Cinema e Argumento

Lady Bird: A Hora de Voar

What if this is the best version?

Direção: Greta Gerwig

Roteiro: Greta Gerwig

Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Stephen Henderson, Odeya Rush, Jordan Rodrigues, Marielle Scott

Lady Bird, EUA, 2017, Drama/Comédia, 94 minutos

Sinopse: Christine McPherson (Saoirse Ronan) está no último ano do ensino médio e o que mais deseja é ir fazer faculdade longe de Sacramento, Califórnia, ideia firmemente rejeitada por sua mãe (Laurie Metcalf). Lady Bird, como a garota de forte personalidade exige ser chamada, não se dá por vencida e leva o plano de ir embora adiante mesmo assim. Enquanto sua hora não chega, no entanto, ela se divide entre as obrigações estudantis no colégio católico, o primeiro namoro, típicos rituais de passagem para a vida adulta e inúmeros desentendimentos com a progenitora. (Adoro Cinema)

Se Greta Gerwig tivesse rodado a primeira versão do roteiro de Lady Bird: A Hora de Voar, a sua estreia como diretora de longas-metragens resultaria em um filme de aproximadamente seis horas, visto que o tratamento inicial do texto que ela própria escreveu ultrapassava a marca de 650 páginas. Por se tratar de uma história autobiográfica, Lady Bird carrega mesmo um detalhado conhecimento da roteirista-agora-diretora sobre o universo de uma menina que, sob o codinome que dá título ao filme, passa a adolescência em Sacramento, nos Estados Unidos, mas deseja sair o quanto antes da cidade e viver sua própria vida. No entanto, é um equívoco dizer que Greta, uma roteirista de mão cheia revelada nos últimos anos em filmes como Frances Ha e Mistress America, faz seu debut na cadeira de direção com um filme simples e fácil. Afinal, uma obra carismática, eficiente e de personalidade como Lady Bird só poderia ganhar vida pelas mãos de uma cineasta talentosa e consciente de que até o (bom) cinema cotidiano, cômico e espirituoso tem as suas sofisticações e desafios.

Uma das maiores conquistas de Greta Gerwig em Lady Bird é ter transformado seu filme inicial de seis horas em uma obra concisa, mas que não deixa de abarcar a infinidade de assuntos inerentes ao universo de uma menina adolescente. Em rápidos 94 minutos, o longa fala sobre amizade, escola, primeiras paixões, virgindade, homossexualidade e, claro, a transição para a vida adulta. E Greta captura todo esse horizonte com tanta maturidade como contadora de histórias que se torna impossível acusar Lady Bird de ser um filme superficial. Parte desse mérito vem da diretora saber que pode sim falar sobre muitas coisas, mas que, devido ao tema e à natureza do projeto, esse é um relato sobre o significado do todo, e não um estudo específico (e praticamente impossível) a respeito de cada situação ou experiência vivenciada pela protagonista. A partir disso, ali está a vida como ela é quando somos adolescentes e queremos crescer a todo custo, como se o que vivêssemos enquanto somos jovens não tivesse lá o seu valor até conquistarmos a tão sonhada independência.

Em meio a um turbilhão natural de vivências adolescentes, Lady Bird escolhe por concentrar o coração de seu relato em dois temas perfeitamente claros. Primeiro, a busca de uma jovem por sua identidade. Essa é uma perspectiva crucial porque poucas vezes na vida somos tão exigidos e confrontados quanto a isso como na adolescência (e o fato de morarmos com os pais, que, por natureza, controlam desde o timing de nossas primeiras experiências até a forma como arrumamos ou não a cama só contribui por essa busca repleta de pedras no caminho). Lady Bird (Saoirse Ronan) quer urgentemente descobrir seu lugar no mundo, e essa é uma descoberta que alguém jovem como ela só poderá fazer por conta própria, sem a insistente pressão de várias pessoas a sua volta. Ao fazer com que a protagonista aprenda com seus próprios erros, viva conquistas tão sonhadas e tome decisões com as convicções que só podem ser sentidas por ela, o filme descortina, com muita graça e espontaneidade, um recorte de identificação universal.

