Cinema e Argumento

O Lobo Atrás da Porta

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Direção: Fernando Coimbra

Roteiro: Fernando Coimbra

Elenco: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiula Nascimento, Juliano Cazarré, Thalita Carauta, Karine Teles, Emiliano Queiroz, Antonio Saboia, Isabelle Ribas, Gustavo Novaes, Paulo Thiefenthaler, Tamara Taxman

Brasil, 2014, Suspense/Drama, 95 minutos

Sinopse: O desaparecimento de uma criança faz com que seus pais, Bernardo (Milhem Cortaz) e Sylvia (Fabiula Nascimento), vão até uma delegacia. O caso fica a cargo do delegado (Juliano Cazarré), que resolve interrogá-los separadamente. Logo descobre que Bernardo mantinha uma amante, Rosa (Leandra Leal), que é levada à delegacia para averiguações. A partir de depoimentos do trio, o delegado descobre uma rede de mentiras, amor, vingança e ciúmes envolvendo o trio. (Adoro Cinema)

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Muito mais do que estar vivendo uma excelente fase repleta de filmes ricos em conteúdo e inovações, o cinema brasileiro também tem sido brindado nos últimos anos com a revelação de vários profissionais na direção de longas-metragens. São deles os melhores filmes que vimos nos últimos tempos aqui no Brasil. Do grito libertador de Tatuagem (debut na direção de ficção do exímio roteirista Hilton Lacerda) ao charme irresistível do bem sucedido Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (dirigido por Daniel Ribeiro, adaptando seu segundo curta-metragem), a filmografia brasileira ganhou grandes filmes em um curto espaço de tempo nos últimos meses com diretores estreantes. A coroação desta bela escalada acontece, no entanto, com o surpreendente O Lobo Atrás da Porta, que é, facilmente, o mais intenso e surpreendente de todos os exemplares desta safra.

Um dos longas mais consistentes de 2014 em qualquer geografia, o filme marca a iniciação do paulista Fernando Coimbra na direção de longas-metragens – e a estreia já começou com brilho: no Festival do Rio, O Lobo Atrás da Porta faturou os prêmios de melhor filme e melhor atriz para Leandra Leal em 2013. É um merecido reconhecimento e incentivo a este diretor que mostra plena segurança ao construir uma história que, mesmo classificada como suspense, transita perfeitamente bem entre diversos gêneros. Se, nos primeiros minutos, anuncia ser quase um policial envolvendo a investigação do desaparecimento de uma garotinha, logo Coimbra mostra, pouco a pouco, que as resoluções e consequências deste mistério se darão a partir de um roteiro mais interessado em uma análise psicológica e comportamental de seus personagens do que em fatos ou revelações propriamente ditas.

A partir do momento que começa a estabelecer conexões entre cada uma das figuras a partir de flashbacks, dá até para esquecer que existe um mistério a ser resolvido de tão envolvente a construção de cada situação e desenvolvimento. Este resultado é mérito da segura direção de Coimbra e do eficiente roteiro escrito por ele próprio, mas também do excepcional elenco reunido, que merece todos os elogios possíveis. Como há bastante tempo não víamos no cinema nacional, temos aqui um grupo de atores em plena forma. Falar do magnífico desempenho de Leandra Leal (mais uma vez!) é cair no lugar comum, até porque todos que a acompanham também são perfeitos em suas devidas proporções e abordagens, do protagonismo de Milhem Cortaz aos dois ou três momentos em que Thalita Carauta rouba a cena.

Em O Lobo Atrás da Porta há espaço espaço para comédia, drama e tensão. De tudo um pouco, mas sem perder a forte personalidade impressa pelo diretor. As resoluções, que lembram os extremos que o ser humano sente frente à dor e à vingança ao estilo mais recente de A Pele Que Habito, são desconcertantes pela falta de qualquer concessão. Coimbra não quer agradar. Mais do que isso, é um final muito honesto na forma como dá puro realismo a seus personagens, em especial à personagem de Leandra Leal. Não existem respostas ou julgamentos certos para tudo o que acontece em O Lobo Atrás da Porta. É apenas o retrato franco do quanto o ser humano faz o que bem entende para não se prejudicar ou simplesmente apenas para curar mágoas e injustiças. E falar mais do que isso é estragar as pequenas grandiosidades desse que é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano.

