Brooklin
There’s nothing you can do about it apart from endure it.

Direção: John Crowley
Roteiro: Nick Hornby, baseado no livro “Brooklyn”, de Colm Tóibín
Elenco: Saoirse Ronan, Julie Walters, Jim Broadbent, Domhnall Gleeson, Maeve McGrath, Brid Brennan, Eileen O’Higgins, Jane Brennan, Eileen O’Higgins, Peter Campion, Eva Birthistle, Emily Bett Rickards, Eve Macklin, Nora-Jane Noone, Samantha Munro
Brooklyn, Irlanda/Reino Unido/Canadá, 2015, Drama, 111 minutos
Sinopse: A jovem irlandesa Eilis Lacey (Saoirse Ronan) se muda de sua terra natal e vai morar em Brooklyn para tentar realizar seus sonhos. No ínicio de sua jornada nos Estados Unidos, ela sente falta de sua casa, mas ela vai tentando se ajustar aos poucos até que conhece e se apaixona por Tony (Emory Cohen), um bombeiro italiano. Logo, ela se encontra dividida entre dois países, entre o amor e o dever. (Adoro Cinema)

Viver a turbulência e as eventuais dores da transição para vida adulta é uma difícil missão dada a todos nós. Por outro lado, acompanhar os momentos de amadurecimento que fazem parte dessa fase da vida tem sido motivo de prazerosas experiências no cinema. Cito particularmente o que os britânicos realizam em torno do assunto, uma vez que é fácil conferir este recente Brooklin (ainda é inexplicável a tradução brasileira que trocou o y do título original por i) e imediatamente lembrar de outro título igualmente elegante e delicado realizado no Reino Unido: Educação, longa indicado ao Oscar de melhor filme e responsável por revelar Carey Mulligan. Os dois trabalhos falam sobre duas garotas que vivem o momento crucial em que é necessário abandonar a inocência para adentrar a vida adulta. Porém, por mais semelhantes que possam ser em suas temáticas, as duas obras trilham caminhos distintos: enquanto a Jenny de Educação se reconfigura a partir da (re)construção amorosa, a Eilis de Brooklin acha um novo sentido para sua vida quando busca em terras estrangeiras um lugar que realmente possa chamar de lar.
Com muita graça e sutileza, o diretor John Crawley conduz a protagonista Saoirse Ronan por uma história de raízes incrivelmente novelescas, mas nunca permite que o filme como um todo se contamine com o sentido pejorativo dessa definição. É certo que Brooklin, com exceção de seu desfecho, se estrutura a partir de infinitas previsibilidades (as mais evidentes são aquelas que colocam a nossa heroína em uma saia justa sobre qual terra ela realmente deve chamar de sua), o que não impede que Crowley dê um toque envolvente e encantador para o roteiro escrito pelo sempre carismático Nick Hornby. Brooklin resgata a inocência e a fé nas relações humanas, proporcionando ao espectador um certo alento em tempos que nossas interações se tornam cada vez mais superficiais e distantes com o advento da internet e seus aplicativos de relacionamentos. Crawley e Hornby conseguem fazer uma novela clássica sem testar a paciência do espectador, que, em questão de minutos, certamente se pegará torcendo pela protagonista. Isso também não deixa de ser mérito de uma maravilhosa Saoirse Ronan, que já era um arraso em Desejo e Reparação e agora vem para quebrar a regra de que crianças celebradas não voltam a arrebatar depois de adultas.
A parte técnica de Brooklin ajuda a conduzir o espectador pelas transformações da jovem Eilis, menos pela suposta investida do diretor em filmar a história com três diferentes movimentos de cores e mais por elementos discretamente eficientes, como os belíssimos figurinos desenhados por Odile Dicks-Mireaux (o mesmo de Educação!) que se destacam não somente pela beleza, mas por seguirem a lógica de que figurinos também precisam ser ferramentas narrativas. Todo esse apanhado de acertos, entretanto, não funciona de imediato: em seu primeiro ato, Brooklin é um filme apressado, quase bagunçado, e ainda um tanto perdido nos seus tons novelescos (a trilha de Michael Brook, por exemplo é frequentemente invasiva). Por sorte, pouco a pouco, o diretor coloca o filme nos trilhos e passa a apostar mais na delicadeza e no carisma, até porque a entrada do italiano Tony Fiorello (o adorável Emory Cohen) dá uma dimensão muito mais carinhosa para a nova vida da irlandesa Eilis nos Estados Unidos.
