Vício Inerente
Don’t worry. Thinking comes later.

Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson, baseado no livro “Inherent Vice”, de Thomas Pynchon
Elenco: Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Katherine Waterston, Owen Wilson, Reese Witherspoon, Benicio Del Toro, Jena Malone, Maya Rudolph, Martin Short, Eric Roberts, Serena Scott Thomas, Martin Dew, Michael Kenneth Williams, Hong Chau, Christopher Allen Nelson
Inherent Vice, EUA, 2014, Comédia/Policial, 148 minutos
Sinopse: O novo longa dirigido por Paul Thomas Anderson conta a história de um detetive particular que investiga o sequestro de um bilionário latifundiário. Joaquin Phoenix interpreta o protagonista da história, papel que quase foi de Robert Downey Jr. Adaptação de livro homônimo de Thomas Pynchon. (Adoro Cinema)

Paul Thomas Anderson tem se tornado um diretor cada vez mais específico – o que pode ser um grande elogio ou um grande problema, dependendo do ponto de vista. Verdade seja dita que ele nunca foi um diretor para as grandes massas (não são todos que têm fôlego para as mais de três horas de Magnólia ou disposição para a crueza da indústria pornográfica de Boogie Nights, por exemplo), mas com Vício Inerente ele realmente está um degrau acima quando o assunto é especificidade. Inclusive a crítica parece ter percebido essa viagem excessivamente particular, uma vez que, mesmo com uma indicação ao Oscar 2015 de melhor roteiro adaptado, o filme foi praticamente ignorado até mesmo pelos fãs de Anderson. A bilheteria também repercutiu o fracasso: Vício Inerente faturou mundialmente cerca de 11 milhões de dólares, o que não representa nem a metade do lucro de O Mestre, o filme mais complicado assinado pelo diretor até então.
Apresentando sua primeira comédia desde 2002, quando realizou Embriagado de Amor, o diretor, com Vício Inerente, chega perto de alcançar uma interessante estatística: do século XX, somente a década de 1930 não foi contemplada em sua filmografia. O que poderia ser somente um dado na realidade diz muito sobre a carreira de Anderson. Transitando pelas mais diversas temáticas, ele compreendeu com perfeição todas as épocas que decidiu retratar, justificando o prestígio que alcançou desde que se lançou no cinema. É uma pena, portanto, que Vício Inerente venha para quebrar em termos de qualidade esse belo ciclo. Cinema exige uma compreensão – consciente ou não – de técnicas e habilidades, mas também é cercado de sensibilidade e identificação. Às vezes, simplesmente não entramos na viagem proposta por determinada produção, independente dos nomes envolvidos ou da inegável qualidade técnica. Foi exatamente o que senti com Vício Inerente, que, para mim, resultou em basicamente uma viagem confusa, interminável e incrivelmente entediante.
Já foi dito pela internet que essa é uma obra de vibe. Ou seja, se você entrar na batida, tudo pode ser envolvente. Caso contrário, qualquer ingrediente incrementa a receita do desastre. Não poderia existir melhor definição para Vício Inerente, que, com o passar dos minutos, consegue se tornar cada vez mais desinteressante e incompreensível para quem não entra na viagem. Outro empecilho: estamos diante de uma comédia, gênero específico por si só e que aqui brinca basicamente com o mundo das drogas e eventualmente do sexo. Tem que se identificar com o humor para entrar na brincadeira. É exatamente esse o tom de uma história repleta de caminhos tortuosos e de milhares de personagens onde nem mesmo o elenco impressiona, incluindo o próprio Joaquin Phoenix, ator que, nos últimos anos, tem consolidado sua escalda como profissional com uma sequência de trabalhos impressionantes.
Talvez parte do roteiro embolado e do tom monótono de Vício Inerente esteja diretamente ligada ao seu material de origem: o livro homônimo escrito pelo estadunidense Thomas Pynchon. Conhecido por criar obras longas e complexas, Pynchon não é nada econômico: suas tramas são distribuídas em dezenas de personagens e em infinitas histórias paralelas. Pouco se sabe do processo criativo do autor, já que ele nunca concedeu uma entrevista sequer e muito menos se deixou ser fotografado após o lançamento de seu primeiro livro. Esse espírito literário do escritor parece mesmo estar fielmente reproduzido na adaptação de Anderson – o que significa que, além de não me despertar a mínima vontade de rever Vício Inerente para dar uma segunda chance, tampouco me instiga a procurar um romance de Pynchon para elucidar em outra arte o tanto que sofri ao longo de torturantes 148 minutos.
