Cinema e Argumento

Julieta

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Direção: Pedro Almodóvar

Roteiro: Pedro Almodóvar, baseado em contos de Alice Munro

Elenco: Adriana Ugarte, Emma Suárez, Inma Cuesta, Michelle Jenner, Daniel Grao, Darío Grandinetti, Rossy de Palma, Nathalie Poza, Mariam Bachir, Susi Sánchez,  Bimba Bosé, Agustín Almodóvar, Priscilla Delgado

Espanha, 2016, Drama, 99 minutos

Sinopse: Julieta (Emma Suárez/Adriana Ugarte) é uma mulher de meia idade que está prestes a se mudar de Madri para Portugal, para acompanhar seu namorado Lorenzo (Dario Grandinetti). Entretanto, um encontro fortuito na rua com Beatriz (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha Antía (Blanca Parés), faz com que Julieta repentinamente desista da mudança. Ela resolve se mudar para o antigo prédio em que vivia, também em Madri, e lá começa a escrever uma carta para a filha relembrando o passado entre as duas. (Adoro Cinema)

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A canadense Alice Munro fez história quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2013. Era a primeira vez que a honraria sueca se destinava, entre homens e mulheres, a um nome dedicado a fazer carreira a partir da produção de contos. Considerada uma das grandes vozes femininas da literatura contemporânea, a escritora tem como uma das marcas de sua obra o protagonismo de mulheres em histórias de amor e tragédia criadas a partir de eventos cotidianos (para principiantes, deixo como dica o livro Felicidade Demais, lançado em 2009). Imaginem, então, a comoção de saber que Pedro Almodóvar, o cineasta espanhol consagrado mundialmente por captar em seus filmes as alegrias e as mazelas da alma feminina, levaria às telas o universo da canadense com Julieta. Era o casamento perfeito, especialmente para ele, que vinha de um completo desastre (Os Amantes Passageiros) para retomar sua relação com o cinema feminino depois de exatos dez anos (Volver, de 2006, foi a última obra legitimamente Almodóvar assinada por ele nesse sentido). Entretanto, falta consistência a essa união aparentemente infalível, e é não muito difícil constatar o desvio: apesar de gêmeos tematicamente, a escritora e o espanhol têm pouco em comum no que se refere à forma, o que faz de Julieta uma experiência deveras decepcionante.

Ao contrário do que já foi dito, Almodóvar não parece ter perdido a mão. Com seu novo filme, é apenas vítima de uma incompatibilidade que ele próprio parece não ter percebido. Quando se pensa na carreira do cineasta, imediatamente vem à cabeça os deliciosos melodramas, as flores avermelhadas de Volver, a trilha acentuada de Má Educação, as histrionices de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos e as tragédias do passado e do presente de Fale Com Ela ou Tudo Sobre Minha Mãe. É uma pegada totalmente oposta ao que Alice Munro realiza em seus contos tão repletos de delicadezas e introspecção. Uma prova da necessidade dessa abordagem é a transposição que Sarah Polley fez do conto The Bear Came Over the Mountain para o cinema com o delicadíssimo Longe Dela, longa que, por entender a carreira de Munro, torna emocionante uma história aparentemente banal de um casamento abalado pelo Mal de Alzheimer. Já em Julieta, texto e direção estão fora sintonia: se a história é sobre uma mulher que descortina o passado para explicar o presente onde sua filha agora está ausente, Almodóvar, com a insistente trilha do grande Alberto Iglesias, por exemplo, dá um tom quase policialesco ao filme, sugerindo que revelações engenhosas, crimes ou tragédias surpreendentes estão prestes a acontecer. Só que o diretor não percebe que não estamos em A Pele Que Habito (um filme excepcional, diga-se de passagem) e que Munro nunca sobe o tom nem mesmo para falar de fatalidades. Com ela, a fervura é sempre baixa.

