Cinema e Argumento

12 Anos de Escravidão

I don’t want to survive. I want to live.

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Direção: Steve McQueen

Roteiro: John Ridley, baseado no livro “12 Years a Slave”, de Solomon Northup

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Paul Dano, Lupita Nyong’o, Sarah Paulson, Brad Pitt, Paul Giamatti, Benedict Cumberbatch, Alfre Woodard, Quvenzhané Wallis, Taran Killam, Scoot McNairy, Tony Bentley

12 Years a Slave, EUA/Inglaterra, 2013, Drama, 134 minutos

Sinopse: 1841. Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um escravo liberto, que vive em paz ao lado da esposa e filhos. Um dia, após aceitar um trabalho que o leva a outra cidade, ele é sequestrado e acorrentado. Vendido como se fosse um escravo, Solomon precisa superar humilhações físicas e emocionais para sobreviver. Ao longo de doze anos ele passa por dois senhores, Ford (Benedict Cumberbatch) e Edwin Epps (Michael Fassbender), que, cada um à sua maneira, exploram seus serviços. (Adoro Cinema)

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Pode até não parecer, mas a escravidão ainda é um assunto muito recente. Basta pensar em um amigo negro seu. Não é muito remota a possibilidade que o bisavô dele tenha sido um escravo, por exemplo. E por mais que este doloroso ciclo da história mundial tenha chegado ao fim, ainda vivemos tempos em que sua lógica perpetua em outros movimentos e ações. Tomem os gays como referência, que ainda lutam para ter direitos reconhecidos e que volta e meia são agredidos e mortos por serem… gays. Na Uganda, recentemente, atearam fogo publicamente em um gay, que não sobreviveu e morreu na frente de várias pessoas – incluindo crianças. Por isso, a crueza com que Steve McQueen retrata as chicotadas em Patsy (Lupita Nyong’o) e a perversidade do senhor de escravos vivido por Michael Fassbender não chega perto do apelativo em 12 Anos de Escravidão. Ainda existe sim, em nossa sociedade, todo um prazer sádico em inferiorizar, torturar e assassinar os “diferentes”. Prazer doentio esse que é muito bem representado pela figura de Fassbender e por este filme como um todo, que é sim necessário e dotado de um absurdo valor humano e social.

Contudo, nestes casos, fica a dúvida se a admiração vem pelo que ele representa em um contexto específico ou necessariamente por sua execução. E confesso que minha recepção a 12 Anos de Escravidão se confunde um pouco nesses meandros. Às vezes, cinema é simplesmente uma questão de envolvimento: o filme pode ter tudo no lugar, ser repleto de aspectos admiráveis e mesmo assim não arrebatar um determinado espectador como uma obra cinematográfica. Talvez tenha sido essa minha reação ao filme de McQueen. Lindo em sua abordagem e bem realizado em sua proposta, mas não necessariamente uma obra que tenha me fisgado por completo. Envolvimento, enfim. De todo jeito, é diferente a forma como o diretor mostra escravidão nesta produção vencedora do Oscar 2014 de melhor filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante (Nyong’o). Uma escolha particular resume bem o posicionamento de seu realizador: ao invés das tradicionais tomadas aéreas para mostrar grande planícies lotadas de escravos trabalhando incessantemente, 12 Anos de Escravidão prefere navegar com a câmera nas próprias plantações, onde as folhas constantemente batem na câmera como se ela fosse alguém desbravando de perto aquele mundo.

Se recentemente o racismo foi mostrado açucaradamente em Histórias Cruzadas ou com grandes caricaturas no péssimo O Mordomo da Casa Branca, McQueen dá a lição de como tratar o tema com dignidade em seu mais novo filme. Não existe necessariamente uma história de grandes detalhes em 12 Anos de Escravidão. Basta saber que Solomon era um negro nascido livre que foi capturado ilegalmente e escravizado durante 12 anos. É o dia-a-dia como escravo, com angústias, esperanças, humilhações e um duro trabalho nos campos de algodão. Simples assim. Nada de surpresas ou maiores acontecimentos. Por isso que as interpretações são tão essenciais, especialmente porque 12 Anos de Escravidão é um filme que se apoia bastante em figuras que passam – brevemente ou não – pela vida de Solomon deixando marcas, sejam elas boas ou ruins. Assim, ligeiras mas boas participações existem aqui para contextualizar uma época e seus hábitos, como a de Paul Dano, por exemplo, interpretando com excelência um desprezível jovem racista que vive inventando razões para maltratar os escravos. É o representante de uma geração ensinada a ser cruel já desde os primeiros anos de vida.

