Cinema e Argumento

O Destino de Uma Nação

You can not reason with a tiger when your head is in its mouth!

Direção: Joe Wright

Roteiro: Anthony McCarten

Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Stephen Dillane, Ronald Pickup, Nicholas Jones, Samuel West, David Schofield, Richard Lumsden,  Malcolm Storry,  Hilton McRae

Darkest Hour, EUA/Reino Unido, 2017, Drama, 125 minutos

Sinopse: Winston Churchill (Gary Oldman) está prestes a encarar um de seus maiores desafios: tomar posse do cargo de Primeiro Ministro da Grã-Bretanha. Paralelamente, ele começa a costurar um tratado de paz com a Alemanha nazista que pode significar o fim de anos de conflito. (Adoro Cinema)

Costumo lançar duas exigências quando vou ao encontro das cinebiografias. A primeira é de que elas precisam ser fiéis aos seus biografados, abraçando tanto as suas qualidades quanto as suas imperfeições, algo que o recente Bingo – O Rei das Manhãs fez tão bem. E a segunda é de que inovem de alguma maneira, seja no que for. Lanço as exigências porque gosto de ser surpreendido, mas também porque não existe estilo de filme menos criativo e provocador do que esse, com obras sempre tão lineares, pouco inventivas e excessivamente entregues a seus atores, dando a entender que basta um intérprete estar parecido com seu respectivo biografado para elas terem cumprido o seu propósito. Em cartaz nos cinemas brasileiros, O Destino de Uma Nação tanto não inova em qualquer aspecto quanto joga boa parte de suas responsabilidades para Gary Oldman, escolha que, claro, já encaminhou toda a papelada para que o ator vença o Oscar 2018, mas que dificilmente fará com que a produção em si seja lembrada por outra razão que não seja a celebração desse experiente profissional jamais celebrado até então.

À parte sua estrutura formalíssima, O Destino de Uma Nação passa longe de ser um relato empolgante sobre Winston Churchill por não ser exatamente fiel ao seu biografado. O momento retratado é bom — aquele em que Churchill, recém eleito primeiro-ministro da Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial, precisa escolher entre firmar um acordo com a Alemanha nazista de Adolf Hitler ou enfrentar o temido ditador que está prestes a exterminar o exército britânico —, o que, por incrível que pareça, não traz a tensão que seria tão bem-vinda para um conflito dessa magnitude. Por ser didático na forma, O Destino de Uma Nação é mais explicativo e menos cinematográfico, apoiado em um roteiro que se baseia na personalidade e nos discursos de Churchill, que tinha o indiscutível dom da oratória. E explorar tanto as qualidades do personagem não deixa de ser um demérito, pois, nesse caso, o talento não está nas criações do longa e sim nas coisas como elas realmente eram, aconteceram e foram ditas pelo primeiro-ministro.

Partindo para o plano da interpretação de Churchill, o irreconhecível Gary Oldman parece ter se divertido à beça por debaixo das pesadas maquiagens e próteses, mas, anterior ao seu trabalho como ator, existe o roteiro de Anthony McCarten (A Teoria de Tudo), que, seguindo mais ou menos o que fez Abi Morgan em A Dama de Ferro, tenta a todo momento amenizar ou até mesmo a omitir o lado polêmico e controverso do personagem. Gosto de ressaltar que ajustes são inevitáveis em adaptações, ao passo que, por outro lado, não ser fiel aos fatos, é mais do que infidelidade: é também desonestidade (O Rei do Show é um recente exemplo disso). Quando chega próximo de retratar um Winston Churchill mais genioso, difícil e irredutível, O Destino de Uma Nação imediatamente dá um jeito de humanizá-lo, seja com a entrada de figuras femininas que só existem para isso (a esposa vivida por Kristin Scott Thomas, a datilógrafa interpretada por Lily James e as filhas cujos nomes nem sabemos direito) ou com a ideia de torná-lo um adorável rabugento. O longa se esquiva de aprofundar as questões que levam Churchill a ser um personagem ao mesmo tão difícil e fascinante, assim como induz o espectador a rir de suas grosserias e intolerâncias ao invés de investigar a origem desse temperamento.

