Rapidamente

David Oyelowo em cena com o veterano Tom Wilkinson: seu desempenho como Martin Luther King é o ponto alto de Selma: Uma Luta Pela Igualdade, produção lembrada pelo Oscar 2015 apenas nas categorias de melhor filme e canção original
DOADOR DE MEMÓRIAS, O (The Giver, 2014, de Phillip Noyce): Tem ideias muito interessantes esse filme que entra na onda das adaptações de best sellers infanto-juvenis, mas que não rendeu o esperado nas bilheterias (mundialmente faturou apenas um pouco mais do dobro de seu orçamento de 25 milhões). É fácil entender o porquê: os conflitos que movem O Doador de Memórias são muito subjetivos para ganhar caráter popular. Na história, uma comunidade vive em um mundo preto-e-branco, onde os sentimentos foram extintos por meio de uma injeção diária em cada habitante. Ou seja, todos vivem sem saber e vivenciar o que é amor ou qualquer outra emoção. A situação muda quando a única pessoa detentora das memórias do que hoje inexiste nessa sociedade precisa passar adiante suas lembranças. O escolhido é o jovem Jason (Brenton Thwaites), que obviamente se encanta com as sensações que o seu mundo não sabe que existe e aos poucos passa a tentar introjetá-las nas pessoas em sua volta. As ideias são ótimas, mas O Doador de Memórias não vai muito além da teoria simplesmente porque a direção de Phillip Noyce é péssima. Optando pelo cafona no visual e na própria condução das cenas com frases prontas, efeitos visuais mal acabados e situações clichês, ele desperdiça o potencial do filme (não é qualquer trama dessa natureza que reúne Meryl Streep como antagonista e Jeff Bridges no elenco), que tinha tudo para ser uma saga bem sucedida se abordada de maneira mais sóbria e menos comercial. Lembrando que o livro original escrito por Lois Lowry ainda tem outras três obras complementares passadas no mesmo universo de O Doador de Memórias. Dado o fracasso do filme, são trabalhos que não devem ganhar vida no cinema.
SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (Selma, 2014, de Ava DuVernay): O maior mérito desse filme que despertou discussões sobre racismo no Oscar é justamente falar sobre a causa sem qualquer traço de panfletagem. Com muita dignidade, a diretora Ava DuVernay narra a trajetória de Martin Luther King (David Oyelowo) em 1965, quando ele organizou uma marcha da cidade-título até Montgomery, no Alabama, para protestar e garantir o direito de voto aos negros (que já existia mas era solenemente ignorado). Produzido por Oprah Winfrey (ela também tem uma pequena participação na história), Selma: Uma Luta Pela Igualdade chama atenção pela sobriedade e pela franqueza com que apresenta suas denúncias e reivindicações. O mesmo tom certeiro também está presente naquele que é o aspecto mais precioso do filme: a interpretação de David Oyelowo. Discreto mas intenso quando a história pede, o ator dá um show como Martin Luther King. Em momento algum duvidamos de sua sabedoria, de seu caráter e de sua integridade. Admiramos aquele personagem, o que é consequência direta do desempenho incrivelmente discreto e eficiente de Oyelowo. Já o filme como um todo não chega a empolgar, especialmente quando o ritmo arrastado faz com que Selma pareça ter o dobro da duração que realmente tem. Vale mais pela mensagem e pela dignidade com que fala sobre racismo do que propriamente como um filme envolvente. Destaque ainda para a bela canção Glory, vencedora do Oscar 2015 em sua respectiva categoria.
