Cinema e Argumento

Melhores de 2015 – Canção Original

Melhor Cancao - Glory

A apresentação de “Glory” na cerimônia do Oscar 2015 está entre os momentos mais memoráveis do prêmio nos últimos anos. Boa parte deste impacto, claro, está na relevância da música e do filme em tempos que o Oscar reflete o racismo na indústria cinematográfica. Entretanto, a canção é mesmo emocionante e totalmente condizente com a mensagem de Selma: Uma Luta Pela Igualdade. Escrita por John Legend e Common, ela fala sobre esperança e os sonhos de vencer uma batalha que todos nós sabemos qual é. Relevante e narrativa, “Glory” é, disparada, a melhor canção feita para o cinema em 2015. Ainda disputavam a categoria: “Big Eyes” (Grandes Olhos), “Cold One” (Ricki and the Flash: De Volta Pra Casa), “Love Me Like You Do” (Cinquenta Tons de Cinza) e “Opportunity” (Annie).

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante) | 2013 – “Last Mile Home” (Álbum de Família) | 2012 – “Skyfall” (007 – Operação Skyfall) | 2011 – “Life’s a Happy Song” (Os Muppets) | 2010 – “Better Days” (Comer Rezar Amar) | 2009 – “By the Boab Tree” (Austrália) | 2008 – “Falling Slowly” (Apenas Uma Vez)

Melhores de 2015 – Roteiro Original

Melhor Roteiro Original - Que Horas Ela Volta

Registro histórico em forma de cinema, Que Horas Ela Volta? mostra o dia a dia de um Brasil em plena transformação sócio-econômica. Não há crise ou escândalo que possa diminuir a vitória que é a ascensão de classes menos favorecidas no nosso país ao longo dos últimos anos, e a diretora e roteirista Anna Muylaert, no auge de seu talento como contadora de histórias, encena tal movimento com um roteiro que vem para marcar época no cinema brasileiro contemporâneo. Os personagens realistas criados por Muylaert são fundamentais para todo o carisma que tornou Que Horas Ela Volta? um sucesso de público e crítica, mas as impactantes e incômodas situações vividas por eles são o que fazem do filme uma reflexiva experiência sobre nossos conceitos e preconceitos. De inesquecíveis diálogos repletos de humor a cenas de partir o coração (como lembrar da Val de Regina Casé na piscina e não se arrepiar?), Que Horas Ela Volta? tem o pacote completo para agradar a todos sem nunca perder a inteligência. Ainda disputavam a categoria: Acima das Nuvens, Ausência, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) e Divertida Mente.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Relatos Selvagens |  2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

Brooklin

There’s nothing you can do about it apart from endure it.

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Direção: John Crowley

Roteiro: Nick Hornby, baseado no livro “Brooklyn”, de Colm Tóibín

Elenco: Saoirse Ronan, Julie Walters, Jim Broadbent, Domhnall Gleeson, Maeve McGrath, Brid Brennan, Eileen O’Higgins, Jane Brennan,  Eileen O’Higgins, Peter Campion, Eva Birthistle,  Emily Bett Rickards,  Eve Macklin,  Nora-Jane Noone, Samantha Munro

Brooklyn, Irlanda/Reino Unido/Canadá, 2015, Drama, 111 minutos

Sinopse: A jovem irlandesa Eilis Lacey (Saoirse Ronan) se muda de sua terra natal e vai morar em Brooklyn para tentar realizar seus sonhos. No ínicio de sua jornada nos Estados Unidos, ela sente falta de sua casa, mas ela vai tentando se ajustar aos poucos até que conhece e se apaixona por Tony (Emory Cohen), um bombeiro italiano. Logo, ela se encontra dividida entre dois países, entre o amor e o dever. (Adoro Cinema)

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Viver a turbulência e as eventuais dores da transição para vida adulta é uma difícil missão dada a todos nós. Por outro lado, acompanhar os momentos de amadurecimento que fazem parte dessa fase da vida tem sido motivo de prazerosas experiências no cinema. Cito particularmente o que os britânicos realizam em torno do assunto, uma vez que é fácil conferir este recente Brooklin (ainda é inexplicável a tradução brasileira que trocou o y do título original por i) e imediatamente lembrar de outro título igualmente elegante e delicado realizado no Reino Unido: Educação, longa indicado ao Oscar de melhor filme e responsável por revelar Carey Mulligan. Os dois trabalhos falam sobre duas garotas que vivem o momento crucial em que é necessário abandonar a inocência para adentrar a vida adulta. Porém, por mais semelhantes que possam ser em suas temáticas, as duas obras trilham caminhos distintos: enquanto a Jenny de Educação se reconfigura a partir da (re)construção amorosa, a Eilis de Brooklin acha um novo sentido para sua vida quando busca em terras estrangeiras um lugar que realmente possa chamar de lar.

