Cinema e Argumento

Globo de Ouro 2014: apostas

Tina Fey e Amy Poehler apresentam a cerimônia pelo segundo ano consecutivo

Tina Fey e Amy Poehler apresentam a cerimônia pelo segundo ano consecutivo

Dia de finalmente conhecer os vencedores do Globo de Ouro 2014! Lembrando que, aqui no Brasil, a transmissão fica a cargo do canal TNT a partir das 22h (horário de Brasília), começando com o tapete vermelho. A cerimônia inicia posteriormente às 23h. Fiquem abaixo com as nossas apostas para as categorias de cinema e TV!

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA: 12 Anos de Escravidão / alt: Gravidade

MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Trapaça / alt: O Lobo de Wall Street

MELHOR ATOR DRAMA: Matthew McCounaghey (Clube de Compra Dallas) / alt: Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão)

MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Bruce Dern (Nebraska) / Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street)

MELHOR ATRIZ DRAMA: Cate Blanchett (Blue Jasmine) / alt: Sandra Bullock (Gravidade)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Meryl Streep (Álbum de Família) / alt: Amy Adams (Trapaça)

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Jared Leto (Clube de Compra Dallas) / alt: Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão) / alt: Julia Roberts (Álbum de Família)

MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Gravidade) / alt: Steve McQueen (12 Anos de Escravidão)

MELHOR ROTEIRO: Trapaça / alt: Ela

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Azul é a Cor Mais Quente / alt: Vidas ao Vento

MELHOR ANIMAÇÃO: Frozen – Uma Aventura Congelante / alt: Meu Malvado Favorito 2

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante) / alt: “Ordinary Love” (Mandela: Long Walk to Freedom)

MELHOR TRILHA SONORA: Gravidade / alt: 12 Anos de Escravidão

TV

MELHOR SÉRIE DRAMA: Breaking Bad / alt: House of Cards

MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL: Girls / alt: Modern Family

MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Behind the Candelabra / alt: Top of the Lake

MELHOR ATOR DRAMA: Bryan Cranston (Breaking Bad) / alt: Kevin Spacey (House of Cards)

MELHOR ATRIZ DRAMA: Julianna Margulies (The Good Wife) / alt: Kerry Washington (Scandal)

MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Michael J. Fox (The Michael J. Fox Show) / Jim Parsons (The Big Bang Theory)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Julia Louis-Dreyfus (Veep) / alt: Amy Poehler (Parks and Recreation)

MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Michael Douglas (Behind the Candelabra) / alt: Matt Damon (Behind the Candelabra)

MELHOR ATRIZ MINISSÉRIE/TELEFILME: Helena Bonham Carter (Burton & Taylor) / alt: Elisabeth Moss (Top of the Lake)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISERÉRIE/TELEFILME: Aaron Paul (Breaking Bad) / alt: Josh Charles (The Good Wife)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Hayden Panettiere (Nashville) / alt: Sofia Vergara (Modern Family)

O Mordomo da Casa Branca

Darkness cannot drive out darkness. Only light can do that.

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Direção: Lee Daniels

Roteiro: Danny Strong, baseado no artigo “A Butler Well Served by This Election”, de Wil Haygood

Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, John Cusack, Jane Fonda, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard, Lenny Kravitz, James Marsden, Vanessa Redgrave, Alan Rickman, Liev Schreiber, Robin Williams, David Oyelowo

Lee Daniels’ The Butler, EUA, 2013, Drama, 132 minutos

Sinopse: 1926, Macon, Estados Unidos. O jovem Cecil Gaines vê seu pai ser morto sem piedade por Thomas Westfall (Alex Pettyfer), após estuprar a mãe do garoto. Percebendo o desespero do jovem e a gravidade do ato do filho, Annabeth Westfall (Vanessa Redgrave) decide transformá-lo em um criado de casa, ensinando-lhe boas maneiras e como servir os convidados. Cecil (Forest Whitaker) cresce e passa a trabalhar em um hotel ao deixar a fazenda onde cresceu. Sua vida dá uma grande guinada quando tem a oportunidade de trabalhar na Casa Branca, servindo o presidente do país, políticos e convidados que vão ao local. Entretanto, as exigências do trabalho causam problemas com Gloria (Oprah Winfrey), a esposa de Cecil, e também com seu filho Louis (David Oyelowo), que não aceita a passividade do pai diante dos maus tratos recebidos pelos negros nos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

