Cinema e Argumento

Os indicados ao BAFTA 2016

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Stephen Fry apresenta pela 11ª vez a cerimônia do BAFTA, marcada para o dia 14 de fevereiro.

O que afirmamos logo no anúncio dos indicados ao Sceeen Actors Guild Awards vem se confirmando: essa award season é, sem qualquer sensacionalismo, a mais confusa e imprevisível em anos. A teoria foi reforçada hoje com a lista do BAFTA, esse prêmio super autêntico que já dissemos aqui no blog o quanto amamos. Entre os favoritos a melhor filme, dois perdem significativamente a força agora: Mad Max: Estrada da Fúria, que não colou com os britânicos e só foi lembrado em categorias técnicas, e Spotlight – Segredos Revelados, que, apesar de ter aberto precedentes para uma merecida indicação a coadjuvante para Mark Ruffalo, falhou em colocar Tom McCarthy como melhor diretor. Por outro lado, quem ganha ainda mais gás na temporada é Ponte dos Espiões (atenção: nunca subestime Steven Spielberg fazendo filmes mais “sérios” e políticos).

Carol parece ter voltado à vida depois de ser esnobado pelo Sindicado dos Produtores, liderando a lista ao concorrer em nove categorias (o mesmo número de Ponte dos Espiões). Aqui ou ali, o BAFTA obviamente puxou brasa para as suas queridas veteranas britânicas, mas não era esperado que eles colocassem Maggie Smith por A Senhora da Van no lugar de Charlotte Rampling por 45 Anos (tomara que o Oscar, assim como fez com Marion Cotillard ano passado, corrija esse absurdo de não ter uma premiação sequer indicando o maravilhoso desempenho dessa mulher!). Outra britânica favorecida pelo bairrismo do prêmio (e não vamos criticá-los por isso) é Julie Walters, que agora está entre as coadjuvantes por Brooklyn. Na ala masculina, as lembranças de Bryan Cranston (Trumbo – Lista Negra) e Matt Damon (Perdido em Marte) colocam de vez os atores na briga por uma indicação ao Oscar.

O Globo de Ouro considerou protagonistas, enquanto o Screen Actors Guild Awards decidiu que eram coadjuvantes. Já o BAFTA parece ter matado a charada da temporada e assinalado o que o Oscar também deve fazer: colocar Alicia Vikander como protagonista por A Garota Dinamarquesa (e ainda como coadjuvante por Ex-Machina: Instinto Artificial!) e Rooney Mara como coadjuvante por Carol, o que tornaria a segunda franca favorita ao prêmio até agora em aberto, mesmo que sua inclusão na categoria seja uma clara fraude de categoria – e nem é preciso ver o filme para fazer tal constatação. Uma disputa curiosa do BAFTA vai ser a de filme estrangeiro: como a seleção e o calendário de estreias na Inglaterra é um tanto diferente, nada de O Filho de Saul aqui e sim alguns antigos concorrentes como Relatos Selvagens (eba!) e Força Maior.

Há quem diminua a importância do BAFTA porque o corpo de jurados desse prêmio é bem diferente e distante dos demais. Mas vale lembrar: em quase todos os casos, só triunfa no Oscar quem faz o tema de casa com campanha. A cerimônia do BAFTA é televisionada e, mesmo acontecendo no Reino Unido, ninguém deixa de ir… Este ano, o BAFTA ainda divulgou sua lista no último dia de votação do Oscar. Ou seja, a lista tem sua relevância sim! Confira abaixo a relação de indicados. Os vencedores serão revelados no dia 14 de fevereiro.