É curiosa essa irregularidade do britânico Joe Wright como diretor, capaz de obras intensas do ponto de vista dramático e técnico (Desejo e Reparação permanece imbatível como sua obra máxima) e também de outras superficiais e sem muita personalidade, como O Solista, Peter Pan e agora esse O Destino de Uma Nação. Em seu relato de Churchill, Wright se cercou de amigos talentosos e profissionais irrepreensíveis (o compositor italiano Dario Marianelli, o fotógrafo francês Bruno Delbonnel), todos realizando trabalhos que, assim como o do diretor, podem não ser inovadores do ponto de vista técnico, mas que, ao menos, conferem aquela classe tão característica das biografias realizadas no Reino Unido. E talvez esteja aí a maior das decepções com o resultado apenas mediano de O Destino de Uma Nação: com o time que reuniu, era de se esperar, no mínimo, um caldo mais consistente, especialmente quando temos como referência o ótimo John Lithgow, que colecionou pencas de (merecidos) elogios por sua performance como Churchill na primeira temporada do seriado The Crown. Wright e sua turma bem que poderiam ter colocado mais energia no projeto para fazer alguma diferença. Talento é o que não falta aos envolvidos.

Rapidamente: “Doentes de Amor”, “Star Wars: Os Últimos Jedi”, “Viva: A Vida é Uma Festa” e “Victoria e Abdul”

Unindo criatividade e emoção, Viva: A Vida é Uma Festa leva a cultura mexicana para o mundo com uma história que celebra a memória de quem ainda está aqui e de quem já se foi.

DOENTES DE AMOR (The Bick Sick, 2017, de Michael Showalter): Como explicar o encanto repentino das premiações com Doentes de Amor? A reação entusiasmada é surpreendente não porque estamos falando de uma comédia, gênero historicamente menosprezado frente aos dramas, mas porque é difícil encontrar qualidades que classifiquem o filme de Michael Showalter como uma produção para ser lembrada na futuramente. Entre os detratores, existe a piada de que Doentes de Amor nada mais é do que um episódio estendido e sem graça do seriado Master of None. Como não vejo o programa escrito e estrelado por Aziz Ansari, fico apenas na afirmação de que o longa é, no máximo dos máximos, apenas uma história simpática e que desenvolve o já conhecido arco de um personagem que anseia por se libertar das amarras de toda uma cultura familiar que lhe é imposta. Há de se reconhecer que o filme dá uma guinada interessante e corajosa para criar o contexto que, aos poucos, passa a acarretar reflexões sobre redenção, culpa e a reconstrução do amor. Contudo, a partir de determinado momento, o enredo não sai mais do lugar, mesmo com a entrada de outros personagens, entre eles a sogra impaciente de Holly Hunter, que, sabemos, não levará muito tempo para amolecer. No geral, Doentes de Amor tenta provar sua inteligência ao fazer graça com o humor sem graça, mas não consegue ultrapassar as fronteiras da mera simpatia.

