54º Festival de Cinema de Gramado #5: “Feito Pipa”, de Allan Deberton

Desde que o mundo é mundo, crianças como Gugu (Yuri Gomes) são atos políticos, mais ainda no Brasil, país onde a infância queer ainda é pouco discutida, inclusive no cinema. O protagonista de Feito Pipa desafia convenções e preconceitos: dos gestos afeminados ao apreço por maquiagens, ele, ao mesmo tempo, quer jogar futebol e andar de moto, borrando as fronteiras entre o que é aceito (ou imposto) pela sociedade para meninos ou meninas. Gugu, contudo, está nem aí e se porta como bem entende, nem que isso custe o afastamento de um pai que, preconceituoso, decide deixá-lo aos cuidados da avó materna, por quem é plenamente amado e aceito. Acontece que, por forças maiores, a configuração familiar da vida de Gugu pode ser transformada, e ele fará o que estiver ao seu alcance para que isso não aconteça.

Dirigido por Allan Deberton, do maravilhoso Pacarrete, Feito Pipa é outra pérola vinda de um cineasta que se confirma como um dos cineastas mais afetuosos e delicados do cinema brasileiro contemporâneo. Assim como no filme estrelado por Marcélia Cartaxo, o cearense dá voz aos que vivem às margens a partir de uma leitura respeitosa e repleta de beleza, sem perder de vista as agruras e os percalços enfrentados por eles. No caso de Feito Pipa, o coração está na relação entre neto e avó, que, negros e de origem humilde, encontram conforto na companhia um do outro. E não se trata apenas de Dilma (Teca Pereira) aceitar a identidade de Gugu, já que o próprio garoto também olha para a avó, uma mulher que gosta de ir ao forró, mandar nudes e tomar umas cervejinhas, sem nenhuma dose de julgamento.

Como já constatei (e escrevi) um punhado de vezes, a generosidade sempre me parece muito mais emocionante do que qualquer acontecimento extremo. E há compreensão de sobra em Feito Pipa, principalmente do protagonista com ele próprio. Gugu não esconde sua natureza, pelo contrário: ele quer mesmo é apresentá-la ao mundo, em uma espécie de autoconhecimento que muitas pessoas levam uma vida inteira para alcançar, quando nem isso. Gay assumido, Deberton, a partir do ótimo roteiro escrito por André Araújo, filma o personagem com imensa sensibilidade desde a primeira cena, quando, vestindo o uniforme para uma partida de futebol, Gugu dança pela casa livremente. É o tipo de sequência que já deixa o espectador com um sorriso no rosto logo na arrancada.

Sempre tão cara para a população queer, a questão paterna é desenhada pela direção e pelo roteiro com admirável maturidade. Ao contrário do que comumente seria feito, Feito Pipa não molda o pai vivido por Lázaro Ramos como um monstro ou como um vilão. Há, sim, de sua parte, algum tipo de amor ou vontade de se aproximar do filho, o que, ao mesmo tempo, acaba sendo a maior tragédia de todas: afinal, como é possível existir qualquer resquício de amor se não há aceitação? Ótimo ator que é, Lázaro Ramos traduz essa dinâmica de amor e violência (emocional, não física) com a devida economia, mas o show mesmo é do pequeno Yuri Gomes, em performance reveladora, do tipo que toma e conduz o filme como um versátil furacão.

Entre a dor e a esperança, Feito Pipa segue os passos de Pacarrete e materializa na tela um universo muito particular, capaz até mesmo de, em certos momentos, tomar para si a imaginação — ou pelo menos os desejos — de um personagem que talvez não encontre reverberação na vida real. Os momentos finais são muito tocantes nesse sentido: é como se, em um determinado tempo e espaço, só existisse Gugu e sua vó, interpretada por Teca Pereira com uma entrega total de coração. Mais uma vez atravessando a vida de pessoas comuns, com suas dores e alegrias, para falar sobre um universo particular, Deberton acaba, orgânica e invariavelmente, abraçando tantas outras histórias do Brasil, no tipo de combinação que, para o meu gosto particular, é sempre belo e emocionante.

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