Entretanto, é mesmo Chiwetel Ejiofor quem lidera com grande discrição esse excelente elenco. Nunca extravasando por completo a revolta de um negro injustiçado mas tampouco interiorizando suas angústias de forma que o espectador não perceba o que se passa com ele, Ejiofor segura com firmeza o filme, provando que seu nome complicado não deveria ser um empecilho para uma trajetória de sucesso. Na última cena, é particularmente impressionante essa “força contida” do ator. Ainda chamando a atenção em cena está a estreante Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ainda que ela pareça uma espécie de Anne Hathaway (Os Miseráveis) de 2014 com pouquíssimo tempo em cena (entra, arrebata, corta o coração e vai embora), a atriz surpreende e é uma das figuras que mais fica com o espectador após o término da história.

A direção de McQueen conduz muito bem os atores e a discreta trilha de Hans Zimmer dá atmosfera certa para essa tragédia diária do protagonista. Mas, mesmo que eficiente em seu lado técnico, 12 Anos de Escravidão não traz o horrível sendo fotografado lindamente. Quando chega perto de mostrar uma paisagem mais ampla, por exemplo, é com Edwin (Fassbender, a personificação do diabo) andando a cavalo ao fundo e chicoteando os negros durante o trabalho. Não há espaço para uma mera panfletagem de moralismos e piedades. São fatos que se bastam, simplesmente. Pode até ser que a escravidão tenha sido oficialmente superada, mas, de um jeito ou de outro, ela ainda reverbera. Só que 12 Anos de Escravidão não é sobre culpa. É sobre olhar para trás e pensar como não deixaremos o passado se repetir no presente e no futuro. Não saí tão envolvido com o resultado como cinema, mas tal mensagem é suficiente para que o valor humano do projeto seja incontestavelmente reconhecido – o que por si só já é uma rara vitória.

Melhores de 2013: indicados

O Mestre lidera a lista com oito indicações, seguido de Gravidade e Os Suspeitos com sete cada

O Mestre lidera a lista de melhores do ano do Cinema e Argumento com oito indicações, seguido de Gravidade e Os Suspeitos com sete cada

Premiações continuam sendo pauta aqui no blog. Agora, chegou a nossa vez de escolher os melhores filmes de 2013! Pelo sétimo ano consecutivo, fazemos essa lista, que, em edições anteriores, teve como grandes vencedores os seguintes longas: O Ultimato Bourne (2007), WALL-E (2008), Dúvida (2009), Direito de Amar (2010), Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (2011) e Precisamos Falar Sobre o Kevin (2012).

O recordista de vitórias até o momento é Direito de Amar, que faturou cinco categorias: filme, ator, roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora. Entre os atores, três já repetiram vitórias: Colin Firth, Marion Cotillard e Kate Winslet. Outra curiosidade é que um empate já aconteceu: em 2011, quando Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg dividiram o prêmio de melhor atriz por Melancolia.

Contemplando os filmes lançados comercialmente no circuito brasileiro em 2013 (tanto no cinema quanto em home video), a lista do ano em questão é liderada por O Mestre com oito indicações. GravidadeOs Suspeitos vêm logo em seguida com sete indicações cada. Uma importante mudança deste ano é a eliminação definitiva da categoria de melhor animação. Todos os filmes merecem ser analisado em uma única lista, sem subdivisões de documentários, animações ou produções nacionais, por exemplo – pensamento que este que já estávamos amadurecendo desde o ano passado. Fiquem abaixo com a nossa lista completa e acompanhem o blog para conhecer os vitoriosos! As artes dos posts ficarão a cargo do Márcio Ramos, meu amigo e colaborador de longa data do Cinema e Argumento.