STAR WARS: OS ÚLTIMOS JEDI (Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi, 2017, de Rian Johnson): A troca na cadeira de direção deixou o público em polvorosa: com a saída de J.J. Abrams e a entrada de Rian Johnson, Star Wars: Os Últimos Jedi dividiu opiniões em tudo que é canto, mas o novo capítulo da mais clássica saga intergalática do cinema perde certo fôlego porque nada mais é do que o capítulo intermediário de uma trilogia. São raríssimas as obras produzidas nesse contexto que conseguem ser muito mais do que uma mera ponte entre o primeiro e o último capítulo de uma narrativa. Por isso, é injusto dizer que Rian Johnson, também autor do roteiro, decepciona atrás das câmeras por ter descaracterizado Star Wars ou coisa do gênero. Johnson tinha o tremendo desafio de pisar pela primeira vez em Star Wars com um filme de transição, e a sua opção foi frear a ação e lançar um olhar mais apurado aos personagens e às mitologias do universo, escolha esperta do ponto de vista artístico, mas que deve servir muito mais ao público com vasto conhecimento da saga. Como entretenimento do tipo que traz diversão e adrenalina, Os Últimos Jedi ameniza aventura e pode muito bem deixar a velha impressão de que levou tempo demais (152 minutos, especificamente) para não avançar muito em uma história que, claro, promoverá suas principais conclusões apenas no capítulo final, marcado para estrear apenas em dezembro de 2019. 

VIVA: A VIDA É UMA FESTA (Coco, 2017, de Lee Unkrich e Adrian Molina): Pensem o milagre que é um filme como Viva: A Vida é Uma Festa ter saído do papel. Milagre porque essa é uma animação produzida em solo estadunidense que fala sobre morte, fantasmas e caveiras não a partir do Halloween, uma tradição fortemente enraizada e celebrada no país, mas sim do universo mexicano, onde é celebrado o emblemático dia de los muertos. Apropriamento cultural para encher o bolso? Nada disso. Primeiro porque Viva: A Vida é Uma Festa tem um frescor tremendo por justamente falar de temas comuns a todos nós — a saudade deixada por quem já se foi, os contrastes entre diferentes gerações familiares, as heranças culturais e emocionais que precisam ser preservadas ou transformadas — sob a perspectiva de um universo latino, capturando com graça e precisão aspectos emblemáticos desse povo, a exemplo da indiscutível força das mulheres e o respeito cultivado por elas localmente. Segundo porque o México caiu de amores pela animação, conferindo-lhe o título de filme mais lucrativo da história do país. Mais do que o encanto pela reprodução do folclore mexicano, a paixão é justificada, pois Viva é criativo, repleto de mensagens emocionantes e, especialmente ao final, uma experiência de arrasar o coração. É a salvação que estávamos precisando para a fraca safra de animações estadunidenses dos últimos meses.

VICTORIA E ABDUL: O CONFIDENTE DA RAINHA (Victoria & Abdul, 2017, de Stephen Frears): Raro caso de diretor que se dedica a contar histórias sobre mulheres de idade avançada, Stephen Frears, em sua carreira recente, realmente abraçou por completo esse conceito: somente nos últimos dez anos, dirigiu Helen Mirren em A Rainha, Judi Dench em Philomena, Meryl Streep em Florence: Quem é Essa Mulher? e, em 2017, voltou a trabalhar com Dench em Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha, talvez o exemplar menos instigante entre os citados.Ainda que entregue menos do que o esperado sobre a tenacidade de uma amizade (a forma como o filme desenvolve a conexão entre os dois protagonistas é rasteira), o longa, do ponto de vista temático, compensa essa falha ao encenar como o apreço pelos desfavorecidos, pelo diferente e pelo transgressor podem ser temperos perigosos para as relações políticas (em certo ponto, questionam até a sanidade mental da rainha simplesmente por ela ser amiga de um indiano!), intolerância que hoje é muito significativa para o cenário político que vivemos no Brasil. O contraste também se reflete no elenco: enquanto Ali Fazal é limitado como Abdul, Dench, claro, faz tudo parecer fácil como a adorável rabugenta Victoria. Não é nem de longe o projeto mais carismático, original ou cativante dos envolvidos, mas deve ser o suficiente para quem busca o simples e tradicional jeito britânico de fazer biografias de época.

The Post: A Guerra Secreta

He says we can’t, I say we can.

