Rapidamente: Creed, Deadpool e Olhos da Justiça

Apesar da personalidade própria criada pelo diretor e roteirista Billy Ray, Olhos da Justiça tropeça por não ter a sutileza tão necessária à história e que consagrava o longa original.
CREED: NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, de Ryan Coogler): Para quem conferiu o contundente Guerreiro, de 2011, chega a ser um exercício de muita paciência ter que acompanhar Creed: Nascido Para Lutar até o final. Com relativa repercussão por ter quase dado um Oscar a Sylvester Stallone (o que seria injusto, diga-se de passagem, já que a presença dele aqui nada mais é do que uma nova confusão entre personagem e o ator na vida real, a exemplo de Mickey Rourke em O Lutador e Michael Keaton em Birdman), o filme dirigido por Ryan Coogler, em seu primeiro trabalho após a estreia em longas com o ótimo Fruitvale Station: A Última Parada, torna-se entediante por se enfronhar nos mais diversos clichês de pessoas que tentam recomeçar a vida através da luta. Não bastasse o herói desacreditado que precisa convencer um consagrado treinador aposentado de seu talento, Coogler ainda coloca na mistura uma doença terminal e muitos melodramas envolvendo um conturbado passado familiar do protagonista. Só que, sendo bem objetivo, faltam, no trabalho de Coogler, as sutilezas apresentadas por ele Fruitvale Station, e, em termos de luta e da relação dela com a própria vida, a emoção e a visceralidade de Guerreiro.
DEADPOOL (idem, 2016, de Tim Miller): Chegou aos cinemas fazendo muito barulho e ainda hoje ostenta uma admiração respeitável, considerando a média da maioria de filmes baseados em HQ’s. Tem sua graça, é verdade, mas Deadpool procura fazer humor de mais e história de menos, o que automaticamente faz com que o resultado caia na armadilha de dar risada de problemas que, lá no fundo, ele mesmo também cultiva. Às vezes excessivamente piadista, Deadpool é frágil em seus conflitos e pouco envolvente nos fatos, deixando a sensação de que o humor atravanca o fluxo da história. Para quem vai pelo mero entretenimento e não se preocupa tanto com o desenrolar de uma trama, o filme de Tim Miller cumpre sua cota de diversão, conseguindo, inclusive, fazer piadas mais ousadas e até refinadas, como aquela em que o protagonista afirma que beleza realmente é tudo na vida e que Ryan Reynolds é uma prova disso. “Ou você acha que ele fez sucesso por causa de suas ótimas interpretações?”, pergunta o personagem. É por momentos assim e por podermos ver uma Morena Baccarin mais marcante do que o habitual que Deadpool amortece seus problemas de coesão e diverte.
OLHOS DA JUSTIÇA (Secret in Their Eyes, 2015, de Billy Ray): O diretor e roteirista Billy Ray (indicado ao Oscar com a ótima adaptação de Capitão Phillips) optou pelo melhor caminho: conferir a Olhos da Justiça, refilmagem do celebrado filme argentino O Segredo dos Seus Olhos, uma identidade própria. São raríssimos os momentos em que o remake parece preocupado em meramente reproduzir o que deu certo na obra assinada por Juan José Campanella. Tal escolha traz ao longa até mesmo uma certa imprevisibilidade: afinal, Billy Ray seguirá à risca todos os acontecimentos do material original? Isso não é suficiente, entretanto, para que Olhos da Justiça se torne um filme particularmente envolvente. É frio e distante o resultado alcançado aqui, e a culpa é da americanização da história: nesse novo, tudo é muito policialesco e centrado em excesso na obsessão do protagonista em solucionar o crime em questão. Assim, Olhos da Justiça cai naquele clichê do homem com um sexto sentido a quem ninguém dá ouvidos apesar de toda e qualquer prova. O elenco é bom, mas também não há química entre uma insossa Nicole Kidman e um Chiwetel Ejiofor que, ao contrário de como foi com Ricardo Darín, é conduzido rumo a um caminho de emoções mais externas do que internas. Há quem aplauda a interpretação de Julia Roberts, que sempre foi subestimada fazendo dramas pós-Erin Brokovich, mas até ela desperta dúvidas: não seria sua aparição mais impactante do que as outras apenas pelo papel claramente mais dramático e pela falta de maquiagem e qualquer glamour? Longe de ser um completo desastre como prometia, Olhos da Justiça, por outro lado, não impressiona – e, infelizmente, desaparece facilmente da memória com o passar dos dias.