O segundo tema que dá a base para o núcleo dramático de Lady Bird é mais comovente e profundo: a relação entre mãe e filha. Aqui, ambas são mulheres de personalidades marcantes e bem definidas, configuração que causa conflitos diários e argumentações infinitas entre elas. É como se Lady Bird e Marion (Laurie Metcalf) fossem tão transbordantes que nenhum espaço compartilhado entre as duas pudesse dar conta desse convívio. Contudo, Lady Bird é esperto o suficiente para não transformar a relação das personagens em um simples cabo de guerra: não faltam sutilezas na direção para construir essa dinâmica que também é cercada de carinho, admiração e respeito, mas que, pela inabilidade das duas de estabelecer um diálogo mais íntimo, acaba sempre reprimida (uma prova desse contraste é quando, ao escolher um vestido em uma loja, Lady Bird briga com a mãe para, segundos depois, compartilhar com ela o entusiasmo por uma linda peça encontrada à venda).

Saoirse Ronan, possivelmente a atriz mais versátil de sua geração, cria essa personagem crível e singular que mais uma vez atesta a sua capacidade de entrar em qualquer tipo de papel: Lady Bird, a personagem, em momento algum reprisa qualquer resquício da complexa Briony Tallis de Desejo e Reparação ou da doce e encantadora Ellis de Brooklin, considerando suas outras indicações ao Oscar. Sem transformar a protagonista em uma repetitiva adolescente rebelde, Ronan encontra o tom certeiro para uma menina que, aos poucos, percebe o quanto está mudando. De maneira complementar, Laurie Metcalf, atriz que vem de uma recente trajetória de glória na TV e no cinema (Tony em 2017 por A Doll’s House: Part 2 e indicação tripla ao Emmy em 2016 por Getting OnThe Big Bang TheoryHorace and Pete) é maravilhosa e comovente como uma rígida matriarca que, lá no fundo, utiliza a repressão para camuflar o fato de que não consegue comunicar à própria filha o imenso afeto que nutre por ela. A dinâmica entre as duas é a força motriz de Lady Bird, que destila sabedoria sobre a feminilidade, mas que, surpresa, também pode ser muito bem sobre todos nós. E Greta Gerwig, em sua estreia bastante esperta na direção, sabe como chegar emocionalmente a esse ponto, provando que não é todo mundo que encontra a fibra da emoção e da inteligência na simplicidade.

Todo o Dinheiro do Mundo

They say you never really know someone until you have divorced them.

Direção: Ridley Scott

Roteiro: David Scarpa, baseado no livro “Painfully Rich: The Outrageous Fortunes and Misfortunes of the Heirs of J. Paul Getty”, de John Pearson

Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Charlie Plummer, Charlie Shotwell, Andrew Buchan, Marco Leonardi, Giuseppe Bonifati

All the Money in the World, EUA, 2017, Drama, 132 minutos

Sinopse: Itália, 1973. John Paul Getty III (Charlie Plummer) é o neto favorito do magnata do petróleo J. Paul Getty (Christopher Plummer), um dos primeiros bilionários da história da humanidade. O sequestro do rapaz coloca a sua mãe, Gail Harris (Michelle Williams), em uma corrida desesperada para convencer o ex-sogro a pagar o resgate milionário do filho. Frio, manipulador e mesquinho, Getty irá encarregar o ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg), seu homem de confiança, de descobrir quem e o que está por trás do crime, solucionando o problema sem o desperdício de nenhum centavo de sua fortuna. (Adoro Cinema)

A situação sem precedentes já foi contada e discutida em todos os cantos do mundo — após as mais de 30 acusações de assédio contra Kevin Spacey, o diretor Ridley Scott resolveu, na pós-produção, cortar a participação do ator e refilmar todas as cenas com Christopher Plummer para não fazer com que o seu filme já nascesse morto ou boicotado —, mas agora que Todo o Dinheiro do Mundo finalmente chegou aos cinemas, a questão é outra: afinal de contas, a história e o filme como um todo conseguem sair das sombras dessa circunstância extraordinária e caminhar com as próprias pernas? Em partes. Culpa do imbróglio envolvendo Kevin Spacey? Negativo. Se Todo o Dinheiro do Mundo não é o grande filme que poderia ter sido é por problemas anteriores ao escândalo que dizimou para todo o sempre um dos atores mais prestigiados de Hollywood.