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Josh Singer e Liz Hannah

Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Bob Odenkirk, Carrie Coon, Tracy Letts, Bradley Whitford, Jesse Plemons, Matthew Rhys, Alison Brie, Bruce Greenwood, Sarah Paulson, Michael Stuhlbarg

The Post, EUA, 2017, Drama, 116 minutos

Sinopse: Ben Bradlee (Tom Hanks) e Kay Graham (Meryl Streep), editores do The Washington Post, recebem um enorme estudo detalhado sobre o controverso papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e enfrentam de tudo para publicar os bombásticos documentos. (Adoro Cinema)

Dá para entender a pressa do diretor Steven Spielberg em realizar o drama The Post: A Guerra Secreta, que chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 25. Remontando todas as razões que levaram o jornal The Washington Post a publicar estudos que revelavam o papel controverso dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e colocavam em xeque a reputação do governo Richard Nixon em meados dos anos 1970, o longa tem tudo a ver com o nosso momento, onde, novamente, um presidente dos Estados Unidos tenta calar a imprensa em prol de seus interesses políticos e pessoais. The Post ganha uma dimensão ainda maior porque centra boa parte de sua recriação em Kay Graham, a editora-chefe do jornal que tomou a corajosa decisão de enfrentar interesses e grandes poderes para enfim publicar os famosos The Pentagon Papers, que viriam a causar uma revolução em termos políticos e jornalísticos.

Após ler o roteiro da dupla Josh Singer e Liz Hannah em outubro de 2016, Spielberg logo tratou de acelerar a produção do filme, anunciando em março do ano seguinte que ele estaria à frente do projeto trazendo Meryl Streep e Tom Hanks como protagonistas. Oportunismo para surfar nas polêmicas do momento? Longe disso. Como se vê em The Post, o cineasta é pura inteligência ao se apropriar do assunto para discutir temas urgentes e pertinentes  aos dias de hoje. Sim, estamos falando de um filme de época que mais uma vez apresenta Spielberg com a sua narrativa clássica e edificante, mas com um pique muito acima da média para nos lembrar que o bom cinema pode e deve deixar de acontecer no vácuo para ser o estudo de um momento, contribuindo para importantes reflexões.

Na teoria e na prática, não é lá muito saudável comparar The Post ao célebre Spotlight só porque ambos são filmes que retratam o universo do Jornalismo. Isso porque há uma diferença fundamental que joga cada filme para um lado. Ao passo que Spotlight centrava a sua trama nos processos diários da profissão, The Post trata de algo anterior: as tomadas de decisões que vêm de cima e definem tanto a existência quanto a reputação de um veículo de comunicação. Com isso, o filme causa certa euforia ao trazer para a mesa a homenagem a um Jornalismo que não se acovarda, que decide ir em frente mesmo contra os poderosos, que é fiel aos seus princípios e que, principalmente, sabe que precisa servir aos propósitos dos governados e não dos governantes. É uma boa lembrança para a imagem de uma profissão que, como atuante do ramo, sinto dizer que parece cada vez mais utópica.

O total engajamento de Spielberg na tomada de lado de The Post se reflete em seu trabalho de direção, que, facilmente, é o mais fluido em anos. Seu estilo tradicional de narrativa dramática segue sendo utilizado aqui, mas esse timing com a realidade atual dá frescor à direção de Spielberg, cujo trabalho cênico confere agilidade e dinâmica a um filme de quase duas horas falado do início ao fim. Exigindo a atenção do espectador ao mesmo tempo em que os recompensa com um elenco de primeiro escalão e até com bom humor, The Post é um filme sobre política e Jornalismo que não inventa a roda. Por outro lado, ele administra muito bem um estilo que, dependendo do espectador, pode ser tachado de cafona e antiquado, especialmente depois de tantos trabalhos sem inspiração e no piloto-automático do diretor, como Cavalo de Guerra e Ponte dos Espiões.

