Cinema e Argumento

Na TV… o que falta em The Newsroom?

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Confesso que, pelas mais diversas razões, demorei para conferir The Newsroom, série da HBO que recentemente deu um (injusto) Emmy de melhor ator em série dramática para Jeff Daniels. E isso é no mínimo estranho, principalmente porque o programa retrata os bastidores da profissão que escolhi: o Jornalismo. Ora, a matemática, para o meu gosto pessoal, era infalível: selo da HBO, duas atrizes que gosto muito no elenco (Emily Mortimer e Alison Pill), contemporaneidade e, claro, um estudo sobre a minha profissão. Porém, The Newsroom está longe de ser uma série cativante e ainda demanda certa paciência para acompanhar pontos específicos do roteiro um tanto irritante escrito por ninguém menos que Aaron Sorkin, vencedor do Oscar por A Rede Social.

A exemplo do que vimos no longa que deu milhares de prêmios para Sorkin, The Newsroom é uma série de diálogos verborrágicos: o silêncio praticamente inexiste na trama, onde todos os personagens falam constantemente. Coloque ainda na mistura discussões políticas e conflitos envolvendo os ideais do Jornalismo e você terá um legítimo Aaron Sorkin. Há quem goste e o texto tem seus atrativos, mas o problema é que, em The Newsroom, o roteirista precisa fazer o que justamente se esquivava de fazer nos filmes que lhe deram visibilidade: desenvolver o lado humano dos personagens. Se A Rede Social e O Homem Que Mudou o Jogo careciam de respostas emocionais aos fatos mais “lógicos” trabalhados, a série da HBO necessita disso para se manter no ar – caso contrário, seria mais fácil acompanhar, por exemplo, o Jornal Nacional e depois ler o livro em que William Bonner narra os bastidores do telejornal.

É quando The Newsroom precisa dar personalidade e sentimentos aos seus personagens que a série dilui várias de suas (boas) discussões jornalísticas e não consegue dar um alento aos diálogos essencialmente informativos e racionais. Aaron Sorkin não sabe humanizar personagens. Suas tentativas são pífias, seja na hora de criar humor (todas as figuras beiram o infantil em suas atitudes) ou quando tenta dimensioná-los com algum romance (a paixão de escritório nunca verbalizada é um clichê já explorado até pelas comédias, como The Office). Se precisa falar de sentimentos ou construir uma relação entre os personagens, Sorkin – que roteirizou toda a primeira temporada – deixa a sensação de que só assistiu a comédias românticas da Sessão da Tarde durante toda sua trajetória cinéfila. Isso também porque todos os casais da série não possuem química alguma. Não vemos faíscas entre eles.

Falando em casais, eles nos levam ao elenco do programa. Fora Jeff Daniels – que, mesmo com o Emmy duvidoso, tem aqui a grande chance de sua carreira não tão inspirada -, todos os outros personagens parecem vindos de uma comédia calcada em tiques. Com isso, a adorável Emily Mortimer frequentemente dá pitis irritantes (que, na realidade, tinham como objetivo torná-la engraçada) e Alison Pill não sabe o que fazer com uma personagem cuja falta de personalidade sentimental mais incomoda do que comove. Também é errada a forma como The Newsroom quer posicionar Leona Lansing (Jane Fonda, convidada, também indicada ao Emmy por sua participação) como vilã simplesmente porque ela vê o Jornalismo como negócio, não deixando que a equipe fale e mostre o que bem entende na TV. O Jornalismo da vida real não é assim. Existem anunciantes e visões políticas a serem seguidas. Tudo o que se noticia está coberto por interesses e investimentos financeiros. The Newsroom não é sincera quanto a essa dura verdade, colocando Leona como arquiinimiga por agir de acordo com a realidade e não com as utopias da profissão.

Estruturada em dez episódios de quase uma hora (duração excessiva para uma série essencialmente falada, diga-se de passagem), The Newsroom tem seu ponto alto logo no início, especialmente no episódio-piloto, We Just Decided To. Abrindo sua história com uma cena excepcional, onde Will McAvoy (Daniels) discursa sobre as razões que tiraram o posto dos Estados Unidos de “melhor” país do mundo, a série, em seus primeiros capítulos, ganha pontos por desenvolver com mais afinco a questão do Jornalismo e seus bastidores, convencendo o espectador de todas as responsabilidades que cercam essa profissão hoje tão desvalorizada no Brasil. A checagem de fontes, a escolha certa de imagens e a correria para conseguir todas as informações a tempo do âncora entrar no ar dão o tom certo ao programa, que, nesses momentos, chega a alcançar momentos empolgantes para os seus padrões.