O diretor Lee Daniels conseguiu enganar meio mundo quando estourou com Preciosa – Uma História de Esperança. E me incluo no grupo dos enganados, já que, ainda hoje, tenho boas lembranças do filme estrelado por Gabourey Sidibe. Depois de Preciosa, no entanto, Daniels se mostrou irremediavelmente ruim. Aqui no Brasil, por exemplo, ele chegou aos cinemas com dois longas bastante insatisfatórios em 2013. O primeiro foi Obsessão, que se perdia em diversos fetiches de seu realizador e narrava mil histórias ao mesmo tempo sem se aprofundar em nada. O segundo foi esse O Mordomo da Casa Branca, que, mesmo tendo razões de sobra para justificar plenamente seu sucesso de 116 milhões de dólares nas bilheterias estadunidenses, é mais um trabalho falho do diretor, com um roteiro muito mal estruturado, enorme desperdício de elenco e uma história apoiada nos mais ultrapassados esquemas utilizados em biografias.

O Mordomo da Casa Branca era para ser, em teoria, o relato da vida de Cecil Gaines (Forest Whitaker), personagem inspirado na história real de Eugene Allen, mordomo negro que serviu diversos presidentes na Casa Branca entre 1952 e 1986. Porém, o roteiro escrito por Danny Strong, baseado no artigo A Butler Well Served by This Election, de Wil Haygood, inexplicavelmente abandona os dramas do protagonista quase em tempo integral para colocar a luta dos negros contra o racismo no século XX como norte da trama. O resultado é um filme extremamente irregular em sua narrativa, já que o texto ora oscila entre os rasos questionamentos de Gaines e o excessivo foco documental nos fatos politico-sociais do espaço e tempo recortados pelo roteiro. E ver um texto tão mal desenvolvido com a assinatura de Danny Strong é especialmente decepcionante, pois ele já foi responsável por exemplares roteiros políticos e biográficos para a TV, sendo Virada no Jogo, da HBO, seu exemplar mais recente nesse sentido.

Se a parte envolvendo a luta dos negros até tem seu valor histórico – o que reforça a ideia de que O Mordomo da Casa Branca seria mais relevante como documentário -, os momentos envolvendo a vida pessoal do protagonista desapontam profundamente. Começamos pela essência de Cecil Gaines, que por si só já praticamente anula as chances do filme de ter algum conflito: ele é um homem íntegro, batalhador e vencedor, que não faz mal a ninguém e que sempre foi vítima das circunstâncias injustas da vida. Nesse sentido, a escalada desse homem quase sem defeitos de garoto escravo em fazendas de algodão a homem de confiança da Casa Branca não é sentida, pois em menos de meia hora Cecil percorreu toda sua trajetória e já chegou no ponto em que conquista todas as pessoas e a atenção de presidentes. A presença de sua esposa, vivida por Oprah Winfrey (desde 1998, com Bem-Amada, ela não atuava em um filme), também não diz muita coisa, já que Gloria é, assim como seu marido, basicamente unidimensional – e a investida do roteiro em citar uma possível traição dela com o amigo vivido por Terrence Howard é jogada na trama com muito descaso.   