Acompanhado de amigos e colegas de longa data — entre outros, o fotógrafo Janusz Kaminski, o designer de produção Rick Carter, o montador Michael Kahn e, claro, os amigos John Williams na trilha e Tom Hanks no elenco —, Spielberg, contudo, pela primeira vez trabalha com Meryl Streep, fato que não chega a surpreender se você recuperar a carreira do cineasta e perceber que basicamente todos os seus filmes são protagonizados por homens. E ela encontra a fervura certa nas sutilezas de Kay Graham, uma mulher que tenta firmar sua voz em uma época machista, onde ela própria, que sempre esteve à sombra do pai e do marido, começa a desconstruir a sua própria crença na tola “superioridade” masculina ao herdar um jornal até então comandado por homens. Kay centraliza todas as importantes decisões que precisam ser tomadas na trama, trazendo uma perspectiva que, em boa parte, torna The Post irregular do ponto de vista estrutural (são dois filmes dentro de um: o dos jornalistas na redação e o de Kay trilhando seu caminho), mas que aprimora o tino temático e analítico de um projeto sobre valores que precisam ser lembrados ano após ano e que, ainda hoje, não são seguidos à risca como deveriam. Não à toa e isso não é mero pessimismo —, o mundo está do jeito que está.

Me Chame Pelo Seu Nome

Nature has cunning ways of finding our weakest spot.

Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: James Ivory, baseado no livro homônimo de André Aciman

Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg,  Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi, André Aciman, Peter Spears

Call Me By Your Name, Itália/França/Brasil/Estados Unidos, 2017, Drama, 132 minutos

Sinopse: O sensível e único filho da família americana com ascendência italiana e francesa Perlman, Elio (Timothée Chalamet), está enfrentando outro verão preguiçoso na casa de seus pais na bela e lânguida paisagem italiana. Mas tudo muda quando Oliver (Armie Hammer), um acadêmico que veio ajudar a pesquisa de seu pai, chega. (Adoro Cinema)

Entre os diretores de língua não-inglesa que começam a fazer carreira internacionalmente, o italiano Luca Guadagnino desponta como um dos mais bem sucedidos e instigantes de se acompanhar. Se olharmos para trás, hoje percebemos que sua trajetória ascendente se desenhou de forma muito sutil, o que faz com que sua atual celebração com o drama Me Chame Pelo Seu Nome não pareça sorte repentina: com uma carreira que acumula vários curtas e documentários, Guadagnino já viajava o mundo em 2009, quando colocou Tilda Swinton para falar italiano em Um Sonho de Amor, ou até mesmo três anos atrás, ao unir forças novamente com Tilda no subestimado Um Mergulho no Passado, refilmagem de A Piscina que contava ainda com outros nomes de repercussão internacional (Ralph Fiennes, Matthias Schoenaerts e até Dakota Johnson em um momento bacana).

Mesmo munido de uma filmografia encorpada, o cineasta só foi abraçado com igual entusiasmo por prêmios, público e crítica com esse Me Chame Pelo Seu Nome, que chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 18. E o que mais me toca entre os méritos que justificam o reconhecimento mais amplo é a forma como o filme trata o universo da sexualidade sem fazer dela uma questão. Aqui, são ensolaradas as vivências de cada descoberta do corpo, do amor, do sexo, da juventude e inclusive do doloroso processo de se tornar adulto. Tal perspectiva não deixa de ser uma herança — ou ao menos uma feliz coincidência — do drama Carol, que, dirigido por Todd Haynes em 2015, celebrava o nascimento do amor entre duas mulheres colocando o romance muito antes do drama, escolha que trazia uma perspectiva otimista e esperançosa para uma parcela do público retratada sempre de forma cômica ou trágica no cinema.