Com a equipe envolvida e com a proposta repleta de possibilidades, é desestimulante ver que The Newsroom não é uma das séries mais interessantes da atualidade. E poderia ser. Deveria ser. Falta uma força maior no programa, que tem, em seu roteirista, uma bênção e uma maldição. Aaron Sorkin continua demonstrando domínio de todo aquele estilo  que lhe deu visibilidade, mas simplesmente não tem o talento necessário para sustentar uma história dramática de bastidores. Talvez, não seja o conjunto o grande empecilho para a série decolar. E sim o seu próprio idealizador, que deveria entregar os romances e as intrigas emocionais a outro roteirista. Quem sabe assim a série proporcione todo o interesse que merece. Atualmente, The Newsroom está em sua segunda temporada – com um terceiro ano já confirmado – e eu paro nessa primeira leva de episódios. Não por ser necessariamente ruim, mas porque existem outras opções melhor alinhadas em suas investidas para acompanhar.

PRIMEIRA TEMPORADA: [8.5] 1X01 – We Just Decidet To [7.5] 1X02 News Night 2.0 [8.0] 1X03 The 112th Congress [7.5] 1X04 I’ll Try to Fix You [7.5] 1X05 Amen [8.0] 1X06 Bullies [7.5] 1X07 5/1 [7.5] 1X08 The Blackout – Part 1: Tragedy Porn [7.5] 1X09 The Blackout – Part 2: Mock Debate [7.5] 1X10 The Greater Fool 

Três atores, três filmes… com Kamila Azevedo

kamilatresAssim como o Alex Gonçalves, do Cine Resenhas, a Kamila, do Cinéfila Por Natureza, tem um respeito especial de minha parte quando o assunto é cinema na blogosfera. Isso porque minha relação com ela não é coisa de pouco tempo. Conheci essa colega jornalista há muito tempo, e nunca deixei de acompanhar seus comentários sobre cinema ao longo de mais de seis anos (se meus cálculos não estiverem errados). Muito mais do que apreciar o estilo de texto dessa blogueira, admiro também a forma como a Kamila pondera a opinião do outro e propõe discussões sempre muito saudáveis, embasadas e respeitosas. Por isso, quando a convidei para participar do Três atores, três filmes, foi no mínimo uma honra ver esse convite aceito. Mas a honra maior veio mesmo quando ouvi dela que o Cinema e Argumento é uma de suas referências em qualidade de análises críticas. Fiquem, abaixo, então, com a lista da Kamila, que tem tudo a ver com ela!

Edward Norton (As Duas Faces de um Crime)
Acho que não é segredo para ninguém (pelo menos para osleitores habituais do Cinéfila por Natureza), que o meu ator favorito é o Edward Norton. Esse foi o primeiro filme dele que eu assisti e que marca a estreia dele como ator. Em As Duas Faces de um Crime, um drama jurídico dirigido por Gregory Hoblit, Norton interpreta um coroinha acusado de um assassinato. A forma como ele compôs a personagem é sensacional, criando Aaron como alguém livre de qualquer suspeita e que manipula diretamente os personagens em torno daquilo que ele quer. Foi uma pequena amostra do grande talento de um ator que capturou a atenção da indústria cinematográfica nessa época, e que merecia, sim, ter conquistado o Oscar 1997 de Melhor Ator Coadjuvante que acabou terminando nas mãos de Cuba Gooding Jr. (por Jerry Maguire – A Grande Virada)

Audrey Hepburn (A Princesa e o Plebeu)
Mais uma vez, vou ser redundante: acho que não é segredo para ninguém (pelo menos para os leitores habituais do Cinéfila por Natureza) a minha profunda admiração pelo ser humano e pela atriz Audrey Hepburn. Escolhi A Princesa e o Plebeu, filme dirigido por Billy Wilder, que marcou a estreia de Hepburn como atriz, porque acho que ele representa as duas características principais da carreira dela: a sorte que ela teve de trabalhar com grandes diretores e talentosos atores e a sua naturalidade diante das câmeras. A atuação de Hepburn aqui, acredito, foi fruto da naturalidade, de algo genuíno e que representava diretamente o encanto que ela causava nas pessoas. O que eu quero dizer com isso é que acho que Billy Wilder capturou aqui a própria Audrey Hepburn, e não a Princesa Ann. Minha comédia romântica favorita, passada numa cidade de paisagens cinematográficas.

