Steve Jobs
I don’t want people to dislike me. I’m indifferent to whether they dislike me.

Direção: Danny Boyle
Roteiro: Aaron Sorkin, baseado no livro “Steve Jobs”, de Walter Issacson
Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Jeff Daniels, Seth Rogen, Michael Stuhlbarg, Katherine Waterston, Makenzie Moss, Ripley Sobo, Perla Haney-Jardine, Sarah Snook, John Ortiz, Adam Shapiro
EUA/Reino Unido, 2015, Drama, 122 minutos
Sinopse: Três momentos importantes da vida do inventor, empresário e magnata Steve Jobs: os bastidores do lançamento do computador Macintosh, em 1984; do NeXT, em 1989; e o do iMac, em 1998.

Entre meus desafetos cinematográficos que vão na contramão do que público e crítica celebram, o nome de Aaron Sorkin está certamente entre os primeiros da lista. A falta de identificação é questão de longa data: já considero quadradíssima a estreia de Sorkin nos cinemas, quando ele adaptou, em 1992, Questão de Honra (sua própria peça) para a tela grande. No meio do caminho, vieram trabalhos tediosos e desinteressantes que nem elencos consagrados conseguiram salvar (Jogos do Poder, lamentavelmente o último filme assinado por Mike Nichols, é um dos maiores desperdícios de talentos do cinema recente) ou, então, histórias que, por pura questão de gosto pessoal, simplesmente não me envolviam, como o distante e verborrágico A Rede Social. Na TV, Sorkin ainda me decepcionou profundamente com The Newsroom, aquela série sobre jornalismo que chegou a render um Emmy de melhor ator para Jeff Daniels. O programa era uma zona porque obrigava o roteirista a trabalhar em cima daquele que considero o maior de seus problemas: a dificuldade em eventualmente abandonar a racionalidade e dar calor humano a qualquer personagem. Por isso, dado o histórico, nunca escondi minha falta de interesse por Steve Jobs, um filme que, entretanto, só me fez comemorar: às vezes é delicioso estar redondamente enganado.
Humanizar Steve Jobs (Michael Fassbender) faz toda a diferença para o filme de Danny Boyle porque é muito fácil odiar um personagem como ele. Sujeito vaidoso e irredutível, o criador da Apple dizia ser indiferente à ideia das pessoas gostarem dele ou não. Ele fazia por onde em todas as instâncias para corroborar eventuais aversões: no plano familiar, ignorava seu papel e suas responsabilidades mais básicas como pai; no círculo de amizades, não pensava duas vezes antes de dar adeus a um amigo quando esse reivindicava autoria criativa em um projeto; e, por fim, no convívio profissional, era ciente de sua inegável genialidade e usava tal poder para tratar qualquer pessoa como bem entendia. Assim, ao cercar o protagonista de figuras que clamam constantemente por sua humanidade, como Joanna Hoffman, a executiva de marketing da Apple vivida por Kate Winslet, Sorkin evita que nosso protagonista se torne aquele estereótipo de gênio insensível e quase unilateral em sua frieza que já vimos o roteirista construir na figura de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) em A Rede Social, por exemplo. Em essência, Steve Jobs é o bom e velho Sorkin de diálogos rápidos e incessantes, mas, dessa vez, com o bônus de se atentar a outros aspectos que não sejam relacionados apenas à simetria perfeita das suas construções frasais.
A escolha de ambientar Steve Jobs em três momentos pontuais (os lançamentos de produtos assinados pelo protagonista) obviamente traz repetições porque tudo parece conspirar contra Steve sempre minutos antes de ele subir ao palco para apresentar ao público e à imprensa suas mais novas criações. A fórmula é basicamente sempre a mesma: enquanto se prepara para o grande momento do dia, ele recebe uma visita bombástica atrás da outra nos bastidores (o antigo chefe aparece, a assistente resolve se revoltar, o amigo reivindica reconhecimento e até a ex-mulher aparece com a filha!). São coincidências demais que exigem certa boa vontade do espectador em acreditar que tudo aconteça de forma tão agrupada, mas, ao mesmo tempo, o roteiro ganha muitos pontos ao delimitar tal recorte de tempo. Primeiro porque não existe melhor maneira de um filme mostrar sua excelência em uma biografia do que extraindo toda a personalidade e história de seu biografado a partir de situações específicas. E segundo porque a fórmula obriga Sorkin a ser o mais objetivo possível ao lidar com a emoção de seus personagens (o que acabava com The Newsroom era justamente o roteirista inventando paixonites e dramas bobos para preencher dramaticamente um considerável espaço de tempo). Dessa forma, a concisão traz força maior a Steve Jobs, proporcionando momentos realmente emblemáticos, como a nervosa discussão entre Steve e John Sculley (Jeff Daniels, ótimo) que remonta a noite em que o protagonista foi surpreendentemente demitido da Apple.
