Cinema e Argumento

Rapidamente

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Nicole Kidman estrela Antes de Dormir, um suspense monótono que nos remonta à baixa que a carreira da atriz sofreu anos atrás.

ANTES DE DORMIR (Before I Go To Sleep, 2014, de Rowan Joffe): Recebido como uma versão de suspense da comédia Como Se Fosse a Primeira VezAntes de Dormir é um filme sem ânimo. Não é só a condução morna e sem qualquer mistério interessante que faz a monotonia imperar neste novo trabalho do diretor Rown Joffe – que, em 2010, chegou a dirigir Helen Mirren em Pior dos Pecados. O problema é que o filme é repetitivo e entrega resoluções perfeitamente deduzíveis, incluindo na própria escalação do elenco. Com 90 minutos que parecem 120, o resultado é arrastado e nada instigante, onde nem mesmo Nicole Kidman (novamente em um abacaxi que nos remonta à baixa de sua carreira de anos atrás) consegue imprimir alguma personalidade à trama. Com um clímax que beira o constrangedor por sua obviedade e também pela forma como encena uma luta entre dois personagens, Antes de Dormir, para completar, se arrasta em seus minutos finais quando decide trazer momentos dramáticos e de reflexão para a protagonista. É uma “barriga” que o filme poderia ter evitado, tornando-se objetivo pelo menos em sua conclusão.

JOGO PERIGOSO (Second Serve, 1986, de Anthony Page): Muito antes de Felicity Huffman em Transamérica existiu Vanessa Redgrave neste telefilme dos anos 1980 chamado Jogo Perigoso. Redgrave sempre foi uma grande atriz, mas aqui ela tem um de seus momentos mais impressionantes: começa como um homem que se veste de mulher e faz inúmeros tratamentos (hormonais e psicológicos) para depois finalmente se transformar em uma figura inteiramente feminina. No caso, a famosa tenista estadunidense Renée Richards, que, sim, existiu na vida real. O cunho biográfico de Jogo Perigoso não é, no entanto, um limitador para o telefilme dirigido por Anthony Page, que obviamente tem em Redgrave a sua maior força. Convincente em todas as etapas de sua personagem (é impossível reconhecê-la como homem), a atriz, apoiada por um impecável trabalho de maquiagem, dá corpo e alma à personagem com bastante força e delicadeza, fazendo até com que esqueçamos eventuais ferramentas melodramáticas como a invasiva trilha sonora e cenas mais extremadas, a exemplo daquela envolvendo uma agressão preconceituosa em um restaurante. Felicity Huffman deve ter feito suas aulas aqui.

GOD HELP THE GIRL (idem, 2014, de Stuart Murdoch): O estreante diretor Stuart Murdoch tem uma longa carreira como compositor, com músicas que já integraram coletâneas de filmes independentes marcados por ótimas trilhas como Juno(500) Dias Com Ela. Seu debut no cinema como diretor não poderia, claro, ter outra vertente a não ser a musical. Exibido no Festival de Berlim, God Help the Girl é um simpático e por vezes melancólico musical britânico que abraça a música como componente narrativo fundamental para contar a história de uma garota que, tentando se recuperar de vários problemas emocionais em uma clínica, encontra na música e nos novos amigos que este mundo lhe proporciona um combustível para que finalmente possa dar uma virada em sua vida. É bem certo que em determinado ponto God Help the Girl se torna excessivamente musical, com canções que pouco acrescentam à história (percebam que este não é um filme do gênero como Os Miseráveis, onde todos os diálogos são musicalizados), o que traz um perceptível problema de ritmo para o longa. O fato do diretor escancarar a todo minuto que está fazendo um filme “queridinho” para jovens indies também eventualmente atrapalha um pouco a paciência que o resultado às vezes exige, mas o elenco é bom e God Help the Girl nunca deixa de ser convincente – e, para a proporção da produção, isso é mais do que suficiente.

Melhores de 2014 – Maquiagem

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Mark Coulier, que venceu o Oscar com Roy Helland por A Dama de Ferro anos atrás, voltou a ganhar mais uma estatueta de melhor maquiagem agora em 2015 com O Grande Hotel Budapeste. Desta vez, Coulier fez dupla com a veterana Frances Hannon, conhecida por trabalhar mais com produções de grande escala como X-Men: Primeira Classe e Guerra Mundial Z. Da pesada mas eficientemente impressiva maquiagem de Tilda Swinton como Madame D. ao sutil trabalho envolvendo à simetria de pequenos detalhes como a personalidade de diversos personagens (o jovem Zero faz questão ter desenhado em seu rosto um bigode para se identificar até fisicamente com o admirado mestre Gustave), o trabalho de maquiagem de O Grande Hotel Budapeste está à altura de todos os outros setores técnicos deste filme já excepcional em todos os seus outros detalhes. Na disputa desta categoria ainda estavam: Amantes EternosTrapaça.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 A Morte do Demônio | 2012 – A Dama de Ferro (primeiro ano da categoria)

Na coleção… O Leitor

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É provável que O Leitor tenha a sua parcela de “contribuição” na mudança de cinco para dez indicados na categoria de melhor filme do Oscar. Na disputa de 2009, era esperado que filmes como Batman – O Cavaleiro das TrevasWALL-E conseguissem uma indicação na corrida pelo prêmio principal. Aparentemente a disputa tinha uma vaga em aberto, que acabou ficando justamente como este terceiro filme do diretor britânico Stephen Daldry. Os detratores criticaram a produção em peso, alegando que a lembrança veio unica e exclusivamente em função de O Leitor ser sobre o Holocausto. Eles não deixam de ter razão, especialmente porque a adaptação do livro homônimo de Bernhard Schlink é bastante acadêmica, mas existem sim outros assuntos complexos e interessantes discutidos no roteiro adaptado por David Hare.

