Cinema e Argumento

Animais Fantásticos e Onde Habitam

So you’re the guy with the case full of monsters?

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Direção: David Yates

Roteiro: J.K. Rowling

Elenco: Eddie Redmayne, Dan Fogler, Colin Farrell, Ezra Miller, Samantha Morton, Zoë Kravitz, Jon Voight, Katherine Waterston, Alison Sudol, Carmen Ejogo, Kevin Guthrie, Johnny Depp, Gemma Chan

Fantastic Beasts and Where to Find Them, EUA/Reino Unido, 2016, Aventura, 133 minutos

Sinopse: O excêntrico magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega à cidade de Nova York levando com muito zelo sua preciosa maleta, um objeto mágico onde ele carrega fantásticos animais do mundo da magia que coletou durante as suas viagens. Em meio a comunidade bruxa norte-america, que teme muito mais a exposição aos trouxas do que os ingleses, Newt precisará usar todas suas habilidades e conhecimentos para capturar uma variedade de criaturas que acabam fugindo. (Adoro Cinema)

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Colosso literário e cinematográfico, a saga Harry Potter teve trajetória singular por acompanhar o seu público ao longo dos anos. Enquanto as livrarias receberam a história assinada por J.K. Rowling durante uma década, o cinema coincidentemente atravessou o mesmo número de anos ao produzir suas adaptações, o que permitiu que tanto a escritora quanto os diferentes cineastas que capitanearam os filmes desbravassem os diferentes perfis de leitores e espectadores que embarcaram na história ainda crianças e se despediram dela já na vida adulta. Se regular a batida de uma trama acompanhando as rápidas transformações de uma geração foi uma difícil tarefa cumprida com proeza por Harry Potter, a situação é mais difícil agora com Animais Fantásticos e Onde Habitam. Afinal, qual é o diálogo a ser estabelecido com um público agora adulto mas para sempre nostálgico com o material que marcou milhões de infâncias e adolescências? David Yates, que dirigiu os quatro últimos filmes de Harry Potter, não titubeou: novamente no comando do universo bruxo, o britânico reforça suas habituais escolhas para uma história que procura ser muito mais pessoal do que grandiloquente.

Há feitiços, criaturas imensas e inúmeras possibilidades imaginativas em Animais Fantásticos e Onde Habitam, mas esse é um filme centrado em pessoas. A caça quase literal às bruxas em uma Nova Iorque dos anos 1920 dá o tom para o conflito coletivo, tornando-se a porta de entrada para a agora roteirista J.K. Rowling – que também produz o filme – se atentar a jornadas particulares. Da personalidade tímida mas inteligente do protagonista Newt Scamander (Eddie Redmayne) ao sofrido arco dramático de Credence (Ezra Miller), Rowling dá uma certa desacelerada na ação para apostar no drama e no humor dos personagens. Se na saga Harry Potter seria estranho constatar tantos holofotes para uma figura como Jacob Kowalski (Dan Fogler, ator com excelente tino para o humor), aqui descobrimos que sua aparente função de alívio cômico se transforma em puro afeto quando, ao final, é possível até mesmo se emocionar com uma cena protagonizada por ele sob uma simbólica chuva. Neste sentido, Rowling preservou no cinema aquela que é uma de suas maiores qualidades como escritora: a de criar personagens envolventes e funcionais mesmo quando, em um primeiro julgamento, eles possam parecer descartáveis ou até mesmo rejeitáveis.

Ironicamente, é por ter J.K. Rowling como única roteirista que Animais Fantásticos e Onde Habitam se estagna. Irrepreensível ao conceber universos e tecer metáforas para suas tramas e personagens, Rowling, no entanto, pouco acerta no desdobramento das bases que cria. Fazer literatura é bem diferente de fazer roteiros para o cinema, e o que acontece nesse filme é que todo o contexto é promissor, mas a sensação de que nada realmente se cumpre é eterna. Se por um lado é louvável a opção de Rowling por se afastar ao máximo da identidade de Harry Potter, por outro é claro que a escritora-roteirista é frágil ao conceber um novo universo com a dinâmica necessária para as telas. Ainda temos quatro filmes pela frente, o que, ao invés de amortecer a falta de consistência da história desse primeiro volume, apenas causa desconfiança, já que Animais Fantásticos e Onde Habitam é um filme que se resolve sozinho com início, meio e fim bem definidos, deixando alguns ganchos, é verdade, mas nenhum deles particularmente sólido para que, por ora, se justifiquem tantas outras sequências que estão por vir. É importante ter em mente que a própria Rowling continuará assinando os roteiros, e esse controle, como já se percebe no primeiro volume, pode ser um verdadeiro empecilho para uma plataforma que exige domínio de um outro tipo de linguagem que não é a especialidade da britânica. Afinal, é preciso reconhecer: Harry Potter não foi um hit cinematográfico somente em função dos livros que deram origem à saga. A transposição para a tela grande também foi peça fundamental para toda essa magia.