Com muita graça e sutileza, o diretor John Crawley conduz a protagonista Saoirse Ronan por uma história de raízes incrivelmente novelescas, mas nunca permite que o filme como um todo se contamine com o sentido pejorativo dessa definição. É certo que Brooklin, com exceção de seu desfecho, se estrutura a partir de infinitas previsibilidades (as mais evidentes são aquelas que colocam a nossa heroína em uma saia justa sobre qual terra ela realmente deve chamar de sua), o que não impede que Crowley dê um toque envolvente e encantador para o roteiro escrito pelo sempre carismático Nick Hornby. Brooklin resgata a inocência e a fé nas relações humanas, proporcionando ao espectador um certo alento em tempos que nossas interações se tornam cada vez mais superficiais e distantes com o advento da internet e seus aplicativos de relacionamentos. Crawley e Hornby conseguem fazer uma novela clássica sem testar a paciência do espectador, que, em questão de minutos, certamente se pegará torcendo pela protagonista. Isso também não deixa de ser mérito de uma maravilhosa Saoirse Ronan, que já era um arraso em Desejo e Reparação e agora vem para quebrar a regra de que crianças celebradas não voltam a arrebatar depois de adultas.

A parte técnica de Brooklin ajuda a conduzir o espectador pelas transformações da jovem Eilis, menos pela suposta investida do diretor em filmar a história com três diferentes movimentos de cores e mais por elementos discretamente eficientes, como os belíssimos figurinos desenhados por Odile Dicks-Mireaux (o mesmo de Educação!) que se destacam não somente pela beleza, mas por seguirem a lógica de que figurinos também precisam ser ferramentas narrativas. Todo esse apanhado de acertos, entretanto, não funciona de imediato: em seu primeiro ato, Brooklin é um filme apressado, quase bagunçado, e ainda um tanto perdido nos seus tons novelescos (a trilha de Michael Brook, por exemplo é frequentemente invasiva). Por sorte, pouco a pouco, o diretor coloca o filme nos trilhos e passa a apostar mais na delicadeza e no carisma, até porque a entrada do italiano Tony Fiorello (o adorável Emory Cohen) dá uma dimensão muito mais carinhosa para a nova vida da irlandesa Eilis nos Estados Unidos.

Inicialmente pré-produzido com Rooney Mara como protagonista (Saoirse Ronan foi a primeira escolha, mas era jovem demais para o papel, até Mara desistir do projeto), Brooklin não é um filme de grandes engenhosidades, o que não anula aquele que é o seu maior mérito: o de transformar uma história absurdamente simples em algo prazeroso. Se o diretor John Crowley realmente não faz coisas grandiosas com o texto de Nick Hornby, por outro lado é errado dizer que seu trabalho no longa é desprovido de personalidade. Afinal, não é qualquer profissional que consegue capitanear a ideia de algo tão simples quanto Brooklin e ainda assim fazer funcionar. É preciso sensibilidade para enxergar tudo isso e, principalmente, se despir do errado conceito de que no previsível não pode existir algo vivo e pulsante. Um belo momento do longa que coloca essa ideia abaixo é a cena final, que, com uma linda narração sobre como o sofrimento é etapa indesviável rumo a superação das adversidades da vida, tem tudo para fisgar o coração até dos mais céticos. Brooklin tem a pegada clássica de simplicidade e emoção que os britânicos nunca deixam morrer – e com toda razão.

Melhores de 2015 – Efeitos Visuais

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Descrito pelo diretor George Miller como uma alegoria que se aproxima da ideia de um western sobre rodas, Mad Max: Estrada da Fúria faz um belo serviço para os filmes de grande escala que ganham as telas de cinema: o de nos lembrar de que nem sempre o CGI é uma ferramenta indispensável. Isso porque mais de 80% do longa estrelado por  Charlize Theron e Tom Hardy utiliza efeitos práticos, com explosões reais, dublês e sets e maquiagens feitos especialmente para retratar determinado contexto. É puro realismo, mas isso também não desmerece o CGI muitíssimo bem empregado em momentos grandiosos (a imponente tempestade de areia) e em construções particularmente discretas (o braço mecânico da Imperatriz Furiosa). Ainda disputavam a categoria: No Coração do Mar e Star Wars: O Despertar da Força.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Planeta dos Macacos: O Confronto | 2013 – Gravidade | 2012 – O Hobbit: Uma Jornada Inesperada | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar (primeiro ano da categoria)

A Bruxa

Wouldst thou like to see the world?

