O Oscar é de Eddie Redmayne

Estrela em ascensão, prêmio de moda na GQ, ensaio na Vanity Fair e na Elle, entrevistado de vários programas de audiência e – o principal, claro – um papel infalível para conquistar prêmios. É possível alguém bater a campanha e todos os fatores a favor de Eddie Redmayne na corrida ao Oscar?
Lá no início de dezembro de 2014, escrevi um post sobre como Julianne Moore já podia, antes mesmo do início da temporada de premiações, ser considerada a franca favorita ao Oscar de melhor atriz. A teoria deve mesmo se concretizar, já que Moore conquistou todos os grandes prêmios até agora como o Cricits’ Choice, o Globo de Ouro e o Screen Actos Guild Awards. Ninguém está em seu caminho. E, ao que tudo indica, o mesmo está acontecendo com o jovem Eddie Redmayne. Sua interpretação em A Teoria de Tudo, assim como a de Moore em Para Sempre Alice, também já era comentada antes dos prêmios começarem, mas de forma muito mais tímida em função de Redmayne ser um ator relativamente desconhecido. Com uma significativa vitória no SAG recentemente, derrotando o até então franco favorito à estatueta Michael Keaton, o jovem britânico agora já é quase uma aposta certa para o Oscar – e por razões que vão muito além da mera matemática.
Não escondo meu apreço pelo desempenho de Redmayne em A Teoria de Tudo e por ele próprio, mas, de qualquer forma, excetuando minha simpatia pelo ator, os fatos estão a favor dele. Tudo começa já com o papel infalível: o de um garoto brilhante que descobre ter uma doença degenerativa incurável responsável por atrofiar todo o seu corpo enquanto a mente permanece intacta. De bônus, a trama é baseada em uma famosa figura mundial (o físico Stephen Hawking). Junte a deficiência, a biografia e uma boa interpretação e o resultado é muito claro: você tem a fórmula perfeita para qualquer ator vencer o Oscar. O que poderia trabalhar contra Redmayne é o fato de ele ser “novato”, mas basta olhar a carreira do ator e sua idade para ver que não é de hoje que ele passa pelos nossos olhos. Sem falar que já tem outros projetos de ouro para o futuro (The Danish Girl, conforme mencionei no meu texto de A Teoria de Tudo). Ou seja, estrela em ascensão. E isso é irresistível. Jennifer Lawrence deve concordar.
O mais importante de tudo, no entanto, e talvez o que menos é levado em consideração pela maioria na hora de analisar o cenário de possibilidades, é a chamada “campanha”. Pode parecer tolo, mas o fato de Redmayne estampar a capa da Elle britânica, ser eleito o homem mais bem vestido do ano pela GQ (e estar na capa de várias versões internacionais da revista), ter um ensaio na tradicional Hollywood Issue da Vanity Fair (ao lado de Benedict Cumberbatch, onde ambos são saudados como as estrelas das maiores biografias da temporada) e comparecer a vários programas de entrevista como o popular talkshow de Ellen DeGeneres para divulgar o filme é simplesmente fundamental para que ele dispare na corrida. Quem não é visto não é lembrado. E, dos atores indicados ao Oscar este ano, ele é o que mais está aproveitando o momento. Mesmo não sendo o tipo galã ou muito menos que aparentemente pode interpretar todos os tipos de papeis devido a idade (tem 33 anos, mas parece um adolescente), é bem provável que um nome promissor esteja nascendo. Um nome para se acompanhar de perto.
O ator mais jovem a ganhar o Oscar de protagonista foi Adrien Brody, aos 29 anos, em 2002 com O Pianista. Se Brody, na época, foi uma alternativa lógica para a batalha de gigantes entre Daniel Day-Lewis por Gangues de Nova York e Jack Nicholson por As Confissões de Schmidt, não parece existir uma situação parecida este ano. Após a vitória no SAG, fica claro o prestígio do protagonista de A Teoria de Tudo com os seus colegas de profissão (nos últimos 10 anos, os vencedores deste prêmio de melhor ator se repetiram no Oscar e é complicado esse colegiado, que vota em peso no prêmio da Academia, mudar de ideia). Em termos de concorrência, Michael Keaton parece repetir bastante da situação de Mickey Rourke com O Lutador. Mesmo não tendo uma carreira decadente como Rourke, a Academia não deve nada a Keaton: ele nunca foi grande ator e, mesmo que esteja fantástico em Birdman, um desempenho não fala por si só, como já apontou Meryl Streep em várias ocasiões (ela foi outra que só foi ganhar um novo Oscar fazendo forte campanha). A celebração de Keaton parou no Globo de Ouro (antes ele tinha vencido vários prêmios em associações de críticos – o que nada significa, já que os votantes dos grandes prêmios são outros), e não dá sinais de se reavivar: é óbvio que o BAFTA também celebrará Redmayne no próximo domingo (08).