Fogo no Mar

Direção: Gianfranco Rosi
Roteiro: Gianfranco Rosi
Elenco: Samuele Caruana, Giuseppe Fragapane, Pietro Bartolo, Maria Costa, Francesco Mannino, Maria Signorello, Samuele Pucillo, Mattias Cucina
Fuocoammare, Itália/França, 2016, Documentário, 108 minutos
Sinopse: O documentário captura a vida da ilha italiana de Lampedusa. Na costa sul da Itália, o local se tornou linha de frente na crise de imigração da Europa, sendo manchete mundial nos últimos anos por ser o primeiro porto de escala para centenas de milhares de imigrantes da África e do Oriente Médio que tentam fazer uma nova vida no continente europeu. (Adoro Cinema)

Um dos registros mais impactantes de Fogo no Mar está no rosto de um homem que literalmente chora sangue. Ele acaba de ser retirado de uma barca clandestina com centenas de outros africanos que seguiam rumo à ilha italiana de Lampedusa, ponto muito comum entre imigrantes que procuram chegar ao continente europeu. A barca estava lotada de pessoas que, durante dias, não comiam ou bebiam e se submetiam a temperaturas e situações precárias para cruzar ilegalmente o Mar Mediterrâneo rumo a terras mais promissoras. Como consequência, esses africanos queimam suas peles, morrem de desidratação e, a exemplo da cena citada, mutilam sua saúde chegando até mesmo a produzir lágrimas de sangue. Curiosamente, no bom sentido, Fogo no Mar não se concentra nessa abordagem: o documentário assinado por Gianfranco Rosi pode até ter momentos visualmente impactantes, mas, na realidade, seu foco privilegia a vida na ilha de Lampedusa e como o cotidiano dos moradores é eventualmente afetado por essa crise imigratória, contrapondo-se à ideia de acompanhar a jornada dos africanos, uma escolha que seria feita por quatro entre cinco cineastas.
Melhor filme no Festival de Berlim 2016 e classificado pela presidente do júri Meryl Streep como uma obra “urgente, imaginativa, necessária e que instiga o nosso envolvimento e a nossa ação”, Fogo no Mar é defendido por seu diretor como um exercício de criação. Para Rosi, vivemos tempos de excesso de informações, cabendo ao cinema seguir um caminho oposto e ser uma plataforma de transgressão, onde a exposição, seja de fatos ou personagens, não deve ser fator preponderante para a excelência de um documentário. O cinema, dessa forma, deve se utilizar de suas ferramentas para nos imergir em algo novo. Bravo, sr. Rosi! Partindo desse conceito, a câmera do longa-metragem simplesmente observa os personagens, nunca fazendo com que eles sentem em uma cadeira para falar diretamente ao espectador. Em quase duas horas, vemos de perto os dias de uma senhora que, cuidando da casa, ouve, entre uma ou outra de suas músicas italianas favoritas, as notícias envolvendo as tragédias dos imigrantes, ou, então, os de um médico que atende todos os refugiados africanos. A figura mais curiosa, contudo, é um garotinho muito carismático que vive suas estripulias de criança na ilha. Mesmo não parecendo, ele é importante para a narrativa pois deixa a balança muito equilibrada: o sopro de bom humor trazido pelo menino é fundamental para que Fogo no Mar não se torne uma experiência de pesada absorção.
