Jackie
Is this all there is?

Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Noah Oppenheim
Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Jurt, Richard E. Grant, Caspar Phillipson, Beth Grant, John Carroll Lynch, Max Casella, Sara Verhagen, Hélène Kuhn
EUA/Chile/França, 106, Drama, 100 minutos
Sinopse: Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), inesperadamente viúva, lida com o trauma nos quatro dias posteriores ao assassinato de seu marido, o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy. (Adoro Cinema)

Não há o que contestar: Jackie, drama assinado pelo chileno Pablo Larraín, alcança o o feito raro de se diferenciar dentro de um oceano de cinebiografias que chegam anualmente às telas. Em um nicho preso a narrativas formais, lineares e suscetíveis a explorar incansavelmente elementos comuns a vários biografados (a capacidade de superar obstáculos para alcançar a fama, os problemas com drogas ou bebidas, a degeneração física, a decadência que surge a partir do envelhecimento), o filme de Larraín consegue, em sua concepção, subtrair vícios para propôr um relato esteticamente diferenciado e que, a exemplo dos melhores filmes do gênero, trabalha a partir de um recorte de tempo ao invés de se entregar à perigosa ambição de comprimir, em apenas duas horas, a vida inteira de uma pessoa. A ideia é nobre e há de se reconhecer o quanto Jackie tem seu valor em função disso. O difícil de acreditar é que, ironicamente, o relato sobre os dias em que a ex-primeira-dama Jaqueline Kennedy lida com o assassinato de seu marido, o então presidente John F. Kennedy, esquece de dar atenção a um importante na equação de qualquer filme: a emoção (ou, ao menos, a justificativa da ausência dela). E, se tratando de uma obra que procura trazer um olhar íntimo e pouco explorado sobre tragédia da política norte-americana, isso se torna um verdadeiro problema.
Pablo Larraín assumiu a direção de Jackie no lugar de Darren Aronofsky, que produziria o filme com Rachel Weisz, sua esposa até então, como protagonista. O casal acabou se separando e a substituição se deu durante o Festival de Veneza, quando Aronofsky, impactado por O Clube, assinado por Larraín, propôs ao chileno a cadeira de direção, dessa vez com Natalie Portman, com quem havia trabalhado recentemente em Cisne Negro, no papel central. No início, Larraín hesitou em aceitar, questionando a ideia de um estrangeiro comandar a história de uma emblemática figura do cenário político norte-americano. No entanto, era justamente a distância de Larraín com a história – além, claro, de seu talento como diretor – que trazia confiança a Aronofsky: para ele, um outsider só faria bem ao projeto justamente para tecer um relato diferenciado sobre a figura de Jaqueline Kennedy. Teoria certa, prática errada. Se Larraín fez maravilhas em No, filme que registra um período histórico conhecido do diretor – o plebiscito chileno realizado nos anos 1980 para decidir a permanência ou não de Augusto Pinochet no poder -, em Jackie a situação desanda justamente pela falta de familiaridade do diretor com toda a influência da figura retratada para toda uma nação. Claro exemplo disso é a maneira como Jaqueline Kennedy é vista muito mais como uma figura calculista quanto às consequências das escolhas que toma acerca do enterro do marido do que necessariamente como uma mulher em pleno sofrimento ao longo de dias infinitamente traumáticos.
Escrito por Noah Oppenheim, que só tinha no currículo filmes comerciais como Maze Runner: Correr ou Morrer e A Série Divergente: Convergente, Jackie se apoia na estrutura de entrevista-flashback, o que nunca se apresenta como um acerto: além de não funcionar e empacar o ritmo de uma história lenta por si só, o artifício só antipatiza a figura da protagonista, aqui construída como uma mulher difícil e que aparentemente só quer controlar cada palavra que o jornalista escreve para que possa escolher o que a imprensa dirá sobre ela. Tal impressão também se estende a todas idas e vindas no tempo, onde Jackie (Natalie Portman) é vista pensando como pode tomar decisões que façam seu marido ser lembrado postumamente como um grande político da estatura de Abraham Lincoln. Um filme de alto calibre usaria toda essa abordagem inusitada da personagem para torná-la riquíssima em conflitos internos, mas isso não acontece aqui, impressão que só ganha reforços pela direção essencialmente técnica. Quem entra na mesma onda é a própria Natalie Portman, em um desempenho certeiro na reprodução de entonação de voz e trejeitos, mas também carente de construções que venham de dentro para fora. É exatamente essa a sensação que tanto a direção quanto a atuação de Natalie deixam em várias cenas, com destaque para aquela em que Jackie limpa o rosto ensaguentado frente ao espelho como se estivesse tirando a maquiagem após um longo dia. O momento é lindo de se ver – pela composição, pelo enquadramento, pelos olhos lacrimosos da atriz -, quando, na verdade, deveria ser incômodo ou impactante pela tragicidade que carrega.