Desregulado nesse sentido, Julieta conta uma história que deveria se entregar à lógica de que menos é mais e não ao acampamento estético e sensorial que arma plano a plano. É curiosa a sensação que o filme traz porque o diretor é plenamente consciente dos elementos que lhe consagraram (e sabe, claro, utilizá-los muito bem), mas essa tomada de consciência o impede de ver as verdadeiras necessidades dessa adaptação que une três contos específicos da autora (Ocasião, Daqui a Pouco e Silêncio, da coletânea Fugitiva, de 2004). Não temos, em Julieta, qualquer reviravolta inesperada, e isso frustra porque o diretor nos induz ao aposto. Com isso, o filme se prolonga em uma história por vezes atropelada na passagem do tempo e problemática no ritmo ao nunca nos entregar o que seu diretor e roteirista tanto sugere, culminando em um final completamente abrupto.

Com tanta exploração sensorial, Almodóvar esquece de dar sentido a pontos fundamentais da história que nunca ganham explicações plausíveis, uma vez que o roteiro nunca convence o espectador dos motivos que fazem a protagonista ter vergonha de seu passado a ponto de escondê-lo a sete chaves nem explora com o devido aprofundamento o real significado dessa culpa pesada que a personagem carrega. Em Julieta, prevalecem as escolhas do diretor de dramatizar em sons e cores o que, na realidade, está nas pequenas coisas. Se a experiência ganha pontos dramáticos mais dignos de nota, isso acontece graças ao ótimo desempenho de Emma Suárez. Ela, que interpreta a protagonista na fase madura com a devida pose de uma mulher sofrida de Almodóvar, tem um tempo consideravelmente menor em cena e tira o melhor da tarefa ligeiramente ingrata de ficar apenas narrando fatos de sua vida em uma carta que sabe-se lá por que está sendo escrita, já que não revela praticamente nada que a sua destinatária já não saiba ou tenha vivido anos atrás.

Marcando o vigésimo longa-metragem do diretor, Julieta teve passagem muito tímida pela competição do Festival de Cannes deste ano e não chega aos cinemas trazendo a revolução da carreira de uma atriz como aconteceu com Penélope Cruz em Volver ou as resoluções polêmicas do suspense A Pele Que Habito. São contraditórios os sentimentos causados acerca da qualidade do novo longa de Almodóvar porque tudo parece estar em seu devido lugar. Enquanto o roteiro, em sua essência, trata de questões muito interessantes como a de uma filha que reconhece só entender a mãe após passar pelas mesmas dores que ela ou sobre como a culpa é capaz de se perpetuar mesmo para quem não deveria ter motivos para senti-la, o cineasta continua impecável ao pensar planos e composições visuais que salientam um universo feminino trágico mas sempre altivo em muitas particularidades. Julieta, contudo, não se eleva em função dessa estranha e quase imprevisível incompatibilidade entre dois artistas que, na teoria, tinham tudo para dar certo, mas que, na prática, se revelaram mais fortes separadamente. Apesar da falta de um importante tempero, a mistura vale por trazer um cineasta retomando uma fórmula de sucesso que havia deixado de lado há uma década. Que Julieta seja encarado, então, como apenas o ensaio de uma bela retomada. Sendo otimista dessa forma, dá para compensar um pouco a frustração.

44º Festival de Cinema de Gramado #1: os curtas-metragens brasileiros em competição

ComissaoCMBrasil_Credito Edison Vara_Pressphoto

Evento serrano, que realiza sua 44ª edição de 26 de agosto a 03 de setembro, seleciona 14 títulos para a mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Janela fundamental para a celebração de novos talentos e para o reconhecimento do exercício estético e narrativo de cineastas experientes, a mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros tem espaço nobre no Festival de Cinema de Gramado com sessões noturnas no Palácio dos Festivais e premiação em dinheiro para todas as suas categorias. Para este ano, 574 produções de diversos pontos do Brasil se inscreveram para tentar uma vaga na disputa pelo tão sonhado Kikito.

A avaliação dos curtas foi feita por uma comissão formada por seis profissionais: Alexandre Cunha (gerente de programação e aquisição do Canal Brasil), Fatimarlei Lunardelli (jornalista e professora), Flávia Guerra (jornalista e documentarista), Ivonete Pinto (jornalista e professora), Jeferson De (cineasta) e Marcos Verza (ator). Ao todo, são 14 filmes em competição na mostra de curtas brasileiros, onde São Paulo lidera a lista com cinco títulos. Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro também marcam presença na seleção. 