MELHOR FILME
Carol
A Grande Aposta
Ponte dos Espiões
O Regresso
Spotlight – Segredos Revelados

MELHOR DIREÇÃO
Adam McKay (A Grande Aposta)
Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
Ridley Scott (Perdido em Marte)
Steven Spielberg (Ponte dos Espiões)
Todd Haynes (Carol)

MELHOR ATOR
Bryan Cranston (Trumbo – Lista Negra)
Eddie Redmayne (A Garota Dinamarquesa)
Leonardo Dicaprio (O Regresso)
Matt Damon (Perdido em Marte)
Michael Fassbender (Steve Jobs)

MELHOR ATRIZ
Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
Brie Larson (O Quarto de Jack)
Cate Blanchett (Carol)
Maggie Smith (A Senhora da Van)
Saoirse Ronan (Brooklyn)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Sicario: Terra de Ninguém)
Christian Bale (A Grande Aposta)
Idris Elba (Beasts of No Nation)
Mark Ruffalo (Spotlight – Segredos Revelados)
Mark Rylance (Ponte dos Espiões)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Alicia Vikander (Ex-Machina: Instinto Artificial)
Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
Julie Walters (Brooklyn)
Kate Winslet (Steve Jobs)
Rooney Mara (Carol)

MELHOR FILME BRITÂNICO
45 Anos
Amy
Brooklyn
A Garota Dinamarquesa
Ex-Machina: Instinto Artificial
The Lobster

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
The Assassin
Força Maior
Relatos Selvagens

Theeb
Timbuktu

MELHOR ANIMAÇÃO
Divertida Mente
Minions
Shaun, o Carneiro

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Amy
Cartel Land
He Named Me Malala
Listen to Me
Sherpa

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Divertida Mente
Ex-Machina: Instinto Artificial
Os Oito Odiados
Ponte dos Espiões
Spotlight – Segredos Revelados

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
A Grande Aposta
Brooklyn
Carol
O Quarto de Jack
Steve Jobs

MELHOR TRILHA SONORA
Os Oito Odiados
Ponte dos Espiões
O Regresso
Sicario: Terra de Ninguém
Star Wars: O Despertar da Força

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Ex-Machina: Instinto Artificial
Homem-Formiga
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
Star Wars: O Despertar da Força

MELHOR SOM
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
Ponte dos Espiões
O Regresso
Star Wars: O Despertar da Força

MELHOR MAQUIAGEM
Brooklyn
Carol
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Carol
Perdido em Marte
Ponte dos Espiões
Mad Max: Estrada da Fúria
Star Wars: O Despertar da Força

MELHOR EDIÇÃO
A Grande Aposta
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
Ponte dos Espiões
O Regresso

MELHOR FOTOGRAFIA
Carol
Ponte dos Espiões

Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso
Sicario: Terra de Ninguém

MELHOR FIGURINO
Brooklyn
Carol
Cinderela
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria

Os Oito Odiados

When you get to hell, John, tell them Daisy sent you…

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Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino

Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern,  James Parks,  Channing Tatum, Dana Gourrier, Zoë Bell, Lee Horsley,  Gene Jones, Craig Stark

The Hateful Eight, EUA, 2015, Drama, 187 minutos

Sinopse: Durante uma nevasca, o carrasco John Ruth (Kurt Russell) está transportando uma prisioneira, a famosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que ele espera trocar por grande quantia de dinheiro. No caminho, os viajantes aceitam transportar o caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que está de olho em outro tesouro, e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), prestes a ser empossado em sua cidade. Como as condições climáticas pioram, eles buscam abrigo no Armazém da Minnie, onde quatro outros desconhecidos estão abrigados. Aos poucos, os oito viajantes no local começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros, levando a um inevitável confronto entre eles. (Adoro Cinema)

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Em entrevista à jornalista Isabela Boscov, Quentin Tarantino reforçou o fato: Django Livre é o maior sucesso de toda a sua carreira em termos de bilheteria. Segundo o diretor, o desempenho do longa contrariou, particularmente fora dos Estados Unidos, as previsões de que os westerns eram fadados a fracassar com o público. “Reescrevemos os livros de história nesse aspecto”, disse ele. Não é só pela declaração um tanto pretensiosa (quem deveria dizer isso era qualquer pessoa menos ele) que tenho a impressão de que, justamente desde Django Livre, Tarantino tem sido vítima de seu próprio ego. Assim como Christopher Nolan, que realizou a maluquice que bem entendeu com Interestelar depois de adquirir total liberdade criativa visto o abraço de crítica e principalmente de público para A Origem, Tarantino indica que tem tudo para seguir o mesmo rumo de seu colega. Afinal, Os Oito Odiados é refém dessa certa megalomania do diretor que parece lhe ter feito esquecer o poder da síntese.