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Direção: Robert Eggers

Roteiro: Robert Eggers

Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens, Julian Richings, Wahab Chaudhry

The Witch: A New-England Folktale, EUA/Reino Unido/Canadá/Brasil, 2015, Terror, 92 minutos

Sinopse: Nova Inglaterra, década de 1630. O casal William e Katherine leva uma vida cristã com suas cinco crianças em uma comunidade extremamente religiosa, até serem expulsos do local por sua fé diferente daquela permitida pelas autoridades. A família passa a morar num local isolado, à beira do bosque, sofrendo com a escassez de comida. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece. Teria sido devorado por um lobo? Sequestrado por uma bruxa? Enquanto buscam respostas à pergunta, cada membro da família enfrenta seus piores medos e seu lado mais condenável. (Adoro Cinema)

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O verdadeiro terror de A Bruxa se escancara logo no início do filme e, assim como no restante da produção, ele está longe de se configurar da maneira como estamos habituados a ver no gênero. O motivo não é nada associado a sustos: em plena década de 1630, uma família é expulsa de uma comunidade religiosa não por pecado ou voluptuosidade, mas sim pelo excesso de credo. Isso mesmo, excesso de religiosidade em 1630! Existe algo mais amedrontador do que isso? O afastamento dos personagens é o ponto de partida para a série de paranoias desse clã que, ao se isolar em uma paupérrima casa no meio da floresta, começa a viver situações estranhas que fogem de seu controle e a acreditar que aquele local está sendo pouco a pouco tomado por uma entidade sobrenatural. Não se engane, porém, ao pensar que A Bruxa é um terror clássico para ir ao cinema assistir com os amigos. Na realidade, é bem provável que seja o oposto: praticamente os sustos inexistem neste filme que preza muito mais por angustiantes conflitos psicológicos e por uma técnica que nos mergulha no silencioso descontrole contado aqui.

Dirigido pelo estreante Robert Eggers, A Bruxa não deixa de lembrar o clima de A Vila, aquele subestimadíssimo filme de época assinado por M. Night Shyamalan que também falava sobre uma comunidade isolada em uma floresta e cercada pelo medo, ou então A Fita Branca, celebrado longa de Michael Haneke também sobre fatos misteriosos em uma cidade alemã nos anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial . Só que aqui a situação é mais difícil porque falamos não de comunidades, mas de apenas seis pessoas que, dentro da própria casa, já vivem um mundo próprio e de distanciamento. Parece não existir mais ninguém no mundo além deles, o que aumenta consideravelmente o sufocamento. Para a família de A Bruxa, as regras devem ser seguidas à risca, a rotina é milimetricamente bem definida e a religião é utilizada como forma de opressão disfarçada de busca por boa índole. É claustrofóbico o convívio daquela família, ainda mais quando todos sufocam indomáveis mudanças interiores: enquanto a mãe pouco a pouco começa a culpar o marido pelo isolamento forçado a que foram submetidos, o único menino da família já começa a sentir os ímpetos de sua sexualidade ao não conseguir desviar o olhar dos seios da irmã. Tudo feito e sentido às escuras, já que não são necessário grandes pretextos para que trechos da Bíblia sejam evocados e que julgamentos surjam a partir de situações perfeitamente corriqueiras.

Por outro lado, é com extrema disciplina que Eggers, também autor do roteiro original, constrói a opressão religiosa do ambiente. Em momento algum A Bruxa se entrega a discursos fáceis sobre a palavra de Deus para que você compreenda a repressão do ambiente. No próprio suspense envolvendo o desaparecimento de um bebê e na ideia de uma força maligna entre a família, A Bruxa desenvolve tudo nas entrelinhas e em tom menor e mais lento, o que se apresenta como uma alternativa extremamente funcional que só reforça o clima intimidador já construído em todos os detalhes da exemplar parte técnica. Há de se tirar o chapéu para a ideia de Eggers e do fotógrafo Jarin Blaschke de filmar a história quase inteiramente em luz natural, pois isso faz com que realmente mergulhemos em uma época onde a luz inexistia  e os ambientes eram iluminados apenas por velas e lampiões. E ter todo esse contexto no meio de uma floresta inabitada já é capaz de causar arrepios por si só. Por isso, não estranhe se você achar o filme escuro e frequentemente incômodo em suas cores. Afinal, isso é resultado direto da inteligente escolha de A Bruxa causar desconforto até mesmo em um primeiro contato com os olhos.

Não será difícil encontrar quem desdenhe o filme de Robert Eggers por ele não conter sustos. Ora, tal percepção não deixa de ser fruto dos olhos treinados pelo cinema preguiçoso de terror que Hollywood vem entregando nos últimos anos. Particularmente, fujo do gênero justamente pelas suas implausibilidades, pela sua falta de criatividade e principalmente pela eterna confusão de que susto é sinônimo de atmosfera bem construída. Claro que existem filmes autorais e de menor orçamento, mas eles praticamente não ganham lugar ao sol, e por isso é tão importante que uma obra pequena e assinada por um estreante como A Bruxa ganhe merecida repercussão (uma obra de terror ganhar prêmio de direção no Festival de Sundance não é pouca coisa!). Vamos ser justos e reconhecer exemplares comerciais que funcionam, como Invocação do Mal e A Morte do Demônio. Só que raros e especiais mesmos são obras como o espanhol [REC], o uruguaio A Casa e agora A Bruxa. Ainda assim, pelo que me vem à memória, o terror psicológico de Eggers em nada se compara a qualquer exemplar do gênero que tenha ganhado as telas nos últimos anos. É experiência conceitual e experimental, o que pode repelir muita gente. Mas quer saber? Se conseguir embarcar, é coisa de mestre mesmo.