Inicialmente pré-produzido com Rooney Mara como protagonista (Saoirse Ronan foi a primeira escolha, mas era jovem demais para o papel, até Mara desistir do projeto), Brooklin não é um filme de grandes engenhosidades, o que não anula aquele que é o seu maior mérito: o de transformar uma história absurdamente simples em algo prazeroso. Se o diretor John Crowley realmente não faz coisas grandiosas com o texto de Nick Hornby, por outro lado é errado dizer que seu trabalho no longa é desprovido de personalidade. Afinal, não é qualquer profissional que consegue capitanear a ideia de algo tão simples quanto Brooklin e ainda assim fazer funcionar. É preciso sensibilidade para enxergar tudo isso e, principalmente, se despir do errado conceito de que no previsível não pode existir algo vivo e pulsante. Um belo momento do longa que coloca essa ideia abaixo é a cena final, que, com uma linda narração sobre como o sofrimento é etapa indesviável rumo a superação das adversidades da vida, tem tudo para fisgar o coração até dos mais céticos. Brooklin tem a pegada clássica de simplicidade e emoção que os britânicos nunca deixam morrer – e com toda razão.
A Bruxa
Wouldst thou like to see the world?

Direção: Robert Eggers
Roteiro: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens, Julian Richings, Wahab Chaudhry
The Witch: A New-England Folktale, EUA/Reino Unido/Canadá/Brasil, 2015, Terror, 92 minutos
Sinopse: Nova Inglaterra, década de 1630. O casal William e Katherine leva uma vida cristã com suas cinco crianças em uma comunidade extremamente religiosa, até serem expulsos do local por sua fé diferente daquela permitida pelas autoridades. A família passa a morar num local isolado, à beira do bosque, sofrendo com a escassez de comida. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece. Teria sido devorado por um lobo? Sequestrado por uma bruxa? Enquanto buscam respostas à pergunta, cada membro da família enfrenta seus piores medos e seu lado mais condenável. (Adoro Cinema)

O verdadeiro terror de A Bruxa se escancara logo no início do filme e, assim como no restante da produção, ele está longe de se configurar da maneira como estamos habituados a ver no gênero. O motivo não é nada associado a sustos: em plena década de 1630, uma família é expulsa de uma comunidade religiosa não por pecado ou voluptuosidade, mas sim pelo excesso de credo. Isso mesmo, excesso de religiosidade em 1630! Existe algo mais amedrontador do que isso? O afastamento dos personagens é o ponto de partida para a série de paranoias desse clã que, ao se isolar em uma paupérrima casa no meio da floresta, começa a viver situações estranhas que fogem de seu controle e a acreditar que aquele local está sendo pouco a pouco tomado por uma entidade sobrenatural. Não se engane, porém, ao pensar que A Bruxa é um terror clássico para ir ao cinema assistir com os amigos. Na realidade, é bem provável que seja o oposto: praticamente os sustos inexistem neste filme que preza muito mais por angustiantes conflitos psicológicos e por uma técnica que nos mergulha no silencioso descontrole contado aqui.
Dirigido pelo estreante Robert Eggers, A Bruxa não deixa de lembrar o clima de A Vila, aquele subestimadíssimo filme de época assinado por M. Night Shyamalan que também falava sobre uma comunidade isolada em uma floresta e cercada pelo medo, ou então A Fita Branca, celebrado longa de Michael Haneke também sobre fatos misteriosos em uma cidade alemã nos anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial . Só que aqui a situação é mais difícil porque falamos não de comunidades, mas de apenas seis pessoas que, dentro da própria casa, já vivem um mundo próprio e de distanciamento. Parece não existir mais ninguém no mundo além deles, o que aumenta consideravelmente o sufocamento. Para a família de A Bruxa, as regras devem ser seguidas à risca, a rotina é milimetricamente bem definida e a religião é utilizada como forma de opressão disfarçada de busca por boa índole. É claustrofóbico o convívio daquela família, ainda mais quando todos sufocam indomáveis mudanças interiores: enquanto a mãe pouco a pouco começa a culpar o marido pelo isolamento forçado a que foram submetidos, o único menino da família já começa a sentir os ímpetos de sua sexualidade ao não conseguir desviar o olhar dos seios da irmã. Tudo feito e sentido às escuras, já que não são necessário grandes pretextos para que trechos da Bíblia sejam evocados e que julgamentos surjam a partir de situações perfeitamente corriqueiras.