O controle quase excessivo de Rowling pelo material obviamente limita o trabalho de um diretor como David Yates, que faz “cinemão”, mas, ainda assim, procura sempre entregar algo mais sofisticado e de personalidade. Há um descompasso entre os dois que prejudica a experiência, uma vez que é frequente a tentativa de Yates de tentar compensar os vazios do texto com apelo gráfico (a história não precisava de uma nuvem negra de CGI destruindo toda uma cidade com tanto barulho), endossando a ideia de que Rowling sabe criar o entorno com bons personagens e simbologias, enquanto o centro patina e precisa ser compensado com ferramentas cinematográficas que, na verdade, não deveriam ter a responsabilidade de preencher lacunas e sim complementar o que se vê em termos de movimentos narrativos. A falta de um verdadeiro roteirista de cinema dá a Animais Fantásticos e Onde Habitam um ritmo bastante irregular, onde uma grande história fica só na promessa e um diretor competente pouco consegue criar com o material rasteiro, já que discussões como a do protagonista querer provar a todos que os animais devem ser salvos e não exterminados são constantemente esquecidas. Ainda assim, Yates novamente é impecável ao se utilizar do design de produção sempre impressionante de Stuart Craig e da boa fotografia agora assinada por Philippe Rousselot (vencedor do Oscar por Nada é Para Sempre em 1993).

Quem também ajuda a compensar os defeitos e confere grande diversão e carisma a Animais Fantásticos e Onde Habitam é o elenco encabeçado por Eddie Redmayne, que, segundo Rowling, foi, desde o início, a primeira e única escolha para o papel do protagonista. Amplamente detratado pelo Oscar de melhor ator que levou por A Teoria de Tudo e por sua performance em A Garota Dinamarquesa (gosto do britânico em ambos), Redmayne prova aqui que suas celebrações não vieram à toa nos últimos anos: com doçura, cria um herói quase sensível, frágil e desengonçado, aproximando seu Newt Scamander do público como uma figura verossímil e carismática. Ele ainda se sobressai por não se deixar ofuscar pelo surpreendente elenco de coadjuvantes, que traz Ezra Miller e Colin Farrell com certeiras personificações e a sensível Katherine Waterston, que, assim como Redmayne, opta por trazer a sua Tina para um plano mais realista. Todos eles nos remontam à tese de que o longa é um relato primeiro sobre pessoas e depois sobre espetáculos visuais. Quando fala, por exemplo, sobre amores, afetos, preconceitos e intolerância, seja individualmente ou no coletivo, J.K. Rowling não chuta uma bola fora da rede. O que falta mesmo é alguém para compensar as arestas deixadas por ela e consolidar a sensação de que, apesar dos vazios, Animais Fantásticos e Onde Habitam escapa do oportunismo e tem sim coisas diferentes a dizer.

A Garota no Trem

I want to start my life over again.

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Direção: Tate Taylor

Roteiro: Erin Cressida Wilson, baseado no livro homônimo de Paula Hawkins

Elenco: Emily Blunt, Justin Theroux, Rebecca Ferguson, Haley Bennett, Allison Janney, Edgar Ramírez, Lisa Kudrow, Luke Evans, Cleta Elaine Ellington, Rachel Christopher, Gregory Morley

The Girl on the Train, EUA, 2016, Drama/Suspense, 112 minutos

Sinopse: Rachel (Emily Blunt), uma alcoólatra desempregada e deprimida, sofre pelo seu divórcio recente. Todas as manhãs ela viaja de trem de Ashbury a Londres, fantasiando sobre a vida de um jovem casal que vigia pela janela. Certo dia ela testemunha uma cena chocante e mais tarde descobre que a mulher está desaparecida. Inquieta, Rachel recorre a polícia e se vê completamente envolvida no mistério. (Adoro Cinema)

