Cinema e Argumento

Melhores de 2014 – Atriz Coadjuvante

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Mike Leigh é um diretor dos mais generosos. Além de estabelecer um rico trabalho de criação com seus atores, consolida verdadeiras amizades. Não é necessário pesquisar muito para ver que Leigh volta e meia seleciona intérpretes quase figurantes de longas anteriores com sua assinatura para brilhar em seus novos trabalhos. Lesley Manville foi uma das agraciadas. A atriz, que trabalhou pela primeira vez com o diretor em Segredos e Mentiras, onde fazia ponta como uma assistente social, ganhou a atenção que merecia em Mais Um Ano, filme que, após quatro anos de atraso, chegou quase despercebido ao Brasil em 2014. No típico papel de uma adorável maluquinha, Manville rouba a cena como a amiga de família recém separada e em busca de uma nova vida. Transitando perfeitamente entre o drama e a comédia (o filme se estrutura a partir das quatro estações, com modificações no tom da história), ela é impecável ao construir uma mulher que se esconde entre sorrisos e tiradas divertidas. Mas, no fundo, a Mary de Manville é tão humana e repleta de dúvida como todos nós. Que bela escolha, Mike Leigh!

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Helen Hunt (As Sessões) | 2012 – Viola Davis (Histórias Cruzadas) | 2011 – Amy Adams (O Vencedor) | 2010 – Marion Cotillard (Nine) | 2009 – Kate Winslet (O Leitor) | 2008 – Marcia Gay Harden (O Nevoeiro) | 2007 – Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)

Últimas Conversas

Deus é o homem que morreu.

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Direção: Eduardo Coutinho

Roteiro: Eduardo Coutinho

Elenco: Documentário

Brasil, 2015, Documentário, 85 minutos

Sinopse: O cineasta Eduardo Coutinho entrevista diversos estudantes do ensino médio público no Rio de Janeiro, perguntando sobre a suas vidas atuais e expectativas para o futuro.

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Sem saber, perto do fim, Eduardo Coutinho dedicava seus últimos dias como cineasta a se debruçar sobre o início da vida. Não apenas porque Últimas Conversas, o último trabalho que dirigiu antes de ser assassinado pelo próprio filho no início de 2014, faz uma leitura da juventude atual, mas porque em diversos momentos de sua obra derradeira o diretor expressa o grande desejo de realizar um documentário com crianças – que, segundo ele, são fascinantes pela falta de censura e julgamentos. Se a adolescência é um período da vida de muitas descobertas, mas também de infinita insegurança, Coutinho, que aqui abre o filme frente às câmeras como um personagem, revela uma faceta tão vulnerável quanto a das figuras que entrevista: durante as gravações, diz não estar encontrando um filme em que acredita. Para ele, Últimas Conversas só deveria ser finalizado em função de um contrato com o governo do Rio de Janeiro. O diretor veio a falecer antes de realizar a montagem, e o documentário, que recebeu os últimos retoques pelas mãos de seus discípulos Jordana Berg e João Moreira Salles, encanta – com bastante pesar – pela decisão da dupla de colocar Coutinho como uma figura decisiva para a costura do documentário.

Nunca saberemos se este era o Últimas Conversas que o cineasta gostaria de ver, mas não há dúvidas de que é a versão de que nós espectadores precisávamos ver. O talento habitual de Coutinho de transformar entrevistas em conversas absurdamente naturais está todo ali, mas a escolha da montadora Jordana Berg de utilizar o máximo que podia das visões do diretor atrás das câmeras para complementar o que é dito pelos entrevistados é o ponto alto do resultado. Logo de cara, há quem possa estranhar o fato de Últimas Conversas ser possivelmente o longa que mais reproduza na tela as intervenções (e por que não segredos?) de Coutinho como o entrevistador brilhante que era. Só que é justamente a presença dele que faz do documentário uma experiência rica, conseguindo até mesmo desviar a sensação da repetição, visto que aqui o diretor se apoia novamente na mesma estrutura de Jogo de Cena e As Canções: apenas uma cadeira para o entrevistado sentar e contar sua história. Por meio das indagações, curiosidades e até mesmo discussões de Coutinho, Últimas Conversas cresce e se torna muito mais do que apenas os relatos de uma geração que, como o próprio diretor constata, é cercada de pessimismo apesar das razões para ver apenas sonhos e possibilidades à frente. 