Rapidamente

Nicole Kidman estrela Antes de Dormir, um suspense monótono que nos remonta à baixa que a carreira da atriz sofreu anos atrás.
ANTES DE DORMIR (Before I Go To Sleep, 2014, de Rowan Joffe): Recebido como uma versão de suspense da comédia Como Se Fosse a Primeira Vez, Antes de Dormir é um filme sem ânimo. Não é só a condução morna e sem qualquer mistério interessante que faz a monotonia imperar neste novo trabalho do diretor Rown Joffe – que, em 2010, chegou a dirigir Helen Mirren em Pior dos Pecados. O problema é que o filme é repetitivo e entrega resoluções perfeitamente deduzíveis, incluindo na própria escalação do elenco. Com 90 minutos que parecem 120, o resultado é arrastado e nada instigante, onde nem mesmo Nicole Kidman (novamente em um abacaxi que nos remonta à baixa de sua carreira de anos atrás) consegue imprimir alguma personalidade à trama. Com um clímax que beira o constrangedor por sua obviedade e também pela forma como encena uma luta entre dois personagens, Antes de Dormir, para completar, se arrasta em seus minutos finais quando decide trazer momentos dramáticos e de reflexão para a protagonista. É uma “barriga” que o filme poderia ter evitado, tornando-se objetivo pelo menos em sua conclusão.
JOGO PERIGOSO (Second Serve, 1986, de Anthony Page): Muito antes de Felicity Huffman em Transamérica existiu Vanessa Redgrave neste telefilme dos anos 1980 chamado Jogo Perigoso. Redgrave sempre foi uma grande atriz, mas aqui ela tem um de seus momentos mais impressionantes: começa como um homem que se veste de mulher e faz inúmeros tratamentos (hormonais e psicológicos) para depois finalmente se transformar em uma figura inteiramente feminina. No caso, a famosa tenista estadunidense Renée Richards, que, sim, existiu na vida real. O cunho biográfico de Jogo Perigoso não é, no entanto, um limitador para o telefilme dirigido por Anthony Page, que obviamente tem em Redgrave a sua maior força. Convincente em todas as etapas de sua personagem (é impossível reconhecê-la como homem), a atriz, apoiada por um impecável trabalho de maquiagem, dá corpo e alma à personagem com bastante força e delicadeza, fazendo até com que esqueçamos eventuais ferramentas melodramáticas como a invasiva trilha sonora e cenas mais extremadas, a exemplo daquela envolvendo uma agressão preconceituosa em um restaurante. Felicity Huffman deve ter feito suas aulas aqui.
GOD HELP THE GIRL (idem, 2014, de Stuart Murdoch): O estreante diretor Stuart Murdoch tem uma longa carreira como compositor, com músicas que já integraram coletâneas de filmes independentes marcados por ótimas trilhas como Juno e (500) Dias Com Ela. Seu debut no cinema como diretor não poderia, claro, ter outra vertente a não ser a musical. Exibido no Festival de Berlim, God Help the Girl é um simpático e por vezes melancólico musical britânico que abraça a música como componente narrativo fundamental para contar a história de uma garota que, tentando se recuperar de vários problemas emocionais em uma clínica, encontra na música e nos novos amigos que este mundo lhe proporciona um combustível para que finalmente possa dar uma virada em sua vida. É bem certo que em determinado ponto God Help the Girl se torna excessivamente musical, com canções que pouco acrescentam à história (percebam que este não é um filme do gênero como Os Miseráveis, onde todos os diálogos são musicalizados), o que traz um perceptível problema de ritmo para o longa. O fato do diretor escancarar a todo minuto que está fazendo um filme “queridinho” para jovens indies também eventualmente atrapalha um pouco a paciência que o resultado às vezes exige, mas o elenco é bom e God Help the Girl nunca deixa de ser convincente – e, para a proporção da produção, isso é mais do que suficiente.
Cinderela
Have courage and be kind.

Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Chris Weitz
Elenco: Lily James, Cate Blanchett, Richard Madden, Helena Bonham Carter, Stellan Skarsgård, Holliday Grainger, Sophie McShera, Stellan Skarsgård, Derek Jacobi, Ben Chaplin, Hayley Atwell, Rob Brydon, Tom Edden, Alex Macqueen
Cinderella, EUA, 2015, Drama/Fantasia, 105 minutos
Sinopse: Após a trágica e inesperada morte do seu pai, Ella (Lily James) fica à mercê da sua terrível madrasta, Lady Tremaine (Cate Blanchett), e suas filhas Anastasia e Drisella. A jovem ganha o apelido de Cinderela e é obrigada a trabalhar como empregada na sua própria casa, mas continua otimista com a vida. Passeando na floresta, ela se encanta por um corajoso estranho (Richard Madden), sem desconfiar que ele é o príncipe do castelo. Cinderela recebe um convite para o grande baile e acredita que pode voltar a encontrar sua alma gêmea, mas seus planos vão por água abaixo quando a madrasta má rasga seu vestido. Agora, será preciso uma fada madrinha (Helena Bonham Carter) para mudar o seu destino. (Adoro Cinema)

Não adianta tentar ignorar as releituras de clássicos infantis. Assim como a onda de adaptações envolvendo best sellers de aventuras infanto-juvenis, as histórias que encantaram as gerações de milhares de crianças agora ganham nova vida no cinema a todo momento. Cinderela, entretanto, deve ser a primeira adaptação plenamente fiel ao material original, sem qualquer subversão ou mudança de abordagem. Por um lado, existe a preservação da inocência e da magia, o que vem para conquistar novas gerações em tempos que a infância parece cada vez mais… adulta! Por outro, avaliando o novo filme de Kenneth Branagh como um cinéfilo já distante da fase infantil, existem detalhes importantes a serem considerados, sendo o principal aquele que envolve os prós e contras de transpor exatamente a mesma narrativa de uma animação para um filme live action.
Se Cinderela se propõe a não ser nada além de uma versão carne e osso de uma história já conhecida há várias décadas, não dá para deixar de levar em consideração que, desta forma, o fator novidade está ausente aqui, pois sabemos todos os caminhos da trama e qual o desfecho da protagonista. Mas talvez o maior incômodo seja o fato de que, para um filme live action, Cinderela preserve muitas das abordagens que só conseguimos relevar em animações, como a unidimensionalidade das vilãs e a bondade inabalável das heroínas. Malévola agora se mostra influente porque aqui faz falta ver a Madrasta (Cate Blanchett) com um outro lado além do cruel – e, nesse sentido, Blanchett, elegantíssima, tem pouco material para tornar a sua vilã memorável. E o que dizer das enteadas de Cinderela (Lily James), irritantes de tão caricatas e que nada acrescentam ao resultado? Não que o roteiro de Chris Weitz precisasse fazer um grande estudo psicológico dessas figuras, mas uma inteligente costura de suas personalidades merecia aparecer aqui.
A protagonista Cinderela só não se torna uma figura difícil de torcer porque Lily James surpreende ao sustentar bem um papel que, nessa versão em carne e osso, é quase implausível se assistirmos ao filme com outro olhar a não ser o infantil. Como a jovem, ciente de suas origens e influências, se deixa ser pisoteada e humilhada pelas novas integrantes da família sem razões consistentes? “Seja gentil”, disse a mãe de Cinderela antes de falecer. Só que, ao que tudo indica, ela entendeu algo como “seja sem personalidade”, já que não reage a praticamente nenhum dos absurdos a que é submetida. Ok, estamos falando de uma história mágica, encantadora e direcionada ao público infantil, mas aí voltamos à questão levantada anteriormente: transpor uma narrativa infantil sem qualquer mudança de tom para o live action pode ter seus contras. Esse é um deles. Como espectador adulto, percebo um filme dramaticamente frágil, cujo encantamento não é o suficiente para relevar determinados detalhes. Já os pequenos não devem ligar para isso, uma vez que Cinderela, no sentido de preservar classicamente os encantadores valores da história original, consegue cumprir sua missão.