MELHOR FILME

Gravidade
O Lugar Onde Tudo Termina
O Mestre
Os Miseráveis
Os Suspeitos

MELHOR DIREÇÃO

Alfonso Cuarón (Gravidade)
Denis Villeneuve (Os Suspeitos)
Derek Cianfrance (O Lugar Onde Tudo Termina)
Jacques Audiard (Ferrugem e Osso)
Paul Thomas Anderson (O Mestre)

MELHOR ATRIZ

Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente)
Cate Blanchett (Blue Jasmine)
Marion Cotillard (Ferrugem e Osso)
Meryl Streep (Álbum de Família)
Miranda Otto (Flores Raras)

MELHOR ATOR

Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)
Daniel Day-Lewis (Lincoln)
Hugh Jackman (Os Miseráveis)
Joaquin Phoenix (O Mestre)
John Hawkes (As Sessões)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Amy Adams (O Mestre)
Helen Hunt (As Sessões)
Julia Roberts (Álbum de Família)
Léa Seydoux (Azul é a Cor Mais Quente)
Sally Hawkins (Blue Jasmine)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Barkhad Abdi (Capitão Phillips)
Christoph Waltz (Django Livre)
Eddie Redmayne (Os Miseráveis)
Jake Gyllenhaal (Os Suspeitos)
Philip Seymour Hoffman (O Mestre)

MELHOR ELENCO

Álbum de Família
O Mestre
O Que Se Move
Os Suspeitos
Tatuagem

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Antes da Meia-Noite *
Blue Jasmine
O Mestre
O Som ao Redor
Os Suspeitos

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Álbum de Família
Azul é a Cor Mais Quente
Ferrugem e Osso
O Lugar Onde Tudo Termina
As Sessões

MELHOR TRILHA SONORA

Anna Karenina
Flores Raras
Gravidade
Indomável Sonhadora
O Mestre

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Anna Karenina
Gravidade
O Hobbit: A Desolação de Smaug
Rush – No Limite da Emoção
Serra Pelada

CANÇÃO ORIGINAL

“Last Mile Home” (Álbum de Família)
“Oblivion” (Oblivion)
“Polka do Cu” (Tatuagem)
“Suddendly” (Os Miseráveis)
“Young and Beautiful” (O Grande Gatsby)

EDIÇÃO/MIXAGEM DE SOM

Gravidade
A Hora Mais Escura
Os Miseráveis
Rush – No Limite da Emoção
O Som ao Redor

FIGURINO

Anna Karenina
Flores Raras
O Grande Gatsby
Lincoln
Os Miseráveis

FOTOGRAFIA

Amor Pleno
Anna Karenina
Gravidade
Ferrugem e Osso
Os Suspeitos

MONTAGEM

Capitão Phillips
A Hora Mais Escura
O Lugar Onde Tudo Termina
Rush – No Limite da Emoção
Os Suspeitos

MAQUIAGEM

Além da Escuridão – Star Trek
Os Miseráveis
A Morte do Demônio

EFEITOS VISUAIS

Além da Escuridão – Star Trek
Gravidade
O Hobbit: A Desolação de Smaug

* por questões pessoais, consideramos o roteiro de Antes da Meia-Noite original. Não acreditamos que uma continuação deve ser considerada adaptada só por dar sequência a um história já existente. Se é uma continuação com uma trama inteiramente nova, adotamos o posicionamento que ela é sim original. O que conta é a origem da história em questão.

Marieta Severo e a força teatral de “Incêndios”

Marieta Severo é a protagonista da montagem brasileira de Incêndios. Crédito: Leo Aversa

Marieta Severo é a protagonista da montagem brasileira de Incêndios, em cartaz em Porto Alegre de 20 a 22 de março. Foto: Leo Aversa

Wajdi Mouawad, autor libanês de Incêndios, não especifica qual a localização exata da história vivida pela árabe Nawal. Devido à origem do autor, deduz-se que tudo acontece em algum lugar do Oriente Médio. Mas, para Marieta Severo, protagonista da versão brasileira da trama (a primeira de Mouawad a ser encenada no Brasil), a saga de Nawal está longe de ser restrita a personagens de um lugar específico: “Essa é uma história que toca especialmente as mães. Qualquer mãe. Um trabalho que dedico a Zuzu Angel e a todas as mães da ditadura”.