Confira os curtas-metragens brasileiros em competição:

A Página (SP), de Guilherme Andrade
Aqueles Cinco Segundos (MG), de Felipe Saleme
Black Out (PE), de Adalmir da Silva, Felipe Peres Calheiros, Francisco Mendes, Jocicleide Valdeci de Oliveira, Jocilene Valdeci de Oliveira, Martinho Mendes, Paulo Sano e Sérgio Santos
Crônicas do Meu Silêncio (SP), de Beatriz Pessoa
Deusa (SP), de Bruno Callegari
Horas (RS), de Boca Migotto
Ingrid (MG), de Maick Hannder
Lúcida (SP), de Fabio Rodrigo
Memória da Pedra (BA), de Luciana Lemos
O Ex-Mágico (PE), de Mauricio Nunes e Olimpio Costa
O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico (RJ), de Gugu Seppi e Allan Souza Lima
Rosinha (DF), de Gui Campos
Sesmaria (RS), de Gabriela Richter Lamas
Super Oldboy (SP), de Eliane Coster

Rapidamente: “Ave, César!”, “O Menino e o Mundo”, “Pelo Malo” e “Zootopia”

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Para fazer sessão dupla: assim como o ótimo Tomboy, da França, o venezuelano Pelo Malo retrata a infância sob à luz de gênero, sexualidade e expectativas acerca de expressões.

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, de Joel e Ethan Coen): A comédia é um terreno muito perigoso na carreira dos irmãos Coen. Ao longo dela, a dupla já assinou obras muito afiadas (O Amor Custa CaroQueime Depois de Ler e, claro, Fargo), mas também trabalhos bastante tediosos (Matadores de Velhinhas, Um Homem Sério), o que despertava certa curiosidade acerca de Ave, César!, filme que abriu o Festival de Berlim deste ano e que traz um elenco para ninguém botar defeito. De George Clooney (em sua quarta colaboração com os Coen) a Ralph Fiennes, a má notícia, no entanto, é que Ave, César! não passa de uma tremenda decepção, onde qualquer admiração maior por parte da crítica vem exclusivamente do fato do filme ser uma homenagem à era de ouro do cinema dos anos 1950. Excetuando o tributo à sétima arte e o inegável carisma dos atores (vale mencionar a cena musical com Channing Tatum, ator que vem, aos poucos, incrementando sua carreira), Ave, César! sofre do mesmo problema do recente Deadpool: referências de mais e história de menos. Em ambas as obras é possível sim se divertir, mas falta consistência e principalmente envolvimento. Os irmãos Coen entregam um filme bem produzido e beneficiado por ótimos intérpretes, só que vazio até mesmo para quem embarca aqui ou ali no humor dedicado aos bastidores do fazer cinematográfico.

O MENINO E O MUNDO (idem, 2013, de Alê Abreu): Primeira animação de língua portuguesa indicada ao Oscar de melhor animação, O Menino e o Mundo fez uma bela carreira no exterior. Além da merecida lembrança no prêmio da Academia, o filme de Alê Abreu se consagrou ao levar o prêmio Cristal e o troféu do público no festival de Annecy, realizado na França e um dos mais importantes do segmento de animação do mundo. É muito carinhoso o relato que o diretor faz sobre um garoto que viaja pelo mundo em busca do pai que foi embora de casa, transportando a ideia inicial do projeto de ser um documentário sobre a América Latina para o universo de uma animação extremamente criativa em detalhes e também na costura do visual com a própria narrativa. Muito próximo do que o Brasil realiza no gênero visualmente falando (para quem quiser fazer uma dobradinha, a dica é conferir Até Que a Sbórnia nos Separe, de Otto Guerra e Ennio Torresan Jr., que também concorreu no festival de Annecy no mesmo ano de O Menino e o Mundo), o resultado chega a ser tocante por sua delicada simplicidade. Abreu, que desenhou a próprio punho cada um dos desenhos da animação, não deixa de transparecer a vontade inicial do filme ser um documentário (quando o protagonista chega à metrópole, a pegada se torna outra, o que dá uma certa abalada no ritmo), mas os 80 minutos de metragem são sempre interessantes, seja pela narrativa ou pela estética – e isso é algo que boa parte das animações de orçamentos milionários sequer consegue alcançar.