Mapas Para as Estrelas

Na-na-na-na! Hey-hey-hey! Goodbye! Sing it!

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Direção: David Cronenberg

Roteiro: Bruce Wagner

Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, Evan Bird, John Cusack, Olivia Williams, Robert Pattinson, Niamh Wilson, Emilia McCarthy, Sarah Gadon, Amanda Brugel, Jayne Heitmeyer, Clara Pasieka

Maps to the Stars, EUA/Canadá/Alemanha/França, 2014, Drama, 111 minutos

Sinopse: Agatha Weiss (Mia Wasikowska) acabou de chegar a Los Angeles e logo conhece Jerome Fontana (Robert Pattinson), um jovem motorista de limusine que sonha se tornar ator. Eles começam a sair juntos e flertar um com o outro, por mais que Agatha mantenha segredo sobre seu passado. Não demora muito para que ela comece a trabalhar para Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz decadente que está desesperada para conseguir o papel principal da refilmagem de um sucesso estrelado por sua mãe, décadas atrás. Paralelamente, o garoto Benjie Weiss (Evan Bird) enfrenta problemas ao lidar com seu novo colega de elenco, já que é a estrela principal de uma série de TV de relativo sucesso. Entretanto, como esteve internado recentemente, está sob a atenção especial de sua mãe (Olivia Williams) e dos produtores da série, que temem um escândalo.

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Recentemente exibido no Festival do Rio, Mapas Para as Estrelas começou sua repercussão ainda lá na metade do ano, em Cannes, quando ganhou o prêmio de interpretação feminina para Julianne Moore. Mas caso você tenha a chance de conferi-lo, não pense duas vezes, pois, pelo menos nos Estados Unidos, este novo filme de David Cronenberg será lançado somente em 2015 – e possivelmente apenas em home video. Já aqui no Brasil, ainda não existe nem previsão de seu lançamento comercial. É no mínimo estranha a decisão da Focus Features em escantear o longa, já que este é o trabalho mais irônico, ácido e crítico de Cronenberg em anos – e também o mais acessível (o que está longe de ser um demérito).

Bastante polêmico como sempre, o diretor, com Mapas Para as Estrelas, fez um filme realmente envolvente, distanciando-se bastante da proposta do esquisito – e quase pretensioso – Cosmópolis, estrelado por Robert Pattinson. O jovem ator, aliás, repete a parceria com Cronenberg agora, mas em um papel bem menor, como o motorista de uma limusine (claramente uma referência ao seu trabalho anterior com o diretor). Só que é todo o restante do elenco que brilha por completo, deixando difícil que ele tenha algo a fazer aqui tanto em termos de interpretação quanto em relação a seu limitado papel.

Mapas Para as Estrelas encontra em seu elenco uma de suas maiores forças, mas vai muito além desta mera definição: tudo está bem posto e desenvolvido aqui e o que obviamente chama mais a atenção tematicamente é a questão dos complicados cotidianos de pessoas que tiveram suas personalidades construídas a partir de uma vida repleta de fama – seja uma atriz veterana que está vendo sua carreira despencar ou um jovem, que, aos 13 anos, já administra uma fortuna de milhões. São obviamente relatos e críticas pertinentes em tempos que o cinema é cada vez mais voltado para o público jovem e onde grandes talentos que fizeram história se vêem sem papeis e reduzidos a chances bobocas em comédias até mesmo grosseiras.

É genial este contraste proposto por Cronenberg porque ele foge de panoramas fáceis. Outro diretor mais simplista certamente faria a cronologia óbvia de celebridades que descobrem a fama e são corrompidas por ela. O que Mapas Para as Estrelas mostra é bem diferente: figuras que já provaram da fama e que hoje enfrentam vários problemas por causa dela. São todos personagens que não sabem muito bem o que fazer para seguir em diante. A Havana de Julianne Moore, por exemplo, faz de tudo para conquistar um desejado papel e vive sob a sombra da falecida mãe, indicada ao Oscar e que agora terá este seu consagrado papel refilmado – e ela precisa lidar com o fato de que, mesmo sendo uma famosa atriz, não é a mais cotada para incorporar o papel da sua própria finada matriarca.