O diretor Danny Boyle orquestra muito bem todos os elementos de Steve Jobs, trabalhando obviamente com um tom mais teatral (afinal, o filme se divide em três blocos ambientados quase em um único local), mas sem perder o senso cinematográfico. A forma como Boyle explora o design de produção para não cair em repetições e dar a dimensão temporal das evoluções e retrocessos do protagonista em três recortes diferentes é fundamental para que Steve Jobs não se torne uma mera sucessão de diálogos e discussões em cima ou atrás de um palco (literalmente). Fora isso, como era de se esperar, o elenco é parte decisiva desse processo, e todos estão em momentos especiais. Chama a atenção, particularmente, a forma como Michael Fassbender consegue se despir de sua marcante e inegável beleza para mergulhar sem medo nas angústias deste homem brilhante mas que, de um jeito ou de outro, é atormentado por uma eterna batalha consigo mesmo. E se Kate Winslet faz maravilhas com uma personagem sem qualquer história prévia para contar (só sabemos que sua Joanna é de origem polonesa), pequenas participações são certeiras pelo que o roteiro proporciona e pela composição de atores como Seth Rogen e Michael Stuhlbarg. Steve Jobs é, enfim, uma vitória, já que, ao contrário do que qualquer desânimo com o projeto possa indicar (não são todos que superaram o total e recente fracasso de Jobs, estrelado por Ashton Kutcher em 2013), estamos diante de um dos mais surpreendentes filmes deste início de ano.
Spotlight – Segredos Revelados
Everybody’s gonna be interested in this.

Direção: Tom McCarthy
Roteiro: Josh Singer e Tom McCarthy
Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci, Billy Crudup, Gene Amoroso, Doug Murray, Neal Huff, Billy Crudup, Brian Chamberlain, Paul Guilfoyle, Eileen Padua, Len Cariou, Robert B. Kennedy
Spotlight, EUA, 2015, Drama, 128 minutos
Sinopse: Baseado em uma história real, o drama mostra um grupo de jornalistas em Boston que reúne milhares de documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças, causados por padres católicos. Durante anos, líderes religiosos ocultaram o caso transferindo os padres de região, ao invés de puni-los pelo caso. (Adoro Cinema)

Os jornalistas são heróis pelas razões certas em Spotlight – Segredos Revelados. Ao contrário do que Hollywood costuma maquiar, a profissão não é uma extensão da delegacia de polícia que dá credenciais para que os contratados de uma redação saiam a campo investigando crimes ou coletando verdades e mentiras da vida de alguém está com os dias contados no corredor da morte e precisa ser salvo. No filme de Tom McCarthy, esses profissionais são heróis porque expõem à sociedade uma denúncia que nada mais é do que resultado direto de seu comprometimento ferrenho com os princípios mais básicos da profissão, onde a devoção com a verdade, seja ela qual for, fala mais alto do que qualquer outro interesse. Por isso, pode até ser que Spotlight não seja necessariamente um grande filme como os prêmios e a crítica têm apontado, mas a experiência entrega, com boa carga dramática e certeira execução, essa necessária reconstrução do modo como o cinema eventualmente retrata a profissão.