A lógica se repete em Me Chame Pelo Seu Nome, que, a partir do roteiro escrito por James Ivory com base no romance homônimo de André Aciman, em momento algum administra o desabrochar homossexual como o principal componente da tristeza de um personagem — aliás, se Elio (Timothée Chalamet, uma revelação) sofre, são por questões inerentes a qualquer ser humano em determinado momento da vida. Prova de que o longa é sabiamente desprovido de firulas acerca das problemáticas da homossexualidade é a doçura com que emerge uma conversa entre pai e filho, onde, em uma daquelas cenas de poucos minutos que atravessam milhares de universos, o próprio progenitor se confronta sobre o que é necessário para cada um ser feliz, autêntico ou ao menos em paz com os próprios rumos da vida.

É sutil ainda o desenho que Me Chame Pelo Seu Nome faz das primeiras experimentações sexuais de Elio, que, sim, se apaixona por Oliver (Armie Hammer), um homem mais velho, mas também se aventura em um relacionamento com uma menina que, não, não é a clássica situação em que um menino gay faz uma garota de boba enquanto tenta se descobrir. Elio tem afeto, desejo e interesse pelos dois. Tratando rupturas como processos naturais da vida, Me Chame Pelo Seu Nome captura a fase jovem da nossa existência com o espírito que ela merece, uma vez que o filme é vivo e veranil.

Todas essas qualidades me levam a não culpar tanto a construção de certa forma imperfeita do roteiro de James Ivory, que, durante basicamente toda a primeira metade, na ânsia de trabalhar a trabalhar a atração entre os dois rapazes com minúcias discretas, pouco envolve o espectador, fazendo com que ele só sinta a paixão de seus personagens quando eles de fato passam a consumir uma história de amor. Falta ali a mesma alquimia que existe depois, quando Elio e Oliver vivem um um romance e quando o filme nos mostra, em sua reta final, que certas coisas têm, de fato, a habilidade de descobrir os nossos pontos mais fracos — e que o que nos resta é, de alguma forma, tentar transformar isso em sabedoria.

Rapidamente: “O Agente da U.N.C.L.E.”, “Armas na Mesa”, “Os Golfinhos Vão Para o Leste” e “Planeta dos Macacos: A Guerra”

Jessica Chastain interpreta uma mulher autêntica, bem sucedida e de personalidade em Armas na Mesa, filme cheio de pique que não complica o tema lobby político nos Estados Unidos.

O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E., 2015, de Guy Ritchie): O Agente da U.N.C.L.E. reúne três lindos rostos de Hollywood — Henry Cavill, Armie Hammer e Alicia Vikander —, mas tal encontro deixa de soar qualquer chamarisco de bilheteria quando percebemos que o novo filme de Guy Ritchie tem mesmo o DNA desse diretor de estilo muito próprio. Nesse filme de 2015, ele volta aos anos 1960 para conduzir uma história onde Napoleon Solo (Cavill), um agente da CIA, é escalado para deter uma organização criminosa responsável pela proliferação de armas nucleares. O que sempre diferencia os filmes de Ritchie de outras aventuras comerciais é a sua vontade de, sim, fazer graça, orquestrar ação e proporcionar entretenimento, mas a partir de uma trama assumidamente mais consistente. Para isso, ele toma como base o seriado homônimo dos anos 60 criado por Ian Fleming, que tentava reproduzir na telinha a pegada do clássico James Bond, outra criação de Fleming. Ao fazer essa transposição, Ritchie estava em uma de suas épocas felizes, pois O Agente da U.N.C.L.E. tem charme, graça, um elenco que dá conta do recado e, principalmente, esse senso de diversão que é tão rato em filmes de época, que costumam ser predominantemente mais históricos e de cunho dramático tradicional. 