Recentemente, passou a se falar muito em uma possível vitória-surpresa de Bradley Cooper, mas como um ator venceria o Oscar sendo que a sua única indicação a qualquer prêmio na temporada foi… ao Oscar?! Isso já aconteceu com Marcia Gay Harden, em 2001, com Pollock, mas a situação era um tanto diferente pois aquela era uma fraude de categoria – e uma interpretação protagonista colocada em coadjuvante é sempre uma jogada esperta (Jennifer Connelly manda lembranças). E uma pergunta final: qual foi a última grande surpresa que vimos nas categorias de interpretação nos últimos anos? O Oscar não contraria mais a matemática (escrevi um pouco sobre isso tempos atrás para o blog Uma Dose de Cinema). Levando em consideração todos estes fatores, bem como os elencados para Julianne Moore, o Cinema e Argumento não tem maiores dúvidas: o Oscar já é de Eddie Redmayne.
Rapidamente

Jake Gyllenhaal pode até não ter conseguido uma indicação ao Oscar 2015 de melhor ator por O Abutre, mas, com esse filme, ele novamente reafirma a excelente fase que vive em uma carreira agora repleta de boas escolhas.
O ABUTRE (Nightcrawler, 2014, de Dan Gilroy): Jake Gyllenhaal não conseguiu uma indicação ao Oscar 2015 por sua interpretação em O Abutre, mas quem perde mesmo é a Academia por não ter reconhecido este que é, provavelmente, o melhor momento da carreira do ator. Cada vez mais envolvido com projetos diferentes e autorais, Gyllenhaal tem se aperfeiçoado e, neste filme de Dan Gilroy (sim, o irmão do já conhecido Tony, diretor de Conduta de Risco), dá até para dizer que ele é o responsável por trazer à trama um mistério e uma força que o conjunto todo não tem. Se O Abutre é um longa bem conduzido em termos técnicos e de direção – em especial nas cenas em que o protagonista filma acidentes ou assassinatos para vender a um programa televisivo – o mesmo entusiasmo não é compartilhado pelo roteiro, que justamente perde tempo demais na caçada de Lou Bloom (Gylenhaal) a fatos extraordinários para ganhar dinheiro do que em seus visíveis e por vezes amedrontadores problemas mentais. Por isso, quando O Abutre se concentra na dinâmica de Bloom com os personagens coadjuvantes que percebem seus distúrbios (destaque para o jantar com Rene Russo), o filme ganha uma complexidade que, caso fosse o foco da história, tornaria O Abutre uma experiência mais intrigante.
O AMOR É ESTRANHO (Love is Strange, 2014, de Ira Sachs): É bem diferente do que pode parecer este filme que traz Alfred Molina e John Lithgow como dois homens que mantém um relacionamento de décadas e finalmente podem/decidem oficializar a relação legalmente. Diferente porque O Amor é Estranho não é sobre dois homens já beirando os 70 anos que compartilham uma vida juntos, mas sim sobre as dificuldades financeiras deles e como ela faz com que ambos percam o apartamento e tenham que ficar separados durante algum tempo morando de favor na casa de amigos e parentes. Ou seja, decepciona como o filme de Ira Sachs não se dá conta de que os melhores momentos da história que escreveu em parceria com Mauricio Zacharias são justamente aqueles em que Molina e Lithgow – ambos levando os papeis com bastante dignidade e humanidade – estão juntos em cena. Só que O Amor é Estranho insiste em narrar suas vidas separadamente e em nada a trama parece preocupada em abordar a distância como fator dramático para o recém firmado casamento. Do jeito que ficou, o filme é apenas sobre dois homens interferindo o dia a dia dos outros, observando o cotidiano corriqueiro dessas pessoas e eventualmente se tornando empecilhos para elas. Uma chance desperdiçada.