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É preciso cautela na hora de acusar um filme de plágio, seja ele temático ou até mesmo estético, porque são muitas as variáveis e as coincidências envolvendo as produções audiovisuais, principalmente em tempos de democratização das tecnologias e das plataformas on demand. No entanto, existem casos específicos em que fica difícil defender tal ideia tamanha a infinidade de semelhanças entre uma obra em questão e outras realizadas previamente. A Garota no Trem, que adapta o best-seller homônimo de Paul Hawkins, se encaixa nesse grupo ao tentar reproduzir, em estilo e narrativa, tudo o que deu certo no fantástico Garota Exemplar, de David Fincher. Só que faltou uma atenção maior do diretor Tate Taylor e da roteirista Erin Cressida Wilson para o fato de que o texto original de Paula Hawkins está bem longe de ser tão provocativo e sofisticado quanto o de Gillian Flynn para o filme estrelado por Rosamund Pike em 2014.

Ao tratar novamente do desaparecimento de uma mulher suburbana em meio a um casamento aparentemente feliz mas frequentemente conturbado, A Garota no Trem procura se cercar, como se já não bastasse a aproximação temática, de todos os elementos estéticos de Garota Exemplar: da trilha de Danny Elfman (como um veterano como ele se entrega ao mero exercício da cópia?) à fotografia assinada por Charlotte Bruus Christensen (que trabalhou com ninguém menos do que Thomas Vinterberg no ótimo A Caça), tudo é carente de personalidade própria nessa adaptação. A fragilidade dessa concepção é um claro reflexo da escolha de ter alguém como Tate Taylor na cadeira de direção. Responsável por ter comandado histórias açucaradíssimas (Histórias Cruzadas), biografias de formato clássico (Get on Up: A História de James Brown) e comédias apoiadas na simplicidade (Grace and Frankie), Taylor não tem o pulso firme necessário para uma história complicada e tão suscetível a clichês como a de A Garota no Trem, entregando prematuramente algumas cartas que o próprio roteiro já não faz muita questão de esconder.

Indo à raiz do problema, a história começa optando por um artifício muito cômodo, colocando em cena uma protagonista desmemoriada que, com o desenrolar dos fatos, se vê obrigada a recuperar suas conturbadas lembranças para juntar as peças de um quebra-cabeça. Ainda não ajuda A Garota no Trem ter uma história que exige tanta boa vontade do espectador para acreditar nas inúmeras coincidências de tantas relações e situações desenhadas pelo roteiro, que falha ao dar a carga dramática necessária a uma protagonista desestabilizada (se não fosse por Emily Blunt, a deprimida Rachel seria apenas a caricatura de uma alcoolista que nunca superou um divórcio) e ao fazer um estudo sobre as trágicas consequências da forma desregulada e distorcida com que cada vez mais tratamos os relacionamentos nos dias de hoje. Ao invés disso, A Garota no Trem se preocupa em fazer o básico de um suspense policialesco que termina caindo em armadilhas facilmente evitáveis.

Quando há mistério envolvido em uma trama, é importante considerar outros fatores além dos desdobramentos factuais do texto. A própria produção de um filme pode revelar mais do que os realizadores gostariam, e um dos descuidos básicos é justamente a escalação de elenco. Atentando-se à constatação de que nenhum ator famoso ou de alto calibre está de bobeira ou como figurante em um filme do gênero, você é capaz de matar a charada de A Garota no Trem ainda na metade. Se o final é abrupto e o elenco como um todo não tem muito o que fazer em cena (inclusive uma Allison Janney com o óbvio papel da dedicada detetive), ao menos se preserva o inegável talento de Emily Blunt. Ela, que já brilhava muito antes de suas merecidas indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA de melhor atriz coadjuvante por O Diabo Veste Prada, vem crescendo nos últimos anos em trabalhos bastante distintos: cantou e encantou mesmo em um filme péssimo como Caminhos da Floresta e entregou um dos seus melhores desempenhos no forte Sicario: Terra de Ninguém, citando duas obras recentes. Por superar com folga o próprio filme, Emily Blunt ao menos sai da experiência com um bom acréscimo ao seu currículo. Isso com certeza deve valer alguma coisa.