Menos biográfico do que se supunha, Jackie se atrapalha ao fazer um recorte específico da vida da personagem-título. Sem expandir muito de sua personalidade a partir do momento escolhido (e é sempre válido lembrar de A Rainha como um exemplo positivo nesse sentido), não sabemos muito de Jaqueline Kennedy além do recorte proposto. É uma limitação que não permite que, com a experiência, o espectador a conheça mais do que sabia ou não antes da sessão. Em suma, Jackie se estabelece como uma boa ideia executada por uma técnica de escolhas eficientes do ponto de vista estético (o auge é a trilha sonora inventiva e devidamente incômoda de Mica Levi) e que proporcionam passagens realmente inspiradas, especialmente no final, quando o filme faz uma costura entre uma conversa da ex-primeira-dama como um padre (o agora saudoso John Hurt) ao mesmo tempo em que reconstrói o assassinato de John Kennedy. Entretanto, basta olhar para esse momento específico com o coração para, novamente, termos nossa atenção desviada: o que mais instiga nele é a figura do padre, seja pelas questões que provocam reflexões em Jackie ou pela própria interpretação de Hurt, um ator que conhecia o poder das palavras como poucos. Ali, o longa chega perto de florescer em emoção. Pena que, logo em seguida, os créditos finais comecem a rodar na tela.
Estrelas Além do Tempo
Just ‘cause it’s the way, doesn’t make it right, understand?

Direção: Theodore Melfi
Roteiro: Allison Schroeder e Theodore Melfi, baseado no livro “Hidden Figures: The American Dream and the Untold Story of the Black Women Mathematicians Who Helped Win the Space Race”, de Margot Lee Shetterly
Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali, Aldis Hodge, Glen Powell, Kimberly Quinn, Olek Krupa, Kurt Krause
Hidden Figures, EUA, 2016, Drama, 127 minutos
Sinopse: 1961. Em plena Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética disputam a supremacia na corrida espacial ao mesmo tempo em que a sociedade norte-americana lida com uma profunda cisão racial, entre brancos e negros. Tal situação é refletida também na NASA, onde um grupo de funcionárias negras é obrigada a trabalhar a parte. É lá que estão Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), grandes amigas que, além de provar sua competência dia após dia, precisam lidar com o preconceito arraigado para que consigam ascender na hierarquia da NASA. (Adoro Cinema)

É ao mesmo tempo lógico e injusto comparar Estrelas Além do Tempo a Histórias Cruzadas, ambos filmes sobre mulheres negras que, na década de 1960, buscam protagonismo em uma sociedade norte-americana que ainda as obriga a usar banheiros e até mesmo xícaras de café separadas da população branca. A lógica de colocar as duas obras lado a lado vem pelo compartilhamento da temática, do bom humor e do sucesso estrondoso: enquanto Histórias Cruzadas faturou oito vezes mais do que o seu orçamento em âmbito mundial, Estrelas Além do Tempo se encaminha para o mesmo triunfo, já que, em pouco mais de um mês de exibição considerando a data desse texto, o filme de Theodore Melfi (Um Santo Vizinho) já quadruplicou o retorno de seus próprios custos mundo afora. Em contrapartida, a injustiça se dá em termos de qualidade: se Estrelas Além do Tempo é tão popular e novelesco quanto Histórias Cruzadas, pelo menos abraça esse perfil preferindo confiar na graça de suas intérpretes e em uma inegável simplicidade do que em posicionamentos rasteiros e em piadas que oscilam entre o preparo de tortas de fezes e caricaturas fáceis.