Todos os elementos que fizeram de Quentin Tarantino um diretor admirável e de estilo facilmente reconhecível estão presentes em Os Oito Odiados. O que acontece é que, assim como em Django, eles soam apenas como complementos para uma história excessivamente prolongada e de base rasa. Por mais divertido e até mesmo revolucionário tematicamente que fosse Django ao narrar a história de um negro que faz a sua própria história, não ajudava o fato da produção se estender em 165 minutos que davam a impressão de a história ter dezenas de finais. Aí vem Os Oito Odiados, onde a duração salta para 187 minutos com uma trama muito menos movimentada. Ou seja, ainda que os diálogos divertidíssimos e inteligentes de Tarantino estejam ali, é missão árdua chegar à metade do filme, quando a trama finalmente melhora em todos os sentidos. Até lá, a introdução dos personagens parece não ter fim, alguns coadjuvantes servem apenas como alívio cômico (caso de Jennifer Jason Leigh, que só se revela uma personagem complexa mais tarde) e, dependendo do ponto de vista, o roteiro pode até decepcionar quem cria expectativas por uma grande ação, já que, em certo ponto, ele simplesmente estaciona a história em um único cenário até o final do filme. 

Os Oito Odiados tem um claro problema de edição que leva o espectador à melhor parte do filme já com a paciência um tanto esgotada. É complicado achar um editor com culhões para questionar alguém da mitologia de Tarantino (principalmente se esse alguém é Fred Raskin, que estreou na cadeira de edição dos filmes do diretor fazendo justamente Django Livre), mas não é preciso um bom senso tão apurado para perceber que Os Oito Odiados merecia ser mais conciso. Com uma narrativa mais enxuta, chegaríamos ao que realmente interessa no filme de braços mais abertos. Os excessos prejudicam porque fica aquela sensação de que as revelações que o filme nos reserva não são assim tão mirabolantes para justificar toda a espera e a sanguinolência quase infantil do terceiro ato. Tenho minhas dúvidas se o público reagirá positivamente a Os Oito Odiados nas bilheterias da mesma forma que respondeu a Django.

Excetuando esse problema que chegou muito perto de minar por completo a minha relação com Os Oito Odiados, Tarantino não deixa de ser um sujeito brilhante em seus melhores momentos. Grande diretor de atores (não há um ator do elenco que transpareça atuação), ele também segura com habilidade essa opção ousada de narrar metade de sua história em uma única cabana que abriga os oito personagens do título. Além da cuidadosa mise-en-scène, fundamental para a criação do suspense, são inteligentes, como de praxe, os diálogos escritos pelo diretor, que prefere não criar necessariamente mocinhos ou bandidos para seu filme.

Quanto aos personagens, destaca-se a forte personalidade de cada um deles, com menção especial para a escolha genial do diretor de colocar como figura mais imprevisível justamente a única mulher entre os homens – e Jennifer Jason Leigh é impecável todas as vezes em que o roteiro finalmente lhe dá alguma chance além de apenas apanhar de Kurt Russell. Frequentemente irreverente e delicioso de se assistir em seu último ato devido ao humor , à crítica e à acidez com que Tarantino vai de temas como o racismo ao vício de trapaça do ser humano, Os Oito Odiados fica perto de ser mais um excelente represante da retomada do western. Só faltou alguém dar aquele tão bem-vindo conselho para o capitão da história: menos costuma ser sempre mais.

