens e situações – o que quase castra a emoção da história singular criada por Erico Verissimo. Afastado do cinema desde que dirigiu Olga (filme que não é o desastre que tantos apontam), Jayme Monjardim agora volta a se envolver com a adaptação de uma obra forte e emblemática. Palmas pela coragem, mas também críticas pelas intenções comerciais: mesmo ganhando as telas de cinema, O Tempo e o Vento já está programado para ser exibido na TV em formato de minissérie. Ou seja, são no mínimo duvidosas as intenções “artísticas” do diretor com esse trabalho.

De qualquer forma, é uma produção em alta escala (13 milhões bem empregados), destinada ao grande público e que deve fazer sucesso de bilheteria. Dá gosto de ver a história de Erico com todo esse requinte técnico, especialmente com o mestre Affonso Beato como diretor de fotografia e a Orquestra Sinfônica de Budapeste interpretando a trilha sonora. Mas, em termos narrativos e dramáticos, esta nova adaptação nada acrescenta para quem conferiu a minissérie dos anos 1980 ou é familiarizado com a obra homônima. Isso porque falta unidade ao longa, em uma narrativa que não se sente a cronologia: pouco aprendemos historicamente, não conseguimos nos envolver com todos os núcleos e os dois séculos retratados passam sem qualquer costura mais firme. Por sinal, percebam como O Tempo e o Vento deve ser o filme com o maior número de fade outs da história. Perde-se a conta de quantas vezes a tela escurece para marcar a transição entre épocas e situações.

Estruturado basicamente com dois grandes protagonistas (Ana Terra e Capitão Rodrigo), o filme de Jayme Monjardim tem um elenco que merece atenção à parte. Nele, podem ser encontrados muitos atores globais e outros já conhecidos do grande público. Mas o filme é praticamente todo de um trio que dá todo o subsídio – direta ou indiretamente – para que a história se sustente. Quem primeiro surge em cena com essa missão é a inigualável Fernanda Montenegro, que tem a missão de ser a narradora da história. E se, com outra atriz, o papel óbvio poderia aborrecer o longa, com Montenegro acontece justamente o oposto: sua maestria com as palavras e seu talento arrebatador com a voz transformam em quase poesia até mesmo as frases mais capengas e didáticas. Ela é o coração do filme e ninguém poderia fazer melhor.

Logo, é a vez de conhecermos a Ana Terra de Cléo Pires, em um papel que foi de sua mãe, Glória, na minissérie da Globo. E a sucessora bem que se esforça, mas o seu capítulo é o mais bagunçado de O Tempo e o Vento. Não dá para sentir nada do que acontece com sua personagem e muito menos se envolver com as transformações emocionais e as dinâmicas estabelecidas por ela com outros personagens. Por fim, aparece o Capitão Rodrigo de Thiago Lacerda. E é exatamente com ele que a história começa realmente a valer a pena. Não só porque a trama dá uma guinada em carisma e ritmo mas porque Lacerda está um arraso, dominando como ninguém o sotaque, a postura e a simpatia de um personagem que ganha, nas suas mãos, a melhor representação já vista de Capitão Rodrigo em uma adaptação.

Com momentos divertidos aqui e outros emocionantes ali, O Tempo e o Vento fica em um meio-termo para os que já tiveram algum tipo de contato com o material de Verissimo ou com outras adaptações. Enquanto o trailer do filme acusava que o resultado seria digno de ser guardado como sonífero para noites de insônia, não demora muito para que essa sensação desapareça até mesmo com um certo suspiro de alívio. Não, O Tempo e o Vento não foi vulgarizado ou “globalizado”. O grande empecilho da direção de Monjardim e do roteiro adaptado por Letícia Wierzchowski, Marcelo Ruas e Tabajara Ruas é justamente a proporção entre a obra original e o filme proposto. A saga das famílias Terra e Cambará são épicas demais para caber em um longa de 120 minutos, e tal afirmação fica ainda mais evidente nos minutos finais, quando os acontecimentos da parte intitulada “O Sobrado” no livro ganha foco com acontecimentos ainda mais corridos e displicentes.

Tecnicamente, o espírito da saga familiar gaúcha foi respeitosamente absorvido (as paisagens não poderiam ser mais encantadoras e os figurinos e cenários não parecem novelescos), mas das duas uma: ou Jayme Monjardim se arriscava a fazer um verdadeiro épico de maior duração para abraçar com a devida intensidade todas as riquíssimas histórias (o que afastaria o grande público) ou então nem se preocupava com o lançamento cinematográfico, produzindo uma caprichada minissérie diretamente para a TV – formato que, sejamos sinceros, faz cada vez mais falta na rede Globo. Por fim, O Tempo e o Vento não chega perto de ser um desastre, mas tampouco flerta certeiramente com toda a emoção da saga de Erico Verissimo.

FILME: 7.0

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