Por outro lado, é com extrema disciplina que Eggers, também autor do roteiro original, constrói a opressão religiosa do ambiente. Em momento algum A Bruxa se entrega a discursos fáceis sobre a palavra de Deus para que você compreenda a repressão do ambiente. No próprio suspense envolvendo o desaparecimento de um bebê e na ideia de uma força maligna entre a família, A Bruxa desenvolve tudo nas entrelinhas e em tom menor e mais lento, o que se apresenta como uma alternativa extremamente funcional que só reforça o clima intimidador já construído em todos os detalhes da exemplar parte técnica. Há de se tirar o chapéu para a ideia de Eggers e do fotógrafo Jarin Blaschke de filmar a história quase inteiramente em luz natural, pois isso faz com que realmente mergulhemos em uma época onde a luz inexistia e os ambientes eram iluminados apenas por velas e lampiões. E ter todo esse contexto no meio de uma floresta inabitada já é capaz de causar arrepios por si só. Por isso, não estranhe se você achar o filme escuro e frequentemente incômodo em suas cores. Afinal, isso é resultado direto da inteligente escolha de A Bruxa causar desconforto até mesmo em um primeiro contato com os olhos.
Não será difícil encontrar quem desdenhe o filme de Robert Eggers por ele não conter sustos. Ora, tal percepção não deixa de ser fruto dos olhos treinados pelo cinema preguiçoso de terror que Hollywood vem entregando nos últimos anos. Particularmente, fujo do gênero justamente pelas suas implausibilidades, pela sua falta de criatividade e principalmente pela eterna confusão de que susto é sinônimo de atmosfera bem construída. Claro que existem filmes autorais e de menor orçamento, mas eles praticamente não ganham lugar ao sol, e por isso é tão importante que uma obra pequena e assinada por um estreante como A Bruxa ganhe merecida repercussão (uma obra de terror ganhar prêmio de direção no Festival de Sundance não é pouca coisa!). Vamos ser justos e reconhecer exemplares comerciais que funcionam, como Invocação do Mal e A Morte do Demônio. Só que raros e especiais mesmos são obras como o espanhol [REC], o uruguaio A Casa e agora A Bruxa. Ainda assim, pelo que me vem à memória, o terror psicológico de Eggers em nada se compara a qualquer exemplar do gênero que tenha ganhado as telas nos últimos anos. É experiência conceitual e experimental, o que pode repelir muita gente. Mas quer saber? Se conseguir embarcar, é coisa de mestre mesmo.
Os vencedores do Oscar 2016

Excetuando a tão esperada consagração de Leonardo DiCaprio e os merecidos e justificados memes para os comentários lacônicos de Glória Pires na transmissão da Rede Globo, o Oscar 2016 dificilmente será lembrado por qualquer acontecimento. Nem mesmo a não tão surpreendente vitória de Spotlight – Segredos Revelados é para tanta comoção: mesmo que não estivesse na dianteira para ganhar o prêmio principal, o filme de Tom McCarthy tinha na bagagem o Screen Actors Guild Awards e o Critics’ Choice. Pela lógica, também era um filme acessível e fácil de chegar ao triunfo com o sistema de votação da categoria que elenca os votos por ordem de preferência. Ou seja, em uma escala de zero a dez (no caso, oito), é muito mais provável colocar Spotlight no topo do que filmes mais específicos como O Regresso e Mad Max: Estrada da Fúria, que, na lista dos adoradores de Spotlight, podem muito bem ter sido os últimos.
Nunca o Oscar reuniu tantas pessoas negras para premiar brancos, e podemos dizer que Chris Rock fez o tema de casa como apresentador ao tocar na ferida. O mais importante é que a própria Academia reconheceu o problema, pautando a discussão em inúmeras esquetes ao longo da cerimônia. Volto a repetir, por outro lado, que não adianta elogiar muito: já não é de hoje que o Oscar tenta compensar um erro para depois, logo em seguida, voltar a fazer bobagem. Lembram de quando chamaram Ellen Degeneres, lésbica assumida, para apresentar o prêmio após a polêmica derrota de O Segredo de Brokeback Mountain? Parece não ter tido grande efeito para que Carol, por exemplo, sequer chegasse ao prêmio principal este ano mesmo com uma lista que possibilite até dez indicados. E não vale dizer que A Garota Dinamarquesa vencendo atriz coadjuvante com Alicia Vikander (mais uma atriz que o midas da atuação Tom Hooper ajuda a premiar!) indica o contrário.