É interessante também a vida desestruturada do jovem Benjie (Evan Bird). Ele foi criado em um ambiente problemático, onde a irmã – descobre-se pouco a pouco – ateou fogo na casa da família, o pai desde sempre viveu no mundo artístico administrando a carreira de estrelas e o próprio Benjie, hoje estrelando uma série de TV, já teve que passar por um processo de desintoxicação envolvendo uso abusivo de drogas antes dos 13 anos. Porém, na realidade, a questão da fama aqui é mero detalhe para que o filme destrinche grandes problemas familiares e psicológicos em pessoa ricas em conflitos dramáticos.

O elenco segue tudo com total entrega e intensidade. Se Bird tem força e desenvoltura de sobra para dar vida a Benjie (um personagem difícil e intenso para alguém de sua idade), Julianne Moore dá um verdadeiro show como a ensandecida Havana, nunca tornando-a histérica ou caricata – o que seria fácil demais, visto que sua personagem é descontrolada e frequentemente vítima de azar e injustiças. E quanto à desenvoltura, naturalidade e capacidade de se transformar… Bom, neste sentido, Moore dispensa comentários. Mia Wasikowska também tem seus momentos como a garota que volta a Hollywood e vira assistente de Moore, até mesmo se distanciando de um certo tipo de garota difícil que tanto lhe marcou.

Obviamente, porém, Mapas Para as Estrelas não é para qualquer um. Além do final que transborda pessimismo, este é um longa de personagens difíceis inseridos em situações e vidas sufocantes. Assombrados por expectativas e alucinações, tentam colocar suas vidas nos trilhos. Mas tudo isso não impede que o resultado seja uma viagem gratificante, reflexiva e subversiva. Mais do que isso, uma investida bastante completa, como há tempos Cronenberg não fazia. Os ares estadunidenses (esta foi a primeira filmagem do diretor nos EUA em quase 50 anos de carreira) parecem ter feito muito bem ao autor.

Rio, Eu Te Amo

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Direção: Vicente Amorim, Guillermo Arriaga, Stephan Elliott, Sang-Soo Im, Nadine Labaki, Fernando Meirelles, José Padilha, Carlos Saldanha, Paolo Sorrentino, John Turturro, Andrucha Waddington e César Charlone

Roteiro: Andrucha Waddington, Mauricio Zacharias, Paolo Sorrentino, Antonio Prata, Chico Mattoso, Stephan Elliott, John Turturro, Guillermo Arriaga, Sang-soo Im, Elena Soarez, Otavio Leonidio, Nadine Labaki, Rodney El Haddad, Khaled Mouzannar, Fellipe Barbosa

Elenco: Fernanda Montenegro, Eduardo Sterblitch, Emily Mortimer, Basil Hoffman, Vincent Cassel, Ryan Kwanten, Marcelo Serrado, John Turturro, Vanessa Paradis, Jason Isaacs, Laura Neiva, Rodrigo Santoro, Tonico Pereira, Wagner Moura, Bruna Linzmeyer, Cláudia Abreu, Cleo Pires, Harvey Keitel

Brasil/EUA, 2014, Drama/Comédia, 110 minutos

Sinopse: Novo episódio da série de filmes Cidades do Amor, Rio, Eu Te Amo reúne dez curtas de dez diretores brasileiros e internacionais. Cada uma das histórias revela um bairro e uma característica marcante da cidade maravilhosa. (Adoro Cinema)

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De todos os curta-metragens realizados para a série Cities of Love, o que melhor sintetiza a proposta desta iniciativa cinematográfica que homenageia cidades apaixonantes do mundo é aquele de Alexander Payne para Paris, Te Amo. Em 14e Arrondissement, ele dirige Margo Martindale como uma solitária turista que, ao visitar Paris, encontra nas belas paisagens, monumentos e arquiteturas da cidade uma inspiração para esquecer sua solidão e voltar a amar a vida. Além do belo desempenho de Margo, o que mais encanta neste curta é justamente a sua capacidade de conectar a personagem à cidade e usar a geografia como fator fundamental para falar sobre sentimentos e descobertas.