Iluminando a jornada de figuras que, como o título original indica, sempre ficam escondidas quando o assunto é a famosa corrida especial entre os Estados Unidos e a União Soviética, Estrelas Além do Tempo não tem vergonha de sua formalidade e, principalmente, de seu apelo popular. Melodramático, o próprio flashback de abertura surge como uma ferramenta meramente explicativa que nunca é retomada ao longo do filme, já sendo um claro indício do quanto os roteiristas Alison Schroeder e o próprio Theodore Melfi não querem saber de muita sofisticação: o que é representado ali poderia ser brevemente mencionado em um simples diálogo posterior, por exemplo. Além do roteiro, o diretor também não é econômico no apelo do tom empregado à história: a trilha de Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer e Pharrell Williams acentua toda e qualquer emoção mais expressiva, as protagonistas eventualmente fazem discursos explosivos e idealizados para conscientizar outras pessoas em cena e os coadjuvantes, como aqueles vividos por Jim Parsons e Kirsten Dunst, estão ali apenas para dificultar a vida das nossas heroínas.
Só que para fazer tudo isso, o diretor, que não escapa da velha fórmula de inserir um personagem branco que, aqui ou ali, dará aquele empurrãozinho para resolver conflitos decisivos em relação ao racismo, tem a sorte de ter três intérpretes muito talentosas em seu filme e, principalmente, de saber dirigi-las. Se Tate Taylor não segurou o completo histrionismo de Bryce Dallas Howard ou a caricatura repetitiva de Octavia Spencer em Histórias Cruzadas, Melfi tira o melhor até mesmo da própria Spencer, que, dessa vez, não precisa de caras e bocas para fazer graça e é inclusive delicada quando vive os dilemas de uma mulher que, assim como suas amigas, sofre para alcançar reconhecimento no trabalho, mas que julga ser mais fracassada por não conseguir ser tão pioneira quanto elas. Totalmente diferente da divertida e extravagante Cookie Lyon, do seriado Empire, Taraji P. Henson dá conta do recado com seu carisma habitual, abraçando com segurança a maior parcela de protagonismo da história. Quem completa o trio é a cantora Janelle Monáe, que combina beleza e desenvoltura em uma personagem menor, mas que jamais deixa de se igualar as outras em carisma e interesse.
Voltando a Histórias Cruzadas, não há problemas em achar graça na forma como ele se utiliza da comédia porque humor é sempre algo muito particular, mas o que Estrelas Além do Tempo faz é, no mínimo, mais interessante. Basta reparar em uma das primeiras cenas do filme, onde as protagonistas, após serem paradas na estrada por um policial branco, precisam seguir a viatura depois do interrogatório, mas brincam que, em plenos anos 1960, elas são três mulheres negras poderosas perseguindo uma autoridade branca. É com esse tipo de descontração pontuado por três excelentes atrizes que o filme ganha um caráter popular que se distancia do apelativo, o que é algo muito saudável, uma vez que nem sempre temos um hit de bilheteria que, mesmo tradicional na forma e no conteúdo (a parte espacial envolvendo os avanços da NASA cumprem a missão histórica, mas não chegam a ser particularmente empolgantes), acerta ao fazer uma representatividade menos escrachada de dois núcleos, que, ainda depois de meio século, seguem basicamente na mesma luta por protagonismo: o feminino e o negro. E Estrelas Além do Tempo, que é mais passatempo do que registro marcante em termos de qualidade, não deixa de contribuir, de alguma forma, para esse importante retrato, especialmente em uma temporada de filmes marcados por histórias otimistas sobre pessoas que procuram seu lugar ao sol.
Rapidamente: “Califórnia”, “Capitão Fantástico”, “Moana” e “Real Beleza”

Encantadora aos olhos e aos ouvidos, a animação Moana: Um Mar de Aventuras tem ideias que a colocam em um patamar diferenciado. O desenvolvimento da história, entretanto, não arrebata.