PELO MALO (idem, 2013, de Mariana Rondón): Realizado quase paralelamente ao ótimo Tomboy, da França, o venezuelano Pelo Malo é outro drama muito necessário sobre a busca por uma identidade em plena infância. Enquanto em Tomboy acompanhávamos os dias de uma menina que se camuflava como menino em uma nova vizinhança, em Pelo Malo somos testemunhas da vida do pequeno Junior (Samuel Lange Zambrano), garoto de família humilde que sonha ter os cabelos lisos para reproduzir o visual de um famoso cantor. O que acontece é que a mãe não sabe lidar muito bem com a situação, acreditando que o filho, através dessa e de outras expressões, está colocando para fora a sua homossexualidade. Terceiro longa-metragem assinado por Mariana Rondón, Pelo Malo, assim como Tomboy, preza pelo naturalismo ao tratar com dignidade e delicadeza as confusões internas de uma criança que está começando a construir sua própria personalidade. Talvez o caso do filme venezuelano seja ainda mais complicado porque o protagonista tem a sua naturalidade podada por todos a sua volta – e até mesmo a avó, única figura que parece compreender (mesmo que com segundas intenções), os ímpetos do menino, tem uma relação extremamente conturbada com a família. Ainda assim, como vamos aos poucos descobrindo, Pelo Malo não é necessariamente sobre autodescoberta em relação à orientação sexual, mas sim em relação a qualquer identidade que vamos abraçar para a vida inteira, dos cabelos que queremos ter aos amigos que precisamos nos cercar. É inspirador vermos uma representatividade como essa registrada com grande sensibilidade no cinema. 

ZOOTOPIA – ESSA CIDADE É O BICHO (Zootopia, 2016, de Byron Howard, Jared Bush e Rich Moore): Seguindo no assunto diversidade, Zootopia é um belo exemplo de animação que ensina os pequenos a ter autenticidade desde sempre. Ao narrar a história de uma pequena e adorável coelhinha que tem o sonho de ir para a cidade grande e se tornar policial (profissão atribuída apenas a animais muito maiores e fortes, mas também menos espertos do que ela), a animação é belíssima ao envolver os pequenos nessa mensagem de que não devemos nunca nos acomodar com menos do que aquilo que queremos e precisamos ser. Até mesmo um discurso motivacional previsível ganha contornos emocionantes a partir dessa abordagem e, principalmente, da simpatia de nossa irresistível protagonista e também de seu agora-amigo raposo. Já a parte da trama em si não envolve tanto, mesmo com a admirável escolha de transformar Zootopia em um verdadeiro filme de investigação que envolve até corrupção política! Algo se perde na mistura e todo o recheio da história não é tão interessante quanto a cobertura. Talvez o problema seja o filme fazer mistério demais para chegar a revelações que não são particularmente consistentes, mas é fato que a animação fica no meio do caminho, caindo no velho defeito de ter uma ideia que renderia muito mais em um curta-metragem. 

TOP 10: as melhores cenas de Meryl Streep

meryl67Basta dar uma breve circulada aqui no blog para perceber que considero Meryl Streep a rainha favorita do universo. Nem sempre foi assim: nos primórdios das minhas descobertas cinéfilas, caí de amores por Susan Sarandon, mas precisamos ser sinceros: o tempo não foi nada justo com ela, ao contrário de Meryl, que, com os anos, aprendeu a se divertir e se tornou até mesmo sucesso de público e bilheteria. Costumo dizer que a definição de “melhor atriz em atividade” não passa apenas pela questão do talento, mas também pela diversidade de papeis, por conseguir sobreviver na indústria (especialmente se estamos falando das mulheres) e por conseguir arriscar sempre. E, no que sei de cinema até aqui, não conheço atriz com carreira tão plural e prolífera quanto a dela, muito menos com imenso talento distribuído em tudo isso. Por isso, homenageamos a aniversariante do dia ressuscitando a série TOP 10 que costumávamos fazer aqui no blog. Muita coisa muda com o tempo, e várias listas que publicamos aqui já não seriam as mesmos (Kate Winslet, por exemplo, certamente teria a adição de Steve Jobs em sua postagem), mas é sempre divertido fazê-las. Já havíamos elencado os melhores desempenhos de Meryl Streep, mas, para celebrar os 67 anos da atriz, dessa vez, embarcamos em um desafio diferente: falar sobre suas melhores cenas no cinema. Lembrando que nosso objetivo aqui não é ponderar uma média do que público e crítica consideram como mais emblemático ou da relevância de cada cena na carreira de atriz. A lista, na realidade, é feita toda com o coração.