Com tudo isso, O Mordomo da Casa Branca perde seu ritmo por completo. São mais de duas horas aborrecidas onde a maior diversão é procurar os milhares de rostos conhecidos que integram o elenco. E a missão é longa, já que poucas vezes nos últimos vimos um elenco tão extenso e eclético em um mesmo filme. Só que a péssima notícia é que a brincadeira termina mesmo nesse “Onde está Wally?”, pois nenhum dos atores faz sequer algo especial. Não é culpa deles: o roteiro simplesmente não dá espaço para que veteranos como Alan Rickman, Jane Fonda e Vanessa Redgrave explorem qualquer dimensão em seus papeis. São apenas nomes em um cartaz para atrair público. Já Whitaker e Winfrey, protagonistas da história, não passam do velho samba de uma nota só. Ele, no piloto-automático, prova que seu Oscar por O Último Rei da Escócia foi justo sim, pois lá ele fazia muito bem um papel completamente atípico para sua carreira: forte, misterioso e perigoso – e não indefeso e inocente, quase abobado, como costuma representar. Oprah também não se impõe na tela, seja por sua interpretação ou pelo material que lhe é dado. E percebam que até mesmo nos momentos dramáticos a câmera foca abruptamente em seu rosto já encharcado de lágrimas, sem sequer acompanhar a origem e a evolução dos choros.

Se existe um consolo em O Mordomo da Casa Branca é que ele termina como o filme menos afetado de toda a carreira de Lee Daniels. Aliás, talvez o diretor nunca tenha sido tão quadrado e domesticado. Essa deve ter sido a principal razão para o filme ter sido um verdadeiro sucesso de bilheteria lá fora. Os estadunidenses adoram uma história esquemática, biográfica e, acima de tudo, patriótica. Até porque O Mordomo da Casa Branca faz de tudo para mostrar como o país “venceu” o racismo, chegando a mostrar inclusive a era Barack Obama. E Lee Daniels não poupa esforços para melodramatizar esse momento, com direito até ao protagonista já envelhecido e cheio de maquiagem se emocionando com essa eleição que significa tanto para seus semelhantes após anos de injustiça. Dessa forma, é mais um longa que, assim como Histórias Cruzadas, mostra as barbaridades sociais sofridas pelos negros, mas que também faz questão de forçar todo o drama possível para indicar que, apesar dos erros, os Estados Unidos e seu povo “consertam” os erros. E como questionar esse sucesso financeiro se a história ainda é encabeçada por uma espécia de Forrest Gump negro que acompanha diversos fatos históricos do país? Mas falta Tom Hanks. E Roberts Zemeckis. Aliás, faltam muitas coisas. Quem sabe na próxima vez, Lee Daniels…

FILME: 5.0

2*

Questão de Tempo

All the time traveling in the world can’t make someone love you. 

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Direção: Richard Curtis

Roteiro: Richard Curtis

Elenco: Domhnall Gleeson, Rachel McAdams, Bill Nighy, Lydia Wilson, Lindsay Duncan, Richard Cordery, Joshua McGuire, Tom Hollander, Margot Robbie, Will Merrick, Vanessa Kirby

About Time, Inglaterra, 2013, Romance, 123 minutos

Sinopse: Ao completar 21 anos, Tim (Domhnall Gleeson) é surpreendido com a notícia dada por seu pai (Bill Nighy) de que pertence a uma linhagem de viajantes no tempo. Ou seja, todos os homens da família conseguem viajar para o passado, bastando apenas ir para um local escuro e pensar na época e no local para onde deseja ir. Cético a princípio, Tim logo se empolga com o dom ao ver que seu pai não está mentindo. Sua primeira decisão é usar esta capacidade para conseguir uma namorada, mas logo ele percebe que viajar no tempo e alterar o que já aconteceu pode provocar consequências inesperadas. (Adoro Cinema)

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É impossível falar de romances contemporâneos sem citar o nome do britânico Richard Curtis. Ele só dirigiu três filmes até agora, mas fez grande carreira ao roteirizar sucessos como Um Lugar Chamado Notting Hill, O Diário de Bridget Jones e Quatro Casamentos e Um Funeral. Como diretor, debutou com o ótimo Simplesmente Amor, e, na sequência, realizou uma divertida comédia que não tinha nada de romântica: Os Piratas do Rock. Afastado da cadeira de direção desde 2009 (mas sem perder a prática de roteiros), agora ele volta aos cinemas comandando mais uma história de amor. Dessa vez, menos marcante e distante de se tornar candidata a marcar época, mas que também traz toda a desenvoltura de Curtis com o gênero e cuja essência vem muito a calhar neste final de ano. Isso mesmo: Questão de Tempo pode ser sim esse filme afetivo que você procura para terminar seu ano cinematográfico de forma bastante espirituosa.

