Cinema e Argumento

Blue Jasmine

There’s only so many traumas a person can withstand until they take to the streets and start screaming.

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Direção: Woody Allen Roteiro: Woody Allen

Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin, Louis C.K., Andrew Dice Clay, Kathy Tong, Max Rutherford, Daniel Jenks, Annie McNamara, Tammy Blanchard, Charlie Tahan, Joy Carlin, Richard Conti

EUA, 2013, Drama, 98 minutos

Sinopse: Uma mulher rica (Cate Blanchett) perde todo seu dinheiro e é obrigada a morar em São Francisco com sua irmã (Sally Hawkins), em uma casa muito mais modesta. Ela acaba encontrando um homem na Bay Area que pode resolver seus problemas financeiros, mas antes ela precisa descobrir quem ela é, e precisa aceitar que São Francisco será sua nova casa. (Adoro Cinema)

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Jasmine (Cate Blanchett) perdeu toda a fortuna que desfrutava quando era casada com Hal (Alec Baldwin). Agora, morando com a irmã, tenta, a todo custo, se reencontrar na vida. E ela se enche de esperança quando conhece um sujeito que pode lhe oferecer todo o alto padrão de vida que um dia teve. No primeiro encontro, ela dá o seu número de telefone ao tal homem, que promete contatá-la. No dia seguinte, Jasmine passa o dia esperando ansiosamente a ligação. O telefone toca e o sujeito marca um novo encontro. O que poderia se esperar era que, ao desligar o telefone, Jasmine começasse a pular e a vibrar com sua conquista. Não. Ela começa a chorar. E, nesse momento, Blue Jasmine sintetiza praticamente tudo sobre sua protagonista: ela é uma mulher que já não consegue nem sentir a alegria das pequenas coisas da vida. Chora aliviada por não acreditar que alguém promissor ainda possa se interessar por ela. Um alento, enfim, para uma vida que, como descobrimos ao longo do filme, também puniu constantemente essa mulher que procurou sua história de fracasso.

Já escapa à memória a última vez que Woody Allen criou uma personagem tão difícil como Jasmine. Mesmo as figuras neuróticas criadas por ele sempre foram tratadas com certo humor, amortecendo suas difíceis personalidades. Mas, pela primeira vez em anos, Allen apresenta uma figura essencialmente detestável, sem concessões. E o que poderia ser um problema termina não sendo, já que Blue Jasmine só ganha pontos com as dificuldades de sua protagonista. Curioso mesmo é como o diretor cria um impasse, nunca a vilanizando por completo: a personagem de Cate Blanchett procurou boa parte das coisas ruins que aconteceram com ela, mas o filme também mostra como o azar influenciou a sua vida. Se logo, no entanto, ficamos com certa pena das situações que aparecem no caminho de Jasmine, em seguida retiramos nosso amparo quando ela, por exemplo, destrata a bondosa irmã ou despreza os detalhes de todos a sua volta. Pobre, sozinha e amargurada, mas ainda assim orgulhosa e com um infundado sentimento de superioridade.

Mais pessimista e racional do que o habitual para os padrões de Woody Allen, Blue Jasmine é, desta forma, o filme mais pesado do diretor em anos. A comédia aparece uma vez  ou outra, mas está longe de ser o foco aqui. E é admirável como tanto Allen quanto Cate Blanchett assumem por completo esse posicionamento. Principalmente ela, que nunca facilita para que o espectador tenha qualquer simpatia pela figura que representa. Cate, por sinal, finalmente ganha, depois de anos, uma chance à altura de seu talento. Ela não brilhava desde Não Estou Lá, de 2007, e aqui tem uma chance de ouro: já favorita para conquistar seu segundo Oscar (o primeiro foi uma preguiçosa lembrança por seu desempenho coadjuvante no sonolento O Aviador), ela destila todo o veneno de sua personagem sem cair em caricaturas ou estereótipos – o que seria muito fácil, visto que sua Jasmine é uma dondoca que está sempre com um copo na mão. Cate, portanto, desafia o espectador, mesmo que esteja constantemente com os olhos marejados e evidenciando um ser humano em pleno desespero interior. Um belo trabalho, sem dúvida, que ainda ganha um ótimo contraponto com a presença da iluminada Sally Hawkins como a benevolente Ginger.

