Rapidamente

Em Burton e Taylor, Helena Bonham Carter e Dominic West interpretam o célebre casal Elizabeth Taylor e Richard Burton
BURTON E TAYLOR (Burton and Taylor, 2013, de Richard Laxton): Produção da BBC, Burton e Taylor narra o conturbado relacionamento entre o célebre casal Richard Burton (Dominic West) e Elizabeth Taylor (Helena Bonham Carter), focando-se no espaço de tempo em que os dois dividiram pela última vez a cena de uma ficção: no caso, a peça de teatro Private Lives. Era de se esperar que o filme de Richard Laxton fosse menos… TV aberta. Extremamente objetivo, Burton e Taylor é bastante simplista no uso da trilha – que sempre acentua comicamente a excentricidade de um momento ou a baixa de um momento dramático – e na forma quase extrema como desenvolve seus personagens: enquanto Burton é o ator íntegro e sério que resolveu muito bem sua separação com a ex-companheira, Taylor é mimada, vive se atrasando para as apresentações e cai no estereótipo de mulher magoada que não aceita estar longe do homem que ama. Pode ser que tudo isso seja realmente verdade, mas, como o filme aponta no começo, o roteiro é baseado ajusta fatos para efeitos dramáticos. Nesse sentido, então bem que poderiam ter tornado esse retrato mais complexo. Bonham Carter (figura forte e quase indissociável demais para o papel, mas bastante digna) e Dominic Weston dão a simpatia necessária para o filme, que, no final das contas, só tem essa decepção de ser menos marcante e revelador do que poderia ser. Aqui no Brasil, a HBO exibe Burton e Taylor no dia 1º de março, às 22h.
COMO NÃO PERDER ESSA MULHER (Don Jon, 2013, de Joseph Gordon-Levitt): Joseph Gordon-Levitt deve ter feito esse filme para dar uns amassos em Scarlett Johansson e Julianne Moore. Só isso para explicar o tempo investido nesse Como Não Perder Essa Mulher, comédia sobre um jovem viciado em pornografia. E uma comédia careta, quase chata. Não existe qualquer nudez aqui e o as insinuação mais fortes do tema logo já são colocadas de escanteio por Levitt. Algo meio incoerente com o assunto que vende. Nada tem muita graça aqui, especialmente porque o principal conflito do filme é batido: o solteiro convicto que transa com todas as garotas e que tenta mudar seus hábitos quando encontra a mulher ideal (leia-se Scarlett usando todas as maquiagens e roupas necessárias para representar tal figura). A figura de Joseph Gordon-Levitt também já começa como um certo empecilho: ele sempre foi o jovem querido e simpático (algo muito bem explorado em (500) Dias Com Ela) e não esse musculoso pegador que vemos aqui. Ainda com diretor e roteirista do longa, ele não corresponde, apresentando uma história fraquíssima e um roteiro praticamente sem propósito. E o pior: Como Não Perder Essa Mulher também fica devendo como diversão. Falta sexo, originalidade e uma boa risada.
UM DIA NA VIDA (idem, 2010, de Eduardo Coutinho): Poucos dias depois da trágica morte de Eduardo Coutinho, começou a circular pela internet a oportunidade inédita de assistir a esse Um Dia na Vida – que, até então, só havia sido exibido uma única vez em 2010, sem ganhar chance no circuito comercial devido a questões de direitos autorais. O motivo é simples para essa ausência: Um Dia na Vida é a compilação de imagens da TV aberta que Coutinho capturou durante um dia. Programas e comerciais da Globo, SBT e Band, entre outras emissoras, ilustram esse filme, que chega a ser uma espécie de Koyaanisqatsi sobre a televisão brasileira. Ou seja, nada de entrevistas, narrações ou recursos tão presentes nos documentários. É, basicamente, uma sequência de imagens que falam por si só. E, assim como no filme de Godfrey Reggio, o resultado – por incrível que pareça – é hipnotizante. Quando larguei minha relação com a TV (hoje sequer consigo ficar poucos minutos assistindo a programas de canais abertos), não havia necessariamente racionalizado o porquê desse distanciamento. Até conferir Um Dia na Vida. Lá em 2009, quando registrou as imagens, Coutinho já indicava como a programação aberta do Brasil não é nada instrutiva e como ela só gira em torno de futilidades, valores errados, exploração da desgraça alheia e formas de arrancar o dinheiro do espectador. Um experimento que infelizmente ainda é atual.