O JUIZ (The Judge, 2014, de David Dobkin): Considerando os filmes lançados em circuito comercial no Brasil em 2014, O Juiz é a experiência mais aborrecida do ano ao lado de A 100 Passos de Um Sonho. A construção dos personagens já seria suficiente para justificar toda a previsibilidade do filme, mas o diretor David Dobkin dá razões de sobra para que o resultado transborde obviedades em todos os setores. Robert Downey Jr. interpretando o seu papel habitual de homem ácido e sarcástico é o menor dos problemas em uma história repleta de escolhas fáceis. Não existe nada de novo no retorno do filho que há anos não fala com o pai mas se vê obrigado a conviver com ele após uma tragédia pessoal. Também não instiga o velho arco dramático do senhor rabugento e irredutível que, óbvio, em algum momento vai se humanizar com uma doença terminal. Além do desperdício de bons nomes no elenco de suporte (Billy Bob Thornton, Vera Farmiga), O Juiz tem uma duração exagerada para uma história que se sustenta no julgamento de um crime perfeitamente corriqueiro e nada aberto a complexidades. São 140 minutos arrastados que fazem questão de sempre adicionar pitadas de clichês – e até mesmo de cafonices – em uma trama que por si só já pede desesperadamente por novidades.
Grandes Olhos
Eyes are the windows to the soul.

Direção: Tim Burton
Roteiro: Larry Karaszewski e Scott Alexander
Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Danny Houston, Terence Stamp, Jon Polito, Elisabetta Fantone, James Saito, Guido Furlani, Delaney Raye, Madeleine Arthur
Big Eyes, EUA/Canadá, 2014, Drama, 106 minutos
Sinopse: O drama apresenta a história real da pintora Margaret Keane (Amy Adams), uma das artistas mais comercialmente rentáveis dos anos 1950 graças aos seus retratos de crianças com olhos grandes e assustadores. Defensora das causas feministas, ela teve que lutar contra o próprio marido no tribunal, já que o também pintor Walter Keane (Christoph Waltz) afirmava ser o verdadeiro autor de suas obras. (Adoro Cinema)

Tim Burton precisava de um filme como Grandes Olhos. Após fracassar em qualidade com dois filmes consecutivos em live action (Alice no País das Maravilhas e Sombras da Noite), seria saudável ele abandonar um pouco as fantasias que tanto lhe marcaram e fincar os pés no chão. Às vezes tomar certa distância traz uma nova perspectiva, e Grandes Olhos pode até não ser um filme que vá repaginar a carreira de Burton ou muito menos que tenha um estilo que o diretor queira reproduzir futuramente, mas funciona como um bom exercício para alguém que necessitava urgentemente pensar fora de suas já conhecidas fronteiras. Tim Burton aceitou o desafio, dispensou Johnny Depp e Helena Bonham Carter (este é o seu primeiro filme desde Marte Ataca! em 1996 que não conta com nenhum dos dois atores no elenco) e resolveu fazer uma produção mais comedida em conceitos e tamanho, mostrando que, ao contrário do que anunciaram seus últimos filmes, ele ainda sabe contar histórias de forma satisfatória.
É curioso, contudo, como Grandes Olhos é de certa forma um diferencial para a carreira de Tim Burton mas não para os seus protagonistas Amy Adams e Christoph Waltz. Enquanto o diretor explora outros terrenos ao conduzir com agradável convencionalidade a história da pintora Magaret Keane e o seu casamento com o impostor Walter, Adams e Waltz fazem o mesmo de sempre, expondo os dois maiores problemas do filme: a errada escalação de elenco e a indiferente direção de atores. Livres em cena e sem maiores orientações, a dupla não traz nada de novo para seus respectivos repertórios, o que impede o espectador de realmente ver os personagens. Quem está em cena é a repetição de Amy Adams e Christoph Waltz. Enquanto ela segue com sua expressão chorona de voz mansa e seu papel de mulher ingênua facilmente enganável, ele, frequentemente descontrolado, prova que realmente não funciona com ninguém além de Quentin Tarantino. O tipo sarcástico com um eterno sorriso debochado no rosto criado pelo ator é o que existe de mais incômodo em Grandes Olhos.