CALIFÓRNIA (idem, 2015, de Marina Person): Com uma trilha sonora irresistível e referências aos anos 1980 que endossam todo o lado pop da diretora Marina Person, Califórnia é uma experiência agradabilíssima. Acompanhando os dias de Estela (Clara Gallo), adolescente que, em plena descoberta sexual e de identidade, se comunica com o tio que mora nos Estados Unidos através de cartas repletas de confissões, o filme faz um espirituoso retrato da adolescência na década em questão com relatos regados a sucessos de David Bowie a Barão Vermelho, passando pela febre de estreias do cinema como E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg, e Gosto de Sangue, dos irmãos Coen. É divertido acompanhar Califórnia por causa dessas referências e também porque a inocência com que Marina Person retrata as primeiras descobertas de uma menina transformação é irresistível. A situação se fragiliza, por outro lado, em vários rumos do roteiro, que cria expectativas acerca do tio da protagonista (vivido por um Caio Blat sempre espirituoso) para depois subaproveitá-lo gradativamente. Há ainda uma boa parcela de previsibilidades, como a de quem se tornará o real interesse amoroso da jovem Estela. Ainda assim, Califórnia, que de fato poderia ser um retrato muito mais consistente sobre uma época tão efervescente do ponto de vista cultural, tem seu frágil roteiro compensado por uma direção sincera e que justifica a espiada descompromissada.
CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic, 2016, de Matt Ross): Se existe um grande mérito em Capitão Fantástico, esse é o de fazer com que o espectador se importe com os seus personagens. A tarefa é um pouco difícil, visto que, apesar da pegada mais realista no drama, a história é um tanto distante das nossas vidas: nela, um pai de família cria seus filhos em meio às florestas sem qualquer contato com tecnologia e aprendendo, por exemplo, a fazer suas próprias refeições a partir da caça de animais. É distante porque hoje parece inconcebível viver em um mundo que valoriza as pequenas coisas e não qualquer conexão com a internet. Mas não demora muito para Capitão Fantástico ultrapassar a barreira da mera trama curiosa para se tornar um drama envolvente e delicado. O diretor Matt Ross, em seu segundo longa de ficção, é econômico em intervenções na história, depositando boa parte de sua confiança em um ótimo elenco liderado por Viggo Mortensen (em performance delicada e surpreendentemente reconhecida com uma indicação ao Oscar 2017) e pontuado por outras performances de destaque, como a do jovem George McKay e a de Kathryn Hahn, em participação especial. É um daqueles casos onde a simplicidade surge como elogio, sendo capaz de proporcionar momentos genuinamente emocionantes: a cena em que a família canta e dança em uma melancólica despedida é o ponto alto do longa. Capitão Fantástico não está livre de falhas (o personagem de Frank Langella pode muito bem ser considerado unidimensional, enquanto um acidente envolvendo um personagem acontece apenas para resolver um conflito maior), mas é realmente pouca coisa perto do imenso coração do projeto.
MOANA: UM MAR DE AVENTURAS (Moana, 2016, de Don Hall e Ron Clements): Não, Moana não é uma animação particularmente marcante por sua execução, mas é carregada de ideias que certamente lhe colocam em um patamar bastante diferenciado. Segunda protagonista negra da Disney (a primeira foi Tiana, de A Princesa e o Sapo em 2009), a personagem-título vive uma jornada importante, especialmente se tratando de um gênero amplamente destinado aos pequenos: não existe interesse amoroso para a jovem Moana, e ela está muito bem com isso. Na verdade, o filme nem toca no assunto, preferindo contextualizar a relação da protagonista com os pais ou sua coragem em desbravar sozinha um imenso oceano. Visualmente, o filme de Don Hall e Ron Clements é um deslumbre. Na criação, também é feliz em ideias (os personagens são divertidos e todos com funções lógicas na história) e até surpreendente em uma referência particular (como não lembrar de Mad Max: Estrada da Fúria na perseguição oceânica em que Moana enfrenta um imenso barco de cocos que tocam tambores?). O problema é que essas ideias, aliadas à clássica estrutura da Disney para arcos dramáticos ilustrados por canções dignas de nota (How Far I’ll Go é o delicioso chiclete que o estúdio sabe fazer com proeza), não são suficientes para, na prática, preencher um filme de quase 110 minutos. Moana encanta olhos e ouvidos, mas não arrebata especificamente no desenvolvimento da história.