É óbvio que, em um longa que reúne diversos curtas dos mais variados diretores, a falta de harmonia entre cada um deles seja o principal defeito. É difícil manter o nível. Mesmo Paris, o mais bem sucedido da série, tinha curtas bobos e irregulares, mas também os mais belos vistos até agora. Na sequência, veio a versão de Nova York, que conseguiu transformar a capital estadunidense em um completo tédio. Agora nós brasileiros temos o orgulho de ver nossa mais emblemática cidade turística ganhando o protagonismo deste projeto internacional.

Só que o orgulho, infelizmente, não se estende ao que é de fato visto na tela. Rio, Eu Te Amo é, sem dúvida, melhor que a versão novaiorquina, mas está longe de ter um curta sequer que se equipare ao que Alexander Payne ou até mesmo o Isabel Coixet fizeram no universo parisiense. E o exemplar brasileiro até que começa de forma respeitosa, trazendo a grande Fernanda Montenegro como uma moradora de rua que resolveu viver sem lar, contas e obrigações familiares – o que, segundo ela, é libertador. E a cena final dela com o filho é, sem dúvida, o momento mais bonito de Rio, Eu Te Amo.

Aos poucos, no entanto, o formato começa a cansar e, apesar das válidas e novas tentativas (como a de não mostrar os curtas de forma independente e sim adiantar a aparição de alguns personagens nas transições), Rio, Eu Te Amo se torna mais do mesmo e ainda comete o pecado de não explorar devidamente as paisagens e encantamentos da cidade-título. Frustra, por exemplo, ver o excesso de efeitos visuais para colocar Wagner Moura perto do Cristo Redentor no curta de José Padilha ou, então, a cafonice estética do momento em que Ryan Kwanten e Marcelo Serrado chegam encantados ao topo do Pão de Açúcar em determinado segmento.

Só que a relação dos personagens com o Rio de Janeiro se estabelece única e exclusivamente a partir de fracas tomadas que os colocam em cenários emblemáticos da cidade, e não a partir de sentimentos ou situações especiais na cidade. Outros elementos de ambientação como a trilha sonora também surgem óbvios e sem invenção. Por isto, é no mínimo bonita a cena em que Cláudia Abreu (a única que não tem um curta propriamente dito, mas que aparece em diferentes pontos do longa) reencontra um antigo amor ao som de um empolgante samba na lapa carioca. Ali, está a conexão como ela genuinamente deve ser: simples, sincera e relacionada com o clima da cidade.

Se for para destacar um curta especial, este certamente seria o dirigido por Nadine Labaki, que mostra como um casal, ao encontrar um menino morador de rua, resolve realizar um grande sonho do jovem. Texto, empatia dos atores (o garotinho é sensacional!) e a mensagem desta passagem revelam um carinho muito grande que falta ao filme como um todo. Preferindo esquecer completas bobagens como o curta protagonizado por Tonico Pereira ou o irritante texto comandado por John Turturro, saí da sessão com a impressão que vi apenas um conjunto de curtas genéricos sobre pessoas e circunstâncias – e não uma homenagem a uma cidade. Tomara que a próxima parada (Xangai) seja mais inspirada.

Magia ao Luar

When the heart rules the head, disaster follows.

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Direção: Woody Allen

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Colin Firth, Emma Stone, Eileen Atkins, Marcia Gay Harden, Jacki Weaver, Hamish Linklater, Simon McBurney, Catherine McCormack, Erica Leerhsen, Jeremy Shamos, Ute Lemper, Sébastien Siroux

Magic in the Moonlight, EUA, 2014, Comédia, 97 minutos

Sinopse: Stanley (Colin Firth), um falso mágico com talento para desmascarar charlatões, é contratado para acabar com a suposta farsa de Sophie (Emma Stone), simpática jovem que afirma ser médium. Inicialmente cético, ele aos poucos começa a duvidar de suas certezas e se vê cada vez mais encantado pela moça. (Adoro Cinema)

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É errado pensar que filmes acontecem no vácuo, especialmente quando falamos de diretores que estão constantemente em atividade. Se um filme não nasce de fatos reais ou de inquietações referentes à política ou conflitos sociais, devem ser analisados dentro da filmografia de seu realizador. Afinal, o que determinado longa significa dentro de uma extensa carreira, por exemplo? E Woody Allen tem seus contextos. Com o passar dos anos, deixou bem claro que realiza filmes com muito mais afinco do que outros.