Com uma boa fotografia de Bruno Delbonell e uma nova e interessante parceria com Danny Elfman na trilha sonora, Grandes Olhos é um filme linear conduzido sem maiores ousadias. O que torna a experiência agradável, por outro lado, é que essa previsibilidade do roteiro escrito pela dupla Larry Karaszewski e Scott Alexander não subestima a paciência do espectador. É um filme simples e ponto. E tem consciência disso. O que não permite que o filme de Tim Burton seja mais interessante, além da dupla protagonista em eterna repetição, é o fato da história se ater mais ao carisma (?) do marido pilantra que seduz a esposa a abandonar a autoria de seus quadros do que justamente às razões que fizeram Margaret comprar a proposta enganadora do marido. Ela era simplesmente tola? Para uma mulher divorciada nos anos 1950, não parecia ser. Mas infelizmente Grandes Olhos prefere ficar mais com a teatralidade cômica da interpretação de Christoph Waltz.
Em meio à convencionalidade, Tim Burton encontra espaço para aplicar controladamente algumas de suas referências sem que pareçam avulsas. O ponto alto é a ótima cena em que a protagonista vai ao supermercado e imagina todas as pessoas com os famosos grandes olhos que tanto pinta secretamente em suas telas. Assim, é correto dizer que este filme marca mais como uma oxigenação para a carreira até então em franca derrocada de Tim Burton do que propriamente como uma biografia linear e agradável. Em ambos os casos, entretanto, a interessante história de Margaret Keane é minada por seus atores. Bem como Adams e Waltz, volto a me repetir ao afirmar que Grandes Olhos, uma produção com basicamente tudo no lugar no que se refere a biografias convencionais mas satisfatórias, já ganharia uma roupagem completamente diferente com atores mais versáteis. Adams, que chegou a absurdamente vencer o Globo de Ouro 2015 de melhor atriz em comédia/musical quando concorria com uma impressionante Julianne Moore em Mapa Para as Estrelas, já provou em outros filmes que consegue se reinventar. O oposto acontece com Waltz, que, após ganhar dois Oscars (ambos justamente por filmes de Tarantino), tem se revelado, assim como o seu exagerado Walter Keane, uma verdadeira enganação.
A Teoria de Tudo
I did my best.

Direção: James Marsh
Roteiro: Anthony McCarten, baseado no livro “Travelling to Infinity: My Life with Stephen”, de Jane Hawking
Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, David Thewlis, Emily Watson, Maxine Peake, Simon McBurney, Thomas Morrison, Michael Marcus, Eileen Davies, Christian McKay, Guy Oliver-Watts, Charlotte Hope, Alice Orr-Ewing
The Theory of Everything, Reino Unido, 2014, Drama, 123 minutos
Sinopse: Baseado na biografia de Stephen Hawking, o filme mostra como o jovem astrofísico (Eddie Redmayne) fez descobertas importantes sobre o tempo, além de retratar o seu romance com a aluna de Cambridge Jane Wide (Felicity Jones) e a descoberta de uma doença motora degenerativa quando ele tinha apenas 21 anos. (Adoro Cinema)

Logo quando terminaram as filmagens de A Teoria de Tudo, Eddie Redmayne, ao consultar seu osteopata (o profissional de medicina alternativa que cuida de problemas da coluna vertebral), recebeu a notícia de que o alinhamento de sua espinha dorsal havia sofrido significativas alterações. O motivo? A dedicação de Redmayne em tentar reproduzir toda a condição física de Stephen Hawking, astrofísico cuja vida é encenada neste A Teoria de Tudo. Tal empenho lhe rendeu esta sequela que, segundo o ator, vem de um perfeccionismo profissional que ele mesmo não considera saudável. Prova disso é a decisão de Redmayne em, pelo menos nos últimos dias de filmagens, permanecer com a mesma posição contorcida e atrofiada em cima de uma cadeira de rodas durante todos os takes. Assim, para toda a equipe de A Teoria de Tudo, ele era de fato Stephen Hawking. E o ator pode ficar tranquilo: sua obsessão não tão saudável em busca da perfeição está plenamente reproduzida na tela com um desempenho que eleva o filme de James Marsh a uma emoção genuína que muitas vezes falta à história em si.