A premissa não é o que podemos chamar de original: jovem descobre que pode viajar no tempo e usa esse poder para conquistar uma garota e fazer com que cada minuto de sua relação com ela seja perfeito. Mas Richard Curtis não se preocupa tanto com as piadas que pode fazer com essa mágica e sim com o romance mesmo. Com isso, Questão de Tempo é quase uma fábula sobre um garoto estranho mas sonhador que encontra a garota da sua vida. Em tempos tão pessimistas e cada vez mais distantes de afetos, é bom acompanhar uma história que preze justamente pelos pequenos momentos com a pessoa amada e pelo verdadeiro encantamento que é a paixão. As mensagens, que poderiam ser enfadonhas nas mãos de outro diretor, mostram-se eficientes e o resultado chega até mesmo a emocionar nos momentos finais – só que com outra figura: a de Bill Nighy, um ator que esbanja naturalidade e que representa toda a força familiar do filme.

Por falar em elenco, Questão de Tempo tem certamente a seu favor um grupo de atores bem escolhido, começando pela figura do protagonista. Aqui, nada de Hugh Grant ou Colin Firth. O mocinho da vez é vivido por Domhnall Gleeson, um jovem ruivo e magricelo que já passou discretamente por filmes como Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2Não Me Abandone Jamais e o novo Bravura Indômita. O fato de ele ser estranho e desengonçado faz toda a diferença para o filme, que ganha um tom muito mais realista com essa escolha. Todos são pura simpatia em Questão de Tempo, até mesmo Rachel McAdams, normalmente especialista em papeis de mulheres enjoadas e desagradáveis, que aqui surge encantadora.

Só que Questão de Tempo tem um problema facilmente irritante para alguns: a falta de conflitos. Qualquer problemática apresentada pelo roteiro dura no máximo cinco minutos até o protagonista decidir voltar no tempo e remendar a situação. Isso faz com que o filme não tenha um grande obstáculo a ser vencido ou um questionamento contínuo. Cabe a cada um decidir até que ponto esse detalhe altera o resultado do filme, que particularmente me envolveu e me encantou. Richard Curtis, ainda que em menor escala de originalidade e contundência, continua com sensibilidade para contar histórias de amor. E, em uma trama guiada por viagens no tempo, o que na realidade fica é: não existe tempo melhor que o agora. E Curtis consegue passar essa mensagem de forma bastante afetuosa. Para senti-la, basta se desarmar.

FILME: 8.0

35

Álbum de Família

Life is very long.

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Direção: John Wells

Roteiro: Tracy Letts, baseado na peça “August: Osage County”, de autoria própria

Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Julianne Nicholson, Margo Martindale, Ewan McGregor, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Dermot Mulroney, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Sam Shepard, Misty Upham, Newell Alexander

August: Osage County, EUA, 2013, Drama, 121 minutos

Sinopse: Barbara (Julia Roberts), Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette Lewis) são três irmãs que são obrigadas a voltar para casa e cuidar da mãe viciada em medicamentos e com câncer (Meryl Streep), após o desaparecimento do pai delas (Sam Shepard). O encontro provoca diversos conflitos e mostra que nenhum segredo estará protegido. Enquanto tenta lidar com a mãe, Barbara ainda terá que conviver com os problemas pessoais, com difíceis relações com o ex-marido (Ewan McGregor) e com a filha adolescente (Abigail Breslin). (Adoro Cinema)