Tecnicamente, não há o que se reclamar do longa de Branagh. Nos figurinos da veterana Sandy Powell, a exuberância reina como poucas vezes vimos em filmes recentes desse gênero, mesmo que muitas vezes o guarda-roupa escancare demais certas leituras (para mostrar que as enteadas da protagonista são desprezíveis, Powell não é nada discreta ao vesti-las quase como palhaças). Enquanto isso, na direção de arte, o mestre Dante Ferreti consegue novamente fazer um belo balanço entre grandiosidade e detalhismo em cada uma de suas escolhas. Por fim, a trilha de Patrick Doyle – um compositor que particularmente não desperta minha admiração – faz o básico funcional para dar o tom ao resultado. Ou seja, Cinderela apenas repete uma história clássica com uma parte técnica bastante impressiva e com o tom adequado para as crianças. Quanto aos adultos, eles podem até se sentir em uma viagem no tempo, mas também correm o risco de perceber que, bem lá no fundo, Cinderela é apenas uma bonita viagem visual sem qualquer diferencial além da nostalgia envolvendo o material original.
O Garoto da Casa ao Lado
Let me love you, Claire!

Direção: Rob Cohen
Roteiro: Barbara Curry
Elenco: Jennifer Lopez, Ryan Guzman, Kristin Chenoweth, John Corbett, Ian Nelson, Lexi Atkins, Hill Harper, Jack Wallace, Adam Hicks, François Chau, Bailey Chase, Kent Avenido, Travis Schuldt, Brian Mahoney, Raquel Gardner
The Boy Next Door, EUA, 2015, Suspense, 91 minutos
Sinopse: Após ser traída pelo marido, a professora Claire Peterson (Jennifer Lopez) está em vias de se divorciar. Ela vive sozinha com o filho adolescente, até perceber que um jovem acaba de se mudar para a casa ao lado. O sedutor Noah Sandborn (Ryan Guzman) rapidamente oferece ajuda nas tarefas da casa e se torna o melhor amigo do filho de Claire. Aos poucos, o vizinho passa a seduzi-la, levando a uma noite de amor entre os dois. No dia seguinte, a professora está decidida que tudo foi apenas um erro, mas Noah não pretende abandoná-la tão cedo. O caso de amor torna-se uma perigosa obsessão. (Adoro Cinema)

Dizer que um filme é previsível está diretamente ligado com a bagagem da pessoa que faz tal afirmação. Se você considera algo óbvio é porque certamente já viu a mesma situação milhares de vezes – e mais: já deve ter visto também experimentos que servem como verdadeiras aulas sobre como escapar das armadilhas que afundam determinadas tramas em clichês e previsibilidades. Já Barbara Curry, a roteirista estreante de O Garoto da Casa ao Lado, não deve, no entanto, ter uma vida cinéfila muito dedicada, visto que seu trabalho para esse filme de Rob Cohen (Velozes e Furiosos, Triplo X) parece ser assinado por alguém que nunca viu sequer um suspense bobinho na vida. Para corroborar tal hipótese, listamos abaixo alguns elementos clássicos (no sentido ruim, claro) que estão amadoramente presentes no empoeirado O Garoto da Casa ao Lado:
a) Qual a necessidade de aprofundar personagens ao longo do filme? É melhor jogar tudo na tela de uma vez só
Nem bem o filme completou 10 minutos e todo o elenco de O Garoto da Casa ao Lado já foi apresentado com suas “personalidades” bem definidas. Da protagonista ao avô cadeirante do vizinho, os personagens já surgem com as suas personalidades escancaradas. Claire (Jennifer Lopez) é a professora bonitona carente, Noah (Ryan Guzman) é o novo vizinho cujos braços fetichizados com graxa e suor são mais atraentes para a câmera do que seu próprio rosto, Vicky (Kristen Chenoweth) é a melhor amiga engraçadinha que não tem vida pessoal e por aí vai… Acrescente à conta todo o histórico da nossa heroína condensado em diálogos incrivelmente simplistas e expositivos.
b) A protagonista está emocionalmente vulnerável
Não dá para fazer um suspense sem alguém viajando para curar uma mágoa ou buscando uma redenção. No caso de O Garoto da Casa ao Lado, Claire tenta superar a traição do marido, que dormiu com a secretária nove meses atrás. Ela ainda não assinou o divórcio, pois, no fundo, ainda gosta dele. O filho também é muito apegado ao pai, o que dificulta a situação. Mas não dá para apagar a traição da lembrança e Claire não consegue continuar com o marido assombrada por essa lembrança. Ela precisa de uma mudança na sua vida. E quem sabe o novo vizinho que acaba de se mudar para casa ao lado não pode ser o homem perfeito para mexer com a sua vida?