Não tão jovem como pode parecer (recentemente completou 32 anos), Eddie Redmayne já cultiva uma boa carreira como intérprete independente. No teatro, conquistou um Tony como ator convidado pelo espetáculo Red. No cinema, já foi o filho de Julianne Moore no polêmico Pecados Inocentes, apaixonou-se por Marilyn Monroe ao mesmo tempo que narrava seus breves dias de verão com ela em Sete Dias Com Marilyn e teve pequenos papeis coadjuvantes em longas de época como A Outra e Elizabeth – A Era de Ouro. Porém, foi recentemente que o britânico começou a alçar voos mais altos, especialmente em Os Miseráveis, onde, como o revolucionário Marius Pontmercy, conseguia se destacar com uma bela voz, uma presença repleta de carisma e até mesmo um momento emocionante ao fim do filme (aquele em que canta Empty Chais at Empty Tables). Mas a chance de sua carreira veio mesmo agora com A Teoria de Tudo, onde Redmayne, fora a impecável reprodução da esclerose lateral amiotrófica de Hawking, constrói com delicadeza um personagem que, mesmo enfrentando tantos infortúnios, nunca deixou de ver o lado bom da vida.
Ao mesmo tempo em que o ator impressiona com ao emular a doença de Hawking, A Teoria de Tudo também se beneficia com isso, já que é fácil simpatizar e torcer por este protagonista que tanto amou a sua companheira Jane (Felicity Jones, a primeira escolha para o papel) e sempre quis ganhar o mundo com uma diferenciada carreira profissional. Entretanto, a deficiência, para a dramaturgia (em especial o cinema), é um campo minado: se, por um lado, o filme já ganha pontos, adeptos e eventuais lágrimas por contar uma história de degradação física repleta de superação, por outro pode se perder conceitualmente ao sucumbir à irresistível tentação de abusar da doença para emocionar, esquecendo, em prol disso, outros assuntos infinitamente mais interessantes do que a enfermidade. É o que basicamente acontece com A Teoria de Tudo, que, ao invés de, por exemplo, mergulhar mais fundo na jornada também heroica de Jane ao ter permanecido com Stephen em uma juventude que poderia ter tomado rumos bem diferentes (e menos sofridos), prefere mostrar frequentemente o protagonista percebendo sua perda motora ao não conseguir mais realizar simples movimentos cotidianos, como pegar um garfo ou subir as escadas.
Ao contrário do que sugeria, é na inevitável derrocada física de Stephen Hawking que A Teoria de Tudo concentra a maior parte de sua atenção. Com isso, aspectos dramáticos importantes são mostrados corriqueiramente – ou, então, de forma exageradamente acelerada. O casamento, os filhos (incluindo aqueles que Jane e Stephen tiveram quando ele movia praticamente só a cabeça!) e a escalada profissional do protagonista são alguns dos tópicos que o filme infelizmente não chega a esmiuçar. Por isso, quando dizem que Stephen já é conhecido mundialmente, acreditamos porque determinado personagem diz e não porque acompanhamos suas vitórias. Outro fato extraordinário em possibilidades dramáticas é tratado com certo descaso: o do astrofísico ter recebido um diagnóstico desesperançoso de apenas dois anos de vida. Como sabemos, Stephen vive até os dias de hoje (ele já passa da casa dos 70 anos!), e sua a vitória ao ter superado qualquer expectativa negativa da doença parece não ser algo que tenha interessado o roteirista Anthony McCarten, que escreveu o longa com base no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen, de autoria da própria Jane Hawking.