O PASSADO (Le Passé, 2013, de Asghar Farhadi): Aqui no Brasil, integrou a programação do Festival Varilux de Cinema Francês 2013 e, comercialmente, tem previsão de estreia para 16 de maio. Mas, sinceramente, é bom não criar muitas expectativas, especialmente se você é grande fã de A Separação. Falta em O Passado justamente aquele dinamismo que Asghar Farhadi imprimiu em seu filme anterior. Tudo nesse seu novo longa faz justamente o oposto: o ritmo é maçante, a história tem problemas de foco e o resultado final está bem longe de sequer empolgar. Fica muito claro que o roteiro é um problema, já que, a partir da metade, O Passado inverte completamente a abordagem da sua trama e se transforma em um filme completamente diferente. Com isso, o resultado só tem a perder, já que tudo fica meio sem compasso e a mudança brusca da trama nunca tem efeitos dramáticos que justificam a escolha. Foi particularmente decepcionante e cansativo acompanhar esse longa (poucas vezes nos últimos anos uma história me pareceu tão sem ritmo), já que, além de tudo, Bérénice Bejo não sustenta o papel (sabe-se lá o porquê de ela ter vencido Cannes por essa interpretação repetitiva e sem criações). Faltou aquela visceralidade narrativa que fez de A Separação uma das melhores experiências de seu respectivo ano.
Philomena
I forgive you because I don’t want to remain angry.

Direção: Stephen Frears
Roteiro: Steve Coogan e Jeff Pope, baseado no livro “The Lost Child of Philomena Lee”, de Martin Sixsmith
Elenco: Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Mare Winningham, Barbara Jefford, Harrison D’Ampney, Peter Hermann, Sean Mahon, Anna Maxwell Martin, Michelle Fairley, Cathy Belton, Charlie Murphy
Reino Unido/EUA/França, Drama, 2013, 98 minutos
Sinopse: Irlanda, 1952. Philomena Lee (Judi Dench) é uma jovem que tem um filho recém-nascido quando é mandada para um convento. Sem poder levar a criança, ela o dá para adoção. A criança é adotada por um casal americano e some no mundo. Após sair do convento, Philomena começa uma busca pelo seu filho, junto com a ajuda de Martin Sixsmith (Steve Coogan), um jornalista de temperamento forte. Ao viajar para os Estados Unidos, eles descobrem informações incríveis sobre a vida do filho de Philomena e criam um intenso laço de afetividade entre os dois. (Adoro Cinema)

Algumas histórias são tão boas que só mesmo um diretor tremendamente ruim para destruí-las. Já outras são tão suscetíveis a erros que precisam do diretor certo para funcionar. Philomena se encaixa nessa segunda categoria. É de se agradecer que o britânico Stephen Frears esteja capitaneando esse enredo protagonizado por Judi Dench. A razão é muito simples: a saga de Philomena (Dench) para encontrar o filho que lhe foi tirado em um convento há mais de 50 anos poderia cair no lugar-comum ou no excesso de melodramas caso comandada por um diretor qualquer. Não com Frears, realizador que sempre traz o que existe de mais especial entre os britânicos: discrição e sobriedade. Ao acompanhar a jornada da protagonista pelo filho perdido, portanto, não espere choros compulsivos ou diálogos de auto-ajuda. Philomena ganha o espectador com a simplicidade.