É inevitável que comparações com Todos os Homens do Presidente permeiem a sessão do filme de Tom McCarthy, mas não é o caso de inferiorizá-lo por ele não ser tão sofisticado ou inovador quanto o clássico de 1976 estrelado por Robert Redford e Dustin Hoffman (e só cabe ao tempo julgar o quanto a excelência de Spotlight merece ter o montante certo de lembrança), até porque o roteiro é extremamente atual ao reacender discussões tão fundamentais para o jornalismo em tempos que a profissão se dilui e se descredita cada vez mais na era da internet e de tantos interesses – e, com essa abordagem, lembrei particularmente daqueles breves minutos de Leões e Cordeiros onde a jornalista Janine Roth (Meryl Streep) enfrenta seu editor ao se recusar a escrever uma reportagem política claramente tendenciosa e ao questioná-lo sobre onde, após tantos anos de profissão, foi parar a busca pela verdade e a coragem para publicar o que deveria ser realmente de interesse público. É fundamental que o filme nos coloque tais questões com o devido protagonismo, e, nesse sentido, qualquer comparação com outras obras em termos de estrutura se tornam avaliações quase preguiçosas. Spotlight é muito mais do que isso.
“Eles mandam em tudo!”, constata indignadamente um personagem ao descobrir cada vez mais detalhes da história que Spotlight, a equipe de jornalismo investigativo do jornal Boston Globe, se propôs a entrar de cabeça: o verdadeiro sistema de pedofilia instalado nas paróquias de Boston em meados dos anos 1990. A coragem do roteiro de Josh Singer e Tom McCarthy é a mesma do jornal em questão, visto que, nas telas ou no papel, a igreja, mesmo depois de tantos séculos, segue como uma instituição que, sim, faz um bem danado a várias pessoas espiritualmente, mas que também alimenta um lado cruel, manipulador e responsável por diversas atrocidades que nem todos têm coragem de discutir ou sequer colocar em pauta. Spotlight, assim como os jornalistas do Boston Globe, não amortece suas denúncias envolvendo os dolorosos relatos em Boston, onde, por exemplo, um único padre molestou mais de 130 crianças, entre elas um garoto de apenas quatro anos de idade – e detalhe: com o conhecimento das paróquias. Por isso, além de um relato digno do jornalismo, a veia de denúncia confere ao filme de Tom McCarthy uma bela dose de sentimentos pesados e incômodos, mas também muito necessários.
Muito bem escrito no que se refere à estrutura de uma investigação jornalística e às etapas de discussão e checagem de dados que cercam uma investigação dessa natureza, Spotlight ganha força e impacto com a denúncia que se propõe a retratar. É simplesmente impossível ficar indiferente aos absurdos que cada cada um dos jornalistas encontra ao longo do caminho, o que também nos leva a ressaltar o ótimo trabalho de elenco do filme, que se preocupa muito mais em criar uma unidade sólida de interpretações do que em dar shows particulares a cada um dos atores (Mark Ruffalo talvez seja a única exceção). Por outro lado, a confiança quase exclusiva a esse material traz o detalhe que me leva a considerar Spotlight um filme necessário e bem executado, mas não necessariamente superlativo: a ausência de uma força maior ao explorar os sentidos do cinema. Isso passa desde a ideia do filme ter uma trilha mais inspirada do veterano Howard Shore até o roteiro se dedicar mais aos efeitos que essa investigação específica teve na vida pessoal de seus personagens. Afinal, Tom McCarthy prova que teria talento de sobra para dar um brilho extra à história sem que ela, indo na contramão de tantos veículos de comunicação da atualidade, descambasse para o sensacionalismo.
Rapidamente: Amy, Sr. Turner, Tomboy e A Visita

Filme menos acessível da carreira do celebrado Mike Leigh, Sr. Turner se destaca por compreender, inclusive na própria parte técnica, toda a arte de seu protagonista.