À parte tais frustrações, A Teoria de Tudo é o típico filme inglês com história redonda e produção sofisticada. Para o bem e o para o mal, não existem maiores reviravoltas ou inventividades neste longa tradicional feito para agradar a todos e que deverá ser relativo sucesso de público aqui no Brasil. A razão é muito simples: com uma linda trilha sonora do islandês Jóhann Jóhannsson, é uma produção feita para emocionar (mas sem maiores apelações e com uma certa dose de elegância) em função da trajetória de superação de seu protagonista e, claro, do relacionamento entre ele e a esposa. Hawking, inclusive, aprovou o resultado e, após assistir ao filme, escreveu um e-mail para o diretor James Marsh dizendo que a fidelidade da obra foi tanta que, em determinados momentos, tinha a sensação de que estava vendo a si mesmo na tela.
Ainda que por vezes esticado demais, A Teoria de Tudo tem consciência de que é na figura de Redmayne que se concentra a sua maior força – talvez até demais, o que, em dados momentos, não deixa de limitar a criação do ator, que parece ter apenas a deficiência de Hawking para poder desenvolver em cena (e, nesse sentido, volta a questão de que seria mais interessante ter acompanhado outros momentos de sua vida, em especial a juventude, retratada de forma tão encantadora mas breve). Mas Redmayne sai plenamente inabalado, deixando uma forte impressão no espectador e a certeza de que, mais do que nunca, é um nome para ser acompanhado. Portanto, se dramaticamente A Teoria de Tudo não consegue criar lições mais consistentes e desenvolver emoções com grande criatividade (talvez fruto da veia bastante documental do diretor James Marsh, vencedor do Oscar 2009 de melhor documentário com O Equilibrista), pelo menos acertou ao se entregar ao talento de seu intérprete. Na agenda do ator, mais um projeto promissor já está em andamento: The Danish Girl biografia dirigida por Tom Hooper que mostra a vida do pintor dinamarquês Einar Wegener, o primeiro homem que, ao que tudo indica, foi o primeiro a fazer uma cirurgia de troca de sexo no século XX. Ao que tudo indica, Redmayne veio realmente para ficar.
Invencível
If you can take it, you can make it.

Direção: Angelina Jolie
Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese e William Nicholson, baseado no livro “Unbroken: A World War II Story of Survival”, de Laura Hillenbrand
Elenco: Jack O’Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Takamasa Ishihara, Finn Wittrock, Jai Courtney, Maddalena Ischiale, Vincenzo Amato, John Magaro, Luke Treadaway, Louis McIntosh, Ross Anderson, C.J. Valleroy
Unbroken, EUA, 2014, Drama, 137 minutos
Sinopse: O drama retrata a história real do atleta olímpico Louis Zamperini (Jack O’Connell), que sofre um acidente de avião e cai em pleno mar. Ele luta durante 47 dias para reencontrar a terra firme e quando consegue é capturado pelos japoneses em plena Segunda Guerra Mundial. (Adoro Cinema)

Existe um grande avanço de proporções e credibilidade envolvendo o fator Angelina Jolie na produção de Invencível. A atriz, que estreou na direção de longas-metragens de ficção em 2011 com Na Terra de Amor e Ódio, tem desacelerado sua carreira como atriz para se dedicar cada vez mais a causas humanitárias e ao relato de histórias que de alguma forma lhe encantam. De 2011 para cá, sua posição de diretora parece ter se consolidado, já que Invencível reúne muitos nomes consagrados do cinema. Do roteiro escrito a oito mãos pelos irmãos Coen, Richard LaGravenese (As Pontes de Madison) e William Nicholson (Gladiador) ao trabalho de fotografia do mestre Roger Deakins e de trilha sonora do francês Alexandre Desplat, o novo filme dirigido por Jolie, porém, sequer aproveita os talentos envolvidos com o projeto. Não adianta ter cacife para juntar as pessoas certas se a coordenação é errada. Por isso, ao final, invencíveis mesmo se tornam os espectadores por terem resistido a este longa convencional, cansativo, repetitivo e sem personalidade.
Explorando um pouco mais o seu fetiche com torturas, Angelina Jolie dessa vez aumenta a quantidade de violência em tempos de guerra com Invencível. Se no péssimo Na Terra de Amor e Ódio ela já demonstrava um certo masoquismo infundado com a relação entre torturados e torturadores, aqui a situação piora, com a diretora ambientando quase metade de seu longa em campos de detenção onde japoneses maltratam os estadunidenses durante praticamente 24 horas por dia – e durante longos minutos da história. Antes fosse a tortura uma ferramenta para engrandecer a heroica resistência do protagonista Louis Zamperini (Jack O’Connell, em bom desempenho), mas Invencível se utiliza apenas do choque pelo choque nas sequências envolvendo torturas, sem qualquer efeito dramático além, claro, do óbvio impacto visual das cenas físicas. É nesta eterna repetição de mostrar o sofrido dia a dia de Zamperini em terras inimigas que o filme se perde por completo, tornando-se incrivelmente arrastado e redundante.