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1A decisão imposta e assombrosa de A Escolha de Sofia

A própria Meryl Streep já revelou que só conseguiu gravar esta cena uma única vez e que, posteriormente, nunca teve coragem de revê-la. Se para nós, espectadores, já é doloroso ver a personagem do título tendo que fazer uma das escolhas mais inimagináveis da vida de qualquer pessoa, imagine, então, para ela que precisou estar na pele de toda a situação. Com alemão afiadíssimo, Meryl não deixa que o idioma sequer a faça hesitar em toda a intensa carga dramática de sua interpretação. É impossível não ficar com o coração na boca, tanto pela situação em si quanto pelo que ela realiza como intérprete. Nem mesmo o fato de A Escolha de Sofia ser um filme problemático diminui a potência deste momento dramaticamente universal e atemporal. 

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2. Despedida no semáforo em As Pontes de Madison

Coladinha com a nossa primeira posição vem a cena mais emblemática do drama romântico As Pontes de Madison. Assim como em A Escolha de Sofia, aqui a atriz precisar encarnar novamente uma intensa decisão. E, mais uma vez, o resultado é de partir o coração. Sem dizer uma palavra sequer, a atriz destroça corações com olhares, choros contidos e, principalmente, uma mão na maçaneta que comunica universos. Percebemos tudo o que se passa na cabeça da italiana Francesca Johnson, e por isso é tão angustiante ver que nada em seu interior consegue movê-la para os caminhos que tanto sonha. O diretor Clint Eastwood dá o toque romântico e dramático certo para o momento, mas o show é mesmo todo de Meryl, em uma de seus mais incríveis registros.

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3. Um ato final de compreensão e generosidade em Kramer vs. Kramer

Filme que traz o papel coadjuvante mais relevante e marcante de toda a carreira de Meryl Streep, Kramer vs. Kramer fez história ao tocar em um assunto delicadíssimo em plenos anos 1970: o que acontece quando uma mãe abandona sua família? Não deixa de ser pertinente a discussão quanto até hoje mulheres são criticadas por atitudes perfeitamente aceitáveis no universo masculino. O diretor e roteirista Robert Benton, no entanto, foi esperto e em momento algum vilanizou a Joanna de Meryl Streep. Ela é apenas uma mulher depressiva e confusa, o que torna seu ato final de compreensão e generosidade tão simbólico. São muitos os momentos em que Meryl, nos primórdios de sua carreira, tem a chance de brilhar com esse papel desafiador, mas sua última cena é particularmente delicada e emocionante, além de encerrar o filme com chave de ouro.

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4. “Todos querem ser como nós” em O Diabo Veste Prada

Outro papel da carreira de Meryl Streep que coloca em pauta os valores (ou falta deles) envolvendo uma série de julgamentos acerca do que é esperado de uma mulher, Miranda Priestly fez com que a atriz se tornasse um verdadeiro ícone pop e um grande sucesso de bilheteria. São inesquecíveis os momentos that’s all de Miranda e a dilacerante entrevista de emprego de Andy Sachs (Anne Hathaway). Entretanto, é em uma franca conversa com sua assistente dentro de um carro que Meryl sintetiza toda a sua força no papel. Descortinando uma série de  fatos que não nos deixa, de uma vez por todas, com qualquer dúvida sobre a competência e a inteligência de Miranda, a atriz brilha com todos os detalhes da construção que tornaram a personagem inesquecível, mostrando o íntimo profissional de uma mulher que amamos odiar e que, principalmente, precisamos respeitar.

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5. Uma visita inesperada em As Horas

É a performance mais subestimada por público e crítica em As Horas, e até hoje tento compreender o porquê. Na realidade, Clarissa Vaughan é tão complexa quanto a Laura Brown de Julianne Moore e até mais desafiadora que a Virginia Woolf de Nicole Kidman. Interpretando todas as angústias e infelicidades de uma mulher contemporânea sem qualquer artifício ou alegoria de figurino ou maquiagem, Meryl brilha nessa cena com Jeff Daniels. É nela que compreendemos melhor o universo de sua personagem, e, indo da angustiante mania de Clarissa de não verbalizar seus sentimentos ao total desmoronamento frente ao antigo amigo, a atriz tem material de sobra para se esbaldar – e o faz com toda elegância, disciplina e emoção que as tornaram única.

