Cinema e Argumento

Melhores de 2015 – Edição/Mixagem de Som

Melhor Edicao-Mixagem de Som - Mad Max

O trabalho de som tem papel fundamental em Mad Max: Estrada da Fúria pelas mais variadas razões. A mais óbvia, claro, é ser uma das ferramentas que ajudam o filme de George Miller a explorar os sentidos do espectador – e, nesse sentido, o quinteto formado por Ben Osmo, Chris Jenkins, David White, Gregg Rudloff, e Mark A. Mangini é superlativo ao nos mergulhar em toda a adrenalina da jornada da icônica Imperatriz Furiosa (Charlize Theron). Por outro lado, também é válido reconhecer o fato de que o som de Mad Max é inteligentemente dosado, afinal, são muitos os filmes de ação frenética que chegam a dar dor de cabeça tamanha a agressão aos ouvidos do espectador. Transformers está aí como prova. Felizmente, tudo relacionado a esse segmento em Mad Max é de tirar o chapéu. Ainda disputavam a categoria: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)Sniper AmericanoStar Wars: O Despertar da ForçaWhiplash: Em Busca da Perfeição.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Até o Fim | 2013 Gravidade | 2012 007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Ator certo, Oscar errado – parte 1

Este não é um post sobre tradicionais injustiças do Oscar envolvendo atores, afinal, todo mundo sabe que Gwyneth Paltrow não mereceu levar o prêmio por Shakespeare Apaixonado ou que Reese Witherspoon roubou o Oscar que deveria ser de Felicity Huffman. Motivado pela minha sessão de ontem do filme O Regresso, resolvi fazer essa pequena seleção de atores que ganharam o Oscar pelo papel errado. Sim, DiCaprio está prestes a ganhar o prêmio por razões preguiçosas, e minha lista explicará melhor isso ao longo dos próximos posts, mas ele não está sozinho: são vários os ótimos atores que, com uma infinita lista de bons papeis no currículo, foram coroados por momentos bastante desinteressantes. Às vezes, acontece para corrigir justamente as injustiças do passado, enquanto em outros casos é a pressa em celebrar um profissional reconhecidamente talentoso e em ascensão que precisa dos holofotes. Com isso, muitos atores queridos finalmente levam o prêmio, mas pelo papel errado. Eis, nessa primeira parte do post, alguns deles.

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Actress Julianne Moore poses with her Oscar for best actress for her role in "Still Alice" the 87th Academy Awards in Hollywood, California February 22, 2015. REUTERS/Lucy Nicholson (UNITED STATES TAGS:ENTERTAINMENT) (OSCARS-BACKSTAGE) - RTR4QPH7Julianne Moore (Para Sempre Alice, 2015): Poucas atrizes têm um currículo com personagens tão transgressoras e atuações minimalistas à altura, mas Julianne Moore foi ganhar logo por um dos papeis mais óbvios de toda a sua carreira. Ela é sempre ótima e faz o tema de casa em Para Sempre Alice, só que, nele, não existe desafio algum para atriz, que já interpretou uma atriz pornô em Boogie Nights e uma dona de casa dos anos 1950 que precisa lidar com a homossexualidade do marido em Longe do Paraíso, para citar somente dois trabalhos mais complexos. E o mais triste desse Oscar é que, neste mesmo ano, ela tinha um trabalho infinitamente melhor que trazia na bagagem o prêmio de melhor atriz em Cannes: o ácido Mapas Para as Estrelas, que sintetiza perfeitamente o que Julianne Moore é no cinema. Na TV, pelo menos, ganhou todos os prêmios da vida pelo papel certo: o da política republicana Sarah Palin em Virada no Jogo. Já na tela grande, merecia ter vencido por Boogie NightsAs HorasLonge do Paraíso (isso mesmo, na minha lista ela já teria três estatuetas!). Roubou o Oscar de: Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite) e Rosamund Pike (Garota Exemplar).