c) O novo pretendente é tudo aquilo que a protagonista precisava e o oposto de quem ela se relacionava
Se o marido de O Garoto da Casa ao Lado é um traidor, o vizinho é o romântico. Se o marido já é um homem de mais idade e de camisas sociais, o vizinho é o jovem sarado e irresistível de 20 anos que circula de regata. Os assuntos em um jantar já não são mais interessantes com o antigo cônjuge, enquanto com o novo interesse a paixão pela literatura é um belo afrodisíaco. O marido não soube preservar a família ao dormir com a secretária? Bom, o garoto ao lado se mudou para a cidade apenas para cuidar de seu avô doente. Tudo o que ela precisava! Clássico.
d) Os coadjuvantes basicamente não tem vida pessoal e servem apenas para morrer ou ouvir desabafos
O que a divertidíssima Kristen Chenoweth está fazendo nesse filme? Ela é um belo exemplo de um dos erros mais básicos dos filmes de suspense: a amiga sem personalidade e vida pessoal que serve apenas para dar conselhos à protagonista (Cissa Guimarães mandou lembranças aqui no Brasil). Faz uma piadinha aqui, outra ali, mas, no final das contas, não sabemos nada sobre sua personalidade. Enquanto isso, John Corbett vive o marido cuja missão é apenas aparecer insistentemente para dizer o quanto está arrependido e precisa do perdão da esposa. Nada mais. E o que dizer do avô do protagonista, que surge em duas cenas, sendo uma logo no início em uma cadeira de rodas e outra lá no final, onde está milagrosamente em pé perambulando pela casa só para dar um susto na protagonista?
e) As situações não prezam pela lógica e nunca aconteceriam na vida real
Como assim a protagonista transa com o tal vizinho e vira vítima de sua obsessão em silêncio? Tudo bem que ela não quer contar para o filho que dormiu com seu mais novo amigo ou muito menos arruinar sua carreira acadêmica, mas, espera… Será que essas desculpas são realmente suficientes quando o jovem se mostra cada vez mais psicopata colocando em risco a vida de todos? Não sei quanto a vocês, mas por mais que eu tenha cometido algum erro, prefiro não viver pensado que meus amigos e familiares podem por minha causa. E o que dizer, então, da cena em que Noah quase mata um aluno na frente de toda a escola (e da própria vice-diretora) e tudo o que ele ganha é… Uma expulsão? Ninguém denunciou essa tentativa de homicídio?
f) A burrice dos personagens, o suspense óbvio e o clímax estapafúrdio completam a festa
Qual a primeira coisa que você pensa quando alguém joga gasolina em todo um ambiente com um isqueiro na mão? Empurrar essa pessoa? Para Claire, é claro que sim! É mais um detalhe tolo de O Garoto da Casa ao Lado que serve de suporte para cenas preguiçosas de suspense. Ah, e não pode faltar a protagonista deletando arquivos de um computador enquanto o vilão perigoso se aproxima da casa. Óbvio que, nesse exato momento, a lixeira vai demorar mais do que o normal para se esvaziar. É tudo preparação de terreno para aquele clímax espetaculoso, onde todos vão estar amarrados e confinados em um mesmo ambiente sob a ameaça do revólver do protagonista. Aí tem luta, gritos fogo, cortes, facadas, injeção no olho… E o final vocês devem deduzir sem maiores dificuldades.
Deixando de lado a brincadeira, O Garoto da Casa ao Lado realmente é um filme preguiçoso e conduzido sem qualquer senso de humor. Se você dá risada do que acontece, é involuntariamente – o que só comprova como o diretor Rob Cohen errou no tom empregado ao filme. Chega a assustar como é possível prever a consequência de cada ação da história, que em momento algum chega perto de ser um guilty pleasure. É a velha tentativa de reproduzir os méritos de Atração Fatal (e, para começo de conversa, aqui ninguém é uma Glenn Close da vida) que mais uma vez vai por água abaixo. Não funciona como diversão (mesmo que o filme se proponha a ser propositalmente tosco a piada já é velha) e basta apenas um passar de olhos no Facebook do seu celular após a sessão para já esquecer a sessão. Não vou ao cinema para isso. O Garoto da Casa ao Lado não mancha a carreira de ninguém – até porque toda a equipe não tem nada em jogo -, mas fica para aquela listinha de produções que servem para você definitivamente dar uma aula sobre como não se fazer um filme de suspense.