Sem realizar algo relevante desde 2006, quando entregou o elegantíssimo A Rainha, Frears agora vem com essa adaptação que ainda nos dá o privilégio de ter a veterana Judi Dench em um papel super especial. Não dá para falar Philomena sem começar por ela. Dench é a prova real de que, por mais que jovens como Jennifer Lawrence ganhem prêmios mundo afora e tenham amor e bilheteria de sobra do público, não existe nada como a experiência. Com um único olhar, um único gesto, Dench, em Philomena, deixa toda uma nova geração comendo poeira. Simplesmente adorável, ela reafirma sua capacidade de transitar entre os mais variados papeis. É surpreendente vê-la tão doce como a avó que todos nós gostaríamos de abraçar quando, nos últimos tempos, esteve tão firme como a solitária ensandecida de Notas Sobre Um Escândalo ou como a sagaz M da franquia 007. Um desempenho que tem tudo a ver com a proposta de Frears e que entende plenamente a figura que dá título à produção.
Falando em Philomena Lee, chegamos a esse que é um dos grandes trunfos do roteiro de Jeff Pope e Steve Coogan (que, ótimo, também divide a cena com Dench). Ao invés de mulher amargurada por ter o filho tirado de suas mãos por freiras em um convento onde foi colocada à força, ela é estranhamente leve, positiva e quase ingênua. Mais do que isso, é fascinante buscar os porquês de ela não ser uma detratora da religião, e sim uma cristã que segue à risca o cristianismo. E tudo se torna ainda mais interessante quando ela é colocada ao lado de Martin (Coogan), sujeito que se indigna com esses posicionamentos adotados por Philomena após uma traumática vida religiosa. Racional e prático, ele é o contraponto da protagonista. Ambos em uma jornada onde um ensina o outro. Mas nada piegas, e com um texto que não aposta no estereótipo da dupla de opostos que cai na estrada e se implica o tempo inteiro.
Em termos de desenvolvimento da trama, é importante ficar atento ao fato de que a resolução principal acontece lá pela metade, com o passado de Philomena também mostrado em menos de meia hora de filme (em flashbacks, o que funciona muito bem). Porém, se isso tinha tudo para ser um problema, não se engane: o filme não termina seu ciclo nesse momento e muito ainda tem a ser dito sobre a busca do filho perdido, só que por meio de outro ponto de vista – o que se revela ainda mais interessante do que poderia se esperar originalmente. A previsibilidade está uma vez ou outra instalada – claro que a protagonista não desistirá facilmente como o filme quer induzir e que a jornada não terminará com o primeiro obstáculo que surge no caminho – mas é impossível rivalizar com um resultado tão singelo e cuidadoso.
Philomena é realmente um filme feito de coração, protagonizado por uma atriz que não parece fazer um esforço sequer para ser adorável, crível e encantadora. É do DNA dos britânicos a sobriedade, e Stephen Frears, como um dos expoentes deles, consegue concentrar essa característica em todas as escolhas do seu mais novo longa. Há quem diga que essa é uma história convencional, sem ousadias e até mesmo esquemática, mas se limitar a ver apenas isso e não a beleza humana do resultado é estar a um passo de ser como o próprio personagem Martin Sixsmith vivido por Coogan, que classifica histórias “humanas” como meros produtos rasos para pessoas ignorantes e tolas. Tomara que, após a sessão, esse público, assim como Sixsmith, seja capaz de se reinventar e passe a valorizar devidamente os relatos que possuem esse mesmo valor afetivo de Philomena.
FILME: 8.0
O Lobo de Wall Street
Let me tell you something. There’s no nobility in poverty. I’ve been a poor man, and I’ve been a rich man. And I choose rich every fucking time.