No espetáculo, que fica em cartaz em Porto Alegre de 20 a 22 de março no Theatro São Pedro, Marieta dá vida à Nawal em todas as diferentes fases da personagem. Enfrentando décadas de uma guerra civil que parece nunca ter fim, a protagonista passa seus últimos anos em voluntário exílio no Ocidente, onde morre e deixa em testamento uma difícil missão para seu casal de filhos gêmeos (interpretados por Felipe de Carolis e Keli Freitas): encontrar o pai e também um irmão perdido em seu remoto passado no Oriente. “O que vemos em Incêndios é uma verdadeira tragédia, uma viagem dolorosa do ser humano”, comenta a atriz.

Dirigida por Aderbal Freire Filho, o espetáculo vem de uma trajetória de sucesso no Rio de Janeiro, onde ficou três meses em cartaz. A não-linearidade do texto e o elenco formado por oito atores são os diferenciais da peça em tempos de vícios comerciais do teatro. “O público está acostumado com dois tipos de espetáculos: os musicais e os monólogos. Incêndios vai na contramão, com um outro tipo de proposta. Por isso, muitos se surpreendem com o resultado. E a história é uma espécie de thriller, um quebra-cabeça, mas nada ‘cabeça’ ou intelectualizado. O público tem reconhecido esse mérito e a grande força teatral do texto”, comemora a atriz.

"Uma peça tem que ter ressonância no público. Quero falar sobre assuntos que despertem a curiosidade de quem está assistindo", conta Marieta. Foto: Leo Aversa

“Uma peça tem que ter ressonância no público. Quero falar sobre assuntos que despertem a curiosidade de quem está assistindo”, conta Marieta. Foto: Leo Aversa

Afastada dos palcos desde 2007, quando protagonizou As Centenárias (também de Freire Filho) e atualmente preparando a última temporada do seriado A Grande Família, Marieta revela que sempre procura um aspecto específico quando se envolve com um espetáculo: a identificação do público com a história. Para a atriz, quem está na plateia precisa se interessar intimamente pelo que está no palco. “Uma peça tem que ter ressonância no público. Quero falar sobre assuntos que despertem a curiosidade de quem está assistindo. Incêndios tem muito disso, já que vem em um momento do Brasil onde vivemos uma espécie de guerra civil velada, com vários desaparecimentos nunca resolvidos e mortes por violência”.

Incêndios é um texto originalmente teatral, mas, recentemente, sua saga ganhou uma nova e bem sucedida repercussão mundial com um longa-metragem de mesmo nome dirigido pelo canadense Denis Villeneuve indicado ao Oscar 2011 de melhor filme estrangeiro. Marieta garante que as duas versões se comunicam com o público de diferentes maneiras e que a universalidade da história é um fator que ajuda no processo. “É sobre resgatar a própria história, sobre dois filhos que precisam reconstruir a identidade da mãe antes de procurar as deles. E o público capta tudo isso. Em cena, sentimos um silêncio avassalador da plateia”, conclui a atriz. O resultado foi consagrado nesta terça-feira (11) com o Prêmio Shell de Teatro de melhor direção para Aderbal Freire-Filho.

* Matéria originalmente produzida como parte do trabalho de assessoria de imprensa para o espetáculo “Incêndios”, em Porto Alegre, com a Pauta – Conexão e Conteúdo

Nebraska

Have a drink with your old man. Be somebody!