Ao contrário do que pode ser apontado, existe sim humanização em Blue Jasmine. Não estamos diante de um desenvolvimento unidimensional, especialmente porque Woody Allen não condena a protagonista como a total responsável por suas ruínas. Ela também apanhou da vida e pagou um preço alto por sua quase assumida negligência perante muitas situações. O que de certa forma incomoda é que Blue Jasmine termina sendo um filme racional demais, quase sem emoções. É mais um estudo interessantíssimo de uma personagem do que propriamente uma história cativante ou de acontecimentos. Os flashbacks funcionam, Cate Blanchett e Sally Hawkins brilham e Jasmine surge como uma das mais intrigantes figuras criadas pelo diretor em anos, mas a negatividade de Allen – misturado com pequenas doses de humor que só ressaltam a mediocridade da vida – deixam Blue Jasmine com um tom bastante pesado e clínico. De todo jeito, depois da reciclagem que foi Para Roma, Com Amor, é bom ver o diretor realizando algo bem diferente do que vimos em sua filmografia nos últimos anos – e talvez aí esteja a razão para todo esse estranhamento com a punição e o pessimismo da vida de Jasmine. Mas o melhor mesmo é vê-lo dando uma grande chance a uma atriz que há anos precisava oxigenar a carreira com um grande desempenho. Nesse sentido, missão cumprida com louvores.

FILME: 8.0

35

O Homem de Aço

What are you going to do when you’re not saving the world?

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Direção: Zack Snyder

Roteiro: David S. Goyer, baseado em história criada por Christopher Nolan e David S. Goyer, e nos personagens de “Superman”, criados por Jerry Siegel e Joe Shuster

Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Kevin Costner, Diane Lane, Laurence Fishburne, Christopher Meloni, Dylan Sprayberry, Richard Schiff, Antje Traue, Cooper Timberline, Mary Black

Man of Steel, EUA, 2013, Ação/Ficção, 143 minutos

Sinopse: Nascido em Krypton, o pequeno Kal-El viveu pouco tempo em seu planeta natal. Percebendo que o planeta estava prestes a entrar em colapso, seu pai (Russell Crowe) o envia ainda bebê em uma nave espacial, rumo ao planeta Terra, e levando com ele importantes informações de seu povo. Contrariado com tal atitude, o General Zod (Michael Shannon) tenta impedir a iniciativa e acaba preso. Já em seu novo lar, a criança foi criada por Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), que passaram a chamá-lo de Clark. O tempo passa, seus poderes vão aparecendo e se tornando, de certa forma, um problema, porque isso evidencia que ele não é um ser humano. Já adulto, Clark (Henry Cavill) se vê obrigado a buscar um certo isolamento porque não consegue resistir aos salvamentos das pessoas e sempre precisa sumir do mapa para não criar problemas para seus pais. Mas o terrível Zod conseguiu se libertar e descobriu seu paradeiro. Agora, a humanidade corre perigo e talvez tenha chegado a hora das pessoas conhecerem aqueles que passarão a chama de o Super-Homem. (Adoro Cinema)

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No cinema contemporâneo, Superman é um cara de azar. Se Christopher Reeve imortalizou o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster décadas atrás, hoje já não se consegue repetir o mesmo feito. Claro que são situações diferentes, mas é curioso como o herói simplesmente não consegue ter um filme atual à altura de sua mitologia. Bryan Singer fracassou quando resolveu dar um tom mais simbólico e pausado ao personagem em Superman – O Retorno: ninguém se entusiasmou com o longa, sequências não existiram e o resultado foi completamente esquecido. Tudo foi reinventado, portanto, para O Homem de Aço, na esperança de reerguer a vida cinematográfica do grande Superman. Não existem resquícios do longa de Singer, a equipe foi inteiramente repaginada. E, novamente, o resultado desaponta. Dessa vez, mais do que na primeira. Isso porque, se Superman – O Retorno foi alvo de duras críticas por sua abordagem mais contemplativa, a nova investida comandada por Zack Snyder se afunda fazendo justamente o oposto, silenciando todas as interessantes complexidades do protagonista com explosões e efeitos descontrolados que sintetizam o que existe de pior nos blockbusters estadunidenses.