ARMAS NA MESA (Miss Sloane, 2016, de John Madden): O assunto é um tanto complicado — o poderoso lobby político, prática tão famosa e escancarada nos Estados Unidos —, mas Armas na Mesa, mesmo com um diretor que não inspira tanta curiosidade (John Madden, de Shakespeare ApaixonadoA ProvaO Exótico Hotel Marigold), é, de repente, uma das obras mais surpreendentes lançadas no circuito comercial brasileiro em 2017. Aliás, muito se falou sobre uma possível indicação ao Oscar de melhor atriz para Jessica Chastain, que acabou não aconteceu, marcando mais uma injustiça do prêmio com um desempenho forte e que vem a calhar bem em tempos de discussão sobre a representação da mulher no cinema. Aqui, Chastain interpreta uma lobista bem sucedida profissionalmente e que não tem receio algum em impôr seu talento e renome seja no trabalho ou em frente às câmeras. Complexa, a personagem ganha uma energia embasbacante nas mãos da atriz, que, mais elegante do que nunca, entende que as imperfeições e as dubiedades da protagonista são traços importantes para sua construção dramática. Lá pelas tantas, quando chega ao terço final, Armas na Mesa se atrapalha ao forçar reviravoltas para manter vivo o fator surpresa e ao ceder aqui ou ali para lições de moral. Tropeços que, ainda assim, não chegam perto de comprometer um filme bem atuado, contemporâneo e cheio de pique.

OS GOLFINHOS VÃO PARA O LESTE (Las Toninas Van al Este, 2016, de Gonzalo Delgado e Verónica Perrota): Vencedor do Kikito de melhor atriz em 2016 para a carismática Perónica Perrota, Os Golfinhos Vão Para o Leste trata com simplicidade e carinho temas corriqueiros e frequentemente explorados pelo cinema em suas mais diferentes origens, como o retorno à terra natal, a relação conturbada entre pais e filhos e o confronto com o passado — dessa vez, com charme de uma Punta Del Este em sua versão menos glamourizada e turística, mas por isso mesmo mais próxima e humana. Perrota, que dirige o filme com Gonzalo Delgado, faz um bom trabalho tanto como diretora quanto como atriz: atrás das câmeras, dosa muito bem o drama e a comédia de um filme deveras gracioso, enquanto, como intérprete, esbanja sintonia com Jorge Denevi, que interpreta o pai agora homossexual cuja afetação em momento algum descamba para a histeria. Frente a tudo isso, Os Golfinhos Vão Para o Leste pode até abordar temas que não são exatamente inovadores, mas o faz sem pretensão e de maneira espirituosa, o que, com o passar do tempo, tem se revelado uma qualidade cada vez mais preciosa em comparação a essa infinidade de produções mundiais realizadas a toque de caixa.

PLANETA DOS MACACOS: A GUERRA (War for the Planet of the Apes, 2017, de Matt Reeves): Conclusão menos reveladora do que se poderia esperar para essa que é uma das mais bem sucedidas trilogias do cinemão recente, Planeta dos Macacos: A Guerra preserva a impecável parte técnica de uma franquia que, ao longo dos anos, questionou, entre outras coisas, as fronteiras da atuação, tornando célebre o caso de Andy Serkis, que deu um show como o macaco Caesar através da chamada captura de movimento, termo usado para descrever o processo de gravação e transposição de movimentos de um ator para o modelo digital. Neste último capítulo, vemos a jornada final dos macacos para fazer justiça a sua espécie, cada vez mais ameaçada por exércitos humanos. Acompanhamos especificamente a batalha pessoal de Caesar para vingar uma recente baixa no seu clã, o que confere ao filme um tom menos grandioso e mais intimista. Todos os elogios para a parte técnica já foram feitos mundo afora (dessa vez, destaco a trilha de Michael Giacchino, que vem fazendo uma linda carreira com blockbusters, animações e projetos mais comerciais), situação que deixa uma carga de responsabilidade muito maior para a história em si, uma vez que a franquia já estabeleceu um notável padrão de qualidade técnica. Como filme isolado, Planeta dos Macacos: A Guerra talvez surpreendesse mais em termos dramáticos. Já como a peça final de uma história muito maior, não conversou tanto comigo quanto eu gostaria.