Cinema e Argumento

Whiplash: Em Busca da Perfeição

But I tried. I actually fucking tried. And that’s more than most people ever do.

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Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Damien Chazelle

Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist, Austin Stowell, Nate Lang, Chris Mulkey, Damon Gupton, Charlie Ian, Jayson Blair, C.J. Vana, Suanne Spoke, Max Kasch, Kavita Patil

Whiplash, EUA, 2014, Drama, 107 minutos

Sinopse: O solitário Andrew (Miles Teller) é um jovem baterista que sonha em ser o melhor de sua geração e marcar seu nome na música americana como fez Buddy Rich, seu maior ídolo na bateria. Após chamar a atenção do reverenciado e impiedoso mestre do jazz Terence Fletcher (JK Simmons), Andrew entra para a orquestra principal do conservatório de Shaffer, a melhor escola de música dos Estados Unidos. Entretanto, a convivência com o abusivo maestro fará Andrew transformar seu sonho em obsessão, fazendo de tudo para chegar a um novo nível como músico, mesmo que isso coloque em risco seus relacionamentos com sua namorada e sua saúde física e mental. (Adoro Cinema)

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Logo quando o Brasil passou o vexame de ser derrotado pela Alemanha na semifinal da Copa do Mundo que sediava em 2014, era fácil encontrar análises atestando que a Alemanha demonstrou infinita superioridade por ser um time que prioriza o trabalho em equipe e, acima de tudo, a disciplina. Se Terence Fletcher (J.K. Simmons), o professor de jazz de Whiplash: Em Busca da Perfeição, existisse de verdade, certamente defenderia tal teoria, pois, para ele, de nada adianta o talento se não existe a extrema dedicação e um rígido direcionamento. Claro que, no filme comandado pelo estreante em longas Damien Chazelle, Fletcher chega realmente a extremos para tirar o máximo de perfeição musical de seus alunos, mas a mensagem é a mesma e Whiplash, ao buscar a potencialização dessa lógica por meio do cinema, cria uma experiência com níveis crescentes de angústia que culminam em um dos clímax mais hipnotizantes dos últimos anos.

A busca pela perfeição já havia sido mostrada com grande inovação anos atrás em Cisne Negro e é fácil encontrar semelhanças temáticas entre Whiplash e o filme estrelado por Natalie Portman, mas, apesar da aproximação, são produções bastante distintas porque tratam de artes diferentes (um é sobre dança, o outro sobre música) e porque o longa de Chazelle consolida muito mais a relação aluno/professor como pilar de sua história. O diretor, também autor do roteiro, é certeiro ao desenvolver quase todo o filme em cenas com as duras aulas do personagem de J.K. Simmons e ao transmitir toda a força destes momentos não só para o texto mas também para a técnica: percebam como a todo o momento a câmera está extremamente próxima aos rostos do personagens, além de capturar, com planos bastante fechados, toda a intimidação que o mestre passa quando fala incessantemente ao pé do ouvido do aprendiz Andrew (Miles Teller) na hora de um ensaio. Mas não se engane: para além da disciplina advinda da rigidez deste ambiente, os alunos também têm admiração e respeito bastante compreensíveis por aquela figura.

É óbvio que o desempenho visceral de J.K. Simmons (no auge de sua carreira prolífera mas até então fadada a papeis coadjuvantes corriqueiros) é peça fundamental para que Whiplash consiga fazer qualquer espectador se sentir um dos alunos, compartilhando da tensão criada pela disciplina quase militar dos ensaios. Só que a ótima atuação de Simmons é um belo complemento para o exemplar trabalho de direção de Chazelle que, ao gravitar constantemente em torno do professor na regência dos ensaios, compreende por completo o poder de uma câmera bem posicionada para fisgar o espectador sem uma palavra sequer. Exemplo disso é a cena envolvendo o primeiro ensaio quando nós, espectadores, ansiosos pelo suspense envolvendo a mitificação do professor, precisamos aguardar breves segundos para acabar com nossa angústia quando Chazelle se desloca da visão dos músicos para, em um mesmo movimento, se posicionar na mão do professor que finalmente dará o sinal para que o ensaio comece. É um silêncio de breves – mas cortantes – segundos.