Rreneeoscarenée Zellweger (Cold Mountain, 2004): Reza a lenda que Renée Zellweger rasgou seu vestido depois de ter perdido o Oscar de melhor atriz em 2003 por Chicago. Na realidade, ela deveria ter rasgado quando venceu o prêmio por Cold Mountain, já que a tragédia foi grande: a) o filme está longe de representar algo expressivo na carreira da atriz, b) Renée está mais do que caricata nele, c) o prêmio foi pura consolação, tanto para ela após inúmeras indicações quanto para o filme que não levou nenhuma outra estatueta, e d) a maldição do Oscar se concretizou e ela nunca mais conseguiu segurar sua carreira. Para uma intérprete que transitou com tanta excelência entre o drama e a comédia e entre o popular e o autoral, esse foi mais um prêmio entregue no automático por um papel perfeitamente esquecível mas que caiu no formato que o Oscar adora premiar erroneamente (e isso que nem entramos nos méritos de Cold Mountain ser uma obra tediosa). Roubou o Oscar de: qualquer uma das outras indicadas, mas tenho um carinho especial por Shoreh Aghdashloo (Casa de Areia e Névoa) e Patricia Clarkson (Do Jeito Que Ela É).

blanchettoscaraCate Blanchett (O Aviador, 2005): Cate Blanchett é rainha, e isso é indiscutível. Por isso que sua primeira grande consagração (levanto as mãos para os céus e agradeço que houve uma segunda por Blue Jasmine!) até hoje soa tão frustrante. Ela empresta, claro, a sua incomparável elegância à Katharine Hepburn em O Aviador, o que infelizmente não chega a representar o melhor do que a atriz realmente é capaz de fazer. Tenho infinitos problemas com o sonolento filme de Martin Scorsese, mas o trabalho de Blanchett aqui realmente fica longe de outras interpretações suas como a de Elizabeth Não Estou Lá. Sou defensor ferrenho até mesmo de sua subestimada performance como a frustrada e confusa professora de artes Sheba Hart de Notas Sobre Um Escândalo. Foi outra coroação errada que aconteceu pelos motivos errados: primeiro para consagrar a injustiça de ter perdido por Elizabeth e segundo por ser uma atriz em franca ascensão. Se estivessem esperado um pouquinho mais, poderiam ter ficado sem essa, pois o que não faltou posteriormente foi uma carreira digna de Blanchett para se consagrar. Roubou o Oscar de: Natalie Portman (Closer – Perto Demais) e Sophie Okonedo (Hotel Ruanda).

jlawoscarsJennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida, 2013): Hoje a nova queridinha da América já é um caso à parte porque sua superexposição e supervalorização em todo e qualquer prêmio já dificultam qualquer avaliação menos passional. Por outro lado, é uma verdade absoluta para mim que seu Oscar de melhor atriz por O Lado Bom da Vida foi equivocado e prematuro. Sempre defendo o reconhecimento para papeis cômicos, mas não existe nada de tão especial no que ela faz no filme de David O. Russell para uma grande honraria como essa. Certamente venceu porque era uma estrela que começava a nascer e porque precisava ter recompensado o Oscar que mereceria vencer por Inverno da Alma caso não tivesse a imbatível Natalie Portman no seu caminho com Cisne Negro. E é bom lembrar que um hit como Jogos Vorazes sempre ajuda (e seria até mais digno Lawrence ter sido premiada pela saga, algo muito mais simbólico em sua carreira). Pena que não esperaram mais um pouco, pois é certo que a jovem estrela ainda terá muitas oportunidades pela frente… E mais interessantes. Roubou o Oscar de: não era um ano excepcional, mas tinha Emmanuelle Riva por Amor e até mesmo a garotinha Quvenzhané Wallis por Indomável Sonhadora (sei que estou sozinho nessa). 

A Grande Aposta

Everyone, deep in their hearts, is waiting for the end of the world to come.