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Violet (Meryl Streep) disse tudo o que bem entendia em um jantar com a família. Sua veracidade foi tamanha que uma das filhas imediatamente questiona o porquê da matriarca estar sendo tão cruel com todos à mesa. Entretanto, Violet não vê a situação dessa maneira. Para ela, tudo não passa de uma sucessão de verdades sendo ditas cara a cara. Na realidade, o choque que a matriarca causa frente aos familiares é muito simples: ela não esconde o que pensa. Ao contrário de todos a sua volta, tão cercados de restrições afetivas e pensamentos nunca verbalizados, ela prefere ser franca com suas opiniões – nem que isso machuque os outros. Claro que esse comportamento é resultado de uma vida de insatisfações e de um longo vício em pílulas para amenizar as dores de um câncer (de boca, ironicamente), mas também diz muito sobre como se estabelece a dinâmica de Álbum da Família: se o desaparecimento de Bev (Sam Shepard) é o pretexto para reunir a família Weston durante um fim de semana, as verdades de Violet são as responsáveis por trazer à tona angústias e ressentimentos de um grupo que, mesmo tendo o mesmo sangue, há muito deixou de ser uma família.

Recebido com certo descaso lá fora, Álbum de Família foge do que estamos cada vez mais (mal) acostumados a procurar: filmes sempre revolucionários e que esbanjam originalidade. Parece que hoje não existe mais espaço para o tradicional, e isso é um grande problema. É também uma injustiça, pois, assim, filmes interessantíssimos não são devidamente valorizados, como é o caso desse longa de John Wells. O diretor, que fez carreira na TV ao produzir e dirigir episódios para séries como E.R. e The West Wing, entrega justamente um drama familiar convencional mas que, dentro de suas normalidades, tem atributos suficientes para ser admirado por fazer tanto com basicamente texto e atores. Não à toa é fácil se lembrar da era de ouro do seriado Brothers & Sisters. Ou seja, alguns estereótipos perfeitamente admissíveis, segredos familiares envolventes, ressentimentos previsíveis mas bem explorados, cenas dramáticas eficientes e até mesmo alívios cômicos divertidos. Inovador? Não, mas como uma (boa) trama novelesca deve ser, com histórias sobre a vida mesmo, facilmente identificáveis por todos nós.

O roteiro foi escrito por um sujeito chamado Tracy Letts, constante colaborador de William Friedkin (trabalharam juntos em Killer Joe – Matador de AluguelPossuídos), que adaptou a sua peça homônima. A direção sem grande personalidade de John Wells deixa transparecer em diversos momentos esse caráter teatral – em particular em uma das cenas finais, onde pratos são literalmente quebrados com um tom nada condizente com o cinema -, mas não é nada comparado a total histeria apresentada por Roman Polanski em Deus da Carnificina recentemente. Lá sim tudo era muito fake e descontrolado. Em Álbum de Família, o roteiro de Letts constroi um grande mosaico com figuras das mais variadas idades e tipos: a filha que abdicou da vida para não deixar os pais abandonados, a irmã quase fútil que troca de namorado a cada ano, a tia engraçadinha mas que também tem suas frustrações, a favorita do pai que – ao contrário do que todos pensam – não tem uma vida tão bem sucedida assim, e por aí vai… E a boa notícia é que o filme tem espaço para todos. Ninguém é superficial, cada um tem personalidade muito clara e nós compreendemos todos os membros da família Weston – o que só confirma a disciplina do roteiro, que, estivesse nas mãos de alguém mais inexperiente, perderia-se entre tantas storylines.

Já não bastasse o roteiro pontuar muito bem cada drama e distribuí-las com precisão ao longo do filme, o elenco estelar só amplia essa sensação do tradicional bem contado. A figura indiscutivelmente mais marcante é, sem dúvida, Violet, a matriarca vivida por Meryl Streep. Desprezando a dor dos outros simplesmente porque julga ter passado por situações bem mais penosas na vida, é uma personagem afiada que poderia cair facilmente na unidimensionalidade – como a irmã Aloysius, de Dúvida, outro papel bastante difícil e antipático de Meryl. Não é o que acontece aqui: ao mesmo tempo em que somos intimidados por sua presença, também compreendemos sua amargura – e a cena em que ela conta um episódio de sua infância envolvendo uma bota é particularmente tocante. Assim,  Meryl Streep, em mais um desempenho impressionante, nunca hesita com o sotaque e a voz de uma mulher que parece constantemente embriagada pelo uso excessivo de remédios. Vai do drama à comédia e do introspectivo ao explosivo com uma força que só ela tem. Mais um papel inteiramente novo para sua carreira e que, arrisco dizer, supera o nível do recente A Dama de Ferro por se tratar de um desempenho muito mais livre e aberto a criações. 