Wagner Moura (Tropa de Elite)
Adoro e sou uma entusiasta do cinema nacional. Por isso mesmo quis destacar nesta seleção algum representante do nosso país, por achar que o nosso cinema vive um momento muito interessante de crescimento e de intercâmbio com outras indústrias, na medida em que temos, cada vez mais, um aumento no número de profissionais da área sendo empregados em outros países e trazendo aprendizado para o trabalho que desenvolvem aqui. Acho que Wagner Moura é o melhor ator de sua geração e, para fazer uma analogia, acredito que ele é o nosso Ricardo Darín. Capitão Nascimento é o personagem mais emblemático de sua carreira, que lhe trouxe a consagração como o maravilhoso ator que ele é. Além disso, Tropa de Elite, depois de Cidade de Deus, é o filme mais importante do cinema brasileiro nas duas últimas duas décadas, especialmente no que representou para a nossa sociedade em termos de reflexão sobre os comportamentos e os valores que são arraigados dentro da nossa rotina.

Capitão Phillips

The problem is not me talking. The problem is you not listening.

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Direção: Paul Greengrass

Roteiro: Billy Ray, baseado no livro “A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea”, de Richard Phillips (com Stephan Talty)

Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Michael Chernus, David Warshofsky, Catherine Keener, Corey Johnson, Chris Mulkey, Yul Vazquez

Captain Phillips, EUA, 2013, Ação, 134 minutos

Sinopse: Richard Phillips (Tom Hanks) é um comandante naval experiente, que aceita trabalhar com uma nova equipe na missão de entregar mercadorias e alimentos para o povo somaliano. Logo no início do trajeto, ele recebe a mensagem de que piratas têm atuado com frequência nos mares por onde devem passar. A situação não demora a se concretizar, quando dois barcos chegam perto do cargueiro, com oito somalianos armados, exigindo todo o dinheiro a bordo. Uma estratégia inicial faz com que os agressores recuem, apenas para retornar no dia seguinte. Embora Phillips utilize todos os procedimentos possíveis para dispersar os inimigos, eles conseguem subir à bordo, ameaçando a vida de todos. Quando pensa ter conseguido negociar com os piratas, o comandante é levado como refém em um pequeno bote. Começa uma longa e tensa negociação entre os sequestradores e os serviços especiais americanos, para tentar salvar o capitão antes que seja tarde.

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A projeção internacional do diretor Paul Greengrass veio quando ele assumiu a série Bourne, mas são poucos os que costumam se referir ao britânico pelo trabalho que realmente lhe firmou como um nome confiável: Voo United 93, que chegou a render a Greengrass uma indicação ao Oscar de melhor direção.  Neste filme de 2007, ele mostrava o sequestro do avião-título, que, tomado por terroristas, caiu em Shanksville, Pennsylvania, no fatídico 11 de setembro. Essa história verídica narrada por Greengrass é bastante parecida, agora, com a de Capitão Phillips, uma espécie de Voo United 93 em pleno oceano. Além de ser uma história de sequestro (no caso o de um navio estadunidense refém de piratas somalianos), as semelhanças estão no próprio estilo do diretor, que continua intacto: tensão do início ao fim, câmera na mão e uma agilidade que poucos realizadores conseguem emular.

Não há dúvidas: Capitão Phillips é um legítimo Paul Greengrass. E é até estranho que todo o buzz em relação ao filme tenha sido – pelo menos até agora – apenas em função de Tom Hanks, já cotado para concorrer na próxima temporada de premiações por seu desempenho aqui. Isso porque Capitão Phillips está longe de ser um filme entregue exclusivamente ao desempenho do protagonista e porque o resultado tem outros aspectos tão interessantes quanto a presença de Hanks. É bem provável que este longa não cause tanto impacto em futuras revisões, uma vez que, descobertas as resoluções, o conjunto não reserva grandes surpresas para serem revisitadas. Mas embarcar nessa primeira jornada é gratificante: são mais de duas horas de pura agonia, seja em função da trama em si ou da forma como ela é conduzida por Greengrass.