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Direção: Adam McKay

Roteiro: Adam McKay e Charles Randolph, baseado no livro “The Big Short”, de Michael Lewis

Elenco: Steve Carell, Christian Bale, Brad Pitt, Ryan Gosling, Marisa Tomei, John Magaro, Finn Wittrock, Jeremy Strong, Hamish Linklater, Wayne Pére, Melissa Leo, Margot Robbie, Selena Gomez, Tony Bentley

The Big Short, EUA, 2015, Comédia, 130 minutos

Sinopse: Michael Burry (Christian Bale) é o dono de uma empresa de médio porte, que decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, já que nunca antes alguém havia apostado contra o sistema e levado vantagem. Ao saber destes investimentos, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Paralelamente, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda a um guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso. (Adoro Cinema)

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Não é por não vivermos nos Estados Unidos que A Grande Aposta é um filme de temática complicadíssima. Até mesmo para os estadunidenses falar sobre o mercado imobiliário de Wall Street parece uma tarefa desafiadora. Uma prova disso é o fato da Paramount, distribuidora do filme, só ter embarcado nele depois do diretor Adam McKay concordar em assinar uma sequência da comédia O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy. Ou seja, quiseram garantir um bom retorno financeiro caso o filme fracasse (e era exatamente isso o que o estúdio esperava). Além disso, a própria forma como McKay, em parceria com Charles Randolph, constrói o roteiro acusa a consciência de que o assunto é erudito: frequentemente, a história praticamente estaciona para colocar pessoas comuns como eu e você explicando, de forma simplista e comparada a ideias corriqueiras do cotidiano de qualquer pessoa, detalhes dos negócios imobiliários em questão.

É óbvio que não deixa de ser frustrante ter que acompanhar A Grande Aposta como uma aula de economia onde só falta você ter que usar um caderninho de anotações para não esquecer teorias importantes, mas, por outro lado, essa consciência de que não está lidando com um assunto fácil só ajuda o filme a se tornar mais digerível e, principalmente, a ter uma personalidade das mais autênticas. A Grande Aposta consegue achar um belo meio termo entre o inacessível (não é o caso de você sair da sala de cinema sem ter entendido coisa alguma) e o didático (muito menos ficamos com a sensação de que Adam McKay está ministrando um curso rápido de economia imobiliária), o que é consequência direta do tino cinematográfico do filme e da longa trajetória do diretor com as comédias. Um exemplo disso é que, em certo ponto, o narrador chega a nos perguntar se estamos entediados com tantas explicações sobre o assunto, o que simboliza tudo o que precisamos saber sobre a pegada cômica de A Grande Aposta.

Basicamente, sempre há algo de novo para se aprender em cada cena. Do início ao fim, o filme metralha novas siglas e teses para falar sobre a crise que afetou os Estados Unidos em 2008. Entretanto, por mais que não se capte tudo o que é explicado sobre o universo financeiro em que os personagens estão inseridos, isso não é fator decisivo para se compreender a dramaticidade e o humor essencial de A Grande Aposta. Isso mesmo, pode ser que depois da sessão ninguém mais lembre o que é subprime, mas a discussão moral sobre até que ponto se deve tirar proveito de uma crise e a inacreditável cruzada de personagens que apostaram em uma probabilidade quase ridícula são plenamente sentidas pelo espectador.

Além de ter esse mérito quase inalcançável de tornar tragável – e até mesmo divertido e dramático – esse texto tão desinteressante e distante de nossas vidas, McKay acerta em outros aspectos fundamentais. É admirável, por exemplo, o trabalho que ele firma com o montador Hank Corwin, tornando A Grande Aposta um filme rápido e dinâmico, mas nunca frenético e responsável por tontear ainda mais o espectador. No entanto, principalmente, o que que resume a maturidade do diretor é a forma como ele conduz seus personagens, tanto para o humor quanto para o drama. E não estamos falando apenas da piada intrínseca que existe em trazer alguém como a cantora pop Selena Gomez para explicar um dos tantos termos técnicos de economia imobiliária, mas dos próprios protagonistas mesmo.