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Direção: Alexander Payne

Roteiro: Bob Nelson

Elenco: Will Forte, Bruce Dern, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Mary Louise Wilson, Rance Howard, Tim Driscoll, Devin Ratray, Angela McEwan, Glendora Stitt, Elizabeth Moore, Kevin Kunkel, Dennis McCoig

EUA, 2013, Drama, 115 minutos

Sinopse: Woody Grant (Bruce Dern) é um homem idoso que acredita ter ganho US$ 1 milhão após receber pelo correio uma propaganda. Decidido a retirar o prêmio, ele resolve ir a pé até a distante cidade de Lincoln, em Nebraska. Percebendo que a teimosia do pai o fará viajar de qualquer jeito, seu filho David (Will Forte) resolve levá-lo de carro. Só que no caminho Woody sofre um acidente e bate com a cabeça, precisando descansar. David decide mudar um pouco os planos, passando o fim de semana na casa de um de seus tios antes de partir para Lincoln. Só que Woody conta a todos sobre a possibilidade de se tornar um milionário, despertando a cobiça não só da família como também de parte dos habitantes da cidade. (Adoro Cinema)

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Alexander Payne é um mestre em premissas que muitos definem como “convencionais”. Só que, na verdade, como bem apontou a jornalista Isabela Boscov, ele ainda é um dos poucos cineastas que contam histórias que ninguém mais quer contar. Na busca pelo novo e pelo extraordinário, o cinema tem se esquecido de valorizar as pequenas coisas da vida, como o próprio Payne já celebrou em vários trabalhos de sua filmografia. O cotidiano escolar e competitivo em Eleição e a confusa solidão de um senhor recentemente aposentado e viúvo em As Confissões de Schmidt, por exemplo, colocaram o diretor como uma referência em histórias sobre pessoas como eu e você. Histórias essas que Payne sempre contou com inteligência, melancolia e inúmeras reflexões.

De uns tempos para cá, contudo, o diretor vinha em uma acentuada escala de retrocesso. Desde As Confissões de Schmidt – sua obra mais interessante -, a banalização apontada pelos detratores de fato passou a tomar conta também das próprias escolhas narrativas e estéticas do diretor. E, curiosamente, foi justamente a partir de trabalhos convencionais inclusive em texto que ele passou a ser celebrado pelas premiações. Não sou fã de Sideways por motivos particulares, mas o ápice do adestramento de Payne foi mesmo com Os Descendentes, que funcionava única e exclusivamente em função de George Clooney e Shailene Woodley. Assim, nenhuma novidade ter preguiça com Nebraska, o mais recente trabalho de Payne. O que eu não esperava, no entanto, era ser completamente surpreendido pelo longa, que é simplesmente o melhor do diretor em anos.

Alexander Payne voltou a ser Alexander Payne nesse filme estrelado por Will Forte e Bruce Dern. Sua capacidade de explorar o que existe de mais sutil e fascinante em personagens da vida real está de volta aqui. O preto-e-branco faz todo o sentido para ilustrar essa história que deve ter o maior elenco idoso que o cinema já viu – o que é especialmente interessante, visto que o verdadeiro protagonista da história é um adulto de meia-idade inserido neste meio. É por meio do convívio com familiares e de uma viagem em especial que realiza com o pai que David (Forte) passa a construir não apenas a distante identidade de um pai que parece viver em uma outra órbita, mas a dele próprio, que vem de um relacionamento fracassado e de uma vida que parece não lhe inspirar muita felicidade em tempos que o irmão jornalista foi promovido com sucesso na TV.

A viagem de David com Woody (Dern) é, de certa forma, uma fuga para o primeiro, que alega pegar a estrada apenas para não destruir de imediato os sonhos loucos do pai, que acha que virou milionário e precisa viajar para buscar o prêmio. David diz que deseja apenas manter um pouco mais a fantasia do patriarca, que, já bastante idoso, sabe-se lá quanto tempo ainda tem de vida. Só que existem muitas outras pautas em Nebraska que estão sutilmente escondidas no roteiro original de Bob Nelson. São fascinantes as pinceladas que o texto dá para formar a figura do pai vivido por Dern. Enquanto uma mulher previamente apaixonada por Woody diz que ele era encantador na juventude, os amigos dizem que ele tinha irremediáveis problemas com bebida. Ao passo que a mãe reclamona alega que o grande erro da vida de Woody foi acreditar demais nas pessoas, na sequência ela já revela um passado conturbado dele: quando criança, viu o irmão morrer no quarto em que ambos dividiam.