SNIPER AMERICANO (American Sniper, 2014, de Clint Eastwood): Com exceção dos estadunidenses, que compareceram em massa às salas de cinema (são 330 milhões de dólares até agora nas bilheterias do país, sendo que o orçamento foi de apenas 58), não sei quem ainda aguenta ver filmes sobre as consequências do 11 de setembro, em especial as histórias passadas na guerra do Iraque. Esse é um tema já explorado à exaustão, mas agora o diretor Clint Eastwood (que não entrega uma obra verdadeiramente marcante desde Cartas de Iwo Jima, em 2006) resolveu entrar na lista dos cineastas que desenterram o assunto. E sinceramente? Clint não conta absolutamente nada de novo ou extraordinário. Apesar do sucesso estrondoso em seu país de origem, Sniper Americano repete a fórmula do herói estadunidense atormentado pela guerra. Novamente temos o sujeito em campo defendendo seu país (Bradley Cooper, indicado ao Oscar 2015 de melhor ator) que, aos poucos, começa a se tornar o soldado distante e até amedrontador para a esposa lacrimosa com um filho no colo. No meio disso tudo, idas e vindas ao Iraque, algumas cenas de tensão envolvendo a profissão do protagonista (Chris Kyle se “consagrou” como o maior franco-atirador dos Estados Unidos) e tomadas inegavelmente bem filmadas. Mas, infelizmente, Sniper Americano não deixa de ser uma obra frustrante e redundante dentro do tema que se propõe a discutir – e talvez até mesmo bastante atrasada.
Para Sempre Alice
It was about love.

Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland
Roteiro: Richard Glatzer e Wash Westmoreland, baseado no romance “Still Alice”, de Lisa Genova
Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Hunter Parrish, Stephen Kunken, Daniel Gerroll, Seth Gilliam, Erin Darke, Maxine Prescott, Orlagh Cassidy, Rosa Arredondo, Zillah Glory, Quincy Tyler Bernstine
Still Alice, EUA, 2014, Drama, 101 minutos
Sinopse: A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguistica. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), fragiliza, ela e a filha Lydia (Kristen Stewart) se aproximam. (Adoro Cinema)

O Alzheimer é uma das doenças mais tristes ainda sem cura. Perder sua própria identidade, esquecer quem são as pessoas que você mais ama, viver o momento e daqui algumas horas já não lembrar de mais nada… Isso é terrível demais para qualquer pessoa e ninguém merece um sofrimento como esse. O cinema, claro, se atentou para o potencial dramático da doença e já realizou muitos filmes sobre o tema. Do tradicional Iris ao tocante Longe Dela (citando exemplares mais recentes), o Alzheimer já foi tão explorado em obras cinematográficas que hoje tem, de certa forma, uma cartilha com os passos que um longa sobre o assunto deve seguir. É um terreno complicado, repleto de clichês e repetições, e Para Sempre Alice novamente não apresenta algo de algo inovador. Dirigida pela dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland, a adaptação do romance Still Alice, de Lisa Genova, certamente ganhará a simpatia do grande público por apresentar uma história sobre Alzheimer no sentido clássico. Afinal, o longa segue todos os passos de um tradicional filme do gênero: o primeiro esquecimento que parece uma tolice, a suspeita, a consulta ao médico, os exames, o diagnóstico, o lamento da família, a decisão sobre quem vai cuidar de Alice, os conflitos no casamento, o amor incondicional no meio de tanto drama, e por aí vai…
Porém, é irônico como um filme que fala justamente sobre o tempo (ou mais especificamente sobre a perda da noção dele) tenha na cronologia um de seus maiores problemas. Glatzer e Westmoreland falham ao situar o espectador nas épocas em que o longa se desenvolve. Sem sabermos direito quanto tempo passou entre um avanço e outro da doença, fica a sensação de que a situação da protagonista piora muito repentinamente – e isso teria que estar bem alinhado, uma vez que já é atípico embarcar em uma história sobre uma doença acometendo uma mulher de apenas 50 anos quando normalmente ela é retratada apenas com pessoas idosas. Se a desorientação quanto ao tempo fosse algo proposital, a ideia seria brilhante, mas infelizmente não parece ser o caso dessa obra que, caso fosse lançada na metade do ano, não teria sequer fôlego para sobreviver nas memórias das premiações e dar o Oscar de melhor atriz que Julianne Moore recebeu recentemente.