Se por um momento Whiplash parece tratar o personagem de Simmons como uma figura unidimensional, aos poucos o roteiro nos apresenta justificativas e passagens de humanização dele, tudo sem qualquer pieguice. Questões importantes como o fato de Terence realmente ter um comportamento abusivo para um ambiente acadêmico também não são deixadas de lado. Por outro lado surgem conflitos pouco criativos para um roteiro tão cuidadoso, como a conveniente sucessão de problemas responsável por fazer o protagonista se atrasar para um importante compromisso. Sorte que tudo é compensado por um diretor ciente do que está fazendo atrás das câmeras. Chazelle, ainda certeiro na aposta de Miles Teller como protagonista (o jovem nunca pareceu promissor e não tem um rosto marcante, mas dá conta total do recado), prova de uma vez por todas o seu talento na sequência final que, fora a envolvente sintonia com o poder da música por si só, é uma aula de como orquestrar todas as ferramentas do cinema com puro brilhantismo, da excepcional montagem à excelente fotografia. É a técnica fazendo algo empolgante como há anos não víamos em uma sequência final. E também o próprio roteiro, resolvendo questões decisivas da trama sem uma palavra sequer – e sem precisar delas. Como o próprio filme sugere com a chegada dos créditos finais, as palmas ficam por nossa conta.

Rapidamente

Philip Seymour Hoffman vive um homem comum atormentado por compulsões sexuais em uma das várias histórias do excelente Felicidade

Philip Seymour Hoffman vive um homem comum atormentado por compulsões sexuais em uma das várias histórias do excelente Felicidade

FELICIDADE (Happiness, 1998, de Todd Solondz): O título vende uma ideia diferente e Felicidade pode realmente ter um humor bastante específico e discreto, mas a verdade é que este longa de Todd Solondz é repleto de agruras, mostrando seres humanos problemáticos, infelizes e passando por extremos. Do psicólogo que tenta controlar a sua natureza pedófila (Dylan Baker, em um de seus melhores momentos) ao homem comum viciado em sexo mas que não consegue consumar relação com mulher alguma (Philip Seymour Hoffman), o roteiro, escrito pelo próprio Solondz e indicado ao Globo de Ouro, só não se torna depressivo porque tem esse humor crítico e ácido que, de certa forma, amortece as tantas tragédias pessoais contadas ao longo da história. Durante pouco mais de duas horas (que se desenrolam com um belo ritmo), Felicidade fala sobre questões bastante delicadas sem descambar para estereótipos ou muito menos para superficialidades. Tudo está na medida nesta experiência que se torna ainda mais eficiente com o ótimo elenco. Não é um filme necessariamente acessível por ter humor mas tampouco restrito como suas tramas cruas sugerem. Na realidade, é altamente recomendável, justamente, por achar um brilhante meio termo entre essas duas propostas.

LOCKE (idem, 2014, de Steven Knight): Volta e meia surgem filmes como esse, passados quase em tempo real em um único cenário. Um dos que mais me marcou foi o angustiante Enterrado Vivo e que, possivelmente, deve ter sido o mais recente neste formato que conferi. Retorno à proposta agora com este Locke, estrelado por Tom Hardy (em um de seus desempenhos mais relevantes), que coloca o ator durante pouco mais de 90 minutos em um carro pelas estradas da Inglaterra. Enquanto dirige, Ivan, o personagem vivido por Hardy, resolve várias questões que cotidianas pendentes enquanto se dirige a uma cidade para um compromisso inadiável. Dois aspectos particulares me incomodaram. Primeiro: percebam como o protagonista, apesar de um erro específico (e que move toda a trama), é o marido do ano, sujeito íntegro e ser humano admirável. Julgando pelo que acontece desenrolar da história, ele é perfeito. Segundo: não vejo como alguém consegue administrar milhares de problemas enlouquecedores ao mesmo tempo em que dirige sem tirar os olhos do retrovisor ou seque encostar o carro para pensar. É um bobo detalhe que me tirou um pouco do filme. Sem falar que todos os conflitos mostrados em Locke só se tornam mais extraordinários porque são resolvidos por telefone dentro de um carro. Se esquecermos a circunstância e analisarmos friamente os conflitos discutidos, o longa de Steven Knight pode ser até bem convencional.