Certas produções como Match PointVicky Cristina BarcelonaMeia-Noite em ParisBlue Jasmine são realmente mais relevantes, complexas e eficientes se comparadas a outras de Allen que chegam aos cinemas apenas porque ele realmente não quer parar de filmar. Desta forma, os filmes do diretor podem ser classificados como mais ambiciosos em suas discussões ou apenas como leves brincadeiras. No caso da segunda categoria, Para Roma, Com Amor era o exemplar mais recente até a chegada deste Magia ao Luar, que, mesmo agradável e simpático, deve ser o longa menos instigante de Allen em anos.

Justamente por ter esta subcategoria de filmes menores, virou moda falar de Woody Allen ou usar a clichê expressão de que “o pior de Woody Allen é melhor do que muita coisa por aí”. Mas até para o próprio universo de filmes medianos do diretor, Magia ao Luar decepciona, sendo uma obra que tem um grande problema de ritmo e que, em diversas partes, se torna quase entediante e repetitiva. E repetitiva não só em termos da história andar em círculos, mas também em sua própria estrutura que copia jogadas vistas recentemente em Blue Jasmine, por exemplo – como aquela em que induz o espectador a acreditar em mudanças muito fáceis dos personagens para, no final, desmontar tudo com uma revelação ou com uma guinada-surpresa.

O bom e velho Woody Allen está ali, com sua ironia, seu pessimismo e sua racionalidade, mas, dessa vez, para os que não gostam, pelo menos ele está mais disfarçado na pele de Colin Firth, que tem a seu favor o fato de não tentar emular os tiques tão característicos do próprio Woody (ao contrário de tantos atores como Larry David e Owen Wilson) e criar algo mais novo. Magia ao Luar tem boas sacadas e momentos divertidos, com destaque para aqueles da primeira metade, onde o mágico Stanley (Firth) finalmente se encontra com a médium Sophie (Emma Stone, sempre radiante e simpática, mas uma atriz que estranhamente nunca bombou como prometia) e tenta sutilmente desmascará-la. Só que apenas Stanley crê que a moça seja uma farsa e o novo filme de Woody Allen se torna uma reflexão sobre ceticismo e até que ponto nossa credulidade passa a vencer o bom senso ou simplesmente os fatos.

Porém, a partir do momento em que começa a induzir o espectador para as tais resoluções e mudanças fáceis demais para personagens tão sólidos, Magia ao Luar começa a se perder ao se revelar um samba de uma nota só. O filme perde o ritmo, a história se estagna e tudo parece mera variação do que já vimos antes no mesmo roteiro ou em outras obras mais recentes do diretor. O que resta apenas, neste meio tempo, é o carisma da jovem Emma Stone e a desenvoltura de Firth – além da ilustre presença da veterana Eileen Atkins, que, nos minutos derradeiros, tem uma cena inspiradíssima com o protagonista. Ah, e também é bom ver Woody Allen compensando todo aquele duro pessimismo de Blue Jasmine com esta trama mais leve e de mensagens mais positivas e aliviantes, mesmo que em um conjunto bastante carente de envolvimento.

O Mercado de Notícias

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Direção: Jorge Furtado

Roteiro: Jorge Furtado

Elenco: Antônio Carlos Falcão, Eduardo Cardoso, Elisa Volpatto, Evandro Soldatelli, Irene Brietzke, Ismael Caneppele, Janaina Kremer, Marcos Contreras, Mirna Spritzer, Nelson Diniz, Sérgio Lulkin, Thiago Prade, Ursula Collischonn, Zé Adão Barbosa

Brasil, 2014, Documentário, 94 minutos

Sinopse: O Mercado de Notícias traz depoimentos de 13 importantes jornalistas brasileiros sobre o sentido e a prática da profissão, as mudanças na maneira de consumir notícias e o futuro do jornalismo. O filme reflete casos recentes da política brasileira, onde a cobertura da imprensa teve papel de grande destaque.