O problema de Para Sempre Alice está mais na direção pouco inspirada e sem grandes desejos de construir algo realmente fora do convencional na execução do que no roteiro propriamente. Um exemplo disso é a própria escalação do elenco de suporte, onde basicamente todas as escolhas são erradas: Alec Baldwin não tem a presença necessária para dar estofo dramático a um filme como esse (o ator ainda remete demais à comédia), Kristen Stewart está na sua versão descabelada e de boca aberta (ao contrário de sua maravilhosa aparição no recente Acima das Nuvens) e o jovem Hunter Parrish quase se resume a um figurante (o que tem virado sua especialidade, uma vez que, anos atrás ele também já era o filho insosso e inútil de Meryl Streep em Simplesmente Complicado). O uso da trilha sonora de Ilan Eshkeri, que cai nos caminhos mais fáceis de composições que querem emocionar a todo custo com piano e violino, também denota a falta de criação da dupla diretora. Por isso, exigir o devido esmiuçamento de relações interessantes como Alice ser uma professora de linguística condenada a uma doença que fará com que ela esqueça justamente palavras é pedir demais. Detalhes como esses, no entanto, devem interferir apenas na percepção de quem já se cansou das repetições de filmes sobre Alzheimer. Até porque Para Sempre Alice, apesar de tudo, é inofensivo e desenvolve bem a sua parcela de emoção.
Falando em emoção, duas cenas se destacam no longa. Uma é a que traz Alice, já diagnosticada, falando sobre sua condição para dezenas de pessoas em uma palestra. “Eu vou esquecer deste dia, mas isso não quer dizer que o agora não importe para mim”, conta a personagem, evocando também a poeta Elizabeth Bishop para falar sobre perdas, mostrar que ainda não é uma inválida e que muito menos se tornou uma versão cômica de si mesma. Por mais que discursos motivacionais para plateias sejam jogadas comuns de filmes envolvendo doenças, esta cena de Para Sempre Alice consegue superar o didatismo e até emocionar, falando com simplicidade e humanidade sobre muitos assuntos que vem à tona quando alguém é diagnosticado com Alzheimer. Outra cena que marca é a última da protagonista com a sua filha, Lydia (Kristen Stewart), que encerra o filme de forma bastante carinhosa.
Verdade seja dita, porém, que quase toda parcela do êxito de tais cenas – assim como de todo o filme – é resultado direto do trabalho de Julianne Moore. Vindo de uma recente consagração na TV com o ótimo Virada no Jogo e uma coroação em Cannes com o prêmio de interpretação feminina por Mapa Para as Estrelas, a atriz retoma uma fase de ouro que muitos anos atrás lhe posicionou como uma das atrizes mais queridas de sua geração. Para Sempre Alice é, com certeza, mais um ótimo movimento rumo a essa retomada. Dotada de sua já conhecida sensibilidade e humanidade, Moore tira de letra o papel, que está longe de ser um dos mais desafiadores de sua carreira, mas que lhe dá todas as circunstâncias para que mais uma vez emocione como poucas atrizes conseguiriam. A exemplo de muitos filmes simplistas sustentados só por grandes intérpretes, Para Sempre Alice não foge em momento algum da regra: sem Julianne Moore, o resultado seria, com o perdão do trocadilho, completamente esquecível.
O Jogo da Imitação
When people talk to each other, they never say what they mean. They say something else and you’re expected to just know what they mean.

Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Graham Moore, baseado no livro “Alan Turing: The Enigma”, de Andrew Hodges
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Rory Kinnear, Allen Leech, Matthew Beard, Charles Dance, Mark Strong, James Northcote, Tom Goodman-Hill, Steven Waddington, Ilan Goodman, Jack Tarlton, Alex Lawther, Jack Bannon
The Imitation Game, Reino Unido, 2014, Drama, 114 minutos
Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico monta uma equipe que tem por objetivo quebrar o Enigma, o famoso código que os alemães usam para enviar mensagens aos submarinos. Um de seus integrantes é Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um matemático de 27 anos estritamente lógico e focado no trabalho, que tem problemas de relacionamento com praticamente todos à sua volta. Não demora muito para que Turing, apesar de sua intransigência, lidere a equipe. Seu grande projeto é construir uma máquina que permita analisar todas as possibilidades de codificação do Enigma em apenas 18 horas, de forma que os ingleses conheçam as ordens enviadas antes que elas sejam executadas. Entretanto, para que o projeto dê certo, Turing terá que aprender a trabalhar em equipe e tem Joan Clarke (Keira Knightley) sua grande incentivadora. (Adoro Cinema)

É uma boa temporada para os fãs de biografias. Excetuando Foxcatcher, um trabalho realmente diferenciado no formato, vários outros filmes do gênero entraram em cartaz trazendo a velha fórmula segura que garante boa aprovação: história com início, meio e fim bem definidos, roteiro sem maiores ousadias, um bom trabalho técnico e atores empenhados em reproduzir com fidelidade as figuras reais em questão. Foi assim com A Teoria de Tudo e Grandes Olhos, os primeiros filmes a desembarcarem no Brasil entre janeiro e fevereiro. Agora, podemos colocar mais um nessa conta: O Jogo da Imitação, que segue os mesmos padrões dos filmes citados. Ou seja, bom para quem gosta, indiferente para quem busca algo novo.
O que pontua as biografias desse ano é o agradecimento que a sétima arte faz para pessoas injustiçadas ou que trouxeram uma contribuição sem precedentes para a humanidade. Em Grandes Olhos, Tim Burton dá os devidos créditos para a pintora Margaret Keane, que, durante anos, foi vítima da pilantragem de seu marido aproveitador. Em A Teoria de Tudo, vimos a grande superação do físico Stephen Hawking ao enfrentar uma doença degenerativa ao mesmo tempo que construía uma família e dava continuidade a uma brilhante carreira profissional. Com O Jogo da Imitação, é a vez do diretor Morten Tyldum contar a vida do singular matemático Alan Turing, que ajudou o governo britânico em uma conquista decisiva na Segunda Guerra Mundial. Turing foi condenado por ser homossexual (era um crime, na época). A pena? Fazer um tratamento hormonal de dois anos para “conter” sua sexualidade, o que levou o matemático a depressão e ao suicídio.
Quando se concentra nas questões pessoais de Alan Turing, seja na sua infância como garoto prodígio zombado pelos colegas, no seu temperamento difícil (é cheio de si, mas ao mesmo tempo uma figura extremamente frágil) ou na relação de confiança que estabelece com a colega de trabalho Joan Clarke (Keira Knightley, devidamente simpática e contida), O Jogo da Imitação se liberta das tradicionais amarras de um tradicional relato biográfico. E não é só porque o britânico Benedict Cumberbatch, explorando mais o homem inseguro e perdido de Álbum de Família do que o gênio racional do seriado Sherlock, ganha chances maiores para detalhar sua ótima atuação, mas é porque aí que passamos a nos importar mais com Turing e a compreender como realmente funciona não apenas a sua mente, mas também o seu coração.
Turing é um personagem que por si só já seria suficientemente interessante para sustentar um filme como O Jogo da Imitação e talvez o fato do resultado não ser um sonífero se deva justamente a todo esse interesse que o protagonista desperta no espectador. Sem ele, seria uma batalha acompanhar o longa de Morten Tyldum. Ora, não bastasse ser uma biografia, O Jogo da Imitação ainda é ambientado em meio a uma grande guerra, o que aumenta exponencialmente as chances do diretor se entregar ao didático. E é fato: não existe qualquer sinal de que Tyldum, a partir do roteiro escrito por Graham Moore, com base no livro “Alan Turing: The Enigma”, de Andrew Hodges, tenha qualquer vontade de atingir outro espectador a não ser o mais acadêmico.