Ridley Scott garante que a versão com Kevin Spacey nunca virá à tona — o diretor diz que não mantem qualquer contato com o ator (hoje secretamente enclausurado em uma clínica) e que sequer o comunicou sobre subtituí-lo na versão final —, o que não quer dizer muita coisa, pois Scott tem um longo histórico envolvendo o lançamento de tudo o que é tipo de corte dos seus filmes. Porém, se fosse para um dia vermos a versão de Spacey, seria por pura curiosidade, já que, quando Todo o Dinheiro do Mundo fascina, é justamente por causa de Christopher Plummer. Em função de seus 88 anos de idade, o ator não precisou das pesadas maquiagens e próteses que Spacey, quase 30 anos mais novo, usava para interpretar Jean Paul Getty. Sabe-se lá o que Spacey teria feito no papel, mas um ator de rosto naturalmente envelhecido tem muito mais a acrescentar para a figura forte e curiosa desse homem que, magnata do petróleo e bilionário, não quis pagar o resgato do neto sequestrado.

O que mais estimula em Todo o Dinheiro do Mundo é essa circunstância que vai muito além da ideia defendida pelo personagem de que, caso pagasse o sequestro, era questão de tempo para que seus outros 13 netos também fossem raptados, permitindo assim uma série de ataques ao seu patrimônio. O contexto era muito mais complexo: extremamente neurótico com o seu dinheiro, Getty era capaz até de lavar suas próprias roupas em um hotel para não ter que pagar pelo serviço de quarto. Ele também alegava que os milhões de dólares solicitados pelos bandidos não poderiam ser deduzidos no Imposto de Renda, o que também lhe colocaria em maus lençóis. Ao invés de retratar esse homem apenas como desumano e mão-de-vaca, o roteirista David Scarpa usa esse contexto para refletir sobre as razões que levam alguém a enriquecer e a guardar dinheiro. Ora, do que adianta acumular fortunas se elas não podem ser usadas em prol de sua própria família em um momento de necessidade ou como facilitadoras de tarefas diárias?

A mesquinharia de Getty é tão impactante que provavelmente você sairá do cinema tendo certa ojeriza da ideia de ganhar rios de dinheiro. E é óbvio que Christopher Plummer tem sua contribuição nisso: com uma serenidade absolutamente cortante, o ator não deixa que seu personagem caia na caricatura, potencializando a frieza, os mistérios e a desumanidade de um homem com cada olhar, cada movimento, cada respiração. É coisa que só a experiência pode trazer. Há, na contracorrente, uma figura que bate de frente com Getty: a ex-nora Gail (Michelle Williams), que, após anos casada com o filho do magnata, logo aprendeu que a única forma de dialogar com o sogro é entrando na mesma batida calculista. Foi assim, por exemplo, que ela garantiu a guarda dos filhos ao abrir mão de qualquer pensão ou relação financeira com o sogro e o ex-marido. E é assim que, quando lida com as recusas de Getty para pagar o resgate do neto, ela jamais levanta o tom ou discute — apenas balança a cabeça, quase lançando um sorriso recriminador, evidenciando que nada daquilo a surpreende.

Como Gail, Michelle Williams é muito boa ao fazer com que sua personagem interiorize um desespero inimaginável. Sem derramar uma lágrima — o que logo é cobrado pela imprensa que cobre o caso no filme — a protagonista dá um jeito de buscar o filho com suas próprias armas. Essa decisão marca, enfim, o ponto exato onde Todo o Dinheiro do Mundo se dispersa e enfraquece as reflexões tão interessantes até ali. Tanto o roteiro se embola nos diversos pontos de vista da história como o próprio Ridley Scott perde a mão na hora de dar ritmo e personalidade uniforme ao filme. Apresentando pelo menos quatro perspectivas acerca da situação — a de Getty, a de Gail, a do neto sequestrado e a do sequestrador — o longa não se decide muito bem entre avançar dramaticamente nas complexidades de seus personagens ou fazer um thriller nervoso que, como os próprios créditos finais fazem questão de anunciar, adaptou circunstâncias e acontecimentos para criar estofo dramático. Com uma narrativa quebrada e truncada por tantos pontos de vista (muitos deles desinteressantes) e por essa indecisão de abordagem, Todo o Dinheiro do Mundo perde boa parte do seu gás e, ao final, não ultrapassa as barreiras impostas pelas polêmicas de seus bastidores.