Melhores de 2015: indicados

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Mad Max: Estrada da Fúria se iguala a O Grande Hotel Budapeste e é o recordista de indicações entre todas as listas de melhores do ano já divulgadas pelo blog

Para não ter atraso, já começamos o ano divulgando a nossa lista com os melhores filmes de 2015. Realizada desde 2009, a premiação anual aqui do blog mais uma vez tem outro recordista de indicações: Mad Max: Estrada da Fúria, que, lembrado em 10 categorias, se iguala a O Grande Hotel Budapeste como o longa com o maior número de indicações entre todas as nossas listas já divulgadas. O filme de George Miller é seguido de pertinho por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), que concorre em nove categorias.

Tanto Mad Max quanto Birdman disputam o título de melhor filme acompanhados de 45 AnosDivertida MenteQue Horas Ela Volta?. Neste ano, um fato inédito: pela primeira vez uma categoria da lista traz seis indicados. No caso, a de melhor atriz. O ano foi tão expressivo para as intérpretes protagonistas que resolvemos abrir uma exceção. A partir de agora, fiquem ligados aqui para conhecer os vencedores! No final do post vocês ainda podem conferir a lista de filmes que assistimos ao longo de 2015 e que consideramos elegíveis à lista (com link para as respectivas críticas publicadas)!

MELHOR FILME
45 Anos
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Divertida Mente

Mad Max: Estrada da Fúria
Que Horas Ela Volta?

MELHOR DIREÇÃO
Alejandro González Iñárritu (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Andrew Haigh (45 Anos)
Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta?)
Bennett Miller (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)
George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria)

MELHOR ATRIZ
Camila Márdila (Que Horas Ela Volta?)
Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria)
Charlotte Rampling (45 Anos)
Juliette Binoche (Acima das Nuvens)
Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite)
Regina Casé (Que Horas Ela Volta?)

MELHOR ATOR
David Oyelowo (Selma: Uma Luta Pela Igualdade)
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição)
Steve Carell (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)
Tom Courtenay (45 Anos)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Karine Telles (Que Horas Ela Volta?)
Kristen Stewart (Acima das Nuvens)
Laura Dern (Livre)
Naomi Watts (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Tilda Swinton (Expresso do Amanhã)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Sicario: Terra de Ninguém)
Edward Norton (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Irandhir Santos (Ausência)
Lourenço Mutarelli (Que Horas Ela Volta?)
Mark Ruffalo (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)

MELHOR ELENCO
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo
Mapas Para as Estrelas
Que Horas Ela Volta?
Sicario: Terra de Ninguém

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Acima das Nuvens
Ausência
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Divertida Mente
Que Horas Ela Volta?

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
45 Anos
Dívida de Honra
Expresso do Amanhã
Macbeth: Ambição e Guerra
Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR MONTAGEM
Cássia Eller
Livre
Mad Max: Estrada da Fúria
Sicario: Terra de Ninguém

Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR FOTOGRAFIA
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Macbeth: Ambição e Guerra
Mad Max: Estrada da Fúria
Sicario: Terra de Ninguém
Sr. Turner

MELHOR TRILHA SONORA
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Dívida de Honra

Mad Max: Estrada da Fúria
Sicario: Terra de Ninguém
A Teoria de Tudo

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Expresso do Amanhã
Macbeth: Ambição e Guerra
Mad Max: Estrada da Fúria
Sr. Turner
Star Wars: O Despertar da Força

MELHOR FIGURINO
Caminhos da Floresta
Cinderela
Macbeth: Ambição e Guerra
Sr. Turner

As Sufragistas

MELHOR EDIÇÃO/MIXAGEM DE SOM
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Mad Max: Estrada da Fúria
Sniper Americano
Star Wars: O Despertar da Força
Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Big Eyes” (Grandes Olhos)
“Cold One” (Ricki and the Flash: De Volta Pra Casa)
“Glory” (Selma: Uma Luta Pela Igualdade)
“Love Me Like You Do” (Cinquenta Tons de Cinza)
“Opportunity” (Annie)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Mad Max: Estrada da Fúria
No Coração do Mar
Star Wars: O Despertar da Força