O grupo de atores ainda merece outra menção particular: Julia Roberts como Barbara,  a filha que mais recebe destaque na história. Sem glamour algum (o que é proposital e ótimo), a atriz prova que as comédias românticas já fazem parte de seu passado e que passou da hora de ser reconhecida por seus trabalhos dramáticos – e o Oscar por Erin Brokovich – Uma Mulher de Talento não chega a contar necessariamente como uma celebração dessa sua vertente. Desde Closer – Perto Demais (um de seus desempenhos mais subestimados) merece mais atenção nos dramas. Quando divulgava Espelho, Espelho Meu, Roberts chegou a chorar em uma coletiva do filme quando anunciou em primeira mão que estrelaria Álbum de Família ao lado de Meryl Streep, atriz que é sua grande referência na profissão. Posteriormente, também revelou que atuar ao lado da veterana foi o seu maior  desafio como intérprete. Pois fique tranquila, Julia, você não ficou devendo nada à Meryl. Formou com ela uma dupla excelente e de pura sintonia.

Com uma boa trilha do duplamente oscarizado Gustavo Santaolalla e ótimos créditos finais ao som de Last Mile Home, música escrita especialmente para o filme pela banda Kings of Leon, Álbum de Família faz jus à vida como ela é, mostrando que são os nossos sentimentos e atitudes que desencadeiam acontecimentos, e não o contrário. Nós somos responsáveis por aquilo que nos acontece. Somos, enfim, as escolhas que fazemos. É uma pena que essa simplicidade não tenha sido abraçada por todos e que Álbum de Família esteja fadado a ser lembrado como um mero drama repetitivo e até mesmo histriônico. Para mim, foi uma das melhores surpresas de 2013, especialmente depois de ter sido tratado com tanto descaso lá fora. Chegando aos 45 do segundo tempo de 2013, é um filme que acerta ao falar tudo com apenas um recorte, mais especificamente de um fim de semana… Dias que, certamente, os Weston não vão querer colocar em um álbum para lembranças posteriores.

FILME: 8.5

4

Rapidamente

Indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz comédia/musical (Greta Gerwig), "Frances Ha" é o filme mais celebrado de Noah Baumbach desde "A Lula e a Baleia"

Indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz comédia/musical (Greta Gerwig), Frances Ha é o filme mais celebrado de Noah Baumbach desde A Lula e a Baleia

FRANCES HA (idem, 2013, de Noah Baumbach): Não sou grande fã de Noah Baumbach, nem mesmo de seu celebrado A Lula e a Baleia, com Laura Linney e Jeff Daniels, lançado anos atrás. Mas esse Frances Ha foi particularmente uma surpresa, com uma história bastante jovem e otimista. Seria errado, no entanto, defini-lo como um feel good movie sem também falar de todos os questionamentos que ele traz sobre a juventude. As expectativas e inseguranças da vida aos 20 e poucos anos estão bem representadas por esse roteiro que se atém a pequenas situações do cotidiano para nos aproximar da protagonista (Greta Gerwig, ótima). Isso mesmo: não existe necessariamente um grande conflito ou maiores reviravoltas em Frances Ha, mas sim uma vida contada em momentos, seja com a ida ao dentista ou com uma mera conversa de final de noite ao lado de um melhor amigo. De vez em quando, Baumbach insiste demais no tom indie ou na própria homenagem à nouvelle vague colocando a protagonista desengonçada a correr na rua ao som de David Bowie, mas é impossível resistir ao carisma do filme. Para quem gosta de comparações, a adolescência nova-iorquina insegura e contemporânea também é retratada de forma similar por Lena Dunham na série Girls, da HBO.