Sem Fôlego

We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars.

Direção: Todd Haynes

Roteiro: Brian Selznick, baseado no romance “Wonderstruck”, de autoria própria

Elenco: Oakes Fegley, Millicent Simmonds, Julianne Moore, Cory Michael Smith, Michelle Williams, Jaden Michael, Ekaterina Samsonov, Lilianne Rojek, Tom Noonan, Morgan Turner, Sawyer Nunes

Wonderstuck, EUA, 2017, Drama/Aventura, 116 minutos

Sinopse: Gunlint, Minnesota, 1977. Ao atender um telefonema, o garoto Ben (Oakes Fegley) é atingido pelo reflexo de um raio, que caiu bem em sua casa. Esta situação faz com que seja levado a um hospital em Nova York, onde descobre que não consegue mais ouvir um som sequer. Em 1927, a jovem surda Rose (Millicent Simonds) foge de sua casa em Nova York para encontrar sua mãe, a consagrada atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore). A vida destes dois garotos que não conseguem mais ouvir está interligada a partir de um livro de curiosidades, que os leva ao Museu de História Natural. (Adoro Cinema)

O diretor Todd Haynes talvez nunca tenha realizado uma obra tão repleta de estranhamento como Sem Fôlego, ainda que seja estranhamento do bom. Vendido equivocadamente pelos trailers e pelos cartazes como uma aventura infanto-juvenil, a experiência dificilmente conquistará qualquer criança, e é bem provável que não desperte encantamento nem mesmo nas plateias mais alternativas que deveriam lhe dar alguma atenção. Solenemente ignorado pela crítica mesmo com a seleção para a mostra competitiva em Cannes, Sem Fôlego não foi avaliado com muito entusiasmo lá fora durante o evento francês ou em sua trajetória comercial e agora chega ao Brasil com uma distribuição paupérrima, encorpando a tese de que os novos tempos têm sido cada vez menos generosos com filmes que colocam o espectador para fora de sua zona de conforto.

Não à toa Sem Fôlego é baseado em um best seller assinado por Brian Selznick, o mesmo autor de A Invenção de Hugo Cabret, obra que Martin Scorsese levou para as telas em 2011. Ambos são trabalhos que usam o mundo infantil como ponto de partida para discutir questões que não são necessariamente para os pequenos, mas a diferença é que Sem Fôlego se revela, em estrutura e conceito, um filme melhor resolvido do que Hugo Cabret. Enquanto Scorsese parecia não trazer muita unidade para uma história que era uma aventura infantil em sua primeira metade e logo após uma homenagem específica ao cinema, Haynes, com o roteiro do próprio Selznick, não faz rodeios nem se equivoca, assumindo, desde os primeiros minutos, que a recompensa do filme é bem diferente do cinema fantástico, ritmado e comercial que, inevitavelmente, a sua promoção sugere.

Sem Fôlego prefere ver o mundo praticamente sem som: uma das histórias é realmente muda, o que faz total sentido para tudo o que vive a pequena Rose (Millicent Simmonds), menina surda que, em uma viagem para Nova York, deseja ansiosamente se encontrar com uma atriz que tanto assiste e admira nas telas do cinema. Por falar na surdez de Rose, esse logo também será o destino de Ben (Oakes Fegley), um garoto que, após a morte da mãe, busca descobrir quem é o pai que nunca conheceu. Em uma de suas investigações, faz uma ligação e, no meio dela, perde a audição porque um raio atinge em cheio a sua casa durante uma noite de tempestade.

A conexão dramática das duas histórias vai muito além da surdez que os personagens têm em comum, pois, na verdade, o que os une é a busca por algum tipo de identidade ou pertencimento. Se nós que somos adultos eventualmente nos confrontamos com a dúvida de quem somos, o que sobra, então, para as crianças que estão em plena construção de suas próprias identidades, em especial essas que não podem ouvir e também não são ouvidas? Sem Fôlego se debruça sobre essas questões, renegando a adrenalina e as reviravoltas que costumam ser o norte de produções juvenis. O filme tanto renega essa vocação aventureira que o próprio desfecho é a pincelada final para a sua proposta de falar sobre minorias em busca do seu lugar no mundo — e só reclama da falta de impacto do lindo encerramento quem realmente não embarcou na essência do longa.