Dói ter que dizer que O Homem de Aço tem a ação mais barulhenta, irritante e sem sentido desde que Michael Bay ensurdeceu meio mundo com a pavorosa saga Transformers. Isso porque, apesar dos pesares, Zack Snyder é um sujeito de estética atraente, e também porque a produção ficou a cargo de Christopher Nolan – que ainda escreveu a história que serviu de base para o roteiro de David S. Goyer (o roteirista da trilogia Batman comandada por Nolan). Superman tinha tudo para finalmente ganhar novas plateias, mas a excessiva necessidade de explodir tudo que vem pela frente só para envolver os públicos sedentos por ação destroi praticamente tudo o que existe de positivo em O Homem de Aço. É outro prego martelado no caixão desse heroi que merecia uma trajetória mais decente nos anos 2000. O filme, por sinal, já não começa bem, ambientado em um planeta Krypton altamente computadorizado e que já dá indícios do que se desenvolverá de pior ao longo das desnecessárias 2h30 de duração do longa: a absurda canastrice do vilão de Michael Shannon (em um dos piores desempenhos do ano), o excesso de efeitos visuais e uma história de ficção nada interessante.

O que que mais importa e interessa em O Homem de Aço é justamente a vida de Clark Kent (Henry Cavill) na Terra tentando se às normalidades da vida humana. Sua busca por identidade, o convívio com os pais e cada pequena descoberta trazem momentos até intimistas e sutis para esse filme que, de resto, destoa completamente de tal simplicidade. Na forma como Goyer conduz o roteiro, ainda ajuda o fato da infância e da adolescência de Clark ser contada em flashbacks – o que tira aquele didatismo tão presente em histórias que narram a vida do herói com o tradicional início, meio e fim. Dando vida ao protagonista está Henry Cavill, que é uma boa escolha para Superman. A beleza grega e o imponente porte físico do ator não devem nada aos corações que Christopher Reeves conquistou anteriormente. Mas, assim como todas as boas partes e promessas do filme (nisso incluímos uma sempre simpática Amy Adams que nada tem a fazer aqui), ele é silenciado por um amontoado de cenas altamente barulhentas e descontroladas.

A ação de O Homem de Aço é tão ensandecida que Zack Snyder pede que o espectador seja testemunha da total destruição de uma cidade sem sequer se importar com as pessoas que nela moram ou com os próprios cenários que são demolidos com a maior naturalidade do mundo. Talvez a última vez que testemunhamos a mesma loucura tenha sido quando os Power Rangers montavam seus Megazords semanalmente na TV para salvar a cidade de vilões gigantes. São tantas explosões que nem nos importamos com os personagens. Tudo se banaliza quando o perigo é constante mas nunca efetivo e a ambientação fica superficial dentro de tantos efeitos. Nesse conjunto, até a trilha de Hans Zimmer cai no lugar comum, mesmo que seu belo piano funcione nos momentos mais reflexivos. Com tonalidades interessantes que moldam um visual quase melancólico, O Homem de Aço tem, assim, dois filmes rivalizando dentro de um. A diferença é gritante, especialmente porque o pior engole o melhor. Zack Snyder conseguiu se policiar na sua conhecida paixão por stop motions, mas ele e David S. Goyer não sabem quem agradar. Ou seja, um dos filmes-pipoca mais promissores do ano se revelou uma bomba que não consegue nem realizar uma ação acéfala mas empolgante. O Homem de Aço é somente uma chance desperdiçada. Mais uma vez.

FILME: 4.5

2*

Três atores, três filmes… com Elton Telles

eltontellesFoi na Rua Coberta de Gramado que, por uma curiosa coincidência do destino, finalmente conheci o Elton, quando nos cruzamos por acaso. Já tínhamos algum contato prévio na internet, mas acho que foi a partir de lá mesmo que começamos a acompanhar melhor o trabalho um do outro. Tenho uma enorme simpatia por esse colega blogueiro e também me identifico demais com o estilo das críticas publicadas por ele no Pós-premiere. Por isso, claro, é uma honra tê-lo aqui aceitando participar do Três atores, três filmes. Desde já, acuso: pela primeira vez, não conferi nenhuma das interpretações elencadas. Correção já anotada para ser feita nos próximos dias. Assim como a Mariane Zendron, última participante aqui da seção, o Elton começa sua lista com uma breve introdução: “Acho uma tarefa desafiadora e ingrata escolher apenas três atuações, pois são tantas performances no cinema que marcam a gente em diferentes níveis e por diferentes motivos. Nesse momento, essas três pulam em minha memória. Daqui 15 minutos, não garanto que sejam as mesmas”.