OPERAÇÃO BIG HERO (Big Hero 6, de Don Hall e Chris Williams): Demora demais a engrenar esta nova animação da Disney que, caso não fosse tão prolixa em sua primeira metade e conseguisse ir direto ao ponto da aventura, seria realmente uma grande diversão. Só que Operação Big Hero se prolonga demais ao tentar criar um fundo dramático para o jovem Hiro (voz de Ryan Potter), confundindo um pouco o espectador sobre qual a verdadeira proposta em desenvolvimento. Mesmo terminado o filme é um tanto difícil explicar Operação Big Hero, o que não é muito estimulante. De qualquer forma, apesar também de alguns furos no roteiro, o filme comandado pela dupla Don Hall e Chris Williams tem seus momentos com uma aventura que chega a ser empolgante nos seus ápices. A história ainda tem um personagem já destinado a ser inesquecível entre as animação contemporâneas: o carismático robô Baymax (voz de Scott Adsit). Difícil dizer que algumas reviravoltas são particularmente interessantes ou críveis (a revelação da identidade do vilão não me fisgou) e que o filme tem um roteiro bem resolvido, mas os pequenos não devem se importar muito com isso – o que, dependendo do ponto de vista, pode ser um elogio ou uma grande crítica.

O ÚLTIMO CONCERTO (A Late Quartet, 2012, de Yaron Zilberman): Dá para notar a inexperiência do israelense Yaron Zilberman na direção de dramas com esse O Último Concerto (anteriormente, ele só havia comandado um documentário chamado Watermarks, em 2004). Tudo é muito frágil na história roteirizada pelo próprio Zilberman em parceria com Seth Grossman, uma vez que tudo é facilmente previsível, e vários conflitos desaparecem com a mesma rapidez com que surgem. No entanto, o que mais incomoda em O Último Concerto é como o personagem de Christopher Walken – o músico que descobre ter Mal de Parkinson e resolve realizar uma última apresentação para se despedir de seu grupo – se torna quase um figurante em um filme muito mais preocupado em mostrar a vida individual de cada um dos membros do quarteto do que de fato trabalhar a suposta grande amizade de 25 anos que existe entre eles. Por isso, logo ao final, quando o tal último concerto se aproxima, não existe muita emoção, pois mal nos lembrávamos da existência de Christopher Walken. O Último Concerto não um momento sequer que represente, de forma bonita e carinhosa, a supostamente forte relação dos amigos. Assim, é quase um desperdício ver nomes como Walken, Philip Seymour Hoffman e Catherine Keener em uma trama sobre dramas familiares e matrimoniais que em momento algum escapam da obviedade.

Os indicados ao BAFTA 2015

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Se analisarmos com bastante atenção, a lista do BAFTA, apesar de não ter grandes surpresas, está cheia de sinais. De cara, já dá para perceber que A Teoria de Tudo é o filme destinado a ser odiado nessa temporada de premiações: ele representa o tipo de longa clássico que as premiações adoram premiar. A exemplo do que aconteceu no ano de O Discurso do Rei, é bem provável que, em 2015, voltemos a ver filmes de propostas diferentes e originais (BoyhoodBirdmanO Grande Hotel Budapeste) serem deixados de lado em detrimento de uma obra mais acadêmica. Ora, se chatear com isso não é errado, afinal, seria revigorante ver filmes inovadores em estética ou narrativo sendo premiados. Mas tampouco é certo se chatear com tal fato, pois, nessa altura do campeonato, já deveríamos saber que é exatamente isso que as premiações adoram – e que a temporada de prêmios nada mais é do que sobre quem se vende melhor para todos os públicos.