Como na vida, Sem Fôlego mostra que essa viagem rumo à descoberta quem somos é mesmo solitária e, principalmente, atemporal, visto que Rose e Ben vivem em épocas distintas (ela em 1927 e ele em 1977) e passam basicamente pelos mesmos dilemas. Haynes, que repete em grande parte o mesmo time do lindo Carol — o fotógrafo Edward Lachman, o compositor Carter Burwell (cada vez mais talentoso e sofisticado) —, cria duas diferentes linguagens para acompanhar cada personagem. Lá pelas tantas, quando as histórias encontram um ponto de convergência, a trama alcança seu momento mais belo em termos estéticos e dramáticos, contando com a ajuda muito especial de uma comovente Julianne Moore. É, finalmente, a recompensa que mostra o quanto Todd Haynes está realmente nem aí para formas e padrões. E, como esse é o tipo de cinema que mais me interessa, saí do cinema com com o coração cheio.

O Destino de Uma Nação

You can not reason with a tiger when your head is in its mouth!

Direção: Joe Wright

Roteiro: Anthony McCarten

Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Stephen Dillane, Ronald Pickup, Nicholas Jones, Samuel West, David Schofield, Richard Lumsden,  Malcolm Storry,  Hilton McRae

Darkest Hour, EUA/Reino Unido, 2017, Drama, 125 minutos

Sinopse: Winston Churchill (Gary Oldman) está prestes a encarar um de seus maiores desafios: tomar posse do cargo de Primeiro Ministro da Grã-Bretanha. Paralelamente, ele começa a costurar um tratado de paz com a Alemanha nazista que pode significar o fim de anos de conflito. (Adoro Cinema)

Costumo lançar duas exigências quando vou ao encontro das cinebiografias. A primeira é de que elas precisam ser fiéis aos seus biografados, abraçando tanto as suas qualidades quanto as suas imperfeições, algo que o recente Bingo – O Rei das Manhãs fez tão bem. E a segunda é de que inovem de alguma maneira, seja no que for. Lanço as exigências porque gosto de ser surpreendido, mas também porque não existe estilo de filme menos criativo e provocador do que esse, com obras sempre tão lineares, pouco inventivas e excessivamente entregues a seus atores, dando a entender que basta um intérprete estar parecido com seu respectivo biografado para elas terem cumprido o seu propósito. Em cartaz nos cinemas brasileiros, O Destino de Uma Nação tanto não inova em qualquer aspecto quanto joga boa parte de suas responsabilidades para Gary Oldman, escolha que, claro, já encaminhou toda a papelada para que o ator vença o Oscar 2018, mas que dificilmente fará com que a produção em si seja lembrada por outra razão que não seja a celebração desse experiente profissional jamais celebrado até então.

À parte sua estrutura formalíssima, O Destino de Uma Nação passa longe de ser um relato empolgante sobre Winston Churchill por não ser exatamente fiel ao seu biografado. O momento retratado é bom — aquele em que Churchill, recém eleito primeiro-ministro da Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial, precisa escolher entre firmar um acordo com a Alemanha nazista de Adolf Hitler ou enfrentar o temido ditador que está prestes a exterminar o exército britânico —, o que, por incrível que pareça, não traz a tensão que seria tão bem-vinda para um conflito dessa magnitude. Por ser didático na forma, O Destino de Uma Nação é mais explicativo e menos cinematográfico, apoiado em um roteiro que se baseia na personalidade e nos discursos de Churchill, que tinha o indiscutível dom da oratória. E explorar tanto as qualidades do personagem não deixa de ser um demérito, pois, nesse caso, o talento não está nas criações do longa e sim nas coisas como elas realmente eram, aconteceram e foram ditas pelo primeiro-ministro.