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6. Donna canta “The Winner Takes it All” em Mamma Mia!

Por mais que você não goste desse musical divertido, mas mal dirigido por Phyllida Lloyd, não há como negar a influência dele ao reforçar Meryl Streep como sucesso de bilheteria (no Reino Unido bateu recordes e mais recordes nos cinemas) e ao popularizar sua figura de intérprete com voz admirável, já que, nos anos seguintes, mais dois filmes exploraram sua voz: Caminhos da FlorestaRicki and the Flash: De Volta Pra Casa. O poder vocal da atriz não era novidade, o que não quer dizer que o que ela faz na cena de The Winner Takes it All não tenha seja um marco em sua carreira. Com uma versão muito mais dramática da clássica canção do ABBA, Meryl emociona ao cantar mas também ao interpretar toda a história e principalmente as mágoas da letra dessa música que sintetiza a vida amorosa de sua Donna Sheridan. E, nós, assim como Pierce Brosnan, só podemos ficar novamente sem saber o que fazer frente a tanto talento.

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7. Suzanne canta Ray Charles em Lembranças de Hollywood

Meryl Streep pode até alcançar notas mais altas cantando You Don’t Know Me, de Ray Charles, em Lembranças de Hollywood, mas esse é um momento cercado de sutilezas se comparado ao show de The Winner Takes it All, em Mamma Mia!, e principalmente à cena também musical que Shirley MacLaine protagoniza segundos depois nesse mesmo filme dirigido pelo saudoso Mike Nichols em 1990. Enquanto Doris (MacLaine) não pensa duas vezes antes de pular em cima de um piano para cantar como uma verdadeira diva, Suzanne (Meryl) solta a voz muito timidamente, sem qualquer glamour frente ao estrelado da mãe. Esse contraponto, onde Meryl trabalha a introspecção de sua personagem como a admiração e respeito de uma filha por uma mãe que, na realidade, não gosta de ver sua sucessora brilhar mais do que ela, está em cada expressão corporal da atriz ao longo de You Don’t Know Me. São cenas que dialogam, e de forma muito mais bonita do que pode parecer.

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8. O desabafo final da irmã Aloysius em Dúvida

Há quem deteste o desfecho de Dúvida e até quem diga que os exatos 30 segundos finais ateiam fogo à história inteira, mas sou fã da provocação colocada pelo diretor e roteirista John Patrick Shanley na tela. Não é o testamento final da humanização da irmã Aloysius (Meryl) porque a própria já havia hesitado em palavras e emoções ao ser confrontada pelo padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) em relação a já ter cometido pecados em tempos passados. Ainda assim, acho fundamental e até comovente o repentino desmoronamento de uma mulher que precisava baixar a guarda e se desarmar. Até o último minuto, irmã Aloysius mantem a pose ao segurar as lágrimas e as palavras para, depois, confundir e provocar o espectador com seu desabafo final – e Meryl, eventualmente criticada por seus exageros no papel, faz desse o o seu melhor momento em Dúvida.

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9. A nervosa reunião de gabinete em A Dama de Ferro

É preciso muito talento como atriz para sobreviver a um filme inegavelmente mal escrito e dirigido como A Dama de Ferro. Ainda é um tanto frustrante que Meryl tenha precisado de um papel de biografia carregado de sotaque e maquiagem para ganhar um terceiro Oscar. Por outro lado, isso não diminui o que ela consegue alcançar no longa de Phyllida Lloyd. A cena escolhida impressiona porque mostra a polêmica Margaret Thatcher nos tempos mais movimentados e turbulentos de sua vida política e coordenando uma nervosa reunião de gabinete onde são questionados desde os erros de português em um relatório até os ideais políticos de seus assistentes. O sotaque e a postura sabemos que ela tira de letra, mas, nesse momento em particular, Meryl transmite, com uma certeira intensidade, toda a imponência e autoridade de uma mulher que só alivia a respiração e relaxa a postura quando se vê sozinha entre quatro paredes.

