Cinema e Argumento

A Juventude

You say that emotions are overrated, but that’s bullshit. Emotions are all we’ve got.

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Direção: Paolo Sorrentino

Roteiro: Paolo Sorrentino

Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda, Alex Macqueen, Madalina Diana Ghenea, Loredana Cannata, Gabriella Belisario, Alex Beckett, Nate Dern, Chloe Pirrie, Tom Lipinski

Youth, Itália/França/Suíça/Reino Unido, 2015, Drama, 124 minutos

Sinopse: Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel), dois velhos amigos com quase 80 anos de idade cada, estão passando as férias em um luxuoso hotel. Fred é um compositor e maestro aposentado e Mick é um cineasta em atividade. Juntos, os dois passam a se recordar de suas paixões da infância e juventude. Enquanto Mick luta para finalizar o roteiro daquele que ele acha que será seu último grande filme, Fred não tem a mínima vontade de voltar à música. Entretanto, muita coisa pode mudar. (Adoro Cinema)

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Os personagens de A Juventude estão em fuga. Alguns propositalmente e outros por sorte, todos se refugiam em um luxuoso hotel nos alpes suíços, onde o silêncio reina e a ordem é relaxar. Fred Ballinger (Michael Caine), grande compositor agora aposentado, tenta escapar de seu próprio passado glorioso: ninguém parece entender que o artista responsável pelas famosas Canções Simples tem como único desejo curtir a vida depois de intensas décadas de trabalho ao invés de conduzir novamente uma orquestra ou escrever uma autobiografia encomendada por editores franceses. Assistente de seu pai, Lena Ballinger (Rachel Weisz) é abandonada pelo marido e agora precisa seguir em frente, abandonando sua vida passada. Já Mick (Harvey Keitel), que se orgulha de ser um diretor bem sucedido de atrizes e ter revelado a intérprete vencedora de dois Oscars Brenda Morel (Jane Fonda), escreve um novo filme para, como logo descobrimos, tentar se distanciar de uma carreira que, nos últimos anos, vem sido massacrada por público e crítica. Por fim, existe Jimmy Tree (Paul Dano), ator jovem e sensível sempre lembrado por um dos papeis de sua carreira que mais detesta – e que, agora, com um novo projeto, quer justamente deixar uma outra lembrança para o público que não seja a do tosco robô com uma roupa de cem quilos que lhe lançou popularmente.

Como se percebe, A Juventude, exibido em competição no Festival de Cannes de 2015, é um filme que abrange os dilemas mais diversos de gerações bastante distintas: a velhice se contrasta com a juventude, a beleza de uma Miss Universo provoca a suposta superioridade de um homem das artes, a experiência bate de frente com o frescor dos principiantes, a decadência é questionada pelo sucesso e a vida pessoal reivindica o tempo consumido pelo trabalho. É preciso maturidade para não transformar esse caldeirão temático em uma mistura dispersa e sem consistência, e maturidade o consagrado diretor italiano Paolo Sorrentino tem de sobra. Ele, que recentemente levou mais um Oscar de filme estrangeiro para a Itália com A Grande Beleza, agora se refugia nas belas paisagens da Suíça para contemplar cinematograficamente a diversidade emocional da vida com esse belo filme estrelado pelos veteranos Michael Caine e Harvey Keitel. O ritmo adotado é pausado e, apesar de um ou outro momento mais explícito (o monólogo de Rachel Weisz durante uma massagem é um deles), tudo se desenvolve bastante por imagens e por momentos silenciosos eventualmente cortados por observações certeiras. A Juventude não escorrega ao abraçar todos os seus personagens, e faz com que todos eles se tornem figuras próximas e perfeitas em suas imperfeições.

Não procuro medir meu entusiasmo para falar sobre a beleza com que Sorrentino, também autor do roteiro, transforma momentos pequenos em grandes, como um simples passeio na floresta onde Caine e Keitel dão uma daquelas aulas de sobriedade e uso das palavras que só a boa experiência de atores como eles pode trazer. Tudo não deixa de abrir margem para a crítica de que este é um filme sobre “os ricos também sofrem” (afinal, não é todo mundo que pode reavaliar a vida em um SPA em cenários de cair o queixo na Suíça), mas o que é discutido em A Juventude é sim universal. Sorrentino filma com elegância (e isso não tem nada a ver com as paisagens que por si só já ajudam), transformando a experiência em algo sensorial: a música, por exemplo, se mostra ferramenta envolvente desde a abertura com a apresentação de You Got the Love, da Retrosettes Sister Band, até clássicos de Debussy e Stravinsky, enquanto as imagens se revelam até emocionantes, como na brincadeira envolvendo um monge que diz levitar durante a meditação.