Quanto à distribuição de prêmios em si, no geral, a cerimônia foi menos surpreendente do que o esperado (ah, essa nossa ilusão de que tudo pode ser inesperado!). Mad Max papou merecidamente uma penca de prêmios técnicos, Alejandro González Iñárritu levou novamente o prêmio de direção por O Regresso e, com exceção de Mark Rylance (Stallone, apesar do afeto, não vinha matematicamente com força para ganhar, enquanto o ator de Ponte dos Espiões era o único da categoria indicado a todos os prêmios da temporada), as estatuetas principais foram para o favorito ou, então, para um runner-up. O que não dava mesmo para prever era a absurda vitória de melhor canção original para “Writing’s on the Wall” (depois daquela justíssima vitória de Adele por um tema de 007, é meio constrangedor que uma música tão inexpressiva quanto essa também tenha a estatueta pela franquia) e a vitória de Ex-Machina em efeitos visuais, algo que certamente quebrou o bolão de todo mundo. No mais, nos vemos novamente em 2017! Confira a lista de vencedores:
MELHOR FILME: Spotlight – Segredos Revelados
MELHOR DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
MELHOR ATRIZ: Brie Larson (O Quarto de Jack)
MELHOR ATOR: Leonardo DiCaprio (O Regresso)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Spotlight – Segredos Revelados
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A Grande Aposta
MELHOR FOTOGRAFIA: O Regresso
MELHOR FIGURINO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MIXAGEM DE SOM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MONTAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MAQUIAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Writing’s on the Wall” (007 Contra Spectre)
MELHOR TRILHA SONORA: Os Oito Odiados
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Ex-Machina: Instinto Artificial
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Amy
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Filho de Saul (Hungria)
MELHOR ANIMAÇÃO: Divertida Mente
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: A História de Um Urso
MELHOR CURTA-METRAGEM: Stutterer
MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO: A Girl in the River: The Price of forgiveness
O Regresso
As long as you can still grab a breath, you fight.

Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu e Mark L. Smith, baseado no livro “The Revenant”, de Michael Punke
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Lukas Haas, Paul Anderson, Kristoffer Joner, Joshua Burge, Duane Howard, Melaw Nakehk’o, Fabrice Adde, Arthur RedCloud, Christopher Rosamond, McCaleb Burnett
The Revenant, EUA, 2015, Drama, 156 minutos
Sinopse: 1822. Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) parte para o oeste americano disposto a ganhar dinheiro caçando. Atacado por um urso, fica seriamente ferido e é abandonado à própria sorte pelo parceiro John Fitzgerald (Tom Hardy), que ainda rouba seus pertences. Entretanto, mesmo com toda adversidade, Glass consegue sobreviver e inicia uma árdua jornada em busca de vingança. (Adoro Cinema)

Não deixa de ser um desafio conferir O Regresso e se focar naquilo que define o julgamento de qualquer filme: a sua unidade. Desde que passou a realizar um cinema de maior escala e estilo consideravelmente ambicioso em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), o mexicano Alejandro González Iñárritu tem desviado a atenção do espectador para detalhes que não deveriam resumir as suas obras. É óbvio que a curiosidade despertada por uma infinidade de planos-sequência no próprio Birdman, por exemplo, é uma forte sedução para as premiações (não à toa, Iñárritu ganhou os Oscars de filme, direção e roteiro), mas a verdade é que existe muito mais a ser dito sobre seu cinema, pelo menos nesse filme. Já O Regresso segue basicamente a mesma lógica, com a diferença de que, ao contrário do excepcional Birdman, essa aventura aos confins do primitivo humano em paisagens aterradoras talvez não diga muito além do indiscutível primor de técnica e estilo.
Se não bastasse o filme por si só ser imponente e nos fazer questionar como os atores filmaram em condições tão adversas ou como Iñárritu posicionou a câmera aqui ou ali, a equipe fez questão de, em todas as suas entrevistas, falar sobre como foi difícil realizar uma obra de tal magnitude. Enquanto Leonardo DiCaprio versa sobre como deixou até seu vegetarianismo de lado para comer carne com o objetivo de entrar por completo no personagem, o diretor expõe os desafios logísticos de gravar em diversos pontos do Canadá e da Argentina somente com luz natural. Isso quer dizer que, de um jeito ou de outro, é praticamente impossível ir à sessão de O Regresso sem se ater a tantas curiosidades. O que muitas pessoas esquecem, por outro lado, é que sofrimento não é necessariamente sinônimo de excelência para um filme como um todo. Assim, a experiência pode mesmo ser impressionante do ponto de vista técnico, mas onde está o nosso envolvimento mais íntimo com ela?