É uma jogada muito esperta a de Payne e Nelson de colocar toda a figura de Woody na boca dos outros personagens. Não é um caminho fácil, mas a dupla foi muito bem sucedida, já que também acerta ao apresentá-lo como um pai que parece preferir a vida em uma outra dimensão para não ter que lidar com uma esposa praticamente insuportável, uma família distante e uma vida mediana e vazia. “Se ele realmente estiver milionário, vou usar o dinheiro para colocá-lo em um asilo!”, diz a matriarca. E é exatamente disso que Woody quer escapar ao viver em sua própria bolha: de uma árvore genealógica cuja dinâmica é cercada de críticas, acidez e impaciência – mesmo que ele próprio tenha absorvido e reproduzido muito desses comportamentos.

Nebraska é um road movie, um olhar crítico e rabugento da terceira idade, um relato sobre comunicação entre gerações e um belo estudo sobre como pais influenciam filhos e vice-versa. Tudo com a devida calma e sutileza, trazendo aquela sensação tão frequentemente errada de que nada está acontecendo. Existe muito de As Confissões de Schmidt aqui: a terceira idade, o mau humor, a humanidade dessa última fase da vida e o retorno às origens em uma viagem interior. Porém, por mais melancólico que o filme seja em diversas partes (e o excelente desempenho de Bruce Fern é a grande força desse triste sentimento que o filme passa), ele também é muito bem resolvido em seu humor. Da comédia mais genuína a questões familiares super delicadas, Nebraska cria, portanto, um núcleo familiar fantástico, onde até os extremos mais previsíveis funcionam (o filho bem sucedido mas distante, o filho próximo mas praticamente fracassado, etc).

Em suma, não espere uma produção de grandes momentos, reviravoltas reveladoras ou afins. Alexander Payne não é disso. Nunca foi.  E é admirável como mesmo narrando situações tão cotidianas ele consiga um excelente ritmo, tornando Nebraska um longa de humor vívido, de dramas discretíssimos, de memórias dolorosas e de projeções esperançosas. É o filme do Oscar 2014 que ninguém vai ver (totalizou seis indicações e não levou nenhuma), que poucos vão sequer saber da existência ou muito menos amar. Mas realmente é uma pena que seja assim, pois é um dos grandes momentos da carreira de Payne e certamente uma das melhores experiências desse início de ano.

Ela

The past is just a story we tell ourselves.

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Direção: Spike Jonze

Roteiro: Spike Jonze

Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson (voz), Amy Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Letscher, Artt Butler (voz), May Lindstrom, Bill Hader (voz), Spike Jonze (voz), Brian Johnson, Luka Jones, Brian Cox (voz)

Her, EUA, 2013, Drama, 126 minutos

Sinopse: Theodore (Joaquin Phoenix) é um escritor solitário, que acaba de comprar um novo sistema operacional para seu computador. Para a sua surpresa, ele acaba se apaixonando pela voz deste programa informático, dando início a uma relação amorosa entre ambos. Esta história de amor incomum explora a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia. (Adoro Cinema)

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Amar é realmente algo complicado. O quarteto britânico Keane diz, na canção Spiralling, que, quando nos apaixonamos, estamos, na realidade, nos apaixonando por nós mesmos. Isso tem um fundo de verdade: quando entramos em uma relação, queremos alguém capaz de suprir as nossas necessidades, as nossas angústias e a nossa vontade de escapar da solidão. Sim, de certa forma, realmente nos apaixonamos por nós mesmos. Por isso, não dá para julgar, de forma alguma, o fato de Theodore (Joaquin Phoenix), o protagonista de Ela, apaixonar-se por Samantha (voz de Scarlett Johansson), um sistema operacional de computador que tem inteligência e responde a exatamente tudo que o protagonista precisa. Se ele se sente só, lá está ela para confortá-la. Se ele precisa trocar juras de amor, ela também se mostra disponível a isso. Mas seria fácil definir Ela como uma história sobre a solidão em tempos virtuais. Seria fácil se esse não fosse um filme de Spike Jonze, diretor que está muito mais preocupado com as questões íntimas de seu protagonista do que com o contexto em que elas acontecem.