Retomo essa discussão porque, mesmo com O Grande Hotel Budapeste liderando a lista com 11 indicações, A Teoria de Tudo é claramente o queridinho dos britânicos (certamente ganha a categoria de filme britânico ou até mesmo a principal). Enquanto na temporada de O Discurso do Rei só se falava em A Rede Social até o filme de David Fincher começar a perder força a partir do BAFTA (que não poupou estatuetas para o longa de Tom Hooper), não se surpreenda se, agora, Boyhood for A Rede Social de 2015 e A Teoria de Tudo for O Discurso do Rei. Esse é o primeiro sinal claro de muitos que o BAFTA deu nessa lista divulgada hoje pela manhã. Não vale, porém, levar muito em consideração a esnobada de Meryl Streep como coadjuvante por Caminhos da Floresta, uma vez que ela aconteceu apenas para cumprir a cota de bairrismo com Imelda Staunton em Pride.

No que vale ficar de olho: Jennifer Aniston fora de competição Há dois anos consecutivos o Oscar ignora uma atuação amplamente indicada por outros prêmios – Helen Mirren por Hitchcock, Emma Thompson por Walt nos Bastidores de Mary Poppins – e Aniston não é uma atriz de grande nome para ser dada como certa, sem falar que é mais fácil indicar Amy Adams. Depois, a lembrança de Damien Chazelle em melhor direção por Whiplash (o Oscar adora novatos, vide o ano de Indomável Sonhadora), o posicionamento de Steve Carell como coadjuvante (o que é justo, e, em 2009, o BAFTA foi o único que colocou Kate Winslet como protagonista por O Leitor) e o fato de que, sim, O Grande Hotel Budapeste tem tudo para ser levado a sério nas categorias principais. A cerimônia de premiação do BAFTA acontece no dia 8 de fevereiro. Abaixo, a lista completa de indicados.

MELHOR FILME
Birdman
Boyhood: Da Infância à Juventude
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
A Teoria de Tudo

MELHOR DIREÇÃO
Alejandro González-Iñárritu (Birdman)
Damien Chazelle (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
James Marsh (A Teoria de Tudo)
Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)

MELHOR ATOR
Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação)
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
Jake Gyllenhaal (O Abutre)
Michael Keaton (Birdman)
Ralph Fiennes (O Grande Hotel Budapeste)

MELHOR ATRIZ
Amy Adams (Grandes Olhos)
Felicity Jones (A Teoria de Tudo)
Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Reese Witherspoon (Livre)
Rosamund Pike (Garota Exemplar)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Edward Norton (Birdman)
Ethan Hawke (Boyhood: Da Infância à Juventude)
J.K. Simmons (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
Mark Ruffalo (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)
Steve Carell (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Emma Stone (Birdman)
Imelda Staunton (Pride)
Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Rene Russo (O Abutre)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
O Abutre
Birdman
Boyhood: Da Infância à Juventude
O Grande Hotel Budapeste
Whiplash – Em Busca da Perfeição

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
As Aventuras de Paddington
Garota Exemplar
O Jogo da Imitação
Sniper Americano
A Teoria de Tudo

MELHOR FILME BRITÂNICO
71
As Aventuras de Paddington
O Jogo da Imitação
Pride
Sob a Pele
A Teoria de Tudo

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Dois Dias, Uma Noite (Bélgica)
Ida (Polônia)
Leviatã (Rússia)
The Lunchbox (Índia)
Trash (Reino Unido)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
20.000 Dias na Terra
Citizenfour
A Fotografia Oculta de Vivian Maier
A Um Passo do Estrelato
Virunga

MELHOR ANIMAÇÃO
Uma Aventura Lego
Os Boxtrolls
Operação Big Hero

MELHOR TRILHA SONORA
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
Interestelar
Sob a Pele
A Teoria de Tudo

MELHOR FOTOGRAFIA
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
Ida
Interestelar
Sr. Turner