Michael Caine é mesmo maravilhoso como o maestro que, por razões pessoais, recusa o convite até mesmo da Rainha da Inglaterra para voltar a tocar, mas, em um filme tão completo sobre o choque de gerações, é preciso dar créditos também a outros dois atores essenciais nessa jornada: o inspirado Harvey Keitel, que, na única cena de Jane Fonda em particular, faz uma excelente dupla com a atriz a partir de um texto sobre as possibilidades de como conduzir uma carreira de cinema na terceira idade, e o sempre ótimo Paul Dano, que não cansa de surpreender como um ator emotivo sem precisar dizer uma palavra sequer – e, se o tempo lhe fizer justiça, ele tem tudo para ser tão grande quanto os atores com quem contracena neste filme. Todos dão o tom certo a A Juventude, que se encerra naquele que é possivelmente o momento mais tocante da história: quando finalmente ouvimos por completo a bela Simple Song #3 (indicada ao Oscar 2016 de melhor canção original). Em certo momento, um jovem garoto que está aprendendo a tocar violino diz que seu professor lhe entregou a canção justamente por ela ser ideal para principiantes. Mas, como bem descobrimos pela fala do menino e por tudo que a história mostra, não é porque a simplicidade reina que a beleza está ausente. Sendo assim, não tenho dúvidas de que quero mais canções simples como A Juventude pela frente.

Melhores de 2015 – Ator

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Melhor exemplo de como o Oscar 2015 foi sim racista ao esnobar desempenhos de atores negros, David Oyelowo é, possivelmente, o que existe de mais magnífico em Selma: Uma Luta Pela Igualdade, filme que não chega a particularmente me envolver. Sereno e ao mesmo tempo firme como o icônico Martin Luther King, ele inspira não só os os personagens do filme, mas o próprio espectador, que se vê torcendo por sua figura do início ao fim. É com admiração que acompanhamos a sabedoria, serenidade, inteligência e coragem de um homem que, nas mãos de Oyelowo, ganha uma sutilidade muito especial. Que vexame, Oscar! Ainda disputavam a categoria: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo), J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição), Steve Carell (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo) e Tom Courtenay (45 Anos).

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Jake Gyllenhaal (O Abutre) |  2013 – Joaquin Phoenix (O Mestre) | 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno) | 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei) | 2010 – Colin Firth (Direito de Amar) | 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade) | 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro) | 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

Na TV… os vícios e o excesso de consciência da segunda temporada de “How to Get Away With Murder”

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A veterana Cicely Tyson reprisa o papel de Ophelia, mãe de Annalise Keating (Viola Davis), em um dos episódios mais bem resolvidos da problemática segunda temporada de How to Get Away With Murder.

Gostando ou não, a primeira temporada de How to Get Away With Murder abriu muitos precedentes na TV aberta – e não foi apenas como uma importante janela para alguém como Viola Davis, uma profissional um tanto preterida no cinema, ter o espaço que merece, arrasar e fazer história como a primeira atriz negra da história a vencer o Emmy de melhor atriz em série dramática. O programa criado por Peter Nowalk trouxe, de forma muito natural, diversidade ao mundo do seriados, algo até então só tratado em produtos de TV fechada ou on demand como Orange is the New Black. É preciso coragem para propor e bancar a ideia de, por exemplo, ter uma protagonista negra difícil, complexa e de retidão de caráter muito duvidosa. Mas How to Get Away With Murder conseguiu, e foi além: em seu segundo ano, além de temas já abordados como a homossexualidade, colocou juízes latinos e orientais para comandar tribunais e centralizou todo um episódio na questão da transfobia. Ou seja, tudo muito orgânico, representando uma grande vitória para tempos que estranhamente se revelam cada vez mais conservadores.

O que acontece, então, com esse suspense irresistível que simplesmente desaba em qualidade na sua segunda temporada? Ora, acúmulo de vícios e excesso de consciência de seus maiores trunfos. Antes disso, valorizemos o que se destaca: Viola Davis segue maravilhosa em sua composição e tem aqui um dos grandes momentos da sua carreira: a tensa cena do episódio What Did We Do? que revela as razões de uma fatalidade até então escondida em flashforwards. How to Get Away With Murder também segue provocativa quando questiona a índole de sua protagonista, com destaque para os momentos em que ela se utiliza de sérias mentiras sobre o passado de sua agora-não-tão-fiel escudeira Bonnie (Liza Weil, com momentos muito dignos) para livrar sua pele de situações complicadas. Nos primeiro nove episódios, a série se sai muito bem com esses méritos, mantendo o nível interessante de guilty pleasure da primeira temporada – e com o bônus de se aproximar ainda mais de Damages (uma referência assumida dos criadores) ao adotar um único caso jurídico para guiar os principais conflitos da drama.