A Luz Entre Oceanos

You only have to forgive once. To resent, you have to do it all day, every day.

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Direção: Derek Cianfrance

Roteiro: Derek Ciafrance, baseado no livro homônimo de M.L. Stedman

Elenco: Michael Fassbender, Alicia Vikander, Rachel Weisz, Florence Clery, Jack Thompson, Thomas Unger, Jane Menelaus, Garry McDonald, Anthony Hayes, Benedict Hardie, Emily Barclay, Bryan Brown 

The Light Between Oceans, Reino Unido/Nova Zelândia/EUA, Drama, 133 minutos

Sinopse: Austrália, após a Primeira Guerra Mundial. Tom Sherbourne (Michael Fassbender) é um veterano da guerra contratado para trabalhar em um farol, que orienta os navios exatamente na divisão entre os oceanos Pacífico e Índico. Trata-se de uma vida solitária, já que não há outras casas na ilha. Ao chegar Tom é apresentado a Isabel Graysmark (Alicia Vikander), com quem logo se casa. O jovem casal rapidamente tenta engravidar, mas Isabel enfrenta problemas e perde dois bebês – o que, inevitavelmente, provoca traumas. Até que, um dia, surge na ilha em que vivem um barco à deriva, contendo o corpo de um homem e um bebê. Tom deseja avisar as autoridades do ocorrido, mas é convencido por Isabel para que enterrem o falecido e passem a cuidar da criança como se fosse sua filha, já que ninguém sabia que ela tinha tido um aborto. Mesmo reticente, Tom concorda com a proposta. (Adoro Cinema)

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Afeito a dirigir histórias de autoria própria, o diretor e roteirista Derek Cianfrance resolveu fazer algo diferente e trabalhar pela primeira vez com a adaptação de um material já existente. Ele, que recebeu reconhecimento internacional com o forte Namorados Para Sempre e o subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, não poderia, por outro lado, ter escolhido um caminho mais atípico para sua nova experiência. Desconheço o conteúdo literário do romance A Luz Entre Oceanos, lançado por M.L. Steadman em 2012, mas, considerando o que Cianfrance coloca na tela, fica evidente que o material é um desvio de percurso na carreira de um profissional que vinha construindo uma carreira formada por obras criativas e até mesmo subversivas.

Antes das discussões envolvendo sua qualidade, A Luz Entre Oceanos ganha manchetes por ser a obra que juntou o casal Alicia Vikander e Michael Fassbender na vida real, e não deixa de estar evidente, ao longo da projeção, que o casal realmente tem uma boa química, mas o que causa estranhamento mesmo é o tom altamente novelesco e melodramático do filme. Não há problema algum em abordar uma história sob esse viés quando existe emoção, originalidade ou simplesmente uma força maior do que a média para encenar situações convencionais. O que acontece é que A Luz Entre Oceanos se revela previsível do início ao fim com um material frágil demais para sustentar um longa que excede 130 minutos. Afinal, tudo o que é desenvolvido está, sem tirar nem por, na sinopse. Não há qualquer desdobramento mais complexo ou leituras reveladoras, frustrando quem espera, a cada cena, por uma reviravolta diferente das que podemos prever a anos luz de distância. Reviravolta essa que, infelizmente, nunca chega.

Por mais que a forma clássica e novelesca não seja uma grande aptidão de Cianfrance, A Luz Entre Oceanos consegue criar boas expectativas em seu primeiro terço. Muito se deve à construção do romance entre os protagonistas Tom Sherbourne (Fassbender) e Isabel Graysmark (Vikander), duas pessoas solitárias em suas particularidades e que possuem em comum a tragédia: enquanto ele ainda enfrenta os fantasmas da Primeira Guerra Mundial, ela é a única filha que sobreviveu entre as fatalidades envolvendo os irmãos. Cianfrance sabe construir esse romance que acalanta duas vidas marcadas pela dor, aí sim se utilizando da melhor maneira possível das ferramentas melodramáticas para envolver o espectador, indo do clássico beijo no alto de uma montanha à delicadeza de um cotidiano repleto de carinho mesmo nos afazeres mais corriqueiros. O elenco também ajuda, pois Fassbender acerta na composição de um homem cujo semblante reprimido já conota uma história de dores, ao passo que Vikander é muito feliz na criação de uma personagem que floresce para o amor e depois muda conforme as alegrias e dificuldades dele.  