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No caso específico de O Mercado de Notícias, é necessária uma ratificação particular: sou jornalista formado. Por isso, quando conferi este novo filme do gaúcho Jorge Furtado, não consegui me eximir de comparações e análises quanto ao meu próprio cotidiano como jornalista – e também quanto a tudo que discuti e aprendi em disciplinas teóricas na faculdade. A proposta de O Mercado de Notícias vem em um momento bastante simbólico no que se refere a forma como sinto e vivencio os momentos jornalísticos atuais.

Fora a óbvia desvalorização da profissão que aconteceu nacionalmente anos atrás com a decisão da ausência de diploma para se exercer a profissão e a intensa influência da internet na produção de notícias, inúmeros fatores contribuíram para a confusão conceitual que assombra a profissão nos dias de hoje. O reflexo se vê nas mais diferentes frentes. Recentemente, aqui no Rio Grande do Sul, o maior grupo de comunicação demitiu aproximadamente 100 jornalistas sem explicações muito convincentes. O jornal de maior referência em Porto Alegre também repaginou por completo suas diretrizes (de layout e conteúdo) após décadas de estilo consolidado – e o resultado não deu muito certo: foi quase unânime a rejeição do público. São tempos difíceis para o Jornalismo e um debate sobre a profissão precisava ser urgentemente suscitado.

Afastado da produção de longas-metragens para o cinema desde 2007, quando realizou o divertido Saneamento Básico, Jorge Furtado revela, logo no início de O Mercado de Notícias, que sua reflexão não se baseia em inquietações negativas sobre a profissão e sim em uma convocação pessoal de profissionais do ramo que admira para um panorama do Jornalismo atual. E é bem provável que seja exatamente neste ponto que o seu mais novo filme (o primeiro documentário em longa) não consiga sair de um certo lugar comum apesar das boas tentativas (muitas delas bem sucedidas). Como jornalista, percebo que os assuntos discutidos em O Mercado de Notícias não se distanciam muito dos tópicos levantados por meus professores ainda lá em 2009, quando comecei a cursar a faculdade.

Não que debater a relação jornalista X fonte ou valor-notícia não sejam mais iniciativas válidas (sempre serão), mas o problema é que estas questões, quando não colocadas na situação atual da profissão, se tornam extremamente genéricas. Terminou-se aquela idealização de repórter que só tem como missão sair às ruas atrás da verdade. Hoje o jornalista é um faz-tudo e se vira nos 30 em tempos que a convergência das mídias desnorteia cada vez mais os rumos da profissão. Desta forma, é particularmente um tanto decepcionante o fato de que, por exemplo, assuntos como o advento da internet e sua consequente indagação sobre o fim do jornal impresso cheguem ao filme apenas quando ele já está prestes a terminar.

Jorge Furtado tem ideias – e boas. Quando questiona valores-notícia e disseca manchetes curiosas (como uma denúncia infundada sobre o INSS ostentar um quadro de Picasso na mesma sala que pendurava um retrato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva), O Mercado de Notícias alcança os seus melhores momentos. Também é bastante válida a ideia do diretor de não revelar a os veículos de comunicação de seus entrevistados, o que elimina a chance de alguém fazer qualquer acusação de que o filme toma lados políticos ou prioriza determinadas visões editoriais. O máximo que se deduz é que um determinado entrevistado seja da Folha de São Paulo devido a livros que aparecem ao fundo.

O filme de Furtado intercala seus depoimentos com trechos da peça The Staple of News, escrita pelo inglês Ben Jonson em 1625, e traduzida pelo próprio Furtado e Liziane Kugland. A comédia de Jonson, montada e encenada especialmente para a produção do filme, revela uma visão crítica sobre o surgimento da imprensa de notícias, com seus riscos e benefícios. A decisão de levar a peça para o filme é acertada, pois ela traz a irreverência e a originalidade que Furtado, de certa forma, não apresenta na parte academicamente documental.

Novamente, esta é uma obra que ganha um olhar completamente diferente de minha parte dado o fato de que exerço a profissão que é debatida ao longo dos 94 minutos de projeção. Tomando um pouco de distância desta identificação, o que consigo enxergar é um documentário simples mas eficiente e que, em seu discurso quase genérico, presta um bom serviço ao público em geral sobre a valorização de uma profissão cada vez mais desvalorizada e que está em busca de uma nova identidade. Sendo assim, Jorge Furtado continua com 100% de aproveitamento na sua carreira de longas.