MELHOR MAQUIAGEM
Expresso do Amanhã
Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo
Mad Max: Estrada da Fúria Ler mais

Adeus, 2015! (e as melhores cenas do ano)

Como já é tradição aqui no blog, encerro 2015 escolhendo as melhores cenas do ano. O que muitas delas têm em comum? A simplicidade. Boa parte do que vi de melhor no cinema este ano me pegou muito mais pela emoção do que por ambições estéticas ou narrativas. Já a lista de melhores do ano fica para quando voltarmos em 2016, pois muito ainda deve ser visto para compensar o ano menos acelerado que tive no cinema. Seria injusto finalizá-la agora. Por enquanto, ficamos com a lista das nossas cenas favoritas (todas elencadas aleatoriamente) enquanto fazemos uma breve pausa para recarregar as baterias e colocar os filmes em dia. Logo voltamos a nos encontrar por aqui, combinado? Um bom final de ano a todos e obrigado pela companhia em 2015!

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Kate e Geoff dançam Smoke Gets in Your Eyes em 45 Anos

O maior testamento do grande desempenho de Charlotte Rampling em 45 Anos está na cena derradeira deste filme escrito e dirigido por Andrew Haigh (do ótimo Weekend). Sem uma palavra sequer, a veterana, muito bem acompanhada por Tom Courtenay, transmite um universo de angústias ao espectador quando dança Smoke Gets in Your Eyes com o marido- e poucas vezes os exatos últimos cinco segundos de um filme foram tão assombrosamente dolorosos.

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Qualquer perseguição de Mad Max: Estrada da Fúria

Cheio de adrenalina do início ao fim, Mad Max: Estrada da Fúria é um filme de ação simplesmente impecável. Por ser impossível escolher apenas um momento da longa, insana e criativa fuga dos protagonistas em pleno deserto escaldante, nada mais justo do que nomear todas elas. Afinal, vai dizer que teve alguma que não deixou você sem fôlego?

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Os minutos finais de Whiplash: Em Busca da Perfeição

Em poucos minutos, o diretor Damian Chazelle dá um baile em muitos colegas que passam anos sem chegar a um momento magistral como o que encerra Whiplash: Em Busca da Perfeição. Difícil não suar com os personagens neste clímax que une tudo o que o cinema pode fazer pelos sentidos e encerra com perfeição um longa já repleto de som e fúria.

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Val e a piscina em Que Horas Ela Volta?

Quando bem conduzidos, momentos de libertação podem emocionar mais do que qualquer lágrima. No caso específico de Val (Regina Casé), uma mulher que nega a si mesma o livre arbítrio e até o devido extravasamento de sentimentos, o ápice do seu adeus às amarras acontece em uma piscina – e a diretora Anna Muylaert conseguiu extrair o melhor do talento de Regina Casé e do seu próprio como realizadora.

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Maria Eugênia ganha a guarda de Chicão, e Cássia Eller se encerra com O Segundo Sol

O Brasil é referência na produção de documentários, mas Cássia Eller está mesmo entre os mais emocionantes dos últimos anos. Ao longo de tantas passagens tocantes do filme, aquela em que Maria Eugênia ganha a guarda de Chicão na justiça traz o auge da beleza do legado da cantora. E tinha maneira mais bonita de encerrar o filme logo após com depoimentos de amigos e familiares ao som de O Segundo Sol

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O voo de Riggan em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Trabalho mais completo da carreira do mexicano Alejandro González Iñárritu, Birdman está cheio de cenas inovadoras e marcantes, mas o voo de Riggan Thomson (Michael Keaton) pelas ruas de Nova York rumo ao teatro que abriga seu mais novo espetáculo é aquela que você vê e já sabe instantaneamente que é emblemática. Executado com o devido realismo e encantamento, o momento é também pra lá de simbólico na vida do protagonista.