Da elaboração desse romance em diante, A Luz Entre Oceanos só se enfraquece ao desperdiçar boas possibilidades, como trabalhar a desconstrução do romance do casal a partir de um cotidiano isolado em uma ilha ou de tornar mais complexas mudanças de personalidade que, ao invés de ampliarem o que conhecemos de dados personagens, apenas os tornam aborrecidos. Um exemplo disso é o próprio Tom de Fassbender, cujas crises de consciência acerca de uma importante escolha feita com a esposa nunca soam sofisticadas como mereciam. Tudo coopera para que o filme seja uma bonita novela das seis: Vikander e Fassbender são lindos, a fotografia exalta as belas locações, a reconstituição de época é digna e até a trilha de Alexandre Desplat colabora para as lágrimas que muitos devem deixar cair no desfecho. Porém, lembrando de toda emoção franca e madura de Namorados Para Sempre e dos três atos surpreendentes de O Lugar Onde Tudo Termina, falta mesmo algum tipo de vigor para A Luz Entre Oceanos. Aliás, o que falta mesmo é Derek Cianfrance. Espero reencontrá-lo em breve.

King Cobra

Let’s fuck!

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Direção: Justin Kelly

Roteiro: Justin Kelly, baseado no livro “Cobra Killer”, de Andrew E. Stoner e Peter A. Conway

Elenco: Garrett Clayton, Christian Slater, James Franco, Keegan Allen, Alicia Silverstone, Molly Ringwald, Spencer Rocco Lofranco, Sean Grandillo, James Kelley, Edward Crawford, Rosemary Howard

EUA, 2016, Drama, 91 minutos

Sinopse: Brent Corrigan (Garrett Clayton), também conhecido como Sean Paul Lockhart, é uma estrela do mundo pornô gay. Apesar da ascensão rápida, as coisas começam a mudar quando o ator decide trabalhar por conta própria. A partir daí, uma dupla de produtores vê em Corrigan uma oportunidade de lucrar e alavancar a carreira na indústria pornográfica, e faz de tudo para não perder esta chance. (Adoro Cinema)

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Um filme como King Cobra já nasce cercado de expectativas. E também de responsabilidades. As expectativas são para descobrir qual será a abordagem de um tema compartilhado tão cotidianamente na intimidade mundial, mas raramente revelado em uma conversa casual: a pornografia. Já a responsabilidade vem por essa pornografia ser exclusivamente a gay, o que dá aos realizadores o desafio de pensar o retrato de um tema basicamente inédito no cinema e de tentar reparar a covardia de filmes que não sabem lidar com as especificidades da nudez e da sexualidade masculina (ainda acho imperdoável um filme panfletário como Magic Mike ser tão tímido nesse sentido, principalmente por ter uma sequência que não corrigiu os tropeços do filme original). Mais do que despertar a curiosidade de uma significativa parte do público ao trazer para as telas um recorte da vida de Brent Corrigan – que, ainda hoje é considerado um dos mais icônicos atores da história da pornografia gay – King Cobra tinha esses tabus para superar. E o que decepciona no filme dirigido por Justin Kelly não é vê-lo caindo na vala comum de se esquivar de todos eles, mas sim de se atentar apenas racionalmente aos fatos e não ao enorme potencial psicológico e emocional dos personagens.