Não deixa de causar um certo estranhamento a subversão do formato ou a própria contemplação desse ritmo tão comum ao cinema europeu (estamos falando de uma coprodução Itália/França), só que a experiência é especial justamente por sua configuração atípica. Visualmente, Rosi, que assina a inteligente fotografia do documentário, também cumpre a proposta de impactar o espectador, mas de forma muito sábia, já que ele prefere guardar somente para os momentos finais os registros mais detalhados da captura dos imigrantes. É a partir dessa parte que vem o depoimento mais marcante do filme: o do médico que nega veemente a ideia de que, por ser um profissional da saúde, já teria se acostumado a testemunhar as tristes condições dos refugiados. “Como se habituar à imagem de uma mãe que deu luz ao filho durante a viagem e chega à Lampedusa com o recém nascido ainda pendurado pelo cordão umbilical?”, pergunta o personagem. Rosi não realizou um filme fácil em tema, forma e ritmo, mas a consagração em Berlim atesta a inteligência do Festival ao reconhecer uma obra que é muito consistente em um gênero pouco celebrado ao redor do mundo. O diretor, que só falta conquistar Cannes para ter a tríplice coroa dos festivais mais importantes de cinema (ele venceu Veneza em 2003 com Sacro GRA), diz que só realizará mais um filme e, depois disso, se dedicará exclusivamente a um de seus maiores sonhos: o mundo acadêmico. Haja sabedoria para encerrar uma história no auge – e isso, julgando por Fogo no Mar, Rosi parece ter de sobra.
Conspiração e Poder
Courage.

Direção: James Vanderbilt
Roteiro: James Vanderbilt, baseado no livro “Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power”, de Mary Mapes
Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quais, Elisabeth Moss, Topher Grace, Bruce Greenwood, John Benjamin Hickey, Stacy Keach, Dermot Mulroney, Rachael Blake, Andrew McFarlane
Truth, EUA/Inglaterra, 2015, Drama, 125 minutos
Sinopse: A produtora da CBS Mary Mapes (Cate Blanchett) suspeita que o presidente George W. Bush usou a influência de seu sobrenome e acionou seus contatos para não combater na Guerra do Vietnã. Com a ajuda de uma fonte, ela consegue os documentos necessários para a comprovação da denúncia e leva a história ao ar no programa 60 Minutes, apresentado pelo lendário Dan Rather (Robert Redford). Ao invés de abalar a campanha de reeleição de Bush, no entanto, o que se vê após a exibição é um processo de descrédito das informações que coloca em xeque todo o trabalho da equipe de reportagem. (Adoro Cinema)

Timing é tudo na vida, e Conspiração e Poder é uma prova disso. Afinal, o filme de James Vanderbilt, roteirista de Zodíaco e que aqui assina seu primeiro trabalho como diretor, sofre inevitáveis comparações por ser lançado logo após o sucesso de Spotlight – Segredos Revelados, o grande vencedor do Oscar 2016. A temática é a mesma, o formato idem e até o teor de jornalismo investigativo se repete. Fora as semelhanças temáticas, vem aquele cansaço de ter que assistir um filme com a mesma proposta de estrutura tão cedo. Spotlight ainda está fresco demais na memória, o que nos impede de ver Conspiração e Poder com um olhar mais apurado e também constatar que, caso fosse lançado em outra época, o longa estrelado por Cate Blanchett certamente teria o tempo e os espectadores mais ao seu lado.