Jo Van Fleet (Vidas Amargas)
Procedente dos palcos, a norte-americana Jo Van Fleet não precisa de muito tempo em cena para causar uma forte impressão como a mãe desertora que leva a vida como cafetina no clássico de Elia Kazan, Vidas Amargas. Beneficiada com uma personagem robusta, a atriz rouba a atenção sempre que surge na tela, a qual divide com ninguém menos que James Dean. Fico muito impressionado com o desempenho de Van Fleet pela forma incisiva com que ela mergulha no papel e, sobretudo, pelas cenas inesquecíveis mediadas pela frieza e (ausência de) maternidade. Seu discurso e postura sisuda causam o afastamento do público, mas, curiosamente, também aguça uma estranha admiração por essa mulher livre e desgarrada. Uma atuação sublime, merecidamente reconhecida com uma estatueta do Oscar.

Jack Lemmon (Se Meu Apartamento Falasse)
Todos os elogios são poucos para Jack Lemmon, um dos atores que mais nutro afeição. Poderia destacar qualquer uma de suas interpretações, mas a do solitário C.C. Baxter, de Se Meu Apartamento Falasse, me causa maior impacto. Muito dessa empatia, preciso ressaltar, provém do exímio roteiro escrito pelo gênio Billy Wilder, que desenha com extrema competência um personagem cravado na fronteira da inocência e da generosidade. Mas nada adiantaria um papel tão bem delineado com uma atuação que não estivesse à altura, e Lemmon simplesmente entrega uma das melhores performances cômicas do Cinema, mais uma para o seu hall de atuações hilárias. Ao lado de uma irresistível Shirley MacLaine, protagoniza um dos filmes mais doces e gentis já concebidos. Pura classe.

Gena Rowlands (Uma Mulher Sob Influência)
Dirigida pelo marido, o ator e cineasta John Cassavetes, Gena Rowlands detém o título da melhor atuação feminina da história, em minha opinião, no fabuloso Uma Mulher Sob Influência. Encarando uma personagem extremamente difícil e complicada, Rowlands tem uma atuação compenetrada e de absoluta entrega. Essa mulher é um fenômeno da natureza, um furacão imperdoável que por onde passa carrega tudo consigo.

Na coleção… Harry Potter e a Ordem da Fênix

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Harry Potter e a Ordem da Fênix é um filme de transição – em todos os sentidos, da história criada por J.K. Rowling até as escolhas do novo diretor David Yates (que assumiu o cargo após Mike Newell ter comandado o capítulo anterior). É por estar nesse meio de campo que o quinto filme da saga não chega a ser superlativo. Aqui, a introdução de novos personagens e situações bem como a repaginada estética e narrativa fazem toda a diferença no resultado. Na trama, Harry (Daniel Radcliffe, em um de seus piores momentos) descobre que boa parte da comunidade bruxa foi levada a acreditar que o retorno de Voldemort (Ralph Fiennes) é uma mentira inventada por ele, o que põe a sua credibilidade e a de todos que acreditam nele em dúvida.

Importante perceber que, a partir de A Ordem da Fênix, a magia de Hogwarts deixa de ser o foco. Alsonso Cuarón, em O Prisioneiro de Azkaban, já tinha anunciado essa virada, mas é na direção de David Yates que a história passa a ganhar contornos mais adultos e políticos, com storylines que possuem conflitos contínuos e que colocam os detalhes mágicos daquele universo apenas como um bônus. A Ordem da Fênix traz  um forte tom de conspiração (causado pela volta de Voldemort), que divide o mundo bruxo: de um lado, a ala conservadora que se recusa a acreditar no retorno do temido assassino; do outro, os que se vêem acuados e apreensivos com essa volta. E é a partir do embate de posicionamentos tão diferentes que o filme constrói as principais desavenças entre os personagens.

Essa abordagem é bem explorada pelo roteiro de Michael Goldenberg, que, mesmo sofrendo com a enorme quantidade de novos personagens e subtramas, consegue fazer um satisfatório trabalho ao resumir mais de 700 páginas em aproximadamente 140 minutos. E, se A Ordem da Fênix não chega a ser necessariamente empolgante, em parte a culpa é do material original, visto que o livro homônimo é um dos que menos preza pela objetividade e por grandes acontecimentos na série. Mas Yates foi esperto e, ao perceber que o material é, sem dúvida, um dos mais complicados (ou tortuosos?) de Harry Potter, ele resolveu dar uma bela repaginada em todos os aspectos cinematográficos possíveis.

