
As grandes intérpretes, todas elas, nos ensinam a ver, ouvir e sentir. Graças à sua arte sensível, chegamos a compreender o mundo. Quanto maior o amor, maior a compreensão. Sem o amor – nos ensina Godard –, o cinema é impossível. Amo profundamente Maria Fernanda Cândido. Suas inseguranças e suas dúvidas não me causam problemas, não me esgotam. Muito pelo contrário. São premissas fundamentais, me iluminam.
“É preciso um paraquedas” me disse certo dia Raul Cortez, anunciando que os grandes intérpretes caminham no limiar entre o precipício e o voo. E este ser de paraquedas se apresenta de tantas formas, não é? Suas raízes aquáticas logo surgem e, inconstantes, vagam, vêm e vão como as marés e suas luas, mas sempre nos presenteando pérolas abissais.
Foi, é, e será sempre assim. Por isso, me lanço ao seu encontro e, em suspenso, pergunto a mim mesmo: como não amar Maria Fernanda Cândido? É uma atriz sempre atenta e aberta para as sutilezas que não se dão em palavras, compreendendo o que não se deixa capturar pelo mero entendimento. Mas aqui também não me esquecerei de sua beleza. Quem conseguiria? Afinal, a melhor parte de sua beleza é aquela que nenhuma imagem seria capaz de expressar: um enigma!
Amo profundamente sua imaginação criadora, seus sonhos, seus oceanos, onde, ambos, sempre juntos, ela e eu, de mãos dadas, já mergulhamos tantas vezes: “Capitu”, “A Paixão Segundo G.H.” – entre outras ondas… A influência de sua arte sensível sobre minha vida é imensa, nutrindo nossa parceria de décadas, me enfeitiçando e, ao mesmo tempo, com profunda lucidez, me lembrando sempre de que a Arte e o Humano sobrevivem no mundo graças à experiência com o sensível. Mas o que seria o sensível? Ela própria, decerto!
Como não amar Maria Fernanda Cândido? Eu me repito, eu sei, perdoem, mas como não amar esta selvagem que, com a coragem das crianças, passa das lágrimas ao riso num átimo?
Maria Fernanda me ensinou muito, sobretudo sobre seu ofício, mas sem uma linha de teoria ou moral. O sentimento sempre vinha na frente de tudo. Devo muito à Maria Fernanda e a seu mundo à flor da pele que, apesar de tudo, necessita seguir entre a loucura santa e o ridículo. Mas o que seria este apesar de tudo? Apesar das injustiças todas, apesar do planeta dividido entre opressores e oprimidos, apesar das guerras todas; enfim, apesar de todos estes desmoronamentos, Ela – o ser sensível – resistirá sempre e sua arte não passará. E aqui, agora, em profundo silêncio, escrevo estas palavras procurando dar sentido ao que é indizível – e, em agradecimento, me curvo diante desta atriz que é feita de luz, assim como o cinema.
Luiz Fernando Carvalho, cineasta e diretor de TV
para o 54º Festival de Cinema de Gramado