Em contrapartida, vamos dar os louros a quem merece. Mesmo com tropeços, Conspiração e Poder não abraça aquilo que mais incomodava em Spotlight: a confiança excessiva no texto e a opção por preterir outras ferramentas cinematográficas em detrimento disso. Aqui, Vanderbilt se preocupa sim em entregar um roteiro bem costurado, mas também tem a consciência de que o uso da trilha, por exemplo, amplia os sentidos da história. Pode ser um tanto cafona ver Cate Blanchett chorando em slow motion ao receber uma má notícia por telefone, mas certas passagens de tempo e espaço ficam mais dinâmicas e envolventes com a dramatização dos fatos a partir da técnica. Conspiração e Poder também não esquece que jornalista tem vida pessoal e novamente sai ganhando ao mostrar uma protagonista tão submersa no trabalho que não consegue nem completar direito a simples tarefa de colocar leite e sucrilhos na mesa para que seu filho faça uma refeição matinal.
O problema é que Conspiração e Poder não se engrandece com os fatos investigados pelos jornalistas da equipe do 60 Minutes, programa televisivo da CBS liderado pela produtora Mary Mapes (Blanchett). Enquanto os temas igreja e pedofilia faziam toda a diferença para envolver e impactar em Spotlight, uma específica investigação envolvendo um conturbado passado militar do ex-presidente dos Estados Unidos George Bush não dá ao filme de Vanderbilt o gás que merecia. E a razão do tema não surtir grande efeito é muito simples: toda a busca aconteceu nas eleições estadunidenses de 2004, período que não é devidamente contextualizado pela história. Bush supostamente havia usado de influências para não combater na Guerra do Vietnã, e tal desconstrução da reputação do presidente faria toda a diferença para os eleitores da época, principalmente por se tratar de um assunto militar, algo tão enraizado no cotidiano dos Estados Unidos. No entanto, pouco se fala (e muito menos se mostra) sobre aquele período político.
Em Conspiração e Poder, tudo é visto exclusivamente de dentro da redação, o que deixa a errada impressão de que aquela é apenas mais uma importante mas corriqueira reportagem do programa. Ou seja, toda a cruzada dos personagens para confirmar as suspeitas de que Bush havia fugido da missão de ir ao Vietnã parece não ter tanta influência assim até o momento em que o resultado vai ao ar e passa a sofrer uma série de tentativas de descrédito por parte dos simpatizantes do presidente em busca de reeleição. Com isso, o filme ganha uma maior força cinematográfica e jornalística, discutindo importantes questões como o fato de telejornais, apesar de influentes, não renderem dinheiro até determinada época da profissão ou sobre até que ponto um jornalista deve ter seu trabalho analisado a partir de suas posições políticas. Os processos cotidianos da profissão também são retratados corretamente pelo roteiro, que repete o belo serviço de pontuar muito bem o que cabe ou não a um jornalista em uma complicada investigação repleta de interesses.
A única beneficiada pela aproximação temporal entre Conspiração e Poder e Spotlight é Cate Blanchett, pois aqui ela pode reafirmar sua grande versatilidade. Como Mary Mapes, a atriz se distancia do tipo socialite cheia de classe que apresentou em filmes como Blue Jasmine e Carol para criar uma personagem que em nada se assemelha às citadas, seja na entonação de voz ou em qualquer gesto. Blanchett compreende a força, a vulnerabilidade e a competência de uma mulher comum que claramente sabia o que estava fazendo em uma profissão que viria a abandonar em 2004 após os eventos do filme. Ela rouba por completo a cena de um elenco onde Robert Redford não tem muito a fazer além de emprestar seu inegável prestígio a um personagem que exigia esse simbolismo e onde coadjuvantes pouco acrescentam à narrativa (ainda fazendo comparações com Spotlight, Elisabeth Moss é apenas a Rachel McAdams da vez que só está ali para fazer perguntas). Blanchett é, pelo menos até agora, a força de um longa tradicional e pouco inventivo, mas que nunca chega a parecer cópia. Conspiração e Poder é apenas vítima do acaso. Quem sabe o tempo não conseguirá lhe fazer alguma justiça?
A Juventude
You say that emotions are overrated, but that’s bullshit. Emotions are all we’ve got.

Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino
Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda, Alex Macqueen, Madalina Diana Ghenea, Loredana Cannata, Gabriella Belisario, Alex Beckett, Nate Dern, Chloe Pirrie, Tom Lipinski
Youth, Itália/França/Suíça/Reino Unido, 2015, Drama, 124 minutos
Sinopse: Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel), dois velhos amigos com quase 80 anos de idade cada, estão passando as férias em um luxuoso hotel. Fred é um compositor e maestro aposentado e Mick é um cineasta em atividade. Juntos, os dois passam a se recordar de suas paixões da infância e juventude. Enquanto Mick luta para finalizar o roteiro daquele que ele acha que será seu último grande filme, Fred não tem a mínima vontade de voltar à música. Entretanto, muita coisa pode mudar. (Adoro Cinema)

Os personagens de A Juventude estão em fuga. Alguns propositalmente e outros por sorte, todos se refugiam em um luxuoso hotel nos alpes suíços, onde o silêncio reina e a ordem é relaxar. Fred Ballinger (Michael Caine), grande compositor agora aposentado, tenta escapar de seu próprio passado glorioso: ninguém parece entender que o artista responsável pelas famosas Canções Simples tem como único desejo curtir a vida depois de intensas décadas de trabalho ao invés de conduzir novamente uma orquestra ou escrever uma autobiografia encomendada por editores franceses. Assistente de seu pai, Lena Ballinger (Rachel Weisz) é abandonada pelo marido e agora precisa seguir em frente, abandonando sua vida passada. Já Mick (Harvey Keitel), que se orgulha de ser um diretor bem sucedido de atrizes e ter revelado a intérprete vencedora de dois Oscars Brenda Morel (Jane Fonda), escreve um novo filme para, como logo descobrimos, tentar se distanciar de uma carreira que, nos últimos anos, vem sido massacrada por público e crítica. Por fim, existe Jimmy Tree (Paul Dano), ator jovem e sensível sempre lembrado por um dos papeis de sua carreira que mais detesta – e que, agora, com um novo projeto, quer justamente deixar uma outra lembrança para o público que não seja a do tosco robô com uma roupa de cem quilos que lhe lançou popularmente.
Como se percebe, A Juventude, exibido em competição no Festival de Cannes de 2015, é um filme que abrange os dilemas mais diversos de gerações bastante distintas: a velhice se contrasta com a juventude, a beleza de uma Miss Universo provoca a suposta superioridade de um homem das artes, a experiência bate de frente com o frescor dos principiantes, a decadência é questionada pelo sucesso e a vida pessoal reivindica o tempo consumido pelo trabalho. É preciso maturidade para não transformar esse caldeirão temático em uma mistura dispersa e sem consistência, e maturidade o consagrado diretor italiano Paolo Sorrentino tem de sobra. Ele, que recentemente levou mais um Oscar de filme estrangeiro para a Itália com A Grande Beleza, agora se refugia nas belas paisagens da Suíça para contemplar cinematograficamente a diversidade emocional da vida com esse belo filme estrelado pelos veteranos Michael Caine e Harvey Keitel. O ritmo adotado é pausado e, apesar de um ou outro momento mais explícito (o monólogo de Rachel Weisz durante uma massagem é um deles), tudo se desenvolve bastante por imagens e por momentos silenciosos eventualmente cortados por observações certeiras. A Juventude não escorrega ao abraçar todos os seus personagens, e faz com que todos eles se tornem figuras próximas e perfeitas em suas imperfeições.