O momento encenado por King Cobra é delicado: aquele em que o jovem aspirante a cineasta Sean Paul Lockhart (Garrett Clayton) entra no mundo da pornografia gay, ascende no meio como um verdadeiro astro e se vê envolvido em uma relação cheia de vícios com Stephen, dono do estúdio que o coloca no mercado. A situação complica quando Stephen é encontrado morto, o que, segundo os investigadores do caso, foi consequência dos conturbados bastidores de sua vida pessoal e profissional com o ator debutante. A identidade dos assassinos é revelada em King Cobra, mas isso não quer dizer muita coisa, uma vez que o roteiro escrito pelo próprio diretor Justin Kelly com base no livro “Cobra Killer”, de Andrew E. Stoner e Peter A. Conway, captura de forma muito rasa as dimensões dessa tragédia. Para que tivesse o devido impacto, teríamos que compreender melhor as razões que fizeram de Lockhart o ícone Brent Corrigan (somente a beleza é constantemente mencionada, mas não é essa qualidade exclusiva que leva um jovem a estourar como um furacão no mercado pornográfico) e até aprender sobre a dinâmica da indústria, aqui reduzida a produções caseiras de um homem mais velho com uma pequena câmera na mão. Afinal, o que ele e Corrigan fazem de tão especial para ganhar tanto dinheiro? Julgando pelo que é explicado no filme, a questão fica em aberto. Nesse sentido, a referência mais óbvia vem à cabeça: o insuperável Boogie Nights – Prazer Sem Limites, de Paul Thomas Anderson, soberano em todas essas questões.

Quando afirmo que King Cobra é um filme que se desvia da missão de enfrentar os tabus envolvendo a nudez e o sexo masculino, estendo essa crítica à inexplicável economia do diretor e roteirista ao mostrar muito pouco do fazer cinematográfico na pornografia gay e principalmente do sexo também como motivação básica para o universo encenado atrás das câmeras. Ou não é estranho um filme com um tema tão específico se limitar a reproduzir a timidez das cenas de sexo da TV aberta, onde qualquer momento com esse teor acontece embaixo dos lençóis ou com a câmera posicionada bem distante do ponto de ação? Não há dúvidas de que um Azul é a Cor Mais Quente surge muito raramente e que é complicado chegar a uma transgressão quando também é preciso desconstruir a imagem de um astro teen da Disney como Garrett Clayton. Ainda assim, não é justo King Cobra ser um filme tão cheio de amarras, mesmo quando James Franco resolve jogar confetes no projeto (é só o que ele tem feito ultimamente: menos empenho na atuação e mais na polêmica) e quando o tema tem apelo para um público específico. O resultado se reflete na própria distribuição do longa, uma vez que a seleção para o festival de Tribeca parece não ter ajudado a carreira de King Cobra, que estreou em circuito limitado nos Estados Unidos simultaneamente com plataformas on demand como iTunes e Amazon.

O pudor da história poderia ser contornado se King Cobra se propusesse a fazer um relato mais complexo da vida de Brent Corrigan, que, a partir do texto apresentado pelos roteiristas, não passa de um jovem deslumbrado e facilmente seduzível por compras, dinheiro e oportunidades mais interessantes na carreira. A rasteira dramaticidade se perpetua nos outros personagens: enquando o Stephen de Christian Slater é um mero produtor ganancioso que eventualmente pincela um passado infeliz em diálogos fáceis e expositivos (nunca suficientes para que tenhamos qualquer envolvimento com sua figura), os namorados gays vividos por James Franco e Keegan Allen descambam para caricatura ao serem construídos apenas como dois trambiqueiros destrambelhados, quando, na verdade, são seres humanos completamente perdidos e sabotados por suas equivocadas visões de mundo. Pode até ser que o drama simplificado de King Cobra (ainda vale citar a mãe de Corrigan vivida por Alicia Silverstone, amargando duas cenas quase constrangedoras tamanha a falta de mergulho do texto em suas percepções quanto ao filho) não quisesse dar tanta voz aos dilemas de seus coadjuvantes, mas era obrigatório que fosse mais digno com a viagem emocional de um protagonista que, tão jovem, passou por tanta coisa, indo da fama instantânea ao verdadeiro inferno quando se viu envolvido em um assassinato também resolvido de forma simplista pelo filme.