Não fica muito evidente a razão que levou Angelina Jolie a ter se envolvido com esta história, especialmente quando ela, tão humanitária, faz um retrato unidimensional da trajetória do protagonista (e, aliás, por que só a história dele é heroica e também não a do seu amigo que passou basicamente pelas mesmas situações mas é esquecido ao longo da trama?). Em Invencível, mocinhos e vilões são perfeitamente identificáveis: enquanto os estadunidenses são os indefesos injustiçados, os japoneses são os crueis irracionais. Clint Eastwood sabe bem o poder de contar uma história abordando os dois lados da moeda (A Conquista da Honra e, principalmente, Cartas de Iwo Jima são exemplares nesta abordagem), mas Jolie parece não ter aprendido nada quando trabalhou com o veterano diretor em A Troca, fazendo de Invencível um filme sem qualquer complexidade em termos de guerra ou suas possibilidades dramáticas. Uma história como a de Louis Zamperini já é meio caminho andado rumo aos certos, mas o roteiro não está muito preocupado em ir além do óbvio – o que contradiz totalmente a chamada do longa, que promete contar uma história inacreditável.
Os erros de Invencível, contudo, começam já em seus primeiros momentos. É certo que a sequência inicial envolvendo um confronto aéreo é dotada de certa tensão, mas logo o filme começa a inexplicavelmente ir e voltar no tempo. Inexplicavelmente porque não existe sentido em se utilizar dessa ferramenta por duas razões bastante básicas: a) ela – ao contrário do também recente Livre, que se estrutura inteiramente de forma bem sucedida a partir de idas e vindas no tempo – não é uma tática que pontuará o filme, pelo contrário: não demora muito para que essa escolha seja abandonada; e b) construir este início de forma não linear sequer auxilia com que o presente do protagonista ganhe mais emoção ou seja melhor compreendido por meio de recortes passados. É óbvio que Invencível ganharia muito mais caso contado de forma sequencial porque, assim, se tivéssemos acompanhado a trajetória do protagonista desde a infância sem saber o que acontecerá depois, teríamos um envolvimento crescente com o personagem, e não constantemente interrompido com abordagens tão opostas (no presente, grandes confrontos aéreos em plena guerra; no passado, uma juventude marcada pela consagração profissional no atletismo). Dá até mesmo a sensação de que são dois filmes dentro de um.
O que dizer, então, da longa parte ambientada em alto-mar com três personagens tentando sobreviver durante dias a fio em dois pequenos botes? Se, depois do ótimo Até o Fim, fica complicado fazer algo realmente impressionante em uma circunstância como essa, pouco ajuda o fato de Invencível tomar tanto tempo de sua metragem para mostrar situações em alto-mar que já vimos em milhares de outros relatos envolvendo sobrevivência marítima. Por ser um capítulo bastante longo da trama, os desavisados podem até se confundir e achar que este é um filme sobre sobrevivência em alto-mar. Com uma técnica longe de ser inspirada (a trilha sonora de Alexandre Desplat é óbvia e nem Roger Deakins está em um momento notável na fotografia), o longa às vezes sobe o som, entrega frases prontas em despedidas na estação de trem, sugere metáforas fáceis (o protagonista levantando uma viga enquanto é maltratado por um soldado lembra preguiçosamente Jesus Cristo sendo açoitado com a cruz nas costas) e apela para querer emocionar com frases prontas, mas a comoção é zero. Nem nas emoções fáceis dá para defender Angelina Jolie. Sinal disso é que, quando a guerra chega ao fim em o alívio fica não pelo término do sofrimento dos personagens, mas pelo nosso, já que isso é sinal que o filme está prestes a acabar. Angelina Jolie ganha mais sendo atriz.