Contemplativo a ponto de emular obras como Árvore da Vida, especialmente no uso de trilha e fotografia para colocar personagens em comunicação com a natureza, O Regresso vai realmente impressionar pelo seu empenho técnico, e isso não há como ser negado. Desde o início, podemos tirar o chapéu para um nervoso ataque indígena coreografado em longas tomadas ou para o talento do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki ao capturar, com um realismo assustador, a agressiva imponência de uma natureza que torna qualquer ser humano insignificante. E até o fim o filme estupefata por seu ambicioso atrevimento de jogar Leonardo DiCaprio em infinitas correntezas, em quase enterrá-lo vivo ou até mesmo em fazê-lo dormir dentro de um cavalo morto. Os defensores dirão que Iñárritu quer falar sobre os extremos da primitividade humana em circunstâncias impossíveis (e isso é muito claro para qualquer espectador), mas mexer com o espectador ao encenar os constantes sofrimentos de nosso herói é fácil. O que falta é conexão emocional com a sua jornada pessoal, principalmente se tratando de um filme de quase três horas de duração.
O que não deixa de frustrar em O Regresso é ausência de uma maior consistência no roteiro escrito pelo próprio Iñárritu em parceria com Mark L. Smith. Talvez por alongar demais a adaptação parcial do livro The Revenant, escrito por Michael Punke, fica a sensação de que pouco acontece no filme, que é apenas uma simples e silenciosa história de um homem sobrevivendo para arquitetar uma vingança. A certa limitação do texto desaponta porque Birdman era um espetáculo completo: além de inventivo na técnica, conseguia falar inteligentemente sobre a indústria do teatro e do cinema e ainda proporcionar papeis ricos a seus atores. Em O Regresso o cenário é outro, já que Leonardo DiCaprio só pode se entregar mais de corpo do que de alma a um personagem de arco dramático limitadíssimo e Tom Hardy apenas repete – com excelência, é verdade – o tipo voraz, intempestivo e amedrontador de filmes como Guerreiro. Sendo assim, por mais que a trilha de Ryûichi Sakamoto e Alva Noto seja outro aspecto de destaque nessa viagem técnica admirável, O Regresso, infelizmente, nunca chega a ser um espetáculo de emoções.
Rapidamente: Anomalisa, Boi Neon, Ex-Machina, Maze Runner: Prova de Fogo e Ponte dos Espiões

Melancolia, sexo, nudez frontal e uma versão de cortar o coração de “Girls Just Wanna Have Fun”: Anomalisa é uma das animações mais diferentes e realistas que você vai ver em muito tempo.
ANOMALISA (idem, 2015, de Charlie Kaufman e Duke Johnson): Claro que são estilos extremamente distintos, mas Anomalisa não deve absolutamente nada a Divertida Mente, a animação mais unânime realizada em anos. Aqui o público é outro pois Anomalisa leva a assinatura de Charlie Kaufman, um diretor de ideias e formas atípicas. Em seu novo trabalho, ele aposta novamente em toda a rejeição à convencionalidade ao contar uma história melancólica. Para embarcar mesmo no clima, é preciso entender que a amargura com que Michael (voz de David Thewlis) enxerga cada aspecto do cotidiano não é gratuita ou uma mera atitude rabugenta, mas sim reflexo de uma vida já cansada, estagnada e ainda afetada por escolhas erradas do passado. É quando o nosso protagonista encontra Lisa (magnífica voz de Jennifer Jason Leigh) que o jogo muda: enquanto ele volta a desabrochar para a vida, ela, que não acredita que possa ser interessante para qualquer pessoa, começa a descobrir felicidades até então desconhecidas. Adulta, a animação encena sexo e nudez frontal com a maior naturalidade possível, alcançando momentos realmente tocantes em uma bela sequência dos personagens em um quarto de hotel (acredite: você nunca mais conseguirá ouvir Girls Just Wanna Have Fun, da Cindy Lauper, sem ter um nó na garganta). Pode até ser que Kaufman perca um pouco a mão no terço final, descambando demais para a loucura e deixando o coração de lado, mas, no geral, a impressão que Anomalisa deixa é uma das mais tocantes.