A abreviação dos dramas frustra, claro, a força do relato e limita, a todo o momento, até o trabalho dos atores. Dois deles, entretanto, acertam tanto em suas criações que conseguem superar as cercas impostas por King Cobra. Destaca-se, por exemplo, como Keegan Allen nunca entra na batida histérica de seu colega James Franco e procura se apoiar em toda a confusão interna de um personagem constantemente manipulado pelo namorado. Enquanto isso, é preciso tirar o chapeu para a interpretação de Garrett Clayton como Brent Corrigan. Seu trabalho não deixa de ser um tanto mais fácil já que o longa pouco coloca o personagem à frente das câmeras como uma estrela pornô (o que exigiria um trabalho muito maior de reprodução de gestos e trejeitos), mas isso não tira os méritos de Clayton, que surpreende ao segurar muito bem o filme com todo o vigor de um jovem em plena descoberta. O ápice da criação do ator é a cena final, que, apesar de tentar emular o momento derradeiro de Boogie Nights em que finalmente é revelado o grande atributo físico de sua estrela pornô, também faz desse o melhor registro de King Cobra: nele, compreendemos quem é a estrela Brent Corrigan, os bastidores de uma produção pornográfica e toda a personalidade de um personagem nunca devidamente explorado. São, enfim, as contextualizações e justificativas que fariam de King Cobra uma experiência mais instigante e menos frustrante.

Inferno

The greatest sins in human history were committed in the name of love.

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Direção: Ron Howard

Roteiro: David Koepp, baseado no livro homônimo de Dan Brown

Elenco: Tom Hanks, Felicity Jones, Ben Foster, Omar Sy, Irrfan Khan, Sidse Babett Knudsen, Ana Ularu, Ida Darvish,  Jon Donahue, Christian Stelluti, Francesca Inaudi, Attila Árpa

EUA/Japão/Turquia/Hungria, 2016, Ação, 121 minutos

Sinopse: Florença, Itália. Robert Langdon (Tom Hanks) desperta em um hospital, com um ferimento na cabeça provocado por um tiro de raspão. Bastante grogue, ele é tratado por Sienna Brooks (Felicity Jones), uma médica que o conheceu quando ainda era criança. Langdon não se lembra de absolutamente nada que lhe aconteceu nas últimas 48 horas, nem mesmo o porquê de estar em Florença. Subitamente, ele é atacado por uma mulher misteriosa e, com a ajuda de Sienna, escapa do local. Ela o leva até sua casa, onde trata de seu ferimento. Lá Langdon percebe que em seu paletó está um frasco lacrado, que apenas pode ser aberto com sua impressão digital. Nele, há um estranho artefato que dá início a uma busca incessante através do universo de Dante Alighieri, autor de “A Divina Comédia”, de forma a que possa entender não apenas o que lhe aconteceu, mas também o porquê de ser perseguido. (Adoro Cinema)

1234527 - INFERNO

James Bond da História, das artes e da religião, Robert Langdon (Tom Hanks) veio ao mundo em 2000, quando o escritor norte-americano Dan Brown lançou Anjos e Demônios, seu segundo livro após o divertido Fortaleza Digital. Nas páginas, o famoso simbologista de Harvard, no entanto, só virou febre três anos depois, quando O Código Da Vinci ganhou as livrarias e começou a ser traduzido para mais de 50 idiomas com polêmicas envolvendo teorias religiosas como aquela em que Brown versa sobre Jesus Cristo ter sido casado com Maria Madalena. De escrita simples, mas incrivelmente funcional para uma leitura leve, cheia de pesquisa e com tino para entretenimento, o escritor, apesar de outras obras protagonizadas por diferentes personagens como Ponto de ImpactoO Símbolo Perdido, volta e meia recorre a Robert Langdon, sujeito que, sempre com um emblemático relógio do Mickey no pulso, costuma salvar o mundo ao substituir armas e disputas físicas por inteligência na hora de desvendar as mais diversas e perigosas charadas históricas. Ou seja, Langdon pode até não ser um agente 00 a serviço do sistema de espionagem britânico, mas a concepção de suas histórias muito se assemelha ao que James Bond vive na literatura e no cinema: viagens internacionais, conspirações, corriqueiras perseguições e alguns interesses amorosos no caminho.

A proposta de Dan Brown virou febre (com toda razão), trazendo ao escritor uma carreira prolífera e duradoura que também se reflete nas 200 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo a partir dos cinco livros lançados por ele desde Anjos e Demônios – e mais um já está a caminho para aumentar a cifra: Origin, previsto para 2017 e novamente protagonizado por Langdon. Já no cinema, mesmo com significativos trocados no caixa, a situação já é bem diferente. Com apenas três filmes em dez anos (esse espaçamento é complicado, uma vez que hoje Dan Brown já não goza da mesma influência e do fator novidade de antes), a saga do personagem na tela grande nunca chegou perto de alcançar a mesma força das discussões levantadas pelos livros ou até o mesmo senso de entretenimento deles. Gosto mais de O Código Da Vinci do que a média, mas reconheço que a direção tradicional de Ron Howard academiza toda e qualquer discussão, o que deixa a experiência para lá de didática. Já em Anjos e Demônios, que desaprovo mais do que a maioria, Howard tentou dar mais lugar à ação, mas pesando muito a mão ao transformar o Vaticano no lugar mais inverossímil e cheio de caos do planeta.