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter, baseado no livro “The Wolf of Wall Street”, de Jordan Belfort
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Rob Reiner, Matthew McCounaghey, Jon Fraveau, Jean Dujardin, Jon Bernthal, Joanna Lumley, Cristin Milioti, Christine Ebersole, Katarina Cas
The Woolf of Wall Street, EUA, 2013, Comédia/Drama, 180 minutos
Sinopse: Durante seis meses, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) trabalhou duro em uma corretora de Wall Street, seguindo os ensinamentos de seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey). Quando finalmente consegue ser contratado como corretor da firma, acontece o Black Monday, que faz com que as bolsas de vários países caiam repentinamente. Sem emprego e bastante ambicioso, ele acaba trabalhando para uma empresa de fundo de quintal que lida com papéis de baixo valor, que não estão na bolsa de valores. É lá que Belfort tem a ideia de montar uma empresa focada neste tipo de negócio, cujas vendas são de valores mais baixos mas, em compensação, o retorno para o corretor é bem mais vantajoso. Ao lado de Donnie (Jonah Hill) e outros amigos dos velhos tempos, ele cria a Stratton Oakmont, uma empresa que faz com que todos enriqueçam rapidamente e, também, levem uma vida dedicada ao prazer. (Adoro Cinema)

Fazia muito tempo que o diretor Martin Scorsese não realizava um legítimo… Scorsese! Sete anos, para ser mais específico, quando ele entregou Os Infiltrados, filme que finalmente lhe rendeu o Oscar de melhor direção depois de tantas derrotas e injustiças. Não que ele não tenha se esmerado em outros projetos que explorassem suas habilidades, mas, por mais que Ilha do Medo e A Invenção de Hugo Cabret dessem uma diferente liberdade de criação para Scorsese, os resultados finais sempre ficavam muito longe do que o diretor alcançou nas célebres histórias de homens corrompidos por dinheiro, poder e ganância que tanto lhe estabeleceram como referência. Por isso, O Lobo de Wall Street pode até não ser um dos filmes mais excepcionais de sua carreira, mas certamente traz uma sensação bastante especial em função desse retorno do diretor às suas raízes.
É bom constatar que Scorsese não perdeu o tino para relatos como o de O Lobo de Wall Street. A trajetória verídica de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) tem seus excessos na duração de três horas, no humor e nas atuações, mas tudo perfeitamente compreensível e aceitável para o universo do diretor. Com uma premissa super contemporânea – a questão de dinheiro e poder nunca morre – o longa se desenvolve com algo muito forte a seu favor: a “comédia” presente nele (entre aspas mesmo, já que ela pode ser questionada de espectador para espectador) é muito bem resolvida e completamente ciente do que deve significar dentro de um filme de Scorsese. Assim como em vários outras produções da temporada, as risadas, na realidade, exploram a derrocada e a degradação humana. Os personagens de O Lobo de Wall Street gritam, exageram e até mesmo se arrastam depois de uma overdose de remédios, mas não com o intuito de divertir, e sim de apenas fazer uma representação extrema de vidas desorientadas.
Talvez por ter esse efeito involuntariamente “cômico” O Lobo de Wall Street tenha mais sorte com o grande público que certamente se cansaria com outros filmes do diretor como Taxi Driver e Os Bons Companheiros. Existe uma maior abrangência nesse novo filme de Scorsese – o que, felizmente, não castra sua veia autoral em momento algum. Se algo é entendido de forma errada (a tal “comédia”), é reação exclusivamente do público e não do realizador, que entende plenamente os tons da história que narra em parceria com o roteiro de Terence Winter, baseado em livro homônimo do próprio Jordan Belfort. O elenco também capturou firmemente a lógica de excesso como sinônimo de decadência humana na história contada, em especial Leonardo DiCaprio, em um de seus melhores momentos dos últimos anos. Incrivelmente natural e seguro, ele nunca se perde em cenas realmente desafiadoras para um intérprete.