AMY (idem, 2015, de Asif Kapadia): Não tão cinematográfico quanto o ótimo Senna, outro documentário dirigido pelo britânico Asif Kapadia, Amy obviamente se beneficia por ter uma personagem muito forte. O estilo único das canções de Amy Winehouse e a a conturbada vida da cantora fora dos palcos de certa forma compensam o formato quase televisivo desse filme que também chega a ser um pouco extenso para um relato tão tradicional. Ou seja, é bem provável que os fãs da cantora se entusiasmem mais com o resultado e até se emocionem ao ouvir música clássicas dela como Valerie, Back to Black e Tears Dry on Their Own. Isso porque, em termos narrativos, o documentário carece de criação e desenvolve de forma bastante linear a trajetória de Winehouse. Todas as etapas de um relato de ascensão e queda de uma artista problemática são seguidas à risca, o que deixa Amy em um terreno muito seguro mas ao mesmo tempo cômodo demais. O que falta mesmo no documentário é justamente a intensidade cinematográfica de, por exemplo, Cássia Eller. É certo que ambos os filmes emocionam e são registros respeitosos, mas o trabalho de Paulo Henrique Fontenelle é melhor lapidado cinematograficamente e com uma linguagem muito mais alinhada com identidade de sua protagonista.
SR. TURNER (Mr. Turner, 2015, de Mike Leigh): Com Sr. Turner, o celebrado Mike Leigh alcança dois extremos em sua carreira. O primeiro é relacionado à questão estética: nunca o britânico esteve com o senso técnico tão apurado, usando todas as ferramentas possíveis, em especial a bela fotografia de Dick Pope merecidamente indicada ao Oscar 2015, para dialogar com os processos artísticos do pintor William Turner (Timothy Spall), protagonista da história. O segundo é a especificidade: Sr. Turner termina como o longa mais difícil da carreira de Leigh, uma vez que seu ritmo é maçante (a duração de 150 minutos só amplia essa sensação) e a história é contada de um jeito muito tradicional. Leigh realmente nunca foi um diretor de filmes tão dinâmicos (mesmo os maravilhosos Segredos e Mentiras e O Segredo de Vera Drake trabalhavam contra um passo muito lento), mas Sr. Turner realmente se supera. Também é complicado ter paciência com o protagonista – não que isso seja algo essencial para uma trama ter o devido envolvimento -, um homem carrancudo, mal humorado, de pouquíssimas palavras e que passa quase todo tempo grunhindo e dizendo coisas praticamente incompreensíveis aos ouvidos que não dispõem de legendas. A boa notícia é que, pelo menos, Sr. Turner é, em sua essência, bastante digno no relato da vida pessoal e profissional de um pintor cheio de personalidade – e prova disso é a ótima cena em que ele recusa fortunas de um empresário apenas para que a suas obras sejam eternizadas em um museu público que não lhe pagará um tostão sequer.
TOMBOY (idem, 2011, de Céline Sciamma): Muito merecidamente, Tomboy fez sucesso no circuito alternativo e ainda hoje resiste ao tempo com exibições especiais em espaços do gênero. Não escondo meu arrependimento de só ter descoberto agora essa história delicada sobre uma garota de 10 anos que, ao mudar de cidade, assume a identidade de um menino no seu novo círculo de amizades. Sem cair em qualquer melodrama envolvendo a questão da identidade de gênero de sua protagonista, Tomboy traz o sempre bem-vindo naturalismo francês ao discutir ainda arranjos familiares e as descobertas da juventude. A diretora Céline Sciamma é bastante objetiva em seu relato (são breves 80 minutos de duração), mas ainda assim completa em discussões que se mostram cada vez mais contemporâneas – e felizmente Tomboy não precisa verbalizar nada para colocar em pauta os temas que se propõe a debater. Com um desfecho esperançoso, o filme obviamente vai entregar algumas etapas dramáticas que você espera desde o início, mas sem nunca elevar o tom ou sequer flertar com obviedades. Um pequeno grande filme.