MELHOR EDIÇÃO*
O Abutre
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
A Teoria de Tudo
Whiplash – Em Busca da Perfeição
*Devido a empate, a categoria contempla seis indicados

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
O Grande Hotel Budapeste
Grandes Olhos
Interestelar
O Jogo da Imitação
Sr. Turner

MELHOR FIGURINO
Caminhos da Floresta
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Sr. Turner
A Teoria de Tudo

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Caminhos da Floresta
O Grande Hotel Budapeste
Guardiões da Galáxia
Sr. Turner
A Teoria de Tudo

MELHOR SOM
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Sniper Americano
Whiplash – Em Busca da Perfeição

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Guardiões da Galáxia
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
Interestelar
Planeta dos Macacos: O Confronto
X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

Rapidamente

Praia do Futuro é um dos filmes mais difíceis do ano, mas também um dos mais recompensadores para quem conseguir embarcar na proposta do diretor Karim Aïnouz

Praia do Futuro é um dos filmes mais difíceis do ano, mas também um dos mais recompensadores para quem embarca na proposta do diretor Karim Aïnouz

A 100 PASSOS DE UM SONHO (The Hundred-Foot Journey, de Lasse Hallström): O sueco Lasse Hallström, ao contrário do que as premiações já celebraram, nunca foi um grande diretor, mas é verdade que ele tem capacidade de fazer coisas muito melhores do que esse A 100 Passos de Um Sonho. Ok, o filme estrelado por Helen Mirren (indicada ao Globo de Ouro 2015 de atriz comédia/musical por seu trabalho aqui só para completar a fraca lista) é leve e inofensivo, só que não custava o roteiro ser pelo menos um pouquinho mais original. Previsível do início ao fim, o longa de Hallström cai no velho clichê da família indiana que muda de país sem nada na bagagem além de sonhos, boas intenções e um filho primogênito cheio de talento para culinária. Na França, eles se instalam frente ao restaurante de uma mulher rica que, após a morte do marido, controla os negócios com mãos de ferro e, claro, não deseja que ninguém ameace o seu negócio. Só que a família indiana, claro, vai movimentar as águas do local e, principalmente, a vida da tal senhora. O ritmo por si só já é arrastado e o fato de A 100 Passos de Um Sonho seguir todos os passos da cartilha de um filme com essa premissa não ajuda. Hallström não chega a abusar da paciência do espectador com grandes melodramas ou forçações de barra como em outros filmes que já realizou, mas bem que poderia, pelo menos, mostrar que ainda tem um pouquinho das habilidades que anos atrás lhe trouxeram tanto prestígio. Isto porque o Hallström de Regras da VidaChegadas e PartidasChocolate pode até ser subestimado, mas é, sem dúvida, melhor do que esse nada inspirado de Querido JohnAmor Impossível e, agora, A 100 Passos de Um Sonho.

PRAIA DO FUTURO (idem, de Karim Aïnouz): Só mesmo a desinformação – aliada ao conservadorismo – fez com que pessoas assistissem a Praia do Futuro e pedissem o ingresso de volta em função das cenas de sexo gay. Até porque basta investigar um pouco a filmografia de Karim Aïnouz para deduzir que este seu novo filme tinha grandes chances de não ser uma experiência fácil ou comercial. E de fato não é. Para muito além das cenas de sexo envolvendo dois homens (que estão longe de ser o escândalo apontado por aí), Praia do Futuro é um filme bastante lento e complexo – mas também um dos mais recompensadores que o cinema brasileiro entregou em 2014. Wagner Moura está especialmente bem aqui, distanciando-se um pouco do cinema mais acessível que tem cercado suas últimas escolhas. Ele enfrenta um dos personagens mais desafiadores de sua recente carreira, e, como o grande ator que é, não desaponta. O filme em si é estruturado em três capítulos, todos separados por avanços no tempo. Isso não quer dizer, porém, que Praia do Futuro seja um filme sobre grandes acontecimentos ou mudanças que se intercalam em cada um deles. Pelo contrário. Todas as transformações dos personagens acontecem de forma sutil e silenciosa – o que faz com que o resultado seja para um público bem específico. Entretanto, mesmo entre quem supostamente gostaria, Praia do Futuro não foi muito bem sucedido. Ao mesmo tempo em que a reação seja de certa forma compreensível, também era de se esperar maior boa vontade com o filme, que tem diversos méritos inegáveis (a cena final é um deles, permanecendo com o espectador durante um bom tempo).