MERYL STREEP stars in AUGUST: OSAGE COUNTY

10. O tenso jantar de Álbum de Família

Completando a tríade das personagens mais ácidas de Meryl Streep (formada ainda por Miranda Priesly, de O Diabo Veste Prada, e Aloysius Beauvier, de Dúvida.) está a matriarca Violet Weston de Álbum de Família. O auge de sua personalidade altamente crítica e de suas ofensas disfarçadas de sinceridade está no primeiro jantar que ela realiza com a família após o velório do marido. Assim como em todo o filme, cada personagem tem seu momento aqui. No entanto, é mesmo Violet quem lidera a situação toda, dizendo todas verdades possíveis como uma mulher que parece ter muito pouco de mãe. Na pele da protagonista, Meryl, ao inferiorizar as filhas por elas terem uma vida supostamente mais fácil do que a dela durante a juventude, nunca se repete ou hesita na dinâmica que estabelece com todos os colegas na longa cena encenada ao redor de uma simples mesa de jantar. É algo inteiramente novo, incômodo e interpretado com a habitual excelência da veterana.

Stephen Daldry dirigirá “Wicked” (e, por enquanto, os musicais agradecem)

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Cena do musical Billy Elliot, dirigido por Stephen Daldry com músicas de Elton John nos palcos londrinos. A experiência do diretor dá credibilidade para a adaptação de Wicked para o cinema.

Eis que ontem, depois de muito, mas muito tempo, o gênero musical recebeu a sua notícia mais empolgante em sabe-se lá quantos anos: o britânico Stephen Daldry finalmente foi oficializado como o diretor da adaptação cinematográfica de Wicked, o clássico musical da Broadway que estreou em 2003 fazendo uma releitura do igualmente emblemático O Mágico de Oz. A notícia é boa porque Daldry tem currículo: debutou no cinema com o delicadíssimo e inspirador Billy Elliot para depois lançar filmes marcantes como As Horas, uma obra-prima que só se engrandece com o tempo, e outros de bastante repercussão, a exemplo de O Leitor, que finalmente deu o Oscar de melhor atriz para Kate Winslet. Praticamente invicto no Oscar (até com o mediano Tão Forte e Tão Perto ele conseguiu chegar em pelo menos uma das categorias principais do prêmio), Daldry só murchou por completo com Trash: A Esperança Vem do Lixo, o que pode ser reflexo de uma falta de timing que só aumenta as credenciais do diretor para comandar Wicked: durante a produção do filme, ele dava os toques finais à versão musical de seu Billy Elliot para os palcos londrinos. 

A notícia é das mais empolgantes porque já faz um bom tempo que o gênero não marca época. Há quem tenha tentado bastante nos últimos anos, mas é bem provável que o último musical que tenha feito a cabeça de gerações seja mesmo Moulin Rouge! – Amor em Vermelho (que, recentemente, completou 15 anos de lançamento) ou, para quem gosta, Chicago, longa de Rob Marshall vencedor do Oscar de melhor filme. Por falar em Marshall – que, aliás, nunca me convenceu nem mesmo com o celebrado musical estrelado por Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones e Richard Gere – sejamos justos: não há cineasta que tenha mais investido no gênero do que ele recentemente. A lástima disso tudo é que os projetos foram todos ladeira abaixo, pois Marshall conseguiu desgraçar o promissor Nine, um filme de elenco monstruoso (Daniel Day-Lewis! Judi Dench! Nicole Kidman! Sophia Loren!) onde apenas Marion Cotillard brilhava e saía ilesa, e aborrecer meio mundo com a perdida miscelânea de personagens de fantasia no pavoroso Caminhos da Floresta.

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Não há quem tenha investido mais em musicais nos últimos anos do que o diretor Rob Marshall, mas Marion Cotillard, em Nine, foi o único aspecto memorável de seus trabalhos pós-Chicago.