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Qualquer lembrança envolvendo Bobbi em Livre

É fruto de uma montagem impecável toda a emoção causada pelas lembranças que Cheryl (Reese Witherspoon) tem de sua mãe Bobbi (Laura Dern). Introduzindo com precisão importantes fatos e revelações sobre o passado das duas, as breves memórias aparecem no filme como na própria vida: aqui ou ali, sem razão aparente, onde colocamos uma nova luz sob momentos que antes nos pareciam tão corriqueiros. Em função desse imenso carinho com a importância da figura materna, qualquer lembrança envolvendo a personagem de Laura Dern parte o nosso coração – e, de brinde, você nunca mais sairá ileso da bela El Condor Pasa, de Simon & Garfunkel.

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O primeiro discurso de Mason em Expresso do Amanhã

Com óculos de Margaret Thatcher, pose de tirana e transformada por uma ótima maquiagem, Tilda Swinton é o centro das atenções toda vez que aparece no criativo Expresso do Amanhã. A primeira aparição de Tilda, entretanto, é a mais emblemática porque já nos mostra o quão tosca mas perigosa pode ser uma ditadora como a sua Mason. Qualquer semelhança com tantas figuras reais dessa mesma natureza que já habitaram a história mundial não é mera coincidência.

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Riley volta para casa em Divertida Mente

Há quem chore horrores com o desfecho do elefante rosa, mas o momento que me derruba mesmo em Divertida Mente é aquele em que a protagonista Riley volta para casa. Consegue me derrubar porque fala, em poucas palavras, sobre milhares de questões de forma muito delicada: o amadurecimento, o valor da família, a importância de sentirmos a tristeza uma vez ou outra, e por aí vai… De cortar o coração! 

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O último encontro de Alejandro e Kate em Sicario: Terra de Ninguém

Sicario: Terra de Ninguém é aquele tipo de filme que deixa um peso nas costas do espectador após o fim da sessão. A história contada pelo canadense Dennis Villeneuve é densa por si só, mas o último encontro de Alejandro (Benicio Del Toro) e Kate (Emily Blunt) perturba particularmente por sua veracidade e intensidade ao sintetizar até que ponto o ser humano vai para fazer o que julga ser certo em um ambiente que “possibilita” a justiça pelas próprias mãos.  E o mais angustiante: tudo sem um tom elevado, com uma discrição afiadíssima.

Rapidamente

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Helen Mirren é sempre ótima, mas A Dama Dourada é um filme sem emoção e que ainda faz com que a atriz tenha que contracenar com um inexpressivo Ryan Reynolds.

BEM CASADOS (idem, 2015, de Aluízio Abranches): Não tem sido bem recebido nem pelo público esta comédia brasileira que, comparada a tantos outros desastres comerciais que tomam as salas de cinema no final de ano, pode até ser considerada uma diversão leve e descompromissada. É bem verdade que a história se esgota muito cedo e que seus rumos são perfeitamente previsíveis, mas o elenco segura bem as pontas, em especial Camila Morgado, que, devidamente bem dirigida, usa os exageros certos para compôr uma personagem deliciosamente maluca. Aluízio Abranches, dirigindo a primeira comédia de sua carreira (para quem não lembra, ele é o responsável pelos “polêmicos” dramas Um Copo de CóleraDo Começo ao Fim), não consegue esconder que este é um produto sem fins criativos e meramente financiado pelas Lojas Americanas e outras marcas, o que faz com que a história frequentemente ganhe um tom de novela com a escancarada aparição das marcas e situações avulsas criadas apenas para evidenciar os patrocinadores. É novelesco também o modo com que Abranches amarra seu filme nos momentos finais, esquecendo-se que é com o carisma do elenco (que ainda tem Alexandre Borges como um bom canastrão e Bianca Comparato sendo uma graça como a estagiária que se acha subvalorizada) que Bem Casados tem seus momentos mais divertidos.