A VISITA (The Visit, 2015, de M. Night Shyamalan): Ao mesmo tempo que é fácil rejeitar A Visita em função do histórico horroroso de M. Night Shyamalan, não é difícil para os corações mais bondosos, por outro lado, defenderem o filme, dizendo que, comparado ao que o indiano produziu nos últimos anos, esse até que tem certa graça. Mesmo com boa vontade e, de fato, A Visita sendo ligeiramente superior a desastres como O Último Mestre do Ar, não existe absolutamente nada que torne o filme interessante quando o colocamos na vitrine de seu respectivo gênero. Extremamente empoeirado (quem, em 2015, ainda faz filmes com a protagonista documentando toda a história com uma câmera?), A Visita já começa implausível: uma mãe envia seus filhos de 15 anos a uma cidade isolada para que eles conheçam os avós hoje completos estranhos e distantes há quase duas décadas. Assim, sem nem pegar um telefone para combinar qualquer coisa. Que senso maternal de proteção ela tem! Além da protagonista madura demais para alguém da sua idade e da completa falta química entre os jovens e os avós, o filme tem ideias já exploradas à exaustão no gênero, como a casa de difícil acesso no meio da floresta e personagens que precisam chegar a situações extremas para finalmente constatar o quão perigoso ou no mínimo sinistro é o lugar onde estão. A proposta de fazer um projeto mais comedido e menos ambicioso pode ser um mérito de Shyamalan, mas aí usar isso para ir à raiz do básico contando uma história manjada em tensão e ideias… Nem com a mudança de ares dá para se entusiasmar.
Carol
I miss you… I miss you…

Direção: Todd Haynes
Roteiro: Phyllis Nagy, baseado no romance homônimo de Patricia Highsmith
Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Kyle Chandler, Sarah Paulson, Jake Lacy, John Magaro, Cory Michael Smith, Kevin Crowley, Nik Pajic, Carrie Brownstein, Trent Rowland, Sadie Heim
Reino Unido/EUA, 2015, Drama/Romance, 118 minutos
Sinopse: A jovem Therese Belivet (Rooney Mara) tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos. Um dia, ela conhece a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha. Carol, que está se divorciando de Harge (Kyle Chandler), também não está contente com a sua vida. As duas se aproximam cada vez mais e, quando Harge a impede de passar o Natal com a filha, Carol convida Therese a fazer uma viagem pelos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

Todd Haynes sempre contou histórias de personagens em busca de suas verdadeiras identidades. Logo quando estreou no cinema em 1978, o diretor já falava, no curta The Suicide, sobre um garoto maltratado e abandonado pelo pai que tentava começar uma nova vida ao mudar de escola. Desde então, foram muitas as vezes em que a sexualidade e a identidade de gênero passaram a ser fatores decisivo nessa sua íntima investigação de pessoas em plena construção existencial: do efervescente mundo glamrock de Velvet Goldmine, passando pela vida de uma dona-de-casa nos anos 1950 que descobre ser casada com um homossexual em Longe do Paraíso às múltiplas leituras da vida e arte de Bob Dylan em Não Estou Lá, Haynes agora volta à ativa com Carol, mais um filme sobre pessoas que se reinterpretam sob a luz de uma natureza sexual repleta de questionamentos – e o melhor: o resultado não é uma versão genérica de qualquer outra experiência que o diretor já tenha nos proporcionado.
É lamentável constatar que quase nunca testemunhamos verdadeiros romances de temática gay no cinema. Mesmo grandes e celebrados filmes como O Segredo de Brokeback Mountain e Azul é a Cor Mais Quente são dramas focados muito mais no arco de um personagem se familiarizando com sua própria sexualidade ou nos fatores que tornam impossível uma determinada paixão. Já Daniel Ribeiro diz ter feito Hoje Eu Quero Voltar Sozinho para trazer um alento ao tema e ir contra a corrente, mostrando que, de um jeito ou de outro, relações homossexuais também merecem ter finais felizes na sétima arte. Retomo tais filmes porque Todd Haynes consegue conciliar justamente as duas abordagens: em Carol, existe sim a impossibilidade do amor ser gritado em alto e bom tom (afinal, são duas mulheres apaixonadas nos preconceituosos anos 1950), mas nele também mora, de forma muito mais presente, a delicadeza, a verossimilhança e a força sentimental que marcam os romances que mais conquistam os nossos corações e sentidos.