Com isso, tecnicamente, o resultado surpreendente – e é uma pena que as premiações não tenham reconhecido tal mérito (A Ordem da Fênix não teve sequer uma indicação ao Oscar). Parece que nesse filme conhecemos uma Hogwarts completamente diferente (o que é ótimo, diga-se de passagem). Também conhecemos novos ambientes do mundo dos bruxos, em especial o departamento de ministérios, reproduzindo com um admirável requinte. Nicholas Hooper ainda dá um novo tom ao enredo com uma trilha sonora extremamente original, que se afasta de qualquer repetição e que apresenta melodias completamente originais, terminando com a indiferença trazida por Patrick Doyle nesse mesmo setor em O Cálice de FogoÉ, certamente, um novo clima, que amplia o tom mais pausado e conspiratório da saga.

Impossível, entretanto, falar de A Ordem da Fênix sem ainda mencionar a importância de Imelda Staunton. Representando uma enviada do conservador ministério da magia que instaura uma verdadeira ditadura em Hogwarts, ela mostra uma grande versatilidade em sua participação – especialmente quando O Segredo de Vera Drake recém havia lhe dado celebração dois anos antes com um papel completamente diferente. Ela está não menos que espetacular como Dolores Umbridge, uma professora perfeccionista que, à primeira vista, parece uma senhora sorridente vestida de rosa mas que, pouco a pouco, se mostra sádica e intolerante.

Perto de seu desfecho, A Ordem da Fênix ganha momentos realmente grandiosos (a batalha entre Dumbledore e Voldemort é um primor e a morte de um personagem acontece em uma cena de ação muito bem conduzida), mas o problema mesmo é essa transição, tanto cinematográfica quanto narrativa, com novos personagens (Helena Bonham Carter é a principal nova adesão como Belatrix Lestrange) e fatos sendo instalados para acontecimentos posteriores. São pouco mais de duas horas corridas e de muitas informações, o que causa um certo estranhamento. O bom mesmo é que Yates já se mostra um bom diretor e uma escolha acertada para dar uma linha a essa saga que terminou de maneira impecável no oitavo filme.

FILME: 8.0

35

Confira também:

– Harry Potter e a Pedra Filosofal

– Harry Potter e a Câmara Secreta

– Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

– Harry Potter e o Cálice de Fogo

Diana

Somewhere between right and wrong there is a garden. I’ll meet you there.

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Direção: Oliver Hirschbiegel

Roteiro: Stephen Jeffreys, baseado no livro “Diana – Her Last Love”, de Kate Snell

Elenco: Naomi Watts, Naveen Andrews, Douglas Hodge, Geraldine James, Charles Edwards, Daniel Pirrie, Juliet Stevenson, Jonathan Kerrigan, Laurence Belcher, Harry Holland, Leeanda Reddy

Inglaterra/França/Suécia/Bélgica, 2013, Drama, 113 minutos

Sinopse: Prestes a se divorciar de Charles, a princesa Diana (Naomi Watts) divide seu tempo entre a solidão da vida no palácio em que vive e os compromissos que possui com diversas entidades beneficentes. Um dia, ao saber que um amigo foi operado às pressas, ela vai até o hospital em que está internado e lá conhece o doutor Hasnat Khan (Naveen Andrews). Diana logo fica encantada pelo fato dele não a tratar como uma princesa, apesar de saber quem ela é. Não demora muito para que iniciem um relacionamento, mantido às escondidas devido ao desejo de Hasnat em ter uma vida reservada. (Adoro Cinema)

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A jogada tinha tudo para ser imbatível: depois de anos entregando excelentes desempenhos e vindo de uma (segunda) indicação ao Oscar por O Impossível, Naomi Watts finalmente ganharia a estatueta mais cobiçada do cinema. A fórmula (biografia + sotaque + maquiagem + penteados) acusava o tão esperado reconhecimento a essa intérprete que é uma das melhores de sua geração e uma das poucas que ainda não têm as devidas honrarias. Só que Diana, filme que narra os dois últimos anos da personagem-título e o relacionamento amoroso dela com um médico paquistanês, fracassou em praticamente todos os sentidos. Assim como Hitchcock – que era aposta certa para o Oscar de melhor ator com Anthony Hopkins – o longa de Oliver Hirschbiegel não foi bem de críticas e chegou ao Brasil com uma péssima divulgação, passando praticamente despercebido até mesmo pelo público em geral, que certamente tem razões de sobra para se interessar pela biografia de uma figura tão icônica e querida quanto Lady Di.