YVES SAINT-LAURENT (idem, de Jalil Lespert): Antes de Saint-Laurent estrear na competição de Cannes trazendo os galãs Gaspard Ulliel e Louis Garrel no elenco, o mundo já havia conferido – também em 2014 – outra cinebiografia do famoso estilista francês. Yves-Saint Laurent chegou ao Brasil, por exemplo, bem antes, ainda que seja uma produção idealizada após as tratativas do filme com Ulliel e Garrel. Certamente fizeram uma corrida para ver quem chegaria aos cinemas primeiro e se este longa dirigido por Lespert achou que apressar o calendário para estrear antes era sinônimo de sucesso, o tiro saiu pela culatra. Isto porque Yves Saint Laurent passou timidamente pelos cinemas e foi definido apenas como uma biografia convencional e pouco ousada. De fato, o filme protagonizado por um satisfatório Pierre Niney acerta no diálogo entre elegância e simplicidade de visual, mas não é nada consistente na parte em que precisa desenvolver a vida conturbada de Laurent. Se a transição de um menino talentoso mas jovem demais e inseguro para um verdadeiro ícone da moda funciona, sua vida após não chega a ser bem desenvolvida em termos dramáticas. A tardia libertação pessoal e sexual de um homem que assumiu responsabilidades muito cedo não ganha a devida profundidade dramática – e, neste sentido, a breve duração de 105 minutos é um problema pois deixa a sensação de que Yves Saint-Laurent poderia se estender mais um pouco para dar detalhes que fazem muita falta. Não chega a ser animador ter que ver outra biografia de Laurent futuramente (a versão protagonizada por Ulliel já passou rapidamente por aqui recentemente), mas, dada a incompletude do filme de Lespert em seu terço final, talvez seja uma chance de entender melhor a vida do icônico estilista.

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

It’s the things we love most that destroy us.

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Direção: Francis Lawrence

Roteiro: Danny Strong e Peter Craig, com adaptação de Suzanne Collins, baseado no livro “Mockingjay”, de Suzanne Collins

Elenco: Jennifer Lawrence, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Liam Hemsworth, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Josh Hutcherson, Jeffrey Wright, Stanley Tucci, Woody Harrelson, Willow Shields

The Hunger Games: Mockingjay – Part 1, EUA, 2014, Aventura, 123 minutos

Sinopse: Após ser resgatada do Massacre Quaternário pela resistência ao governo tirânico do presidente Snow (Donald Sutherland), Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) está abalada. Temerosa e sem confiança, ela agora vive no Distrito 13 ao lado da mãe (Paula Malcomson) e da irmã, Prim (Willow Shields). A presidente Alma Coin (Julianne Moore) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) querem que Katniss assuma o papel do tordo, o símbolo que a resistência precisa para mobilizar a população. Após uma certa relutância, Katniss aceita a proposta desde que a resistência se comprometa a resgatar Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e os demais Vitoriosos, mantidos prisioneiros pela Capital. (Adoro Cinema)

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O salto de qualidade que Jogos Vorazes: Em Chamas deu em relação ao primeiro filme foi fundamental para que eu finalmente conseguisse embarcar na história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence). Se do primeiro filme para o segundo as minhas expectativas eram baixíssimas, o oposto aconteceu entre Em ChamasA Esperança – Parte 1, mesmo sabendo que este novo filme dirigido por Francis Lawrence poderia ser prejudicado pela nova moda de dividir últimos capítulos de franquias. Quem, assim como eu, se entusiasmou com o longa anterior, é bom conferir a primeira parte de A Esperança com as expectativas moderadas, já que o tom da saga muda completamente aqui e o resultado passa a trazer um novo tipo de abordagem para o universo da jovem Katniss.