Ainda que o tempo não tenha sido muito generoso com O Leitor (hoje parece um longa muito mais antigo do que realmente é), vários aspectos positivos se preservam de forma intacta, como a unânime primeira parte da narrativa, onde acompanhamos toda a construção do relacionamento entre o jovem tímido e virgem Michael Berg (o iniciante David Kross, que dá conta do recado) e a reservada e quase bruta mulher mais velha Hanna Schmitz (Kate Winslet, vencedora do Oscar de melhor atriz por seu desempenho aqui). Com delicadeza, Daldry constrói a relação dos protagonistas com um envolvimento singular, nunca deixando que a diferença de idade e experiência entre o casal se torne um empecilho para a verossimilhança dele. Por mais que seja fácil sentir que existe algum mistério ou algo ali que de fato não está encaixando, é fácil torcer pelos dois, em especial porque ele, maravilhado, começa a desbravar um mundo até então desconhecido e ela passa a adquirir uma sensibilidade que não lhe parecia possível justamente com a pessoa mais inesperada: um mero garoto inexperiente de 15 anos.

A mesma força não é preservada pelo filme a partir de sua metade, quando a trama revela um importante segredo sobre Hanna Schmitz que muda o tom da narrativa por completo. A discussão proposta é muito interessante, mas aí O Leitor se torna gélido, preocupando-se muito mais em discutir a culpa e o horror do nazismo em um longo arco ambientado em um tribunal do que se aprofundar no turbilhão de emoções que tomam conta do jovem Michael Berg ao literalmente testemunhar a desconstrução do ícone afetivo e sexual chamado Hanna Schmitz. Ao optar por longas cenas nos tribunais – que obviamente cumprem a missão de entregar ótimos momentos para Winslet (a sequência em que ela discute a autenticidade da escritura de um relatório é de cortar o coração) -, Daldry descamba para as formalidades. Inclusive o diretor não resiste a colocar o protagonista visitando antigos campos de concentração para complementar a discussão sobre o Holocausto.

Quando retoma a relação dos dois protagonistas e volta a compreender que o retrato de toda uma geração traumatizada pelo nazismo está mais simbolizada nos conflitos internos do próprio Michael Berg e nas razões de Hanna Schmitz do que no desenvolvimento linear de um julgamento, O Leitor retoma parte de sua força emocional. Contudo, outro filme já se formou e, por mais que Daldry tente imprimir emoção ao resultado, a abordagem já se tornou racional demais – e a boa mas excessiva trilha de Nico Muhly só incentiva essa percepção de que O Leitor tenta mas não consegue ser mais acalantador. Winslet e Kross – ele posteriormente substituído em sua versão adulta pela discrição habitual de Ralph Fiennes – seguem eficientes e plenamente convincentes até o final enquanto o roteiro de Hare também traz vislumbres de momentos preciosos (a conversa com a personagem de Lena Olin é um dos pontos altos da história), mas o tom acadêmico parece sufocar demais uma história que merecia – e deveria – ter uma perspectiva muito mais humana.

Melhores de 2014 – Edição/Mixagem de Som

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Para um filme sem diálogos ambientado em alto-mar, o som se torna uma ferramenta fundamental para a narrativa. Até o Fim se atenta a essa importância com afinco e entrega o trabalho de som mais detalhista e inteligente de 2014. Utilizando todas as estratégias possíveis em sua edição e mixagem de som para envolver o espectador na solidão do protagonista sem nome vivido por Robert Redford, o quinteto Brandon Procor, Gillian Arthur, Micah Bloomberg, Richard Hymns e Steve Boeddeker ainda é extremamente feliz ao nos deixar a par de toda a angústia do protagonista frente a situações que colocam sua vida em risco, seja quando tubarões cercam o seu bote ou quando vê seu barco ser invadido pela água. Até o Fim mexe com nossos sentidos e, bem como Gravidade (também um filme solo de sobrevivência e vencedor desta categoria no ano passado), é excepcional ao usar o som como um discreto mas poderoso detalhe de imersão. Na disputa desta categoria ainda estavam: Até Que a Sbórnia nos SepareInside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, InterestelarPlaneta dos Macacos: O Confronto.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 Gravidade | 2012 007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Cinderela

Have courage and be kind.