A vibe esperançosa que Carol deixa é super valiosa, especialmente em uma história que envolve tanto como essa. Filmado com uma elegância de dar inveja – o que não é mérito exclusivo da indefectível parte técnica, mas também da habilidade do diretor em acompanhar com a câmera a vida das duas mulheres em questão -, o filme é irrepreensível ao construir toda a atmosfera de envolvimento gradual das protagonistas. Assim como a inexperiente Therese Belivet (Rooney Mara, vencedora do prêmio de melhor atriz em Cannes 2015 por seu desempenho aqui), também nos apaixonamos facilmente pela elegância, maturidade e beleza (mas também sutil fragilidade) de uma mulher como Carol Aird (Cate Blanchett). O contrário se aplica: Therese pode até ser uma jovem que não sabe muito bem o que quer, mas é exatamente essa sua ideia de ser cercada de infinitas possibilidades em uma vida ainda facilmente aberta a todas elas que mexe com Carol e todos nós. Dessa forma, a demora em finalmente consumir o sentimento das duas é escolha muito acertada, pois é como se fossemos gradualmente entrando no universo de cada uma e nos apaixonando no mesmo timing que o delas.
A roteirista Phyllis Nagy, em seu primeiro trabalho para o cinema (ela só havia roteirizado até então o mediano telefilme Mrs. Harris para a HBO), adapta o romance de Patricia Highsmith com muita dignidade e respeito ao material da autora, que publicou o livro originalmente em 1953 com o título de The Price of Salt e sob o pseudônimo de Claire Morgan devido a sua homossexualidade e o preconceito da época (cinco anos antes de morrer, Highsmith conseguiu finalmente relançar a obra com o título Carol e assiná-la com o seu nome verdadeiro). O que Nagy entrega, no entanto, é um material que, nas mãos erradas, poderia se tornar um filme dos mais novelescos. Por sorte e talento, Haynes não sucumbe a nada disso e, assim como em Longe do Paraíso, utiliza todas as ferramentas de um filme de época para criar um clima nostálgico e de homenagem ao estilo de fazer romances à moda antiga em Hollywood – e, neste sentido, é fundamental a colaboração do compositor Carter Burwell na trilha sonora, que reproduz a elegância das imagens de Haynes e cria um tema marcante que reverbera após a sessão.
Entregues em pleno espírito às personagens, Cate Blanchett e Rooney Mara constroem personagens bastante distintas no seus estilos de vida mas semelhantes na delicadeza que as une. Blanchett, que nunca esteve tão bem produzida e fotografa, tem um dos melhores momentos de sua carreira e tira de letra cenas decisivas como aquela em que enfrenta o marido para decidir o destino de sua filha. Já Mara, apesar do papel relativamente mais convencional e de conflitos atenuados, imprime sensibilidade a sua Therese, atuando à altura do ícone que é a sua colega de cena. As duas são ótimas juntas e surgem como as grandes estrelas do passado, radiantes e cheias de classe. Sem tirar nem por, são as escolhas perfeitas para um filme que nos desperta essa vontade de querer fugir por alguns dias para viver um grande amor. Entre os críveis conflitos familiares e sociais que trazem à tona preconceitos ainda pulsantes no mundo mesmo depois de cinco décadas, sempre existe, como na própria vida, a esperança de um final feliz, mas também a mensagem de que o primeiro passo para que ele possa se tornar uma realidade está nas nossas próprias mãos ou, quem sabe, em um simples sorriso.
Star Wars: O Despertar da Força
Chewie, we’re home!