Previsível em toda a sua construção (óbvio que o texto não poderia deixar de mastigar a todo minuto a abordagem do gênio de ideias transgressoras a quem ninguém dá ouvidos e que no final se revelará o salvador da pátria) , O Jogo da Imitação também reserva espaço para o clichê da frase de efeito dita e repetida do início ao fim. Claro que a reconstituição de época é digna e a trilha sonora chega até a ser inspirada (Alexandre Desplat, de novo!), mas até para alguém como eu, que costuma ser um defensor de filmes com essa pegada, a onda de biografias convencionais já não comove mais. Nem todas precisam transbordar originalidade, só que às vezes pensar um pouquinho além das conhecidas fronteiras já traz um sabor pelo menos motivador. Novamente não é o caso.
Rapidamente

Além da ótima presença de Tilda Swinton, Expresso do Amanhã se destaca pelo criativo design de produção e pelas ideias que escapam das previsibilidades de boa parte dos filmes de ficção
UMA AVENTURA LEGO (The Lego Movie, 2014, de Christopher Miller e Phil Lord): Conquistou uma legião de fãs esse filme que, para mim, resultou em uma grande dor de cabeça. Gosto do humor e das várias referências que a dupla Christopher Miller e Phil Lord trouxe para o ótimo visual do mundo Lego, mas construir um filme somente em cima dessas piadas não é, ao contrário do que pode parecer, uma jogada inteligente. O grande problema de Uma Aventura Lego é que, fora o humor subversivo e a imensa gama de personagens, situações e histórias referenciadas aqui, não existe uma trama consistente. Por isso, a animação parece ter o dobro da duração que realmente tem, se arrastando em uma jornada infinita de situações desconexas e histriônicas. Em cinco minutos, é possível ir de um submarino ao México, de Cleópatra a Batman – algo que resultaria genial em um filme que tivesse pensado em uma história realmente boa antes. Aqui, as divertidas aparições desses personagens e a construção de situações inimagináveis soam mais como um artifício forçado para conquistar a galera geek. De lembrança mesmo fica apenas o visual e Everything is Awesome, a canção mais divertidamente grudenta em sabe-se lá quantos anos.
EXPRESSO DO AMANHÃ (Snowpiercer, 2013, de Bong Joon Ho): Estreia do diretor coreano Bong Joon Ho (O Hospedeiro e Mother) em um filme falando em inglês, Expresso do Amanhã é baseado na HQ francesa Le Transperceneige, que traz uma trama similar ao de José Saramago em Ensaio Sobre a Cegueira, por exemplo: uma comunidade sendo construída em uma circunstância extraordinária onde pessoas são isoladas por uma força maior. No caso do filme de Joon Ho, um enorme trem, que abriga os últimos sobreviventes de uma catástrofe climática que congelou o mundo. Fora as discussões envolvendo rebelião e construção de um novo modelo de sociedade, Expresso do Amanhã também é uma boa ficção, bastante gráfica e conceitual. Não é uma experiência fácil (aqui inexistem as previsibilidades do gênero, com personagens importantes morrendo ao longo da trama e referências bastante espertas, a exemplo da tirana antagonista vivida por Tilda Swinton que usa os mesmos óculos de Margaret Thatcher!). Enquanto até a metade o longa parece mais um (interessante) videogame em que os personagens precisam apenas avançar nos perigos de cada vagão do trem, logo a história traz uma reviravolta (com uma ótima sequência protagonizada por Alison Pill) e tudo ganha outra dimensão. Vale ressaltar ainda o excelente design de produção e a sensacional criação de Tilda Swinton como a ministra Mason. Se Oscar conta alguma coisa, são duas faltas bastante sentidas na cerimônia de 2015.