O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG (The Hobbit: The Desolation of Smaug, 2013, de Peter Jackson): Com O Hobbit, Peter Jackson passou a ser diretor exclusivo para o pior tipo de público que existe: aquele que é tão apaixonado por uma obra literária que não aceita a existência de liberdades cinematográficas em uma adaptação. Se tirou uma cena importante do livro, o filme não presta. Se alguém reclama de determinado aspecto, é porque na obra original tudo é melhor explicado. Enfim, um público que não entende que cinema é cinema e literatura é literatura. O resultado é esse engodo chamado O Hobbit, em especial essa continuação que recebe o subtítulo de A Desolação de Smaug. Nesse novo volume, estão os mesmos problemas do filme anterior, e o pior: em nível mais acentuado, já que esta é uma parte de transição da história. Não existe qualquer fator surpresa na continuação, que é mais aborrecida, enrolada, confusa e desinteressante que o volume anterior. Nem a parte técnica – com exceção do dragão, que é realmente impressionante -, chega a se sobressair. Tudo é muito igual e repetido, o que prova, mais uma vez, que a decisão de dividir um livro de aproximadamente 300 páginas em três longas de quase três horas foi completamente equivocada.

KICK-ASS 2 (idem, 2013, de Jeff Wadlow): Poucos viram essa mediana continuação do filme original, que era inspirado e divertido. Não que essa sequência tenha perdido seu senso de humor e entretenimento, mas o frescor já não existe mais. Aliás, exageraram na quantidade de violência – que, no final das contas, o próprio Jim Carrey (uma adesão passageira aqui) reclamou -, e no excesso de piadas colegiais. Aqui também já existe uma diferença bastante significativa: agora Kick-Ass (Aaron Taylor-Johnson) já transa em pelo menos duas cenas do filme e a Hitgirl (Chloë Grace Moretz) já olha com segundas intenções para o corpo descamisado do protagonista. Ou seja, se antes a aventura tinha sua graça por ser apenas sobre jovens super-heróis, agora a trama já começa a sair dos trilhos ao dar espaço para peripécias e para os clichês estudantis. Quem acha que a ação por si só já sustenta essa trama certamente vai gostar de Kick-Ass 2, que tem o triplo de adrenalina e sangue. No entanto, acredito que as raízes do protagonista e sua trupe não estejam aí. Em termos de referências ao mundo dos quadrinhos e de sacadas inteligentes com esse universo, a continuação decepciona – quando não aposta no exagero, que está representado nos fraquíssimos vilões, responsáveis pelos momentos de maior baixa do filme.

ÚLTIMA VIAGEM A VEGAS (Last Vegas, 2013, de Jon Turteltaub): Ao contrário do que aparenta, Última Viagem a Vegas não tem muito de Se Beber, Não Case!. Sim, o filme também conta a história de um solteirão (Michael Douglas) que reúne os amigos para uma viagem de despedida de solteiro que promete ser inesquecível, mas esse novo trabalho de Jon Turtelbaut é mais sobre a reunião de quatro atores veteranos em uma história completamente descompromissada do que qualquer outra coisa. Tanto que não é muito difícil perceber que, sem o quarteto, Última Viagem a Vegas não sobreviveria. Previsível do início ao fim – seja na história ou até mesmo na repetição de piadas -, o longa se apoia infinitamente no inegável carisma de seus atores, que conseguem sobreviver aos clichês de seus respectivos personagens. Essa é a boa notícia: eles fazem com que o filme funcione mesmo com tantas obviedades. Sim, Última Viagem a Vegas é dispensável e bem aquém do que poderia ser realizado com atores tão talentosos, mas é inofensivo – o que já se tornou marca registrada de Turtelbaut, diretor de outras obras bobas mas com certo entretenimento como A Lenda do Tesouro Perdido.