REAL BELEZA (idem, 2015, de Jorge Furtado): O diretor Jorge Furtado jura de pé junto que não assistiu, mas é impossível não associar Real Beleza ao romance As Pontes de Madison. Adriana Esteves, que protagoniza o filme do cineasta gaúcho e assume ter se inspirado no trabalho de Meryl Streep para compôr sua personagem, deveria ter avisado: fotógrafo que viaja ao interior e se apaixona por uma mulher casada em um período que ela está sozinha em casa enquanto a família viaja é mesmo material que inevitavelmente carrega a forte imagem de Meryl Streep e Clint Eastwood. Só que o curioso de Real Beleza, primeiro drama assinado por Furtado (ele sempre foi referência em ótimas comédias como O Homem Que Copiava e Saneamento Básico), é que o casal principal não tem química alguma, o que, considerando o fato de Adriana Esteves e Vladmir Brichta serem marido e mulher na vida real, é mesmo estranho. Nada chega a ser necessariamente de mau gosto em Real Beleza, mas, ao mesmo tempo, tudo é insosso demais: as citações literárias, o questionamento do que realmente é belo e as reflexões sobre a vivência matrimonial são óbvias, sem a esperteza que Furtado sempre cultivou tanto em suas comédias. A situação melhora a partir de certo ponto com a entrada de Francisco Cuoco (tanto o ator quanto o personagem são instigantes), mas aí a história já está se encaminhando para o final, e as resoluções não deixam de ser novamente insípidas.
La La Land: Cantando Estações
Here’s to the ones who dream.

Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, Rosemarie DeWitt, J.K. Simmons, Finn Wittrock, Callie Hernandez, Jessica Rothe, Sonoya Mizuno, Jason Fuchs, Damon Gupton
La La Land, EUA, 2016, Musical/Romance, 128 minutos
Sinopse: Ao chegar em Los Angeles o pianista de jazz Sebastian (Ryan Gosling) conhece a atriz iniciante Mia (Emma Stone) e os dois se apaixonam perdidamente. Em busca de oportunidades para suas carreiras na competitiva cidade, os jovens tentam fazer o relacionamento amoroso dar certo enquanto perseguem fama e sucesso. (Adoro Cinema)

Foi em setembro de 2014 que uma querida ex-professora do meu ensino fundamental conseguiu colocar em palavras algo que considero fundamental – e, muitas vezes, até pouco praticado, dependendo de quem está no lado de cá da tela – sobre o ato de ir ao cinema. Ela, que tanto me ensinou sobre História, participou da coluna Três atores, três filmes aqui do blog e falou sobre uma trilogia de desempenhos de uma única atriz: a grande Meryl Streep. Dois deles seriam os escolhidos por boa parte do público: A Escolha de Sofia e As Pontes de Madison. Já outro causa ligeira surpresa: Mamma Mia!. Mas os argumentos usados pela Raquel Cirne não só embasam muito bem sua escolha pelo musical de Phyllida Lloyd como também nos trazem ao que La La Land: Cantando Estações agora proporciona mundo afora. “Para ter valor, nem sempre um filme precisa ser questionador, enigmático ou difícil de entender. Também ter que ter música luminosa, leveza, beleza, como aquela linda celebração do casamento com velas penduradas nas árvores… Cinema é magia, e deve ter a função de inspirar, de estimular os sonhos, de colorir a vida”, escreveu. E, realmente, não há descrição mais certeira do que essa para explicar a qual estado de espírito o musical de Damien Chazelle nos leva durante pouco mais de duas horas de projeção.