Houve, em certa época, a febre dos musicais que homenageavam bandas icônicas, como Across the Universe, que cantava Beatles, Mamma Mia!, que colocava Meryl Streep a pular de macacão na Grécia com os clássicos do ABBA. Ambas produções interessantes e deliciosas com suas particularidades de descontração e tributos, mas comandas por profissionais inexperientes demais no cinema e construídas a partir de canções e não de uma história propriamente dita, o que só aumentava a sensação de que tudo era mais diversão do que propriamente cinema. O gênero quase alçou voo novamente com Dreamgirls – Em Busca de Um Sonho, filme que parecia ter o pacote completo para se tornar um marco: parte técnica irrepreensível, escala considerável de produção, um diretor de gabarito (Bill Condon, de Deuses e MonstrosKinsey – Vamos Falar Sobre Sexo) e um repertório poderoso. O erro? Selecionar um elenco inexperiente, onde é priorizado o poder vocal (Beyoncé dispensa comentários e Jennifer Hudson ganhou o Oscar por cantar no cinema após ter perdido o American Idol) do que a singularidade da atuação (pouco a pouco descobríamos que Jamie Foxx era um canastrão, e não aquele furacão que nunca deslanchou pós-Ray). O que fica na memória a respeito de Dreamgirls é o coletivo de notas deliciosamente estridentes alcançadas por Beyoncé e especialmente Hudson na cena de And I Am Telling You I’m Not Going. Só que, novamente, faltou cinema e, principalmente, uma narrativa consistente.

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Hairspray – Em Busca da Fama é espirituoso, tem ótimas coreografias e compreende bem a função da música em uma narrativa. O que faltou foi a crítica ser menos avessa ao seu clima despretensioso, ingênuo e sonhador.

Outras obras surgiram mais tímidas e, por suas dimensões infinitamente menores e propostas que se distanciavam por completo da “seriedade” que tantos críticos exigem para valorizar um musical, não receberam o carinho que mereciam. É o caso do afetuoso Hairspray – Em Busca da Fama, que, apesar de incluir em seu repertório algumas musicas perfeitamente dispensáveis, tinha clara noção de como conduzir uma história a partir da música. Além do irresistível elenco, o filme de Adam Shankman contagiava e despertava uma grande nostalgia, mas tudo isso talvez fosse colorido e alegre demais para que muitos dessem o braço a torcer. Descolorindo o universo musical, veio Tim Burton com seu Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Wellfleet, que representou, tanto para Burton quanto para seu parceiro Johnny Depp, o último momento expressivo de suas carreiras que viriam a ruir dali em diante. Esse é outro caso onde o diretor compreende a função da música, muito provavelmente até demais para que todos conseguissem abraçar cada diálogo cantado de um universo que ainda era muito próprio de Tim Burton, afunilando ainda mais a força de seu apelo. Na linha de entender à risca a estrutura clássica de um musical, arrisco dizer (e já estou preparado para os detratores), que ninguém tenha executado melhor a fórmula do que Tom Hooper no grandioso Os Miseráveis. Por outro lado, Tom Hooper já era odiado mundialmente pelo Oscar que levou por O Discurso do Rei e teve que pagar o preço, com público e crítica, pela campanha ostensiva que realizou para conquistar (injustamente) o prêmio mais cobiçado do cinema.

O que quero dizer é que não basta o musical ser um gênero muito específico por si só. Nos últimos anos, mesmo aqueles que eventualmente eram projetos bacanas e mereciam ser reconhecidos de alguma forma, foram acometidos por uma série de variantes igualmente específicas. Não encontramos, no cinema recente pós-Moulin Rouge! ou Chicago, um exemplar do gênero que fosse devidamente adorado por uma expressiva maioria. Tivemos desastres, é verdade, e isso amplia a nossa sede por musicais que possam finalmente mostrar, com a frequência que tantos outros gêneros mostram, que experiências do estilo podem voltar a ser superlativas. Claro que aqui ou ali me delicio cantarolando as canções até dos musicais que não gosto (é a doença de quem é um apaixonado incondicional pelo gênero!), mas, quando surgem notícias como a de Rob Marshall misteriosamente recebendo novo voto de confiança no segmento para dirigir uma sequência de Mary Poppins (ainda não entendo o que se passa na cabeça dos estúdios para mexer com clássicos!), minha esperança vai por água abaixo. Entretanto, essa é uma semana mais feliz. Nenhuma combinação parece mais certeira do que Stephen Daldry envolvido com Wicked. Estou com os dedos cruzados desde agora.