A DAMA DOURADA (Woman in Gold, 2015, de Simon Curtis): Só foi pela paixão do Screen Actors Guild Awards por Helen Mirren que a veterana conseguiu uma indicação a melhor atriz na lista do prêmio este ano. Ora, é claro que Mirren é sempre ótima, mas é preciso um pouco mais de bom senso na hora de julgar quando ela está de fato superlativa. Em A Dama Dourada ela faz o tema de casa como uma judia que tenta recuperar uma obra de arte que foi tirada de sua família pelos nazistas. Por outro lado, o filme simplesmente não coopera com ela: todos os momentos bons da atriz são méritos exclusivamente de Mirren, e não do roteiro previsível de Alexi Kaye Campbell ou da direção no piloto-automático de Simon Curtis. É meio imperdoável A Dama Dourada ser um filme sem emoção e maior sensibilidade justamente quando conta a história de uma mulher que busca na arte a preservação de seu passado e até mesmo a reparação de seus erros. Agravando a situação, atrapalha a presença de Ryan Reynolds, que nunca foi bom ator e que aqui está naquelas clássicas situações constrangedoras onde um ator veterano dá um baile no principiante. Os flashbacks funcionam porque Tatiana Maslany é ótima atriz e a reconstituição de época está à altura, mas, mesmo falando sobre o nazismo a partir de um ponto de vista diferenciado, A Dama Dourada não acerta na construção dos dramas contemporâneos dos protagonistas, que, conforme manda o roteiro, tentam a todo custo emular a jornada do esse sim caloroso Philomena.

DESCOMPENSADA (Trainwreck, 2015, de Judd Apatow): O gênero que mais tenho dificuldade em discutir e encontrar afinidades com outras pessoas é a comédia. Tomo como maior exemplo Judd Apatow, que tem uma legião de fãs conquistada depois de filmes como O Virgem de 40 AnosLigeiramente Grávidos. Humor cada um tem o seu e é por isso que me parece tão difícil falar sobre comédia e dizer que considero Apatow um sujeito pra lá de superestimado. A impressão que sempre tive dele foi reforçada nesse tedioso Descompensada, onde o diretor une forças com Amy Schumer, atriz que agora é a moda do momento e parece tão supervalorizada quanto ele. Schumer, inclusive, é a autora desse roteiro egocêntrico (a protagonista nada mais é do que uma versão dela própria e ainda recebe o nome de… Amy!) sobre uma mulher supostamente orgulhosa de seu status de solteira que transa com quem bem entende. Só que Descompensada tem clichês dos grandes e, como uma história de romance, é extremamente entediante. Fora questões altamente discutíveis sobre o que certos personagens passam a simbolizar (a própria protagonista tem uma virada inadmissível quando, em certo ponto, passa a criticar a poligamia que tanto defendia), o filme se utiliza das saídas mais fáceis para unir um casal que em momento algum parece realmente apaixonado. Haja paciência. Felizmente, Descompensada ainda não tem previsão de lançamento no Brasil.  

A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS (Spy, 2015, de Paul Feig): Paul Feig é um ótimo diretor de comédias, e só não é um dos mais importantes porque não é um contador de histórias objetivo. Na TV, tem um currículo dos mais respeitáveis em comédias (dirigiu The OfficeNurse JackieParks and Recreation e Weeds), enquanto no cinema alçou voo somente em 2011 quando fez o divertidíssimo Missão Madrinha de Casamento. Assim como o filme estrelado por Kristen Wiig, A Espiã Que Sabia de Menos deixa de ser uma experiência mais marcante por ter um roteiro repleto de excessos. Sempre é complicado sustentar uma comédia por mais de duas horas, especialmente essa mais recente com a assinatura do diretor, já que, além das piadas, o roteiro se desenvolve a partir de uma história de investigação. Caso fosse um pouco mais conciso, A Espiã Que Sabia de Menos seria uma comédia imperdível, já que os personagens cativam, as situações são divertidas, as referências funcionamem e até Melissa McCarthy, que ainda não me convenceu de verdade, está em um de seus melhores momentos. E o maior elogio de todos: o filme de Paul Feig consegue, inclusive, ser um entretenimento mais envolvente do que o recente 007 Contra Spectre.