Não surgem no vácuo a criatividade e a paixão pelo cinema que Chazelle imprime em seu La La Land. Basta retroceder até 2014, mais especificamente aos últimos dez minutos de Whiplash: Em Busca da Perfeição, para lembrar que, desde lá, o diretor não estava de brincadeira. Seria pelo momento final do filme estrelado por Miles Teller e J.K. Simmons armar uma hipnotizante sequência movida a jazz? De certa forma, pois a música é novamente um dos pilares do novo trabalho do diretor. Entretanto, o que impressionava mesmo era como Chazelle orquestrava aquele grand finale: a montagem era habilidosa ao acompanhar os incessantes movimentos dos instrumentos musicais, o som aguçava ainda mais os nossos ouvidos para a grandiosidade da apresentação, os atores passavam por transformações sem praticamente dizer uma palavra sequer e o diretor, entre tantos outros elementos, costurava tudo como se já tivesse uma larga experiência atrás das câmeras, quando, na verdade, Whiplash era apenas o seu segundo longa-metragem aos 29 anos de idade. Se fizermos uma ponte entre os minutos finais daquele filme aos primeiros de La La Land, a lógica de chegar aos sentidos segue a mesma (e isso não é algo ruim): em um (aparente) plano sequência, esse novo musical une coreografia, música, cor, dança, humor, graça e nostalgia com grande vitalidade, deixando muito claro e sem cerimônias que essa é uma experiência sobre sonhos e leveza.
Tratando-se de um longa que se presta a fazer uma homenagem aos musicais, faz total sentido que o número de abertura já jogue o espectador na alegoria porque os títulos do gênero costumam jogar o espectador no centro da musicalidade logo no início. É assim nos clássicos como A Noviça Rebelde (Julie Andrews correndo nas montanhas com “The Sound of Music”) ou em obras mais recentes como o singelo Hairspray – Em Busca da Fama (Nikki Blonsky cantando “Good Morning Baltimore” nas ruas com a maior felicidade do mundo), mas o importante é que isso ilumina o extenso conhecimento que o diretor de La La Land tem acerca dos musicais, inclusive trazendo para sua narrativa referências assumidas como o cinema de Jacques Demy em Os Guarda-Chuvas do Amor e outras pequenas brincadeiras que (nem tão) discretamente nos remetem, por exemplo, a um certo Gene Kelly se apoiando em um poste para cantar “Singin’ in the Rain”. Contudo, curiosamente La La Land é um filme com menos músicas do que o esperado. Isso é um problema? De forma alguma. Primeiro porque o filme também quer encenar um romance à moda antiga (e, para isso, a música não é obrigatória) e segundo porque Chazelle não se restringe a ela para homenagear o gênero – e é fácil perceber a eficiência de demais aspectos que abrangem desde uma ótima trilha instrumental composta por Justin Hurwitz a outras características emblemáticas dos musicais, entre elas, um irresistível número de sapateado. Com ou sem música, La La Land é sempre um deleite.
Homenagens surgem de tempos em tempos, mas o que diferencia La La Land de O Artista, por exemplo, é que o primeiro tem a esperteza de homenagear o clássico no plano contemporâneo, enquanto o segundo, esse sim, era apenas a “mera” homenagem que os contrários ao filme de Damien Chazelle tanto apontam (e desde quando uma obra se prestar a fazer “apenas” um tributo é um problema decisivo?). Capturando a vida de quem tem dificuldades em se tornar artista mesmo quando o mundo está todo na tela de um iPhone, La La Land flerta com o passado, mas se estabelece no presente ao criar coreografias nos famosos engarrafamentos de Los Angeles inclusive com street dance e ao abarcar a contemporaneidade em todos os detalhes da parte técnica, com destaque para o mágico design de produção e para os coloridos figurinos, ambos bem sucedidos ao mesclar a delicadeza da nostalgia com o frescor dos novos tempos. Através da atmosfera, Chazelle leva o espectador por uma viagem sensorial e cativante. E quando cito atmosfera é para justificar a ideia de que o roteiro de La La Land, apesar de estar um pouco acima da média dos roteiros de musicais, não é um aspecto grandioso do conjunto. Toda graça e emoção vem do trabalho de direção que, com o bom uso das ferramentas cinematográficas, torna encantador até mesmo aquele primeiro beijo que nunca acontece porque o celular toca ou porque a luz se apaga na hora errada.