Mais enxuto que o habitual (a duração não chega a 90 minutos), o projeto traz um desafio a Coutinho: a de conversar com uma geração que normalmente já olha para os mais velhos com julgamentos e que não é necessariamente desenvolta e fácil de entrevistar. Entretanto, é tal contraste – o de um senhor de 80 anos  que não sabe lidar direito com jovens que ainda não chegaram nem aos 20 – que torna a dinâmica de Últimas Conversas tão interessante. Não se engane, por outro lado, ao achar que, por ser um filme centrado em adolescentes que as conversas se limitarão a assuntos rasos ou meramente divertidos como o das diferenças entre “ficar” e “namorar”. Aliás, há uma passagem de grande força dramática: aquela em que uma garota, reivindicado o amor que nunca teve de sua mãe, explica como quer ser uma pessoa completamente diferente da figura que a criou e ainda assim estar ao lado dela incondicionalmente. São toques pra lá de especiais que só poderiam vir de alguém como Coutinho. Últimas Conversas também acaba, de certa forma, sendo sobre ele próprio e sobre como sua presença, sempre insubstituível, nos lembra de que, assim como os adolescentes que entrevistou, ainda tinha muito o que a realizar pela frente. A saudade permanece. Até o fim.

Melhores de 2014 – Roteiro Adaptado

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Ninguém entendeu direito a ausência de Garota Exemplar entre os indicados ao Oscar 2015. A falta mais sentida certamente foi na categoria de roteiro adaptado, uma vez que Gillian Flynn, ao adaptar o livro homônimo de sua própria autoria, entregou aquele que é possivelmente o texto mais surpreendente do ano passado. Encanta como Flynn pega o espectador de surpresa constantemente em Garota Exemplar, saindo-se muitíssimo bem até mesmo quando dá uma significativa virada na trama e inverte por completo o foco da história. O que poderia fazer com que o filme de David Fincher se tornasse o típico caso de dois filmes dentro de um resultou em um estudo ainda mais fascinante dos personagens – em especial, claro, de Amy Dunne, interpretada com maestria por Rosamund Pike. O drama e o suspense envolvendo o desaparecimento de Amy são balanceados com pleno êxito, e ainda há espaço para humor e outras discussões acerca das obrigações e expectativas envolvendo votos matrimoniais. Um roteiro exemplar. Ainda disputavam esta categoria:  Alabama Monroe, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, O Homem Duplicado e Philomena.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Azul é a Cor Mais Quente | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

O Exótico Hotel Marigold 2

There’s no present like the time.

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Direção: John Madden

Roteiro: Ol Parker

Elenco: Dev Patel, Maggie Smith, Judi Dench, Bill Nighy, Richard Gere, Ronald Pickup, Penelope Wilton, David Strathairn, Celia Imrie, Diana Hardcastle, Fiona Mollison, Tina Desai, Shazad Latif, Avijit Dutt

The Second Best Exotic Marigold Hotel, Inglaterra/Estados Unidos, Comédia/Drama, 122 minutos

Sinopse: Sonny Kapoor (Dev Patel) tenta encontrar tempo para expandir os negócios enquanto se preprara para o casamento com Sunaina (Tena Desae). O Hotel Marigold tem lotação praticamente esgotada e ele precisa de uma nova propriedade para receber novos hóspedes. (Adoro Cinema)

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Ao receber o Oscar de melhor atriz em 2014 por seu desempenho em Blue Jasmine, Cate Blanchett saudou as colegas indicadas e justificou a ausência de uma delas: Judi Dench, que concorria por Philomena. Lamentando a ausência da colega e amiga – as duas atuaram juntas oito anos antes em Notas Sobre Um Escândalo – Blanchett disse que espera poder sonhar com uma carreira como a de Dench, que, aos 79 anos, faltava ao Oscar para estar na Índia gravando a continuação de um filme seu de grande sucesso. O trabalho em questão era O Exótico Hotel Marigold, e a lembrança de Blanchett para o feito de uma veterana estar em alta no cinema é para lá de válida: em tempos que as atrizes de idade mais avançada não conseguem nem pagar o aluguel (lembram de Dianne Wiest?), ver um filme como Marigold, que traz uma legião de grandes atores reunidos e alcançando notável sucesso comercial, é o suficiente para renovar a nossa fé na valorização desses intérpretes. Assim, dá até para relevar o fato de que tanto o primeiro filme quanto esta continuação novamente dirigida por John Madden não chegam perto de alcançar o brilhantismo de seu elenco.