O diálogo com a realidade, marca já registrada do diretor (e que influenciou toda uma geração dos filmes de ação depois de Bourne), é o que impulsiona Capitão Phillips, cujo resultado é completamente crível e sem aquelas soluções fantasiosas que volta e meia encontramos no cinema. A hábil montagem de Christopher Rouse e a câmera de Greengrass ampliam o notável realismo do longa, que ganha ainda um lado muito humano com a interpretação de Tom Hanks. Sem realmente atuar desde sabe-se lá quando, o ator surge realmente empenhado como há muito não se via, conquistando a torcida do espectador e aproveitando cada segundo de todas as passagens, incluindo aquelas que foram claramente realizadas apenas para que ele pudesse brilhar – como a sequência final, por exemplo. Mesmo não sendo pontualmente um filme de atuação, Capitão Phillips traz uma valiosa oportunidade para Hanks.

Nem tudo, porém, surpreende, já que Capitão Phillips tem algumas reservas pontuais. Não é interessante, particularmente, a forma como o roteiro de Billy Ray, baseado no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea, do próprio Richard Phillips, precisa verbalizar uma humanização do vilão que já tínhamos como deduzir. É no mínimo dispensável o discurso motivacional do protagonista que tenta, de certa forma, esmiuçar o outro lado de toda a criminalidade do pirata somaliano e apresentar razões que já tinham sido discretamente pontuadas anteriormente. Ainda é bom não dar muita atenção ao previsível cumprimento de todas as etapas típicas de filmes de resgate. Entretanto, por mais que Capitão Phillips não figure entre os trabalhos mais originais de Paul Greengrass, consegue ser outro exemplar do diretor que prende a atenção do início ao fim com um notável nervosismo – o que, convenhamos, está cada vez mais difícil de encontrar nos dias de hoje.

FILME: 8.0

35

Blue Jasmine

There’s only so many traumas a person can withstand until they take to the streets and start screaming.

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Direção: Woody Allen Roteiro: Woody Allen

Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin, Louis C.K., Andrew Dice Clay, Kathy Tong, Max Rutherford, Daniel Jenks, Annie McNamara, Tammy Blanchard, Charlie Tahan, Joy Carlin, Richard Conti

EUA, 2013, Drama, 98 minutos

Sinopse: Uma mulher rica (Cate Blanchett) perde todo seu dinheiro e é obrigada a morar em São Francisco com sua irmã (Sally Hawkins), em uma casa muito mais modesta. Ela acaba encontrando um homem na Bay Area que pode resolver seus problemas financeiros, mas antes ela precisa descobrir quem ela é, e precisa aceitar que São Francisco será sua nova casa. (Adoro Cinema)

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Jasmine (Cate Blanchett) perdeu toda a fortuna que desfrutava quando era casada com Hal (Alec Baldwin). Agora, morando com a irmã, tenta, a todo custo, se reencontrar na vida. E ela se enche de esperança quando conhece um sujeito que pode lhe oferecer todo o alto padrão de vida que um dia teve. No primeiro encontro, ela dá o seu número de telefone ao tal homem, que promete contatá-la. No dia seguinte, Jasmine passa o dia esperando ansiosamente a ligação. O telefone toca e o sujeito marca um novo encontro. O que poderia se esperar era que, ao desligar o telefone, Jasmine começasse a pular e a vibrar com sua conquista. Não. Ela começa a chorar. E, nesse momento, Blue Jasmine sintetiza praticamente tudo sobre sua protagonista: ela é uma mulher que já não consegue nem sentir a alegria das pequenas coisas da vida. Chora aliviada por não acreditar que alguém promissor ainda possa se interessar por ela. Um alento, enfim, para uma vida que, como descobrimos ao longo do filme, também puniu constantemente essa mulher que procurou sua história de fracasso.

Já escapa à memória a última vez que Woody Allen criou uma personagem tão difícil como Jasmine. Mesmo as figuras neuróticas criadas por ele sempre foram tratadas com certo humor, amortecendo suas difíceis personalidades. Mas, pela primeira vez em anos, Allen apresenta uma figura essencialmente detestável, sem concessões. E o que poderia ser um problema termina não sendo, já que Blue Jasmine só ganha pontos com as dificuldades de sua protagonista. Curioso mesmo é como o diretor cria um impasse, nunca a vilanizando por completo: a personagem de Cate Blanchett procurou boa parte das coisas ruins que aconteceram com ela, mas o filme também mostra como o azar influenciou a sua vida. Se logo, no entanto, ficamos com certa pena das situações que aparecem no caminho de Jasmine, em seguida retiramos nosso amparo quando ela, por exemplo, destrata a bondosa irmã ou despreza os detalhes de todos a sua volta. Pobre, sozinha e amargurada, mas ainda assim orgulhosa e com um infundado sentimento de superioridade.