Deixo de lado a performance celebrada de Christian Bale para falar de um injustiçado: Steve Carell. Enquanto Bale adicionou uma indefensável (e preguiçosa) indicação ao Oscar de coadjuvante por seu trabalho aqui, não há dúvidas que o verdadeiro show de A Grande Aposta é de Carell, que já era um grande ator muito antes do mundo descobri-lo dramaticamente em Foxcactcher – Uma História Que Chocou o Mundo (não deixem de procurar ou rever a força de sua sutileza em pequenos grandes filmes como Pequena Miss SunshineEu, Meu Irmão e Nossa Namorada). Ele rouba a cena aqui porque sintetiza todo o universo mostrado pelo filme: nervoso e irritado, seu Mark Baum parece sempre prestes a infartar tamanha a preocupação com os negócios. Elogiá-lo pela comédia é fácil (com o detalhe de que ele em nada repete trejeitos do seu clássico Michael Scott do seriado The Office) e aqui ainda existe espaço para que ele exercite novamente seu lado puramente dramático, já que o personagem é assombrado pelo suicídio do irmão e por sua parcela de responsabilidade em um negócio que tem o poder de abençoar ou destruir vidas.

O que mais influencia na avaliação final de A Grande Aposta é a discussão sobre até que ponto a falta de identificação com um tema pode minar o nosso interesse por um filme, mesmo que ele seja inegavelmente original e bem conduzido. É esse mesmo o caso da obra de Adam McKay, que, em sua forma é condução, dribla as complicações do tema que debate. Agora, se realmente vamos cair de amores por ele é uma história bastante diferente. Não deixo de lembrar de grandes professores que tive ao longo da minha trajetória acadêmica, em especial àqueles das ciências exatas que, de forma tão original e inovadora, descomplicavam as disciplinas já sabendo que elas eram extensivamente rejeitadas por boa parte dos estudantes. Apesar da minha admiração pelo talento deles, devo confessar: nunca tais professores me fizeram gostar de verdade do conteúdo que ensinavam mais do que eu apreciava uma aula convencional de português, inglês, história ou literatura. Às vezes, realmente é apenas uma questão de gosto. A Grande Aposta que me perdoe.

Melhores de 2015 – Trilha Sonora

Melhor Trilha Sonora - Sicario

Foi somente em 2014 que o islandês Jóhann Jóhannsson recebeu reconhecimento por seu trabalho no cinema. É claro que as lembranças pela bela trilha de A Teoria de Tudo foram merecidas, mas Jóhannsson já era digno de nota desde Os Suspeitos, suspense que marcou a sua primeira e assombrosa parceria com o diretor Denis Villeneuve. Os dois voltam a trabalhar juntos em Sicario: Terra de Ninguém, e a nova colaboração da dupla é a mais impactante do ano no que se refere ao segmento de trilhas sonoras. Imersivo e perturbador, o trabalho de Jóhannsson dá a devida intensidade para essa história sobre o lado sombrio do ser humano frente à busca sem medidas pela justiça. O compositor potencializa a sua criatividade ao acompanhar a trama com composições que nos deixam a sensação de que o chão está prestes a se abrir sob os nossos pés. Ainda disputavam a categoria: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)Dívida de HonraMad Max: Estrada da FúriaA Teoria de Tudo.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 Ela | 2013 – Gravidade | 2012 Tão Forte e Tão Perto | 2011 A Última Estação | 2010 Direito de Amar | 2009 O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008Desejo e Reparação | 2007 A Rainha

Joy: O Nome do Sucesso

Don’t ever think that the world owes you anything, because it doesn’t.

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Direção: David O. Russell

Roteiro: David O. Russell

Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Virginia Madsen, Diane Ladd,  Isabella Rossellini,  Édgar Ramírez, Dascha Polanco, Elisabeth Röhm, Susan Lucci,  Laura Wright, Maurice Benard,  Donna Mills, Jimmy Jean-Louis, Ken Howard

Joy, EUA, 2015, Drama, 124 minutos

Sinopse: Criativa desde a infância, Joy Mangano (Jennifer Lawrence) entrou na vida adulta conciliando a jornada de mãe solteira com a de inventora e tanto fez que tornou-se uma das empreendedoras de maior sucesso dos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