Para acompanhar a vida frenética e descontrolada de Belfort, O Lobo de Wall Street adota um ritmo igualmente frenético – o que traz inúmeros prós e contras. Se a escolha casa totalmente com o que está sendo contado na tela, o filme perde pontos quando resolve diminuir a marcha. Claro que é uma mudança necessária (afinal, seria enlouquecedor acompanhar tudo naquele ritmo), mas, em momentos mais pausados e explicativos, a produção parece ter pouco a dizer, caindo constantemente em repetições. Sem essas quebras, O Lobo de Wall Street seria certamente um dos melhores e mais inspirados de Scorsese. Ainda assim, é bobagem deixar de curtir o filme por causa disso, especialmente quando o veterano volta a contar um tipo de história que só tem a devida personalidade em suas mãos. Nesse sentido, missão cumprida.
FILME: 8.0
Trapaça
You are nothing to me until you’re everything.

Direção: David O. Rusell
Roteiro: Eric Warren Singer e David O. Russell
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Jeremy Renner, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña, Shea Whigham, Alessandro Nivola, Elisabeth Röhm, Paul Herman, Saïd Taghmaoui
American Hustle, EUA, 2013, Comédia, 138 minutos
Sinopse: Irving Rosenfeld (Christian Bale) é um grande trapaceiro, que trabalha junto da sócia e amante Sydney Prosser (Amy Adams). Os dois são forçados a colaborar com um agente do FBI (Bradley Cooper), infiltrando o perigoso e sedutor mundo da máfia. Ao mesmo tempo, o trio se envolve na política do país, através do candidato Carmine Polito (Jeremy Renner). Os planos parecem dar certo, até a esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence), aparecer e mudar as regras do jogo. (Adoro Cinema)

Se existe uma qualidade inegável na filmografia de David O. Rusell, essa é a sua notável habilidade em dirigir atores. Desde quando debutou na direção de longas-metragens em 1996 com Procurando Encrenca, já conseguiu reunir nomes como Lily Tomlin e Alan Alda para liderar seus elencos. A partir daí, aos poucos, foi agregando novos nomes conceituados ao seu currículo de amigos até se tornar sinônimo de celebração garantida. Por O Vencedor, deu Oscar para Melissa Leo e Christian Bale. Com O Lado Bom da Vida, emplacou indicações em todas as categorias de atuação – o que não acontecia há décadas -, sem falar da celebração de Jennifer Lawrence, claro. O feito de trazer holofotes para todos os intérpretes de um filme seu se repete esse ano com Trapaça. O porém é que, agora, fica mais evidente do que nunca a verdade de que David O. Rusell é um mito criado involuntariamente pelos atores que participam de seus filmes.
Mesmo com aprovação de crítica e público, seus trabalhos nunca são plenamente convincentes. E o que antes poderia ser definido como uma mera implicância de minha parte, agora é plenamente justificado por esse Trapaça, que surpreende pela total falta de personalidade. É sempre perigoso tentar emular estilos de outros diretores porque é fácil confundir homenagem com cópia ou pretensão. O. Rusell não escapou dessa armadilha, e o que vemos em seu novo longa é uma infinita sucessão de momentos que tentam replicar os acertos de narrativa e estética que fizeram de Martin Scorsese, por exemplo, uma grande referência. Mas citar apenas o realizador do recente O Lobo de Wall Street como uma das “inspirações” do filme é ser bastante generoso. Pelo menos outros dois momentos são descaradamente copiados: aquele que Jennifer Lawrence canta Live & Let Die na cozinha (Cate Blanchett já havia feito o mesmo – e melhor – há mais de dez anos em Vida Bandida, também um longa sobre trapaceiros) e outro em que Robert De Niro surpreende ao falar árabe (impossível não lembrar da fluência italiana igualmente inesperada de Christoph Waltz em Bastardos Inglórios).