MESMO SE NADA DER CERTO (Begin Again, 2013, de John Carney): O diretor irlandês John Carney gosta mesmo de usar a música para falar sobre sentimentos. Mas, se em Apenas Uma Vez, o clima era incrivelmente melancólico, a situação já é diferente em Mesmo Se Nada Der Certo, uma produção bastante espirituosa. A lógica é a mesma: personagens com vidas pessoais bagunçadas ou despedaças encontram na música uma razão para esquecer os problemas e seguir em frente. Comparado ao filme anterior do diretor, este novo trabalho é menos inspirado, com canções agradáveis mas não tão fundamentais à construção da narrativa e um tanto repetitivo na mensagem que Carney parece querer seguir em longas com sua assinatura. Mark Ruffalo e Keira Knightley, a dupla protagonista, são o ponto alto da história, com destaque para ela, que, em seus últimos trabalhos, finalmente aprendeu a deixar as caras e bocas de lado. Alguns descuidos na história são perceptíveis (como o personagem de Ruffalo está quase falido e desabrigado se tem um grande amigo que diz dever sua fortuna de milhões a ele?), mas a boa vibe do filme compensa. Agradável aos ouvidos e à alma, Mesmo Se Nada Der Certo funciona facilmente como uma diversão despretensiosa.
A OUTRA TERRA (Another Earth, 2011, de Mike Cahill): Chegou a vencer o prêmio especial do júri em Sundance esse filme de estreia de Mike Cahill no universo de tramas de ficção (antes ele havia dirigido o documentário Boxers and Ballerinas). Cahill trabalhou em parceria com Brit Marling, a jovem protagonista que também escreveu o roteiro e produziu o longa com ele. Enigmático e bastante envolvente, A Outra Terra traz uma garota atormentada por uma tragédia pessoal que testemunha a descoberta de um novo planeta habitados por seres humanos com identidades iguais às nossas. Contudo, não pense que esta é uma trama de ficção no sentido clássico do gênero ou um suspense envolvendo alienígenas e coisas do gênero. Na realidade, toda a descoberta do outro planeta e a possibilidade de realmente ainda termos muito o que descobrir nesse vasto universo servem para ajudar a moldar a própria trajetória da protagonista em busca de redenção e algum tipo de paz. O final surpreendente, o roteiro bem lapidado dramaticamente e a simplicidade realista de uma produção alternativa fazem de A Outra Terra uma experiência interessantíssima e envolvente para quem procura obras que escapem de conceitos fáceis.
Cinquenta Tons de Cinza
My tastes are very singular. You wouldn’t understand.

Direção: Sam Taylor-Johnson
Roteiro: Kelly Marcel, baseado no livro “Fifty Shades of Grey”, de E.L. James
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Jennifer Ehle, Eloise Mumford, Marcia Gay Harden, Rita Ora, Luke Grimes, Max Martini, Callum Keith Rennie, Andrew Airlie, Dylan Neal, Rachel Skarsten, Emily Fonda, Anthony Konechny, Bruce Dawson, Tom Butler
Fifty Shades of Grey, EUA, 2015, Drama, 125 minutos
Sinopse: Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma estudante de literatura de 21 anos, recatada e virgem. Uma dia ela deve entrevistar para o jornal da faculdade o poderoso magnata Christian Grey (Jamie Dornan). Nasce uma complexa relação entre ambos: com a descoberta amorosa e sexual, Anastasia conhece os prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objeto de submissão do sádico Grey. (Adoro Cinema)

Cinquenta Tons de Cinza repete o efeito da saga Crepúsculo: é um filme-evento. Ou seja, todo mundo vê e comenta. Mesmo que o consenso seja de que o resultado é uma catástrofe, se você não o assistir, estará desatualizado nas rodas de conversa. Só que o caso dessa aguardada adaptação do romance homônimo escrito por E.L. James (que não li e nem preciso, pois cinema independe da literatura) é ainda mais grave do que Crepúsculo no sentido de disseminar ideias erradas. Isso porque Cinquenta Tons de Cinza é dirigido ao público adulto, que já deveria ter idade e vivência suficientes para perceber que basicamente tudo o que é pregado nessa história sintetiza o que existe de pior no machismo cada vez mais combatido e – por incrível que pareça – presente nos dias de hoje. Indo mais além, o filme de Sam Taylor-Johnson (do ótimo Os Garotos de Liverpool) não é só uma exposição de valores absurdos, mas também um produto cinematográfico realmente ruim e pobre em criações.