Mais pessimista e racional do que o habitual para os padrões de Woody Allen, Blue Jasmine é, desta forma, o filme mais pesado do diretor em anos. A comédia aparece uma vez  ou outra, mas está longe de ser o foco aqui. E é admirável como tanto Allen quanto Cate Blanchett assumem por completo esse posicionamento. Principalmente ela, que nunca facilita para que o espectador tenha qualquer simpatia pela figura que representa. Cate, por sinal, finalmente ganha, depois de anos, uma chance à altura de seu talento. Ela não brilhava desde Não Estou Lá, de 2007, e aqui tem uma chance de ouro: já favorita para conquistar seu segundo Oscar (o primeiro foi uma preguiçosa lembrança por seu desempenho coadjuvante no sonolento O Aviador), ela destila todo o veneno de sua personagem sem cair em caricaturas ou estereótipos – o que seria muito fácil, visto que sua Jasmine é uma dondoca que está sempre com um copo na mão. Cate, portanto, desafia o espectador, mesmo que esteja constantemente com os olhos marejados e evidenciando um ser humano em pleno desespero interior. Um belo trabalho, sem dúvida, que ainda ganha um ótimo contraponto com a presença da iluminada Sally Hawkins como a benevolente Ginger.

Ao contrário do que pode ser apontado, existe sim humanização em Blue Jasmine. Não estamos diante de um desenvolvimento unidimensional, especialmente porque Woody Allen não condena a protagonista como a total responsável por suas ruínas. Ela também apanhou da vida e pagou um preço alto por sua quase assumida negligência perante muitas situações. O que de certa forma incomoda é que Blue Jasmine termina sendo um filme racional demais, quase sem emoções. É mais um estudo interessantíssimo de uma personagem do que propriamente uma história cativante ou de acontecimentos. Os flashbacks funcionam, Cate Blanchett e Sally Hawkins brilham e Jasmine surge como uma das mais intrigantes figuras criadas pelo diretor em anos, mas a negatividade de Allen – misturado com pequenas doses de humor que só ressaltam a mediocridade da vida – deixam Blue Jasmine com um tom bastante pesado e clínico. De todo jeito, depois da reciclagem que foi Para Roma, Com Amor, é bom ver o diretor realizando algo bem diferente do que vimos em sua filmografia nos últimos anos – e talvez aí esteja a razão para todo esse estranhamento com a punição e o pessimismo da vida de Jasmine. Mas o melhor mesmo é vê-lo dando uma grande chance a uma atriz que há anos precisava oxigenar a carreira com um grande desempenho. Nesse sentido, missão cumprida com louvores.

FILME: 8.0

35

O Homem de Aço

What are you going to do when you’re not saving the world?

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Direção: Zack Snyder

Roteiro: David S. Goyer, baseado em história criada por Christopher Nolan e David S. Goyer, e nos personagens de “Superman”, criados por Jerry Siegel e Joe Shuster

Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Kevin Costner, Diane Lane, Laurence Fishburne, Christopher Meloni, Dylan Sprayberry, Richard Schiff, Antje Traue, Cooper Timberline, Mary Black

Man of Steel, EUA, 2013, Ação/Ficção, 143 minutos

Sinopse: Nascido em Krypton, o pequeno Kal-El viveu pouco tempo em seu planeta natal. Percebendo que o planeta estava prestes a entrar em colapso, seu pai (Russell Crowe) o envia ainda bebê em uma nave espacial, rumo ao planeta Terra, e levando com ele importantes informações de seu povo. Contrariado com tal atitude, o General Zod (Michael Shannon) tenta impedir a iniciativa e acaba preso. Já em seu novo lar, a criança foi criada por Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), que passaram a chamá-lo de Clark. O tempo passa, seus poderes vão aparecendo e se tornando, de certa forma, um problema, porque isso evidencia que ele não é um ser humano. Já adulto, Clark (Henry Cavill) se vê obrigado a buscar um certo isolamento porque não consegue resistir aos salvamentos das pessoas e sempre precisa sumir do mapa para não criar problemas para seus pais. Mas o terrível Zod conseguiu se libertar e descobriu seu paradeiro. Agora, a humanidade corre perigo e talvez tenha chegado a hora das pessoas conhecerem aqueles que passarão a chama de o Super-Homem. (Adoro Cinema)