Por isso, é até meio chocante essa falta de personalidade do diretor, pois ele, mesmo tendo realizado filmes completamente superestimados, nunca tinha demonstrado ser tão descuidado nesse sentido. Pode até ser que Trapaça consiga enganar muito bem um público menos desprovido de referências, mas certamente é desanimador para quem está atento a tais detalhes. Assim, muitos aspectos interessantes do filme acabam sendo ofuscados por essa história capenga, como a boa direção de arte, os excelentes figurinos e, principalmente, o bom senso de O. Rusell para a comédia aqui. Quem tenta contornar a situação, mais uma vez, é o elenco. E, como não é novidade para ninguém, os atores são o que existe de melhor, da versatilidade cada vez mais acentuada de Christian Bale a um momento bastante diferenciado de Amy Adams (finalmente abandoando o estereótipo de meiga e ingênua), passando pela boa presença de Jennifer Lawrence. Admirável como o diretor reutiliza atores de filmes passados, reposiciona-os e acrescenta novos sem que eles pareçam deslocados ou repetitivos. Esse é um mérito que não podemos tirar de O. Rusell.
Entretanto, não dá para confundir excelente direção de atores com direção como um todo. Trapaça pode até ser light e divertido, mas não tem voz própria e é constantemente sabotado por uma montagem problemática e responsável por tirar boa parte do ritmo da trama. A forma pop com que muitas vezes Trapaça se desenvolve, apoiada naquele visual de décadas passadas e em cenas cadenciadas por uma trilha de célebres canções, ajuda bastante. Só que, de novo, temos o problema da cópia: Paul Thomas Anderson já fez muito melhor em Boogie Nights – Prazer Sem Limites. É verdade que Trapaça não cai em clichês (nada de voos internacionais, traidores dentro da equipe ou revelações bombásticas de última hora), mas seria interessante assistir a esse filme com referências cinematográficas zeradas. Será que daria para ser mais benevolente com o resultado? Para um diretor com uma marca tão registrada de reunir bons atores em filmes mais descontraídos, não era de se esperar alguém querendo copiar tanto e querendo agradar sabe-se lá quem. A investida tem dado certo (prêmios no Globo de Ouro, líder de indicações ao Oscar e mais uma vez uma boa média de aprovação do público). Entretanto, se antes dava para compreender a festa excessiva para O. Rusell, agora é realmente estranho ver que tantos estejam, com o perdão do trocadilho, caindo nessa trapaça.
FILME: 6.0
Fruitvale Station – A Última Parada
I’m gonna be good.

Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler
Elenco: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer, Kevin Durand, Chad Michael Murray, Ahna O’Reilly, Marjorie Crump-Shears, Ariana Neal, Keenan Coogler, Trestin George, Joey Oglesby, Michael James, Destiny Ekwueme
Fruitvale Station, EUA, 2013, Drama, 85 minutos
Sinopse: Estados Unidos, 2007. Oscar Grant (Michael B. Jordan) tem 22 anos e acaba de ser demitido do emprego por chegar constantemente atrasado. Ele esconde esta notícia de Sophina (Melonie Diaz), a mãe de sua filha, por achar que pode recuperar o emprego após conversar com seu chefe. Bastante ligado à mãe (Octavia Spencer), Oscar enfrenta problemas quando resolve ir com Sophina ver as festividades de ano novo em San Francisco. (Adoro Cinema)

Sophina (Melonie Diaz) estava assistindo a um programa de Oprah Winfrey e descobriu que, para algo se tornar um hábito, a disciplina deve ser mantida durante 30 dias. A personagem está entrando em uma dieta e decidiu que evitaria carboidratos em sua alimentação. 30 dias, define Sophina, e assim ela estaria livre dessa necessidade excessiva de consumir carboidratos. Mas quem precisa mudar alguma coisa em Fruitvale Station – A Última Parada está longe de ser ela. O sujeito que batalha para se adaptar a novos hábitos é Oscar (Michael B. Jordan), que, devido a irresponsabilidades anteriores, já foi preso por tráfico de drogas, traiu a esposa, perdeu o emprego e agora tenta finalmente se ajustar em uma vida nos eixos para retomar sua credibilidade com a família e poder ser um pai presente para a pequena filha. É muito mais essa jornada do que a tragédia que terminou com a vida de Oscar – e não estou entregando qualquer spoiler aqui, já que esta é uma produção baseada em fatos reais – que importa para Fruitvale Station – A Última Parada. Na verdade, ele é um filme sobre pessoas como todos nós, suscetíveis a erros e recomeços – e, por isso mesmo, tão eficiente.