O que não permitia O Exótico Hotel Marigold alçar voos mais altos era a insistência do roteiro de Ol Parker em querer ser maior que os atores. Isso quer dizer que o primeiro volume quase caía no ostracismo ao acumular melodramas e frases de auto-ajuda ao invés de criar situações realmente descontraídas e genuínas para que os atores pudessem tirar o melhor delas entre eles próprios. Mesmo sem um diretor Marigold daria certo com um elenco daqueles. Só que Parker e Madden preferiram filosofar e refletir, o que deixava o roteiro quase aborrecido. Esqueciam, portanto, quem eram as verdadeiras estrelas daquele filme. Já diz o ditado que não se mexe em time que está ganhando e, como o público comprou o resultado (o primeiro volume faturou nada menos que dez vezes mais que o seu orçamento), a equipe permanece a mesma, incluindo o diretor e o roteirista (no elenco só Tom Wilkinson não retorna por motivos da trama mesmo). Com isso, não existem muitas variações na continuação e quem entrou no clima do filme anterior certamente voltará a se envolver agora. Enquanto isso, para os que, assim como eu, ficaram um tanto decepcionados, existe uma notícia relativamente boa: O Exótico Hotel Marigold 2 finalmente percebe que o elenco é obviamente o seu maior trunfo.

A fórmula é a mesma – na Índia todos mudam de vida e acham a solução para os seus problemas – e obviamente não poderiam faltar as frases de efeito, as belas paisagens e a música indiana novamente assinada por Thomas Newman. Na jogada, ainda surge um novato que incrementa a previsibilidade: Richard Gere, com o seu manjado papel de galã de cabelos brancos que faz todas as mulheres suspirarem. Resumindo, não existe absolutamente nada de novo em O Exótico Hotel Marigold 2, com exceção do roteiro se atentar à ideia de que não precisa – e nem deve – tentar ser mais profundo do que realmente pode ser. Ainda que lutem com o excesso de personagens, os atores estão visivelmente mais à vontade aqui, principalmente porque não existe mais a formalidade de apresentar personagens e introduzir suas respectivas personalidades. Todos parecem mais radiantes em uma história que, diminuindo sua veia didática e enfadonha (mas nem por isso menos previsível), dá a entender que precisa apenas criar pretextos para que eles esbanjem suas inegáveis naturalidades em cena. 

Com a decisão de ser uma experiência despretensiosa, o longa de John Madden – ou melhor, do respeitável grupo de atores – flerta com o irresistível, afinal, cada um dos intérpretes poderia apenas ler uma lista telefônica e ainda assim O Exótico Hotel Marigold 2 teria seu valor. Existe realmente um clima melhor aqui, algo mais vivo que até torna palatáveis as reflexões típicas de filmes sobre pessoas que viajam para repensar a vida. Baixando a guarda, é possível se inspirar, e a maior prova de que John Madden e Ol Parker compreenderam quem dá vida ao filme é o plano final que, ao colocar a câmera no rosto envelhecido mas emocionado de Maggie Smith, afirma que não existe presente mais valioso que o tempo. Nada mais justo do que encerrar a história com a rabugenta Muriel Donnelly da atriz, que se revela o coração desta continuação e que é a síntese da mensagem mais bonita do filme: a de que a morte, em certo ponto da vida, pode sim estar sempre presente em nosso imaginário – mas como uma importante lembrança de que é nossa obrigação viver os dias que nos restam com o maior carinho possível.

Melhores de 2014 – Figurino

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A brilhante figurinista italiana Milena Canonero ganhou o seu quarto Oscar pelo trabalho que realizou em O Grande Hotel Budapeste. Entre os maiores méritos da carreira da veterana está o de criar não apenas figurinos grandiosamente elaborados como os de Maria Antonieta, mas também outros discretamente eficientes, a exemplo de Entre Dois Amores e agora no mais recente filme de Wes Anderson. Em sua terceira colaboração com o diretor, a figurinista é sutil sem perder a elegância, realizando um trabalho impecável na principal lógica de um bom guarda-roupa no cinema: a de que ele deve transmitir com fidelidade a personalidade e o espírito de seus personagens. Basta olhar para os trajes bem alinhados e justos de Gustave que refletem toda sua disciplina por vezes excessiva. Quando precisa ser extravagante, Canonero também o faz com perfeição, como nas roupas que Tilda Swinton usa como a excêntrica Madame D. Tudo na medida em um trabalho impressionante até para os mais desatentos. Ainda disputavam esta categoria: 12 Anos de Escravidão, Amantes Eternos, Malévola e Trapaça.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Anna Karenina | 2012 – W.E. – O Romance do Século | 2011 – O Discurso do Rei | 2010 – A Jovem Rainha Victoria | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Elizabeth – A Era de Ouro | 2007 – Maria Antonieta