Rapidamente

Vencedor do Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro, o polonês Ida vai além da elegante fotografia e entrega uma história sutil sobre descobertas e transformações.
FORÇA MAIOR (Force Majeure, 2014, de Ruben Östlund): Em um mundo que se discute cada vez mais o papel do homem e da mulher a proposta de Força Maior cai como uma luva. Quando um pai de família foge ao ver uma avalanche vindo em direção ao hotel onde está de férias com sua esposa e filhos, deixando todos para trás, uma crise se instala no clã: afinal, o que cabia ao pai da família fazer nessa situação? Existia uma reação correta? Se sim, para quem? A discussão é pra lá de válida e esse filme sueco dirigido por Ruben Östlund tem várias cenas que pontuam questões importantíssimas sobre o que é esperado de um homem e de uma mulher em situações decisivas. O conflito, no entanto, é apresentado logo no início da projeção e todo o filme se sustenta a partir de reflexões resultantes desse acontecimento. E aí está o detalhe que parece limitar tanto Força Maior cinematograficamente: a história é mais uma longa (e quase interminável) discussão de relacionamento entre um casal do que propriamente uma obra completa e instigante em outros aspectos além do texto. Interessante e atual, mas talvez pare por aí.
IDA (idem, 2014, de Pawel Pawlikowski): Vencedor do Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro, esse longa polonês entrou em cartaz no Brasil ainda em dezembro do ano passado, fazendo uma trajetória tímida por aqui até começar a temporada de premiações. Por mais que meu coração seja todo do argentino Relatos Selvagens, não dá para contestar os prêmios para o trabalho de Pawel Pawlikowski, que anteriormente havia dirigido Emily Blunt em Meu Amor de Verão e Kristin Scott Thomas em Estranha Obsessão. É admirável a disciplina que Pawlikowski imprime em sua direção sem nunca deixar que Ida se torne uma experiência fria ou distante. Basicamente um road movie sobre uma jovem que está prestes a fazer seus votos para se tornar uma freira e parte em uma viagem para descobrir um pouco mais sobre seus antepassados, Ida é filmado em um elegantíssimo preto e branco e sem uso de trilha sonora, estudando sutilmente as transformações e questionamentos da protagonista frente ao passado de sua família. Os contrastes desenhados a partir da relação entre a jovem Anna (Agata Trzebuchowska) e sua tia Wanda (Agata Kulesza, maravilhosa) são o ponto alto da obra, que frequentemente tem sua atenção roubada pela segunda. Menos difícil do que aparentava (o que é ótimo), Ida é bastante objetivo, mas nem por isso menos envolvente.
SIMPLESMENTE ACONTECE (Love, Rosie, 2014, de Christian Ditter): Tinha tudo para ser uma adorável comédia romântica com selo britânico dirigida a adolescentes, mas Simplesmente Acontece desaponta em todos os sentidos. Além da temática ultrapassada (os amigos que se gostam secretamente mas nunca confessam seus sentimentos), o filme dirigido por Christian Ditter tem um sério problema de ritmo e frequentemente descamba para o pastelão. Pior: utiliza ferramentas fáceis e amadoras para fazer com que o espectador torça para os protagonistas, como colocar novos pretendentes insuportáveis para cada um deles ao longo do filme. Sem no carisma da dupla protagonista e em sua própria execução, Simplesmente Acontece, portanto, apela para o exagero e para a caricatura quando precisa mostrar que o destino dos protagonistas é inevitavelmente um relacionamento amoroso entre eles – e não com as irritantes figuras que passam por seu caminho. No meio de tudo isso, há espaço também para alguns momentos constrangedoras (a camisinha perdida dentro da vagina, a corrida até a escola com um pedaço da cama presa ao braço algemado) e outras bastante questionáveis (será mesmo que a amizade dos dois é realmente tão forte a ponto da garota esconder a todo custo do amigo a sua gravidez e o filho recém nascido?). Interminável, Simplesmente Acontece é aborrecido, previsível e frequentemente desonesto com o espectador. Precisamos torcer por uma química genuína e não porque o filme quer nos obrigar a isso forçando a barra com situações e personagens extremados.