Não procuro medir meu entusiasmo para falar sobre a beleza com que Sorrentino, também autor do roteiro, transforma momentos pequenos em grandes, como um simples passeio na floresta onde Caine e Keitel dão uma daquelas aulas de sobriedade e uso das palavras que só a boa experiência de atores como eles pode trazer. Tudo não deixa de abrir margem para a crítica de que este é um filme sobre “os ricos também sofrem” (afinal, não é todo mundo que pode reavaliar a vida em um SPA em cenários de cair o queixo na Suíça), mas o que é discutido em A Juventude é sim universal. Sorrentino filma com elegância (e isso não tem nada a ver com as paisagens que por si só já ajudam), transformando a experiência em algo sensorial: a música, por exemplo, se mostra ferramenta envolvente desde a abertura com a apresentação de You Got the Love, da Retrosettes Sister Band, até clássicos de Debussy e Stravinsky, enquanto as imagens se revelam até emocionantes, como na brincadeira envolvendo um monge que diz levitar durante a meditação.
Michael Caine é mesmo maravilhoso como o maestro que, por razões pessoais, recusa o convite até mesmo da Rainha da Inglaterra para voltar a tocar, mas, em um filme tão completo sobre o choque de gerações, é preciso dar créditos também a outros dois atores essenciais nessa jornada: o inspirado Harvey Keitel, que, na única cena de Jane Fonda em particular, faz uma excelente dupla com a atriz a partir de um texto sobre as possibilidades de como conduzir uma carreira de cinema na terceira idade, e o sempre ótimo Paul Dano, que não cansa de surpreender como um ator emotivo sem precisar dizer uma palavra sequer – e, se o tempo lhe fizer justiça, ele tem tudo para ser tão grande quanto os atores com quem contracena neste filme. Todos dão o tom certo a A Juventude, que se encerra naquele que é possivelmente o momento mais tocante da história: quando finalmente ouvimos por completo a bela Simple Song #3 (indicada ao Oscar 2016 de melhor canção original). Em certo momento, um jovem garoto que está aprendendo a tocar violino diz que seu professor lhe entregou a canção justamente por ela ser ideal para principiantes. Mas, como bem descobrimos pela fala do menino e por tudo que a história mostra, não é porque a simplicidade reina que a beleza está ausente. Sendo assim, não tenho dúvidas de que quero mais canções simples como A Juventude pela frente.
O Quarto de Jack
– You’re gonna love it.
– What?
– The world.

Direção: Lenny Abrahamson
Roteiro: Emma Donoghue, baseado no livro “Room”, de autoria própria
Elenco: Jacob Tremblay, Brie Larson, Joan Allen, Sean Bridgers, Matt Gordon, William H. Macy, Randal Edwards, Wendy Crewson, Sandy McMaster, Amanda Brugel, Joe Pingue, Cas Anvar
Room, Irlanda/Canadá, 2015, Drama, 118 minutos
Sinopse: Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay) vivem isolados em um quarto. O único contato que ambos têm com o mundo exterior é a visita periódica do Velho Nick (Sean Bridgers), que os mantém em cativeiro. Joy faz o possível para tornar suportável a vida no local, mas não vê a hora de deixá-lo. Para tanto, elabora um plano em que, com a ajuda do filho, poderá enganar Nick e retornar à realidade. (Adoro Cinema)

Presidindo o júri do Festival de Berlim em 2016, Meryl Streep recomendou aos seus colegas avaliadores que fossem de peito aberto às sessões ao adotar a seguinte tática: embarcar em cada um dos filmes concorrentes sabendo o mínimo possível sobre as suas histórias e evitando até mesmo entrar em contato com o catálogo oficial do evento. É uma missão árdua quando a internet nos introduz informações mesmo quando não estamos atrás delas. Não estamos no Festival de Berlim, mas, no caso específico de O Quarto de Jack, faz toda a diferença adotar o conceito da presidente Meryl Streep e assistir ao filme completamente no escuro. No entanto, isso não se relaciona em nada com o fato da obra assinada por Lenny Abrahamson ser repleta de reviravoltas. O que acontece é que o drama da jovem Joy (Brie Larson, vencedora do Oscar 2016 de melhor atriz por seu desempenho aqui) se torna muito mais imersivo quando nos coloca na pele do pequeno Jack (Jacob Tremblay). Afinal, O Quarto de Jack se engrandece toda vez que vemos o mundo com os mesmos sentimentos de surpresa do garoto que dá título ao filme.