Direção: J.J. Abrams
Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan e Michael Arndt
Elenco: Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver, Harrison Ford, Domhnall Gleeson, Carrie Fisher, Oscar Isaac, Max Von Sydow, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Mark Hamill, Anthony Daniels, Peter Mayhew, Kiran Shah, Simon Pegg
Star Wars: The Force Awakens, EUA, 2015, Aventura/Ficção Científica, 115 minutos
Sinopse: Décadas após a queda de Darth Vader e do Império, surge uma nova ameaça: a Primeira Ordem, uma organização sombria que busca minar o poder da República e que tem Kylo Ren (Adam Driver), o General Hux (Domhnall Gleeson) e o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) como principais expoentes. Eles conseguem capturar Poe Dameron (Oscar Isaac), um dos principais pilotos da Resistência, que antes de ser preso envia através do pequeno robô BB-8 o mapa de onde vive o mitológico Luke Skywalker (Mark Hamill). Ao fugir pelo deserto, BB-8 encontra a jovem Rey (Daisy Ridley), que vive sozinha catando destroços de naves antigas. Paralelamente, Poe recebe a ajuda de Finn (John Boyega), um stormtrooper que decide abandonar o posto repentinamente. Juntos, eles escapam do domínio da Primeira Ordem. (Adoro Cinema)

O testamento da influência definitiva de Star Wars é mesmo esse novo capítulo chamado O Despertar da Força. Ora, mesmo com a unanimidade de que A Ameaça Fantasma, O Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith, os filmes realizados por George Lucas entre 1999 e 2005, foram o quase suicídio artístico da franquia, ninguém deu muita bola: O Despertar da Força já causava alvoroço muito tempo antes de sua estreia e hoje quebra recordes mundo afora. Não é por ser fácil faturar gordas bilheterias hoje em dia que o filme está por todos os lados, mas por resgatar elementos clássicos da série a partir do olhar de um realizador que sabe como ninguém preservar o passado sob a luz da contemporaneidade. A missão era difícil e carregada de responsabilidades sem precedentes, mas J.J. Abrams, mais uma vez, mostra que a força e, claro, o talento estão ao seu lado.
Não dá para afirmar que J.J. Abrams tem 100% de aproveitamento em sua carreira porque nela existe algo chamado Lost. Entretanto, não é difícil colocar o diretor entre os melhores realizadores de sua escala atualmente. Depois das mil maravilhas que fez com Star Trek, ele mais uma vez se mostra superlativo atrás das câmeras com O Despertar da Força, o filme que precisávamos ter visto dez anos atrás no lugar de A Ameaça Fantasma. Isso mesmo, é sem qualquer receio de exageros que podemos ser categóricos: o novo filme de Star Wars elimina do mapa a trilogia anterior comandada por George Lucas (que, convenhamos, tem seus méritos como a mente por trás do universo, mas raramente é grande como diretor). Mais do que um filme muito bem executado, O Despertar da Força cumpre com louvor a missão de ser um resgate para os antigos fãs e uma bela introdução para os leigos que venham a abraçar a história daqui para frente. Não é nem referencial demais nem excessivamente zerado, reproduzindo o mesmo conceito que fez dos novos Star Trek aventuras tão bem recebidas.
É importante mencionar o respeito que J.J. Abrams preserva em O Despertar da Força não apenas com o estilo e com os elementos clássicos que fizeram de Star Wars um fenômeno, mas também com a construção da história, que traz ao palco antigos personagens – e muitos deles, a exemplo de Han Solo (Harrison Ford), em funções realmente decisivas, e não em participações curiosas aqui ou ali. A nova história se constrói com a ajuda de figuras como Solo e introduz heróis que, além de funcionais para o drama e a ação de O Despertar da Força, representam uma grande vitória para o momento cada vez mais combativo à desigualdade que assola Hollywood. Sim, no filme de J.J. Abrams o protagonista é negro, e se reclamarem só um pouquinho logo ele se junta a uma mulher que, nos momentos finais, ainda é decisiva para que os conflitos sigam em frente. George Miller e sua Imperatriz Furiosa de Mad Max: Estrada da Fúria devem estar muito orgulhosos.
No que se refere a novas ideias para o desenvolvimento em si, O Despertar da Força talvez seja menos criativo do que os dois exemplares recentes de Star Trek. O zelo um tanto excessivo à fórmula clássica é compreensível dada a dimensão das expectativas, mas o forte apego às raízes da trilogia não deixa de eventualmente despertar a curiosidade em ver um Star Wars mais renovado na linguagem. Afinal, algumas saídas, apesar de muito eficientes, não são necessariamente criativas, como a criação de BB-8, mais um robozinho adorável que claramente vem para tomar a dianteira de R2-D2 e C-3PO. Essa é uma observação particular que em nada chega a prejudicar o excelente resultado alcançado pelo filme, que tem um clímax à altura, excelente doses de humor, uma técnica digna a seu favor e ainda um final surpreendentemente triste envolvendo um importante personagem. Não é porque os filmes anteriores decepcionaram: O Despertar da Força é mesmo a continuação que precisávamos.