
De 2023 para cá, três obras audiovisuais abordaram o assassinato da socialite brasileira Ângela Diniz pelo empresário Doca Street em dezembro de 1976: o longa-metragem Ângela, de Hugo Prata; a minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, de Andrucha Waddington; e, agora, Pele de Rinoceronte, filme dirigido por Marcello Ludwig Maia que integra a mostra competitiva do 54º Festival de Cinema de Gramado.
Não é por acaso que a lembrança desse crime tenha sido reacendida com força: apenas em 2025, foram registradas mais de 1.500 vítimas de feminicídio, estatística que reflete uma média de 4,3 mulheres assassinadas por dia. O cinema, no entanto, tem tido dificuldades em encenar a trágica morte da socialite e suas reverberações. Se Ângela era uma cinebiografia equivocada, Pele de Rinoceronte escorrega na panfletagem com uma estrutura estranha e uma direção plana.
Exímio produtor de títulos como Amarelo Manga, A História da Eternidade e Três Verões, Maia dirige sua primeira ficção de longa-metragem criando personagens ficcionais para mostrar o impacto da morte de Ângela à época. Pele de Rinoceronte também opta por não nomear a personagem, rebatizando inclusive a Praia dos Ossos onde ela foi assassinada.
A proposta é compreensível, tanto para evitar a obrigação de ser fiel aos fatos quanto para sugerir que crimes como o cometido contra Ângela podem atingir qualquer mulher. Entretanto, é difícil se desvincular da vida real e fingir que Pele de Rinoceronte não é emoldurado por esse caso de feminicídio que marcou o Brasil, mesmo que a história seja sobre outras duas personagens: a jornalista Helena (Débora Falabella) e a advogada Maria Thereza (Naruna Costa).
As verdadeiras protagonistas correm paralelamente com suas histórias, envoltas por esse ar fake que não se dissipa e munidas de um texto bastante expositivo. Sendo ou não especificamente sobre Ângela Diniz, os debates propostos por Pele de Rinoceronte caem no lugar-comum, trazendo com frequência diálogos que citam pesquisas, números e leis sem que isso se incorpore organicamente à história. O resultado se reflete na falta de conexão do público com as personagens, afinal, os discursos se sobrepõem às construções dramáticas.
Outro ponto que me incomoda é como a ficção insiste em causar em uma mulher uma violência semelhante à sofrida por outra para que ela se solidarize com o que antes lhe era indiferente. Como disse Kristen Stewart na divulgação de A Cronologia da Água, sua estreia na direção, a existência por si só de qualquer mulher já é violenta. Por que, então, não podemos ver uma história onde o feminino se reconhece instintiva e imediatamente, sem que mais uma tragédia seja inflingida?
Diante disso, sobra muito pouco para Débora Falabella e Naruna Costa. A própria direção acompanha as personagens sem inventividade, inclusive na longa sequência em que a advogada ensaia seu argumento de acusação para os tribunais. A cena foi aplaudida na cena de abertura durante a exibição no Palácio dos Festivais, essencialmente pela força da atuação de Naruna Costa, mas o texto pronto demais, assim como em outros momentos, se converte em distração, como se fosse interpretado em um palanque, não exatamente em um filme. Eis aí o grande problema que vem acometendo a maior parte das produções dispostas a versar sobre importantes pautas da atualidade.
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