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Fundamental para trazer ainda mais complexidade para o perfil da protagonista, a participação de Famke Janssen, no entanto, é um dos tantos aspectos que se diluem nos vícios da série.

A situação desanda mesmo na segunda parte da temporada, exibida após o recesso de final de ano e finalizada no último dia 17 de março. É triste constatar que How to Get Away With Murder se perca em problemas tão fáceis de evitar. O primeiro deles é o mais óbvio: dar atenção excessiva a um mistério envolvendo Wes Gibbins, personagem desinteressantíssimo interpretado pelo igualmente inexpressivo Alfred Enoch. E o segundo é o mais grave: descambar para a implausibilidade ao querer surpreender a cada resolução. Dessa forma, ao embolar o meio de campo com uma infinidade de situações que não surtem qualquer efeito a não ser o da surpresa momentânea, o programa estrelado por Viola Davis se agarra ao vício tão comum da TV aberta de achar que formar pares românticos aleatoriamente ou fazer um figura se tornar inesperadamente um assassino é o suficiente para segurar o interesse. Só que o efeito aqui é justamente o contrário: quase tudo o que acontece na segunda metade da temporada é inverossímil, fazendo com que se torne um eterno exercício de paciência ter que comprar momentos que claramente não combinam com a índole dos personagens ou com a própria realidade. How to Get Away With Murder agora é adepta do choque pelo choque antes da verossimilhança do roteiro, e isso transforma o seriado em uma completa bagunça.

Indo e voltando no tempo para, no fim, não nos reservar revelações tão instigantes assim, a atração conseguiu diluir até mesmo o impacto de Viola Davis com o objetivo de sempre pegar o espectador de surpresa. Mais do que isso, a segunda temporada de How to Get Away With Murder comete outro pecado que praticamente coloca mais um prego em seu precoce caixão: o de tomar a consciência que sua atriz protagonista é o que existe de mais valioso no programa. Essa tomada de consciência é um tropeço porque os roteiristas, na ânsia de conseguir mais um Emmy para Viola Davis e fazê-la brilhar, não hesitam em pensar nos mais variados tipos de problemas e transformações para colocar em seu texto. Com isso, tem Viola grávida, baleada, acidentada, bêbada, drogada com remédios, sem peruca e até mesmo atacada fisicamente por um sequestrador… Não dá para perdoar que o criador Peter Nowalk e sua equipe não compreendam que a atriz brilha com qualquer material e que um simples diálogo familiar dela com a veterana Cicely Tyson vale mais do que um acidente de carro em que ela está envolvida. Poxa, ela e nós, do lado de cá, merecemos muito mais!

Melhores de 2015 – Montagem

Melhor Montagem - Whiplash

Foi um excelente ano para a categoria de montagem, mas o filme que teve o trabalho mais exemplar neste setor ainda é do início de 2015: Whiplash: Em Busca da Perfeição. Peça-chave para que o filme de Damien Chazelle seja um arraso em sua cena final, a montagem de Tom Cross é exemplar ao acompanhar toda a dinâmica de uma trama ágil, concisa e cheia de intensidade. Surpreende, particularmente, como Tom Cross é criativo e firme em seu trabalho, visto que suas experiências em nada assinalavam a previsão de um resultado grandioso como esse (antes ele havia apenas trabalhado como assistente de montagem de filmes de terror como Pânico na Floresta e Turistas, além de ter assinado a montagem de obras de pouca repercussão ou mais tradicionais como Coração Louco). Ainda que Cross já tivesse como base o seu trabalho no curta homônimo que originou Whiplash, nada parece repetição ou muito menos maneirismo.  Ainda disputavam a categoria: Cássia Eller, Livre, Mad Max: Estrada da Fúria e Sicario: Terra de Ninguém.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

O Quarto de Jack

– You’re gonna love it.
– What?
– The world.

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Direção: Lenny Abrahamson

Roteiro: Emma Donoghue, baseado no livro “Room”, de autoria própria

Elenco: Jacob Tremblay, Brie Larson, Joan Allen, Sean Bridgers, Matt Gordon, William H. Macy, Randal Edwards, Wendy Crewson, Sandy McMaster, Amanda Brugel, Joe Pingue, Cas Anvar

Room, Irlanda/Canadá, 2015, Drama, 118 minutos

Sinopse: Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay) vivem isolados em um quarto. O único contato que ambos têm com o mundo exterior é a visita periódica do Velho Nick (Sean Bridgers), que os mantém em cativeiro. Joy faz o possível para tornar suportável a vida no local, mas não vê a hora de deixá-lo. Para tanto, elabora um plano em que, com a ajuda do filho, poderá enganar Nick e retornar à realidade. (Adoro Cinema)