De certa forma, é surpreendente que um filme como Ela leve a assinatura de Spike Jonze. Conhecido por sua inegável inventividade, ele nunca foi um diretor intimista. Suas originalidades, inclusive, ganhavam contornos especificamente excêntricos em longas como Quero Ser John MalkovichAdaptação, que estavam bem longe de ser atraentes para um público maior. Se a princípio poderia ser estranha a ideia de Jonze contar uma história melancólica como a de Ela, não demora muito para o espectador perceber que ele tem sim tino para tal investida. Algumas de suas particularidades estão ali (percebam o curioso contraste entre o design de produção quase futurístico e os figurinos antiquados e formais do protagonista), mas é de fato algo novo para o diretor, agora mais focado nas questões do coração e da vida. Em tese, a proposta não deixa de ser atípica, mas nada em Ela puxa para esse lado. Tanto que o fato de Theodore estar apaixonado pela tal voz de computador é encarado de forma natural por todos, que também parecem partilhar da mesma solidão e necessidade de ter alguém (ou algo?) incondicionalmente presente.

Não se engane, entretanto, ao pensar que Ela negligencia a realidade. Ali está Catherine (Rooney Mara), ex-eposa de Theodore, para também mostrar o outro lado da moeda e dizer que é uma completa loucura essa paixão por algo virtual. E ela faz tal acusação não criticando o programa virtual, mas ressaltando a ideia de que a questão é o próprio protagonista, que se entrega à Samantha porque simplesmente não consegue lidar com os percalços de um relacionamento real. Para Catherine, ele quer a perfeição que não conseguiu encontrar em uma relação com ela – e que, obviamente, não encontrará em um relacionamento com qualquer pessoa de carne e osso. Por isso, Ela ganha o espectador como o retrato atemporal de uma busca que, conscientemente ou não, todos nós fazemos. Ainda é fácil se conectar com Theodore, seja pela sua incapacidade de seguir em frente após um doloroso divórcio ou por sua espera por alguma novidade na vida. E, quando ele diz que já sentiu todo o que tinha para sentir e que tudo a partir de agora será apenas uma variação inferior de antigos sentimentos, Ela também se torna ainda mais melancólico no (quase) monólogo que proporciona ao seu personagem.

Repleto de citações marcantes (“O passado é apenas uma história que contamos para nós mesmos”, “O amor é a única insanidade socialmente aceita”), o longa de Jonze acerta na reflexão das relações, seja com alguém ou com nós mesmos. Dando rosto ao melancólico Theodore está Joaquin Phoenix, um ator que mostra que, em tempos que parece cada vez mais frequente a perda de grandes gênios do cinema (Philip Seymour Hoffman, por exemplo, com quem o próprio Phoenix atuou brilhantemente no recente O Mestre), ainda temos novos atores que estão aí para marcar época. Sua transformação é novamente impressionante: nada nesse desempenho se repete e a sua imagem de sujeito difícil da vida real não tem qualquer influência aqui. O papel é praticamente solo, o que é um desafio e um presente que Phoenix abraça sem medo. Certamente um desempenho menor, mas tão minucioso quanto vários outros da carreira do ator.

Ampliando a abrangência da melancolia de Ela ainda temos a imersiva e espetacular trilha da banda canadense Arcade Fire, que realiza um trabalho inovador e até mesmo atípico para sua carreira. É uma nova prova de que bandas deveriam participar mais do mundo do cinema (lembram dos acertos de Daft Punk em Tron – O Legado e de M83 em Oblivion?). O ritmo do filme não é dos mais interessantes e talvez a guinada final da trama seja um tanto abrupta só para colocar um ponto final nos conflitos, só que Ela tem o golpe baixo de acabar justamente em um momento fantástico e tocante, o que minimiza qualquer depreciação que poderia se ter com o resultado. Saímos do cinema um tanto arrasados, mas também esperançosos com a vida e com a possibilidade de que, ao contrário do que aponta o protagonista, existem sim novos sentimentos e acontecimentos pela frente. Cabe a nós torná-los uma realidade.