A inexistência de criatividade já fica mais do que evidente nos primeiros minutos de projeção. Não é preciso puxar muito a memória para perceber que o começo de Cinquenta Tons de Cinza apresenta exatamente a mesma construção de O Diabo Veste Prada: uma menina desglamourizada se veste (mal) para uma entrevista com uma figura poderosíssima, misteriosa e intimidante. Enquanto Anastasia (Dakota Johnson), a tal moça, parte para o destino em um singelo fusca azul, Christian Grey, o tal misterioso, chega ao trabalho em uma imponente limousine. A menina admira o prédio gigantesco quando acha o destino. Na sequência, a câmera acompanha a porta do elevador se abrindo quando ela adentra o local e, durante todo esse seu deslocamento, o filme intercala rápidos momentos de Grey se vestindo e se preparando para o momento, sem que seu rosto seja revelado com o objetivo de criar certo suspense. Anastasia chega, tropeça, gagueja, fala coisas erradas e o empresário, agora revelado como um homem lindo e deslumbrante, já trata de resumir o encontro ao ver a inexperiência da garota. Mas ela faz alguma coisa especial (que não é perceptível, ao contrário do ótimo momento em que a personagem de Anne Hathaway confronta Meryl Streep em Prada quando discursa sobre como seu talento deve falar mais alto do que suas roupas), fisgando a atenção do desejado Christian Grey. E os dois, em questão de poucos minutos, já estão secretamente apaixonados.
Como se não bastasse uma certa incoerência que se revelará mais tarde (por que mesmo ela foi tão mal vestida para uma importante primeira entrevista se, cenas depois, faz uma nova reunião com Grey usando salto alto, maquiagem e um vestido que realça sua beleza?) ou o fato de que nenhum jornalista – mesmo em formação – enviaria a amiga para substituí-lo em uma entrevista se hoje existe telefone e e-mail para que perguntas sejam respondidas, a sucessão de cópias desse primeiro momento ainda é precedida por outra metáfora absurdamente preguiçosa: óbvio que a menina, após a reunião supostamente cercada de tensão sexual, opta por tomar tranquilamente um banho de chuva ao invés de sair correndo para o carro afim de não se molhar. Que original, uma chuva para abrandar o fogo interno da protagonista! E o que dizer, então, de quando a câmera, minutos depois, detalha o “Grey” desenhado no lápis que Anastasia ganhou e que coloca em sua boca durante toda uma aula de literatura? Resumo da ópera: já nas cenas iniciais, Cinquenta Tons de Cinza anuncia que não é um filme inteligente e que muito menos compensará em ideias cinematográficas a premissa que por si só já é cercada de cheia de valores errados.
Se, na casa de Christian, o quarto sexual é decorado apenas com vermelho e o de Dakota estoura os olhos de tão branco, exaltando o pecado e pureza respectivamente (sério mesmo que até na direção de arte não resolveram criar um pouquinho além?), tal preguiça de pensamento se estende ainda à construção da relação dos personagens – que, aos poucos, sai da mera obviedade para o total desleixo. Ambos são figuras completamente desinteressantes. É implausível como ele, um homem tão lindo, desejado e poderoso, foi se interessar por ela – e isso não tem nada a ver com beleza ou conteúdo, mas com o fato de Christian repentinamente ter se encantado com a personalidade da menina sendo que ela não demonstrou nada minimamente aceitável para que sequer tivéssemos simpatia por sua figura. Já ela, uma garota virgem e que nunca teve um namorado, parece mais uma mercenária: percebam como Anastasia sempre é alegremente comprada por Christian, seja com um carro caríssimo para que ela finalmente tome uma importante decisão na relação dos dois ou com uma voltinha em um avião particular para que ela finalmente esqueça uma discussão.