E, agora, chegamos a Inferno. Todo essa retrospectiva é importante para considerarmos o amontoado de obstáculos que uma nova aventura baseada no universo de Dan Brown precisa enfrentar, como a literatura agora menos expressiva de seu autor, o histórico nada favorável de críticas à saga no cinema e o fato de que o formato já conhecido das aventuras segue sob a tutela de Ron Howard, diretor, que, julgando pelos filmes anteriores, não encontrou o tom certo para as adaptações. Ainda há espaço e paciência para filmes dessa natureza? Sim e não. Inferno é, sem dúvida alguma, o trabalho mais bem resolvido em termos de personalidade quando comparado a O Código Da VinciAnjos e Demônios. Entretanto, fica evidente o problema da equipe em não conseguir solucionar problemas básicos de adaptação mesmo com a troca de roteirista (sai Akiva Goldsman, entra David Koepp). E o maior deles é novamente faltar fluidez na transição entre cenas altamente expositivas e a ação, já que, enquanto a correria desenfreada dilui todas as explicações e referências dos personagens, o conteúdo apresentado por eles nunca parece suficientemente crível para movimentar tantos conflitos.

Talentoso roteirista, Koepp, que escreveu de Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros a Missão: Impossível deixa a impressão de que está no piloto automático ao adaptar as exposições do livro, o que contamina o filme como um todo. É particularmente preguiçosa a forma como o protagonista precisa explicar tudo ao espectador até mesmo na hora da correria, onde frequentemente narra a ação ao dizer coisas como “agora nós vamos descer essa escada, atravessar uma ponte, entrar na porta à direita e chegar a uma sala onde estaremos a salvo”. Não é mais interessante simplesmente mostrar essa ação? O curioso é que, por mais que seja eventualmente esquemática, a entrada de Koepp é o que torna Inferno um entretenimento mais palatável do que os filmes anteriores. Por ter assinado o roteiro de icônicos filmes de aventura, ele compreende o poder do entretenimento, fazendo de Inferno uma experiência dinâmica e frequentemente divertida. Ajudam, claro, as lindas locações italianas devidamente aproveitadas por Ron Howard e as boas ideias do material original, em especial uma reviravolta que acontece no terço final e que compensa momentos que até então pareciam descuidos da história. Se o longa termina como um bom passatempo, isso é mérito quase todo de Koepp, que consegue disfarçar até o fato de Tom Hanks já não ter mais o físico para correr e lutar tanto como um Daniel Craig da vida.

Compensando, Hanks mais uma vez empresta simpatia e naturalidade ao protagonista, que, dessa vez, está acompanhado de Felicity Jones como sua bondgirl. Se a jovem atriz britânica ainda precisa mostrar ao que veio após uma esquecível indicação ao Oscar de melhor atriz por A Teoria de Tudo, o elenco de suporte dá uma base sólida ao grupo de atores de Inferno. Trazendo nomes mais conhecidos como o indiano Irrfan Khan, o francês Omar Sy e o estadunidense Ben Foster, os coadjuvantes do longa empregam credibilidade à experiência mesmo em papeis que, caso melhor explorados, só teriam a agregar aos dramas pessoais que faltam ao filme, a exemplo da Elizabeth Sinskey de Sidse Babett Knudsen, que é muito boa como uma antiga história de amor mal resolvida do protagonista. De resto, passada uma década desde o lançamento de O Código Da Vinci, é possível constatar que pouco evoluiu no cinema baseado na obra de Dan Brown, o que não deixa de nos levar à teoria de que, talvez, assim como a literatura do escritor, o momento desse formato também já tenha passado no cinema. A diversão está mais presente, é verdade, mas o investimento é grande demais (em escala de produção, em orçamento e em aplicação de tempo e dedicação dos envolvidos) para ser somente isso.