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Presidindo o júri do Festival de Berlim em 2016, Meryl Streep recomendou aos seus colegas avaliadores que fossem de peito aberto às sessões ao adotar a seguinte tática: embarcar em cada um dos filmes concorrentes sabendo o mínimo possível sobre as suas histórias e evitando até mesmo entrar em contato com o catálogo oficial do evento. É uma missão árdua quando a internet nos introduz informações mesmo quando não estamos atrás delas. Não estamos no Festival de Berlim, mas, no caso específico de O Quarto de Jack, faz toda a diferença adotar o conceito da presidente Meryl Streep e assistir ao filme completamente no escuro. No entanto, isso não se relaciona em nada com o fato da obra assinada por Lenny Abrahamson ser repleta de reviravoltas. O que acontece é que o drama da jovem Joy (Brie Larson, vencedora do Oscar 2016 de melhor atriz por seu desempenho aqui) se torna muito mais imersivo quando nos coloca na pele do pequeno Jack (Jacob Tremblay). Afinal, O Quarto de Jack se engrandece toda vez que vemos o mundo com os mesmos sentimentos de surpresa do garoto que dá título ao filme.

Não é de hoje que narrar uma tragédia ou dramas complexos a partir do ponto de vista da inocência pode resultar em experiências para lá de emocionantes. Lembram da difícil infância dos quatro garotinhos de Em Busca da Terra do Nunca que ganha um novo sentido quando J.M. Barrie (Johnny Depp) entra em suas vidas com o poder transformador da literatura? Pois a situação de O Quarto de Jack é muito mais delicada, e por isso é tão importante você acompanhar, junto ao personagem do título, cada informação que Abrahamson, em parceria com a roteirista e escritora do livro original Emma Donoghue, lança para que possamos reinterpretar todos os significados de um ambiente inicialmente inidentificável. Sabemos logo de cara, claro, que O Quarto de Jack é uma ode ao amor materno, mas é questão de tempo para que ele também se revele – e de forma ainda mais tocante – como a afirmação da ideia de que filhos podem ser uma força de amor e segurança igualmente poderosa para qualquer mãe. Nesse sentido, o roteiro de Donoghue é perfeito ao não depender da revelação sobre o que realmente é o tal quarto de Jack para que o espectador consiga se conectar emocionalmente com os personagens desde o princípio.

Outro ótimo exemplar do cinema independente, O Quarto de Jack não tropeça nos obstáculos de ter que encenar praticamente metade de sua história em um único ambiente. A mise-en-scène e o próprio design de produção colaboram para que nos tornemos íntimos dos protagonistas e para que o filme de Lenny Abrahamson se torne um mistério até mesmo nos detalhes. Não deixem de se atentar para como a decoração de set e até mesmo as vestimentas dos personagens nunca acusam nem mesmo o tempo ou o espaço em que O Quarto de Jack se passa: assim como Joy e seu filho podem estar em um espaço urbano contemporâneo, não deixa de ser aceitável a ideia de ambos estarem em um ambiente subterrâneo durante uma guerra. Obviamente todo esse contexto é um belo presente para qualquer ator brilhar, e a dupla formada por Brie Larson e Jacob Tremblay pega o espectador de jeito. Ele, em especial, é quem detém o brilho do filme por ser um excelente ator e principalmente por ter a seu favor uma história que depende inteiramente de seu personagem. Não há qualquer construção dramática que Brie Larson faça que não seja consequência direta do que Tremblay faz em cena, e por isso é um crime ela ter faturado todos os prêmios da temporada enquanto o pequeno tenha precisado se contentar apenas com uma indicação de melhor ator coadjuvante (?!) ao Screen Actors Guild Awards.

Ao chegar em sua metade, O Quarto de Jack dá uma completa guinada, tornando-se bastante diferente em comparação ao que vinha construindo. Apesar das necessárias discussões propostas, não deixa de ser um tanto frustrante constatar que, ao perder a circunstância do quarto em questão, o longa passa a ser apenas um (bom) drama sobre a reconstrução de duas vidas. Ao transferir sua geografia, O Quarto de Jack não deixa de se fragilizar, o que fica evidente em descuidos um tanto imperdoáveis, como a entrada do personagem de William H. Macy. Bom ator que é, ele não precisava estar aqui com um papel tão esquecível, pouco aproveitado e que quase não acrescenta nada à história. Em contrapartida, é bom ter uma Joan Allen eficiente e afetuosa em cena. Se o último terço do filme dá mais chances a Brie Larson, é Jacob Tremblay quem continua sendo mesmo a força do todo, compensando eventuais deslizes ou obviedades do roteiro. Por sua ótima atuação e por seu personagem plenamente compreendido pela equipe como o norte da produção, Tremblay merece todos os aplausos – e olha que não é missão fácil brilhar em um filme que já tem a emoção como uma grande marca.