Essencialmente concentrado em apenas dois personagens, o musical cresce ao entregar grandes responsabilidades a Emma Stone, que está no auge de uma carreira prolífera e que vem ganhando mais espaço nos últimos tempos (até indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante ela teve por Birdman!). É o segundo musical da atriz, que ganhou o papel em La La Land justamente porque o diretor a viu nos palcos da Broadway com Cabaret. Ela está encantadora como sempre e, agora, reveladora na técnica, com direto até a um número solo onde condensa talento vocal e emoção genuína (“Audition (The Fools Who Dream)”). Emma é, sem dúvida alguma, o tipo de estrela que La La Land precisava. Enquanto isso, Gosling, que andava um pouco econômico em projetos nos últimos anos depois de dramas como Half Nelson, A Garota Ideal e Namorados Para Sempre, surge menos radiante que a colega, mas em momento algum deixa escapar o carisma. O romance entre os dois é especial a partir dos contornos dados por um diretor que reconhece o valor dos sonhos e que, mesmo compreendendo que muitas vezes é necessário abrir mão de alguns em detrimento de outros supostamente mais importantes, nenhum deve perder seu valor diante dos obstáculos impostos pela vida. La La Land termina com o clássico The End, mudando um pouco a pegada do que décadas atrás indicava a proximidade desse letreiro (mais uma atualização do filme!), mas sem jamais abandonar a certeza de que sonhar é sempre um lindo estado de espírito. Mesmo quando precisamos manter os pés bem firmes no chão.
Manchester à Beira-Mar
I can’t beat it.

Direção: Kenneth Lonergan
Roteiro: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Matthew Broderick, Tom Kemp, Gretchen Mol, Chloe Dixon, C.J. Wilson, Mary Mallen, Anna Baryshnikov, Heather Burns
Manchester by the Sea, EUA, 2016, Drama, 137 minutos
Sinopse: Lee Chandler (Casey Affleck) é forçado a retornar para sua cidade natal com o objetivo de tomar conta de seu sobrinho adolescente após o pai (Kyle Chandler) do rapaz, seu irmão, falecer precocemente. Este retorno ficará ainda mais complicado quando Lee precisar enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar sua família para trás, anos antes. (Adoro Cinema)

Como fazer a ideia de um filme pequeno se tornar grande na tela? Há vezes em que uma proposta relativamente simples é ampliada por uma ambientação altamente criativa ou por uma escala maior de produção (caso do recente musical La La Land: Cantando Estações, que poderia facilmente se tornar um romance meramente clichê ou até mesmo irritante). Em outras situações, basta um cineasta talentoso que saiba potencializar o tripé mais básico do cinema (roteiro, direção e elenco) para que a experiência ganhe consistência admirável. Com Kenneth Lonergan em Manchester à Beira-Mar, a situação se enquadra exatamente no segundo caso. A partir de uma trama simplíssima (o homem que, após a morte do irmão, viaja à cidade natal para cuidar do jovem sobrinho desamparado ao mesmo tempo em que enfrenta seus próprios fantasmas), Lonergan faz bonito ao entregar um roteiro de precisão rara, uma direção em pleno controle e um trabalho de elenco à altura de todo o conjunto. Manchester à Beira-Mar rejeita firulas ou ideias mirabolantes para impactar apenas com sua aparente simplicidade, o que lhe confere uma maturidade ímpar.
Considerando o que chamamos informalmente de tripé mais básico do cinema, primeiro é preciso discutir o roteiro. Da comédia (Máfia no Divã) ao drama (Conte Comigo) passando até por filmes de época (Gangues de Nova York), Kenneth Lonergan, no entanto, nunca foi tão refinado como em Manchester à Beira-Mar, onde não deixa de voltar às origens do próprio Conte Comigo, filme que assinou em 2000 conduzindo a ótima Laura Linney em uma singela história familiar sobre uma mulher que precisava lidar com o delicado retorno de seu irmão mais novo. Ao retomar a ideia de extrair dramas a partir de um reencontro envolvendo pessoas do mesmo sangue, Lonergan dessa vez é mais cru e menos sentimental ao narrar a história de Lee Chandler (Casey Affleck), sujeito quieto e visivelmente calejado pela vida que, de repente, se vê na condição de tutor de Patrick (Lucas Hedges), um jovem garoto em plena descoberta sexual e de identidade. No convívio entre os dois, Manchester à Beira-Mar aborda várias jornadas: a de Lee, que parece saber lidar melhor com a perda do irmão do que com a sua nova condição de tutor; a de Patrick, que, distanciado de uma mãe problemática, tenta inconscientemente abstrair a repentina ausência do pai ao se cercar de amigos e interesses amorosos; e, claro, a conjunta desses dois personagens, que agora enfrentam inúmeros reajustes sob o mesmo teto.