No entanto, não dá para contestar esse esquecimento de Diana. É até fácil endossá-lo. O que poderia ser uma delicada e envolvente história sobre uma das mulheres mais influentes da década de 1990 termina como um romance açucarado – na pior conotação que essa afirmação pode sugerir. Isso mesmo, a produção estrelada por Naomi Watts acerta na lógica de que contar um recorte da vida de alguém é mais interessante do que a narração de todo o conjunto, mas peca por encenar equivocadamente um lado muito duvidoso e desinteressante de Lady Di. As intenções do roteiro de Stephen Jeffreys, baseado no livro Diana – Her Last Love, de Kate Snell, são válidas: mostrar o lado “mulher” da personagem, focando-se menos no alvoroço que ela causava com a mídia e mais no seu íntimo, especialmente na última grande paixão que viveu. O problema é que não existe um estudo aqui: todo o tal relacionamento vivido por Diana é meramente jogado na tela com cenas e diálogos rasos dignos de romances adolescentes com juras de amor, brigas infantis e brincadeirinhas na beira da praia.

É por isso que a abordagem chega a ser um tanto estranha e duvidosa, pois Diana pinta um retrato imaturo da figura-título. E, se de fato ela era imatura, o filme desenvolve esse perfil de superficial e pouco convincente. A Lady Di de Watts surge completamente submissa e sem personalidade: quando instantaneamente se encanta  pelo médico Hasnat (Naveen Andrews, insosso), compra um livro de anatomia para se inteirar do assunto; quando descobre que ele gosta de jazz, passa a ouvir todos os cd’s possíveis do gênero; e, quando se vê impossibilitada de ir ao hospital visitá-lo em função da imprensa, compra uma peruca para aparecer disfarçada. A tentativa de humanização e de colocá-la no patamar “gente como a gente” tem seu valor, mas é feita de forma pouco envolvente, principalmente porque Diana ganha mais tração quando se dedica ao espírito humanitário da protagonista com a população. É particularmente bela a cena em que ela, no meio da multidão, deixa que um cego toque seu rosto para que ele possa realizar o sonho de conhecê-la. As visitas de Diana aos hospitais da África e sua luta para desativação de minas terrestres (que ganharia um belo legado, como os próprios letreiros finais enfatizam) também demonstram justamente o oposto do que é desenvolvido pelo lado romântico do longa: uma mulher destemida, diferente e a frente de seu tempo.

Com uma pessoa tão rica em possibilidades dramáticas encabeçando a história, é de se chatear que Diana tenha optado por uma abordagem desestimulante. Ao se concentrar no romance da protagonista, o filme fica sem ritmo, frequentemente andando em círculos e instalando conflitos – novamente – dignos de romances previsíveis, como na sequência em que o reservadíssimo Hasnat briga com Diana porque a imprensa descobriu o affair dos dois. Para poupar o namorado, ela desmente o caso publicamente… e Hasnat briga com ela novamente por causa da mentira! E é assim durante praticamente todo o longa, com duas facetas da princesa que simplesmente não casam: a mulher insegura e submissa de um lado e, do outro, a figura pública revolucionária que inspirou multidões. Se não existisse menção ao nome de Lady Di ou se não mostrasse brevemente os feitos reais de sua protagonista, Diana sequer pareceria uma biografia. Complicado saber se a culpa é exclusivamente do roteiro, até porque a escolha de direção é um tanto inusitada: Oliver Hirschbiegel, um alemão dirigindo a cinebiografia de uma britânica depois de ter fracassado com seu debut hollywoodiano em Invasores.

Diana não é um filme que tem problemas de coesão ou estética confusa como A Dama de Ferro, por exemplo. Hirschibiegel tem até certa disciplina que dá ares requintados ao resultado. O problema é mesmo essa redução da figura da protagonista a uma historinha de amor que não merecia tanto destaque. Quem sofre com tudo isso? Naomi Watts, claro. Sem o poder imensurável de uma Meryl Streep da vida para sair ilesa de um filme irregular, ela não consegue escapar das deficiências do roteiro. Se o trabalho corporal, o sotaque, a maquiagem e os penteados são sim convincentes para fazer o espectador crer que estamos acompanhando os bastidores de Diana, a figura que ela representa fica automaticamente enjoada com os melodramas românticos impostos pelo texto. Tanto a atriz quanto a personagem representada por ela mereciam um filme mais delicado e intimista que não confundisse humanização com frequentes lugares comuns de romances apresentados aqui. Duas chances perdidas: a de finalmente consagrar uma excelente atriz (mesmo que por meio do clichê  de dar um Oscar para uma biografia) e a de mostrar o outro lado de um círculo que foi tão bem narrado pelos olhos de Elizabeth II (Helen Mirren) em A Rainha.

FILME: 6.0

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