Partindo para o plano da interpretação de Churchill, o irreconhecível Gary Oldman parece ter se divertido à beça por debaixo das pesadas maquiagens e próteses, mas, anterior ao seu trabalho como ator, existe o roteiro de Anthony McCarten (A Teoria de Tudo), que, seguindo mais ou menos o que fez Abi Morgan em A Dama de Ferro, tenta a todo momento amenizar ou até mesmo a omitir o lado polêmico e controverso do personagem. Gosto de ressaltar que ajustes são inevitáveis em adaptações, ao passo que, por outro lado, não ser fiel aos fatos, é mais do que infidelidade: é também desonestidade (O Rei do Show é um recente exemplo disso). Quando chega próximo de retratar um Winston Churchill mais genioso, difícil e irredutível, O Destino de Uma Nação imediatamente dá um jeito de humanizá-lo, seja com a entrada de figuras femininas que só existem para isso (a esposa vivida por Kristin Scott Thomas, a datilógrafa interpretada por Lily James e as filhas cujos nomes nem sabemos direito) ou com a ideia de torná-lo um adorável rabugento. O longa se esquiva de aprofundar as questões que levam Churchill a ser um personagem ao mesmo tão difícil e fascinante, assim como induz o espectador a rir de suas grosserias e intolerâncias ao invés de investigar a origem desse temperamento.

É curiosa essa irregularidade do britânico Joe Wright como diretor, capaz de obras intensas do ponto de vista dramático e técnico (Desejo e Reparação permanece imbatível como sua obra máxima) e também de outras superficiais e sem muita personalidade, como O Solista, Peter Pan e agora esse O Destino de Uma Nação. Em seu relato de Churchill, Wright se cercou de amigos talentosos e profissionais irrepreensíveis (o compositor italiano Dario Marianelli, o fotógrafo francês Bruno Delbonnel), todos realizando trabalhos que, assim como o do diretor, podem não ser inovadores do ponto de vista técnico, mas que, ao menos, conferem aquela classe tão característica das biografias realizadas no Reino Unido. E talvez esteja aí a maior das decepções com o resultado apenas mediano de O Destino de Uma Nação: com o time que reuniu, era de se esperar, no mínimo, um caldo mais consistente, especialmente quando temos como referência o ótimo John Lithgow, que colecionou pencas de (merecidos) elogios por sua performance como Churchill na primeira temporada do seriado The Crown. Wright e sua turma bem que poderiam ter colocado mais energia no projeto para fazer alguma diferença. Talento é o que não falta aos envolvidos.

Rapidamente: “Doentes de Amor”, “Star Wars: Os Últimos Jedi”, “Viva: A Vida é Uma Festa” e “Victoria e Abdul”

Unindo criatividade e emoção, Viva: A Vida é Uma Festa leva a cultura mexicana para o mundo com uma história que celebra a memória de quem ainda está aqui e de quem já se foi.

DOENTES DE AMOR (The Bick Sick, 2017, de Michael Showalter): Como explicar o encanto repentino das premiações com Doentes de Amor? A reação entusiasmada é surpreendente não porque estamos falando de uma comédia, gênero historicamente menosprezado frente aos dramas, mas porque é difícil encontrar qualidades que classifiquem o filme de Michael Showalter como uma produção para ser lembrada na futuramente. Entre os detratores, existe a piada de que Doentes de Amor nada mais é do que um episódio estendido e sem graça do seriado Master of None. Como não vejo o programa escrito e estrelado por Aziz Ansari, fico apenas na afirmação de que o longa é, no máximo dos máximos, apenas uma história simpática e que desenvolve o já conhecido arco de um personagem que anseia por se libertar das amarras de toda uma cultura familiar que lhe é imposta. Há de se reconhecer que o filme dá uma guinada interessante e corajosa para criar o contexto que, aos poucos, passa a acarretar reflexões sobre redenção, culpa e a reconstrução do amor. Contudo, a partir de determinado momento, o enredo não sai mais do lugar, mesmo com a entrada de outros personagens, entre eles a sogra impaciente de Holly Hunter, que, sabemos, não levará muito tempo para amolecer. No geral, Doentes de Amor tenta provar sua inteligência ao fazer graça com o humor sem graça, mas não consegue ultrapassar as fronteiras da mera simpatia.