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Direção: Kenneth Branagh

Roteiro: Chris Weitz

Elenco: Lily James, Cate Blanchett, Richard Madden, Helena Bonham Carter, Stellan Skarsgård, Holliday Grainger, Sophie McShera, Stellan Skarsgård, Derek Jacobi, Ben Chaplin, Hayley Atwell, Rob Brydon, Tom Edden, Alex Macqueen

Cinderella, EUA, 2015, Drama/Fantasia, 105 minutos

Sinopse: Após a trágica e inesperada morte do seu pai, Ella (Lily James) fica à mercê da sua terrível madrasta, Lady Tremaine (Cate Blanchett), e suas filhas Anastasia e Drisella. A jovem ganha o apelido de Cinderela e é obrigada a trabalhar como empregada na sua própria casa, mas continua otimista com a vida. Passeando na floresta, ela se encanta por um corajoso estranho (Richard Madden), sem desconfiar que ele é o príncipe do castelo. Cinderela recebe um convite para o grande baile e acredita que pode voltar a encontrar sua alma gêmea, mas seus planos vão por água abaixo quando a madrasta má rasga seu vestido. Agora, será preciso uma fada madrinha (Helena Bonham Carter) para mudar o seu destino. (Adoro Cinema)

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Não adianta tentar ignorar as releituras de clássicos infantis. Assim como a onda de adaptações envolvendo best sellers de aventuras infanto-juvenis, as histórias que encantaram as gerações de milhares de crianças agora ganham nova vida no cinema a todo momento. Cinderela, entretanto, deve ser a primeira adaptação plenamente fiel ao material original, sem qualquer subversão ou mudança de abordagem. Por um lado, existe a preservação da inocência e da magia, o que vem para conquistar novas gerações em tempos que a infância parece cada vez mais… adulta! Por outro, avaliando o novo filme de Kenneth Branagh como um cinéfilo já distante da fase infantil, existem detalhes importantes a serem considerados, sendo o principal aquele que envolve os prós e contras de transpor exatamente a mesma narrativa de uma animação para um filme live action.

Se Cinderela se propõe a não ser nada além de uma versão carne e osso de uma história já conhecida há várias décadas, não dá para deixar de levar em consideração que, desta forma, o fator novidade está ausente aqui, pois sabemos todos os caminhos da trama e qual o desfecho da protagonista. Mas talvez o maior incômodo seja o fato de que, para um filme live actionCinderela preserve muitas das abordagens que só conseguimos relevar em animações, como a unidimensionalidade das vilãs e a bondade inabalável das heroínas. Malévola agora se mostra influente porque aqui faz falta ver a Madrasta (Cate Blanchett) com um outro lado além do cruel – e, nesse sentido, Blanchett, elegantíssima, tem pouco material para tornar a sua vilã memorável. E o que dizer das enteadas de Cinderela (Lily James), irritantes de tão caricatas e que nada acrescentam ao resultado? Não que o roteiro de Chris Weitz precisasse fazer um grande estudo psicológico dessas figuras, mas uma inteligente costura de suas personalidades merecia aparecer aqui.

A protagonista Cinderela só não se torna uma figura difícil de torcer porque Lily James surpreende ao sustentar bem um papel que, nessa versão em carne e osso, é quase implausível se assistirmos ao filme com outro olhar a não ser o infantil. Como a jovem, ciente de suas origens e influências, se deixa ser pisoteada e humilhada pelas novas integrantes da família sem razões consistentes? “Seja gentil”, disse a mãe de Cinderela antes de falecer. Só que, ao que tudo indica, ela entendeu algo como “seja sem personalidade”, já que não reage a praticamente nenhum dos absurdos a que é submetida. Ok, estamos falando de uma história mágica, encantadora e direcionada ao público infantil, mas aí voltamos à questão levantada anteriormente: transpor uma narrativa infantil sem qualquer mudança de tom para o live action pode ter seus contras. Esse é um deles. Como espectador adulto, percebo um filme dramaticamente frágil, cujo encantamento não é o suficiente para relevar determinados detalhes. Já os pequenos não devem ligar para isso, uma vez que Cinderela, no sentido de preservar classicamente os encantadores valores da história original, consegue cumprir sua missão.

Tecnicamente, não há o que se reclamar do longa de Branagh. Nos figurinos da veterana Sandy Powell, a exuberância reina como poucas vezes vimos em filmes recentes desse gênero, mesmo que muitas vezes o guarda-roupa escancare demais certas leituras (para mostrar que as enteadas da protagonista são desprezíveis, Powell não é nada discreta ao vesti-las quase como palhaças). Enquanto isso, na direção de arte, o mestre Dante Ferreti consegue novamente fazer um belo balanço entre grandiosidade e detalhismo em cada uma de suas escolhas. Por fim, a trilha de Patrick Doyle – um compositor que particularmente não desperta minha admiração – faz o básico funcional para dar o tom ao resultado. Ou seja, Cinderela apenas repete uma história clássica com uma parte técnica bastante impressiva e com o tom adequado para as crianças. Quanto aos adultos, eles podem até se sentir em uma viagem no tempo, mas também correm o risco de perceber que, bem lá no fundo, Cinderela é apenas uma bonita viagem visual sem qualquer diferencial além da nostalgia envolvendo o material original.