São muitos os aspectos questionáveis da personalidade de cada um (e que serão discutidos mais adiante), mas o pior é o que se desenrola “sentimentalmente” a partir de quando Christian finalmente revela para Anastasia as suas “preferências singulares”. Pior porque todo e qualquer conflito originado a partir daí não tem qualquer consistência. Os personagens brigam por bobagens (como a protagonista quer insistentemente exigir de seu amado algum tipo de sentimento sendo que ele, desde o início, já deixou bem claro que não se envolve a ponto de sequer namorar?), outras vezes por questões simplesmente absurdas (como quando Christian, indignado, questiona Anastasia por ela simplesmente ter decidido ir visitar a mãe em outra cidade sem ter pedido sua permissão), e no fim fica difícil ter simpatia por personagens repetitivos, irritantes e com defeitos sem qualquer justificativa convincente (“eu sou assim!”, simplificam a figura de Christian no roteiro).
Romantizar uma relação abusiva é um dos tantos problemas conceituais de Cinquenta Tons de Cinza. “Abusiva? Mas eles assinaram um acordo!”, justificam alguns fãs. Sejamos sinceros: uma garota de 21 anos, virgem e que nunca teve um namorado realmente tem a mesma dimensão do que é certo ou errado em uma relação com um homem já beirando seus 30, rico e que trancafiou até aquele momento mais de 15 mulheres em seu apartamento como suas escravas sexuais? O caos é que não existe uma discussão sobre a situação e sim uma romantização mesmo. São gritantes as bobagens românticas trabalhadas, como Christian dizer a todo momento que nunca dormiu com alguém depois de uma transa para, claro, com sua nova “vítima” (é mais adequado chamá-la assim), dormir ao seu lado em um sono profundo. Ou então afirmar veemente que não faz programas de casais como jantar ou ir ao cinema para, cenas depois, lá estar ele já se voluntariando para marcar um encontro desse tipo. Oh, o homem que fazia sexo só por consumismo agora teve o seu coração flechado a ponto de abandonar seus velhos hábitos!
Com o acúmulo de gigantes fragilidades em sua construção (a mãe inútil vivida inexplicavelmente por Marcia Gay Harden nada acrescenta), implausibilidade de situações e conflitos vindo de fiapos ao longo de pouco mais de duas horas de duração, Cinquenta Tons de Cinza é arrastado e interminável. O próprio sexo, que deveria ser o afrodisíaco ou o ponto alto da crítica e da mexida na ferida (dependendo do bom senso de quem vê), tampouco consegue ser excitante ou incômodo. O machismo do filme ainda se reflete na própria nudez vista no filme: enquanto Dakota Johnson surge com os seios à mostra a todo momento e eventualmente com quase nu frontal, Jamie Dornan contracena com a atriz apenas descamisado de calça jeans em praticamente todas as cenas, ressaltando o forte problema que o cinema estadunidense ainda tem com a nudez masculina. Mulher é um objeto que pode estar nu sem qualquer pudor. Já o homem se excita com suas práticas masoquistas vestindo calça jeans, tirando-a apenas para formalizar a cena do ato da penetração em si.
Os atores não têm muito o que fazer com o roteiro mal escrito. Enquanto Dakota Johnson é esforçada mas ineficiente (suas tentativas de ser sexy mordendo o lábio são puro humor involuntário), Jamie Dornan não tem nada o que fazer além de ostentar sua inegável beleza, pois seu Christian Grey tem sempre o mesmo tom de voz e é um personagem que não cansa de surpreender negativamente com atitudes capazes de indignar qualquer pessoa sã. Como, em pleno século XXI, um público adulto pode se comover e vibrar com uma relação onde o homem decide como a mulher deve transar, o que ela come, com quem ela fala, com que frequência ela bebe ou com quem ela pode transar além dele… Isso me parece um grande mistério. Antes Cinquenta Tons de Cinza levantasse questionamentos ou discussões a partir dessas situações, mas é tudo muito claro: a mulher é uma submissa, como o filme literalmente profere e romantiza. Se, em uma produção de duas horas, isso já assusta e entedia, é ainda mais preocupante saber que existem outros dois filmes mais adiante. Sucesso e comoção mundial para uma história como essa? Parem tudo porque quero descer. Tenho medo do futuro da humanidade.