Para começo de conversa, já fica dado o aviso: Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 sequer se passa dentro das arenas que tanto traziam tensão nos filmes anteriores (no meu caso, só no segundo capítulo). Todos os conflitos agora estão do lado de fora, onde a protagonista passa a ser a líder da revolução de seu distrito contra a repressora capital comandada pelo presidente Snow (Donald Sutherland). Mesmo com a mudança, a série continua mantendo a boa média impulsionada por Em Chamas, mas aqui  de forma bastante diferente, com um tom mais sóbrio em termos de ação e mais intenso em conflitos políticos e sociais. Desta forma, A Esperança – Parte 1 reduz a marcha para contextualizar uma guerra, um confronto de ideais. Ao mesmo tempo que ganha muitos pontos dramaticamente com tal escolha, também pode frustrar quem espera uma história tão movimentada quanto a dos outros filmes.

A divisão do capítulo final ajuda a trazer a sensação de um tom mais pausado, até porque o longa, às vezes, parece se repetir, reforçando os tradicionais problemas de uma obra de transição como essa. Ainda assim, impressiona como Jogos Vorazes mantem sua reputação e qualidade mesmo com uma passagem menos movimentada e que se encontra em uma verdadeira enxurrada de adaptações de best sellers infanto-juvenis. A febre começou com Vorazes e muitos filmes foram produzidos desde então, mas, com A Esperança – Parte 1, fica a certeza de que nenhum chegou ao nível de seriedade e respeito que essa franquia em questão conquistou. Inclusive porque não é qualquer saga que traz Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman e Julianne Moore em papeis coadjuvantes bem aproveitados e com funções importantes na história.

O clima que se instala no segundo filme de Jogos Vorazes dirigido por Francis Lawrence é muito parecido com o que tomou conta dos últimos capítulos de Harry Potter no sentido de trazer um mundo cada vez mais confuso, perigoso e difícil para seus protagonistas. É certo que a guerra travada entre os distritos contra a capital aqui está mais na teoria do que na guerra propriamente dita (o que deve ficar para o próximo longa). Só que é fácil perceber grandes méritos como a  bem sucedida questão da construção de uma líder, a reinvenção de algumas figuras (Elizabeth Banks, agora controlada e abandonando o papel de boba da corte) e o sólido desenvolvimento dos personagens diante da nova situação quase desesperançosa.

A protagonista Jennifer Lawrence segue conduzindo muito bem a trama, especialmente aqui, quando a história lhe exige mais em termos dramáticos do que físicos. Ela tem total segurança frente a monstros da atuação como Moore e Hoffman – este segundo um pouco menos aproveitado agora, mas uma figura sempre envolvente (e a quem o filme é dedicado logo quando a tela escurece para os créditos finais). O problema no elenco ainda se concentra em Josh Hutcherson, que, no capítulo anterior, já era reduzido ao coadjuvante indefeso que só se machucava e atrasava a jornada dos outros. Seu personagem neste capítulo é a chave para desencadear diversas situações – especialmente no final -, mas ator e personagem continuam subutilizados proporcionalmente falando (são duas horas de duração onde Hutcherson deve aparecer apenas três ou quatro vezes).

Ademais, toda e qualquer falha que possa existir no filme de Francis Lawrence (que, lembremos, demonstra exímia segurança ao transitar da aventura para o drama sem cambalear nos tons empregados) deve ser perdoada, pois vem unica e exclusivamente da decisão comercial de dividir a parte final em dois capítulos. Se tudo der certo, o segundo capítulo deve concluir com chave de ouro o pensamento deste que, sim, funciona isoladamente, mas de forma menos eficiente. Resta saber, no entanto, o quanto de A Esperança – Parte 1 vai ficar na memória até a estreia da conclusão, que está programada para chegar aos cinemas apenas em novembro de 2015.