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Não deve ter sido fácil para David O. Russell, depois de uma escalada inabalável de sucesso nos últimos anos, ver Joy: O Nome do Sucesso fracassar diante de público e crítica, especialmente quando as premiações sugerem que somente Jennifer Lawrence é digna de nota em seu mais novo filme. Por outro lado, curiosamente, não há grandes razões para terem rebaixado tanto Joy, um longa que, sem dúvida, é menor e menos expressivo dentro da carreira do diretor, mas que sequer chega perto da irritabilidade causada por O Lado Bom da VidaTrapaça, obras anteriores assinadas por ele e misteriosamente celebradas pelo mundo inteiro. Ora, Joy realmente não faz nada de tão grave para ser o patinho feio da recente filmografia de David O. Russell. Ou talvez isso seja apenas consequência da expectativa zerada desse meu coração que nunca entendeu muito bem tanta festa para um diretor que não passa do mediano.

Joy já começa anunciando que é sobre a força feminina e uma celebração a histórias de mulheres como a personagem-título, que venceram adversidades e prosperaram na vida apesar das dificuldades. Também é logo após esse letreiro que O. Russell coloca na tela a cena de uma telenovela clichê e exagerada, sugerindo que é justamente o tom de quase-fábula que o filme pretende seguir. Ambas são intenções muito válidas, mas nunca desenvolvidas com firmeza. O que acontece é que Joy se prende demais aos fatos de um fiapo de história (a da mulher que inventou um esfregão que se retorcia sozinho!) do que na personalidade visionária e à frente de seu tempo da protagonista. Já no tom empregado, é curioso como O. Russell baixa o tom da caricatura em uma história que, para flertar com a fábula, precisava exatamente de alternativas como os barracos e as gritarias tão mal calibradas em seus longas anteriores.

É até estranho constatar que Joy seja um dos filmes mais pé no chão do diretor, já que não faz muito sentido com o que o roteiro propõe. Puxando a história para o realismo, David O. Russell evidencia os problemas que devem ter afastado seus fieis escudeiros. Afinal, se o diretor não utiliza sua veia cômica para brincar com a ideia de Joy Mangano (Jennifer Lawrence, novamente indicada ao Oscar) ser uma espécie de Gata Borralheira, não dá para engolir a unilateralidade de personagens como o pai da moça, basicamente um senhor insensível e interesseiro desprovido de senso paternal. Sem uma pegada mais criativa, também não é fácil levar na esportiva a série de abusos emocionais que a protagonista sofre passivamente de uma verdadeira família de urubus que se instalou em sua casa. Calcada no realismo, a dramaticidade de Joy não tem impacto, e um pouco de imaginação pop ou pueril só faria bem à saga de nossa heroína.

Conformados com a ideia de que Joy opta por seguir o caminho oposto do que o roteiro precisava para entregar algo diferente, encontramos um filme tradicional cozinhado em baixíssima fervura. Não há nada de muito especial na condução dessa história de uma mulher empreendedora que só passa a demonstrar personalidade de verdade quando o filme se encaminha para o final – e é aí que Jennifer Lawrence realmente tem algo diferente para trabalhar. A atriz é um capítulo à parte na discussão de Joy porque, em um espaço muito curto de tempo na carreira, conquistou a maior bênção e maldição que se pode ter em Hollywood: o estrelato. É inegável que a superexposição e até mesmo a supervalorização de sua figura (sou do time que considera seu Oscar de melhor atriz muito prematuro) dificultam diretamente a aceitação que temos de seu trabalho, já que precisamos sempre fazer um certo esforço para distinguir Jennifer Lawrence de um verdadeiro personagem em cena, mas a moça é boa e, apesar de ter sido erroneamente escalada para o papel só por ser a galinha dos ovos de ouro do diretor (uma atriz de idade mais avançada traria muito mais credibilidade ao papel), é quem eventualmente dá brilho a um filme de elenco subutilizado. Realmente, somente Lawrence é digna de alguma nota em Joy, o que, ainda assim, não quer dizer muita coisa.