Não é de hoje que narrar uma tragédia ou dramas complexos a partir do ponto de vista da inocência pode resultar em experiências para lá de emocionantes. Lembram da difícil infância dos quatro garotinhos de Em Busca da Terra do Nunca que ganha um novo sentido quando J.M. Barrie (Johnny Depp) entra em suas vidas com o poder transformador da literatura? Pois a situação de O Quarto de Jack é muito mais delicada, e por isso é tão importante você acompanhar, junto ao personagem do título, cada informação que Abrahamson, em parceria com a roteirista e escritora do livro original Emma Donoghue, lança para que possamos reinterpretar todos os significados de um ambiente inicialmente inidentificável. Sabemos logo de cara, claro, que O Quarto de Jack é uma ode ao amor materno, mas é questão de tempo para que ele também se revele – e de forma ainda mais tocante – como a afirmação da ideia de que filhos podem ser uma força de amor e segurança igualmente poderosa para qualquer mãe. Nesse sentido, o roteiro de Donoghue é perfeito ao não depender da revelação sobre o que realmente é o tal quarto de Jack para que o espectador consiga se conectar emocionalmente com os personagens desde o princípio.
Outro ótimo exemplar do cinema independente, O Quarto de Jack não tropeça nos obstáculos de ter que encenar praticamente metade de sua história em um único ambiente. A mise-en-scène e o próprio design de produção colaboram para que nos tornemos íntimos dos protagonistas e para que o filme de Lenny Abrahamson se torne um mistério até mesmo nos detalhes. Não deixem de se atentar para como a decoração de set e até mesmo as vestimentas dos personagens nunca acusam nem mesmo o tempo ou o espaço em que O Quarto de Jack se passa: assim como Joy e seu filho podem estar em um espaço urbano contemporâneo, não deixa de ser aceitável a ideia de ambos estarem em um ambiente subterrâneo durante uma guerra. Obviamente todo esse contexto é um belo presente para qualquer ator brilhar, e a dupla formada por Brie Larson e Jacob Tremblay pega o espectador de jeito. Ele, em especial, é quem detém o brilho do filme por ser um excelente ator e principalmente por ter a seu favor uma história que depende inteiramente de seu personagem. Não há qualquer construção dramática que Brie Larson faça que não seja consequência direta do que Tremblay faz em cena, e por isso é um crime ela ter faturado todos os prêmios da temporada enquanto o pequeno tenha precisado se contentar apenas com uma indicação de melhor ator coadjuvante (?!) ao Screen Actors Guild Awards.
Ao chegar em sua metade, O Quarto de Jack dá uma completa guinada, tornando-se bastante diferente em comparação ao que vinha construindo. Apesar das necessárias discussões propostas, não deixa de ser um tanto frustrante constatar que, ao perder a circunstância do quarto em questão, o longa passa a ser apenas um (bom) drama sobre a reconstrução de duas vidas. Ao transferir sua geografia, O Quarto de Jack não deixa de se fragilizar, o que fica evidente em descuidos um tanto imperdoáveis, como a entrada do personagem de William H. Macy. Bom ator que é, ele não precisava estar aqui com um papel tão esquecível, pouco aproveitado e que quase não acrescenta nada à história. Em contrapartida, é bom ter uma Joan Allen eficiente e afetuosa em cena. Se o último terço do filme dá mais chances a Brie Larson, é Jacob Tremblay quem continua sendo mesmo a força do todo, compensando eventuais deslizes ou obviedades do roteiro. Por sua ótima atuação e por seu personagem plenamente compreendido pela equipe como o norte da produção, Tremblay merece todos os aplausos – e olha que não é missão fácil brilhar em um filme que já tem a emoção como uma grande marca.