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No cinema contemporâneo, Superman é um cara de azar. Se Christopher Reeve imortalizou o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster décadas atrás, hoje já não se consegue repetir o mesmo feito. Claro que são situações diferentes, mas é curioso como o herói simplesmente não consegue ter um filme atual à altura de sua mitologia. Bryan Singer fracassou quando resolveu dar um tom mais simbólico e pausado ao personagem em Superman – O Retorno: ninguém se entusiasmou com o longa, sequências não existiram e o resultado foi completamente esquecido. Tudo foi reinventado, portanto, para O Homem de Aço, na esperança de reerguer a vida cinematográfica do grande Superman. Não existem resquícios do longa de Singer, a equipe foi inteiramente repaginada. E, novamente, o resultado desaponta. Dessa vez, mais do que na primeira. Isso porque, se Superman – O Retorno foi alvo de duras críticas por sua abordagem mais contemplativa, a nova investida comandada por Zack Snyder se afunda fazendo justamente o oposto, silenciando todas as interessantes complexidades do protagonista com explosões e efeitos descontrolados que sintetizam o que existe de pior nos blockbusters estadunidenses.

Dói ter que dizer que O Homem de Aço tem a ação mais barulhenta, irritante e sem sentido desde que Michael Bay ensurdeceu meio mundo com a pavorosa saga Transformers. Isso porque, apesar dos pesares, Zack Snyder é um sujeito de estética atraente, e também porque a produção ficou a cargo de Christopher Nolan – que ainda escreveu a história que serviu de base para o roteiro de David S. Goyer (o roteirista da trilogia Batman comandada por Nolan). Superman tinha tudo para finalmente ganhar novas plateias, mas a excessiva necessidade de explodir tudo que vem pela frente só para envolver os públicos sedentos por ação destroi praticamente tudo o que existe de positivo em O Homem de Aço. É outro prego martelado no caixão desse heroi que merecia uma trajetória mais decente nos anos 2000. O filme, por sinal, já não começa bem, ambientado em um planeta Krypton altamente computadorizado e que já dá indícios do que se desenvolverá de pior ao longo das desnecessárias 2h30 de duração do longa: a absurda canastrice do vilão de Michael Shannon (em um dos piores desempenhos do ano), o excesso de efeitos visuais e uma história de ficção nada interessante.

O que que mais importa e interessa em O Homem de Aço é justamente a vida de Clark Kent (Henry Cavill) na Terra tentando se às normalidades da vida humana. Sua busca por identidade, o convívio com os pais e cada pequena descoberta trazem momentos até intimistas e sutis para esse filme que, de resto, destoa completamente de tal simplicidade. Na forma como Goyer conduz o roteiro, ainda ajuda o fato da infância e da adolescência de Clark ser contada em flashbacks – o que tira aquele didatismo tão presente em histórias que narram a vida do herói com o tradicional início, meio e fim. Dando vida ao protagonista está Henry Cavill, que é uma boa escolha para Superman. A beleza grega e o imponente porte físico do ator não devem nada aos corações que Christopher Reeves conquistou anteriormente. Mas, assim como todas as boas partes e promessas do filme (nisso incluímos uma sempre simpática Amy Adams que nada tem a fazer aqui), ele é silenciado por um amontoado de cenas altamente barulhentas e descontroladas.

A ação de O Homem de Aço é tão ensandecida que Zack Snyder pede que o espectador seja testemunha da total destruição de uma cidade sem sequer se importar com as pessoas que nela moram ou com os próprios cenários que são demolidos com a maior naturalidade do mundo. Talvez a última vez que testemunhamos a mesma loucura tenha sido quando os Power Rangers montavam seus Megazords semanalmente na TV para salvar a cidade de vilões gigantes. São tantas explosões que nem nos importamos com os personagens. Tudo se banaliza quando o perigo é constante mas nunca efetivo e a ambientação fica superficial dentro de tantos efeitos. Nesse conjunto, até a trilha de Hans Zimmer cai no lugar comum, mesmo que seu belo piano funcione nos momentos mais reflexivos. Com tonalidades interessantes que moldam um visual quase melancólico, O Homem de Aço tem, assim, dois filmes rivalizando dentro de um. A diferença é gritante, especialmente porque o pior engole o melhor. Zack Snyder conseguiu se policiar na sua conhecida paixão por stop motions, mas ele e David S. Goyer não sabem quem agradar. Ou seja, um dos filmes-pipoca mais promissores do ano se revelou uma bomba que não consegue nem realizar uma ação acéfala mas empolgante. O Homem de Aço é somente uma chance desperdiçada. Mais uma vez.

FILME: 4.5

2*