Manchester à Beira-Mar engloba dilemas individuais e coletivos sem perder a mão, distribuindo uma generosa cota de tempo e digestão para o drama de cada um dos personagens. Com uma longa metragem (quase 140 minutos), o filme não tem pressa em desenvolver mesmo registros supostamente corriqueiros. Isso porque tudo está ali para comunicar, como a visível infelicidade de Lee, perceptível em uma simples montagem que acompanha seus dias lidando com clientes insatisfeitos no trabalho, ou o jeito torto de Patrick acobertar emoções que explode em um pequeno acidente doméstico na cozinha. Outro aspecto que torna o roteiro incrivelmente preciso é a inteligente introdução de flashbacks e personagens coadjuvantes na trama. A comprovação máxima desse elogio é o momento em que Manchester à Beira-Mar descortina uma perturbadora tragédia do passado do protagonista. Sóbrio, o relato surge organicamente: enquanto boa parte dos diretores não resistiria em guardá-lo como uma surpreendente revelação para os minutos finais de projeção, Lonergan o insere muito antes, percebendo que ele é prioritariamente um necessário complemento para o entendimento do espectador em relação ao protagonista.
Segundo, nossa discussão chega à direção. Se a quantidade de filmes dirigidos poderia acusar uma certa inexperiência de Kenneth Lonergan (excetuando o bem sucedido Conte Comigo, houve apenas o pequeno e quase ignorado Margaret, levando em conta seus 16 anos como diretor até aqui), Manchester à Beira-Mar surpreende ao se apresentar como, disparada, a direção mais madura do nova-iorquino. Ainda assim, não deixa de causar estranheza um filme como esse se destacar tanto em uma temporada de premiações, já que é raro obras menores e de dramas “comuns” (entre aspas porque nenhum drama é comum, especialmente quando bem contado) receberem algum tipo de reconhecimento. E o estilo escolhido para conduzir Manchester à Beira-Mar amplia um pouco esse estranhamento. Isso porque a direção crua não força absolutamente nada da história, acreditando que a força individual dela é de certa forma suficiente para seu impacto. O maior mérito da direção é justamente o inverso do que normalmente recebe distinções: ao invés de sublinhar o que não é necessário com qualquer artifício (nem mesmo os flashbacks são concebidos com diferenciações estéticas) ou de intensificar a força de cenas que já são dramáticas por si só, Lonergan toma como trabalho principal delimitar fronteiras em todas as frentes – e, além de acertar na escolha, consegue fazê-la sem jamais tirar toda a densidade tão característica de Manchester à Beira-Mar.
Terceiro, por último e não menos importante, vem o elenco. São duas as figuras centrais do filme, e os atores escolhidos para interpretá-las são excelentes. Ao considerar Casey Affleck surpreendente aqui, meio mundo deve ter esquecido o quão bom ele já era em O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford. Porém, isso em nada diminui a força de sua atuação, que, assim como todo filme, é calcada na economia mesmo quando Affleck é colocado a arranjar brigas em bares. Sua fragilidade é tocante na construção de um personagem que deixou de ter qualquer aptidão social e que sabota até mesmo as chances de retomar algum contato verdadeiramente humano na vida. Em contraste, o jovem Lucas Hedges, que participou de filmes como Refém da Paixão, O Grande Hotel Budapeste e Moonrise Kingdom com pequenas pontas, tem um papel mais sonoro – e com toda razão, pois, apesar de interiorizar sentimentos em relação a morte do pai, o garoto tenta se ajustar em uma banda com os amigos, administrar duas namoradas e conciliar suas vontades com as escolhas soberanas de seu novo tutor. Tanto Affleck quanto Hedges se equiparam ao filme, carimbando, também no plano da interpretação, a ideia de que Manchester à Beira-Mar, um projeto pequeno em tese, é mesmo grande na prática.