STAR WARS: OS ÚLTIMOS JEDI (Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi, 2017, de Rian Johnson): A troca na cadeira de direção deixou o público em polvorosa: com a saída de J.J. Abrams e a entrada de Rian Johnson, Star Wars: Os Últimos Jedi dividiu opiniões em tudo que é canto, mas o novo capítulo da mais clássica saga intergalática do cinema perde certo fôlego porque nada mais é do que o capítulo intermediário de uma trilogia. São raríssimas as obras produzidas nesse contexto que conseguem ser muito mais do que uma mera ponte entre o primeiro e o último capítulo de uma narrativa. Por isso, é injusto dizer que Rian Johnson, também autor do roteiro, decepciona atrás das câmeras por ter descaracterizado Star Wars ou coisa do gênero. Johnson tinha o tremendo desafio de pisar pela primeira vez em Star Wars com um filme de transição, e a sua opção foi frear a ação e lançar um olhar mais apurado aos personagens e às mitologias do universo, escolha esperta do ponto de vista artístico, mas que deve servir muito mais ao público com vasto conhecimento da saga. Como entretenimento do tipo que traz diversão e adrenalina, Os Últimos Jedi ameniza aventura e pode muito bem deixar a velha impressão de que levou tempo demais (152 minutos, especificamente) para não avançar muito em uma história que, claro, promoverá suas principais conclusões apenas no capítulo final, marcado para estrear apenas em dezembro de 2019. 

VIVA: A VIDA É UMA FESTA (Coco, 2017, de Lee Unkrich e Adrian Molina): Pensem o milagre que é um filme como Viva: A Vida é Uma Festa ter saído do papel. Milagre porque essa é uma animação produzida em solo estadunidense que fala sobre morte, fantasmas e caveiras não a partir do Halloween, uma tradição fortemente enraizada e celebrada no país, mas sim do universo mexicano, onde é celebrado o emblemático dia de los muertos. Apropriamento cultural para encher o bolso? Nada disso. Primeiro porque Viva: A Vida é Uma Festa tem um frescor tremendo por justamente falar de temas comuns a todos nós — a saudade deixada por quem já se foi, os contrastes entre diferentes gerações familiares, as heranças culturais e emocionais que precisam ser preservadas ou transformadas — sob a perspectiva de um universo latino, capturando com graça e precisão aspectos emblemáticos desse povo, a exemplo da indiscutível força das mulheres e o respeito cultivado por elas localmente. Segundo porque o México caiu de amores pela animação, conferindo-lhe o título de filme mais lucrativo da história do país. Mais do que o encanto pela reprodução do folclore mexicano, a paixão é justificada, pois Viva é criativo, repleto de mensagens emocionantes e, especialmente ao final, uma experiência de arrasar o coração. É a salvação que estávamos precisando para a fraca safra de animações estadunidenses dos últimos meses.

VICTORIA E ABDUL: O CONFIDENTE DA RAINHA (Victoria & Abdul, 2017, de Stephen Frears): Raro caso de diretor que se dedica a contar histórias sobre mulheres de idade avançada, Stephen Frears, em sua carreira recente, realmente abraçou por completo esse conceito: somente nos últimos dez anos, dirigiu Helen Mirren em A Rainha, Judi Dench em Philomena, Meryl Streep em Florence: Quem é Essa Mulher? e, em 2017, voltou a trabalhar com Dench em Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha, talvez o exemplar menos instigante entre os citados.Ainda que entregue menos do que o esperado sobre a tenacidade de uma amizade (a forma como o filme desenvolve a conexão entre os dois protagonistas é rasteira), o longa, do ponto de vista temático, compensa essa falha ao encenar como o apreço pelos desfavorecidos, pelo diferente e pelo transgressor podem ser temperos perigosos para as relações políticas (em certo ponto, questionam até a sanidade mental da rainha simplesmente por ela ser amiga de um indiano!), intolerância que hoje é muito significativa para o cenário político que vivemos no Brasil. O contraste também se reflete no elenco: enquanto Ali Fazal é limitado como Abdul, Dench, claro, faz tudo parecer fácil como a adorável rabugenta Victoria. Não é nem de longe o projeto mais carismático, original ou cativante dos envolvidos, mas deve ser o suficiente para quem busca o simples e tradicional jeito britânico de fazer biografias de época.