BOI NEON (idem, 2015, de Gabriel Mascaro): Boi Neon viajou de Toronto a Veneza e aqui no Brasil foi eleito o melhor filme pelo júri oficial do Festival do Rio em 2015. Ainda assim, não foi o suficiente para que ganhasse uma distribuição digna nos cinemas brasileiros, onde nem mesmo o circuito alternativo abraçou a obra com muita perseverança. A situação é compreensível, já que o filme de Gabriel Mascaro é mais sobre personagens do que sobre situações, e indo mais além: é uma história sobre um determinado grupo de pessoas em uma região muito específica. É uma pena, porém, que o público não tenha tido as devidas chances de conferir essa obra que desenha a questão da identidade de gênero com um pincel muito fino (é maravilhoso o personagem de Juliano Cazarré, que veste camisa rosa e é apaixonado por costura, mas que nunca balança a nossa certeza sobre a sua sexualidade), além de encenar o sexo de forma bastante transgressora (a longa transa com uma mulher grávida pode ser até mesmo angustiante para os espectadores mais sensíveis). Boi Neon funciona como cinema de autor, estudo de personagens e um fiel registro da geografia brasileira, especialmente a nordestina. Para seu público-alvo, é uma experiência bastante recompensadora.
EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Ex Machina, 2015, de Alex Garland): Chegou discretamente em home video aqui no Brasil, mas já tem uma carreira consolidada no circuito alternativo, o que deve lhe garantir o status de filme cult pelos próximos anos. O que existe de mais precioso neste primeiro longa dirigido por Alex Garland é a sua ambientação insegura. Apesar dos ambientes cheios de tecnologia e segurança, parece que sempre algo está prestes a acontecer na isolada casa em que estão os personagens. Muitas das figuras em cena corroboram essa sensação que também não deixa de assombrar Caleb (Domhnall Gleeson, um ator estranho e exótico à la Eddie Redmayne que certamente terá um grande papel no futuro), em especial a Ava de Alicia Vikander, uma vez que Oscar Isaac frequentemente escorrega nos exageros para construir um personagem que deveria ser cheio de dubiedades. As discussões já são antigas (os robôs podem ter humanidade? Um dia eles circularão entre nós sem que consigamos distingui-los?), mas o que quase derruba Ex Machina é mesmo o desfecho com furos indesculpáveis (ainda tento entender como se deu com tanta naturalidade a busca do helicóptero) e um joguinho super clichê de reviravoltas onde um personagem tenta mostrar ao outro quem é mais esperto.
MAZE RUNNER: PROVA DE FOGO (Maze Runner: The Scorch Trials, 2015, de Wes Ball): Maze Runner é puro entretenimento e faz questão de assumir isso, o que quer dizer que a saga dirigida por Wes Ball não tem muita preocupação em se levar a sério com metáforas políticas e sociais. O importante é a diversão. O primeiro filme era mais introdutório, e Prova de Fogo, a continuação, realmente abraça por completo a ideia de adrenalina. Por um lado, Maze Runner tem muito a ganhar com essa escolha, já que é muito melhor ser descompromissado do que pretensioso – e, para quem compartilha tal ideia, é fácil embarcar nas correrias incessantes e em sequências indiscutivelmente nervosas, como aquela em que uma personagem fica à beira de um abismo sustentada apenas por um chão de vidro prestes a rachar. Por outro, o filme se resume a uma correria sem fim, tornando-se uma espécie de videogame cansativo onde os personagens precisam enfrentar um novo vilão ou desafio a cada fase. No fim, Prova de Fogo é a clássica diversão de momento, e é bem provável que a sessão acabe e você já nem lembre direito do (pouco) que aconteceu em termos práticos.
PONTE DOS ESPIÕES (Bridge of Spies, 2015, de Steven Spielberg): Um cineasta como Steven Spielberg não deveria estar trilhando uma carreira tão desinteressante como a dos últimos anos. A aposta do diretor em filmes mais históricos e políticos como Cavalo de Guerra, Lincoln e agora Ponte dos Espiões certamente atrai uma ala mais tradicional, mas deixa muito a desejar na questão de trazer o diretor fazendo o seu melhor. No caso deste último, em particular, surpreende como não apenas a direção de Spielberg se limita a aproveitar com proeza o excelente design de produção e a envolvente fotografia mas também como o roteiro escrito pelos irmãos Coen em parceria com Matt Charman engana o espectador ao nunca entregar uma reviravolta sequer em uma história que sugere a possibilidade de novos rumos o tempo inteiro. Com seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, o previsível Ponte dos Espiões é bem produzido, mas excessivamente morno e linear. Nem uma obra complicada chega a ser, o que só aumenta a sensação de que realmente a pior sensação que um filme pode deixar é a de indiferença.