O dia é 31 de dezembro e não é apenas o réveillon que será comemorado por Oscar e sua família, mas também o aniversário da matriarca Wanda (Octavia Spencer). Ao longo deste dia, o filme dirigido e roteirizado por Ryan Coogler (em seu trabalho de estreia em longas-metragens) percorre os mais diversos núcleos e trabalha aquele velho e sempre interessante formato de mostrar, em pequenas situações, a vida inteira de um personagem em apenas um único dia. Fruitvale Station acerta nessa escolha e, melhor ainda, consegue falar sobre temas muito batidos sem cair no lugar comum: o vício de Oscar é apenas verbalizado, as traições do passado são apresentadas discretamente em uma única cena (e nem precisamos saber detalhes delas) e suas irresponsabilidades como pai e profissional de um supermercado não chegam a extremos. Outros diretores não hesitariam em reunir todas essas histórias em um grande melodrama ineficiente e formulaico (alô, Lee Daniels!), mas Ryan Coogler faz o oposto, preocupando-se mais em focar em quem Oscar está tentando ser do que em quem um dia ele já foi.
Em breves 85 minutos, a produção consegue falar disso tudo de forma muito concisa, alcançando o feito de nunca deixar a história carente de respostas. É perceptível essa qualidade de Coogler em dar uma roupagem muito realista à história, que em momento algum chega a ser apelativa. Essa conquista está bem representada, por exemplo, na coadjuvante de Octavia Spencer. Sua Wanda não é a mãe chorona, frágil e indefesa frente os erros do filho. Pelo contrário: ela é forte e racional, o que nos faz entender por completo o porquê de todos a respeitarem tanto. A construção que Spencer faz junto ao roteiro é coerente com toda a proposta de Fruitvale Station, mas falar só dela (que merecia mais tempo em cena, pois também prova ter talento além das caricaturas que inexplicavelmente a consagraram com um Oscar por Histórias Cruzadas) é ser injusto com a dupla Michael B. Jordan e Melonie Diaz. Ele, especialmente, aproveita todas as chances que o filme lhe dá, e nos entrega um personagem discreto e que conquista nossa torcida. É também por causa dele que as injustiças sofridas pelo personagem nos momentos finais se tornam ainda mais pungentes.
Os momentos derradeiros de Fruitvale Station são, por sinal, bem encaixados na trama. Essa simetria impede que a desgraça final soe gratuita ou avulsa, como uma espécie de golpe final para conquistar o espectador pelo coração. É impactante na medida certa e leva o tempo que precisa levar para também não se tornar um grande finale choroso. Eis aí a palavra-chave do longa de Coogler: discrição. Menos é mais, até mesmo naquele que é o ponto alto da história. Por isso, fuja do trailer, que é um tanto exagerado (o que o filme está longe de ser) e que entrega mais do que precisa ser dito sobre a vida de Oscar. Simples e contido, Fruitvale Station termina ainda com uma decisão pra lá de acertada. O corte seco e abrupto dá o tom certo para a conclusão da trama, mostrando que, mais uma vez, vários personagens terão que se adaptar a uma nova vida, a novos hábitos. Só que, dessa vez, 30 dias simplesmente não chegarão nem perto de ser suficientes para mudar esse cenário.
FILME: 8.5


