“Tinta Bruta”: com prestigiada carreira internacional, longa gaúcho explora a busca por cores e pertencimento entre o mundo real e virtual
Tu consegue ver o teu futuro?

Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
Elenco: Shico Menegat, Bruno Fernandes, Guega Peixoto, Sandra Dani, Frederico Vasques, Denis Gosh, Camila Falcão, Áurea Baptista, Zé Adão Barbosa, Larissa Sanguiné
Brasil, 2018, Drama, 118 minutos
Sinopse: O jovem Pedro (Shico Menegat) vive um momento complicado, ele responde a um processo criminal ao mesmo tempo em que precisa lidar com a mudança da irmã, sua única amiga. Como forma de catarse, ele assume o codinome GarotoNeon e passa a se apresentar anonimamente na internet dançando nu na escuridão do seu quarto, coberto apenas por uma tinta fluorescente. (Adoro Cinema)

Assim como tantas outras capitais do Brasil, a cidade de Porto Alegre, por questões majoritariamente políticas, vem definhando ano após ano. Como porto-alegrense, transito por ruas cada vez mais perigosas, pontos turísticos abandonados e espaços de convivência urbana desprezados pelo poder público, sempre tomado por um sentimento quase inexistente de acolhimento e hospitalidade. É nessa cidade desoladora que se desenvolve Tinta Bruta, novo projeto dos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon que chegou a vencer o prêmio Teddy no Festival de Berlim e quatro troféus no Festival do Rio (melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante). Porto Alegre, que pode (e deve) ser interpretada aqui como a representação de qualquer outra grande metrópole do Brasil, ainda se torna um tanto mais aterrorizante porque Tinta Bruta tem como protagonista um introvertido menino gay cuja existência por si só é negligenciada por olhares distantes nas janelas da cidade ou agredida, de uma forma ou de outra, por colegas e desconhecidos. Tudo isso traz uma incômoda dicotomia no que se vê durante longa: ao mesmo tempo em que ele é esperançoso ao convocar o espectador para a resistência e para a reação contra o conservadorismo, não deixa de ser profundamente triste que também seja um retrato muito fiel da desassistência e da solidão que vêm assombrando as minorias em diferentes pontos do mundo.
Afeitos à geografia como fator preponderante para a construção emocional de seus personagens, Matzembacher e Reolon saem da intimidade proposta por um isolamento litorâneo em Beira-Mar para falar, dessa vez, sobre as condições de um protagonista LGBTQI+ na cidade grande e no convívio em sociedade. A dupla de diretores também migra da adolescência para a vida adulta com Pedro (Shico Menegat), que realiza performances eróticas na internet para ganhar alguns trocados enquanto lida com um processo criminal e, principalmente, com a transição de inúmeros afetos em sua vida. O isolamento e o desamparo vividos por esse garoto em uma cidade pouco convidativa são desoladores, evocando, de certa forma, o que o cineasta gaúcho José Pedro Goulart fez anos atrás em Ponto Zero, outro relato sobre um jovem solitário, de cabelos compridos e cheio de desejos que enfrenta uma Porto Alegre decisiva em sua condição e em seu comportamento. Se tenho profundas restrições ao drama Beira-Mar, o inverso acontece com Tinta Bruta, que é a melhor representação do tipo de cinema que Matzembacher e Reolon vêm realizando desde os seus tempos de curta-metragistas, quando produziram títulos como Quarto Vazio, que, segundo eles, serviu de inspiração para esse novo longa. Mais do que a profundidade e a complexidade com que esmiúça as camadas de um introvertido protagonista, Tinta Bruta se potencializa através de seu timing com os nossos tempos, e não há maior prova disso do que a forma com que os personagens são desnudados em cenas eróticas e sexuais sem qualquer pudor ou acanhamento, reforçando a tese de que não há qualquer liderança política, homofóbica e conservadora que impeça as pessoas de elas expressarem quem realmente são.
Curiosamente, ainda que embalado por uma trilha sonora vibrante e coberto em cores neon, o sexo de Tinta Bruta ultrapassa o plano meramente erótico para se tornar uma das engrenagens emocionais do filme: é apenas por meio dele que o jovem Pedro consegue se expressar e ter algum tipo de intimidade com outra pessoas, mesmo que de maneira virtual. Isolado em seu apartamento, ele pouco interage com o mundo, o que é agravado pelos afetos que saem pouco a pouco da sua vida. Da irmã que está de mudança para Bahia até os seguidores online que começam a desaparecer após a chegada de um outro garoto em cores neon no site erótico, Pedro se vê cada vez mais isolado, e é por isso mesmo que toda e qualquer demonstração de carinho ou atenção recebida por ele ganha contornos tão comoventes, como o simples abraço da avó que vem lhe fazer uma breve visita. A precisão desse contraste é fundamental porque certas relações que o jovem estabelece são decisivas para a consistência emocional de Tinta Bruta, em especial a de Pedro com Leo, o garoto que passa a copiar o seu trabalho virtualmente. Ao invés de apenas tornar Leo uma nova figura que entra na vida do protagonista para depois arrancar um pouquinho mais da esperança do seu coração com algum tipo de despedida, Matzembacher e Reolon traduzem essa nova relação como uma experiência de extremo aprendizado para Pedro, que se permite desabrochar para a vida ao lado de quem até então considerava uma mera concorrência. A convivência entre os dois é um dos pontos altos da história e ilumina uma gama de (in)definições envolvendo os relacionamentos contemporâneos.
Pedro e Leo se tornam tão críveis e envolventes porque Shico Menegat e Bruno Fernandes, seus respectivos intérpretes, são duas revelações em termos de interpretação. Estreante no ofício, Shico particularmente impressiona: dar vida um personagem de carga dramática tão intensa e interiorizada logo em um primeiro filme não é tarefa fácil, mas o ator surpreende na construção minuciosa do personagem, inclusive na tradução de vislumbres de felicidade, quando, por exemplo, Pedro observa, em um misto de curiosidade e fascínio, a dinâmica livre e espontânea de Leo com seus amigos, algo que até então parecia impossível nas ruas e no íntimo de uma cidade que nunca lhe proporcionou algo semelhante. Dito isso, Tinta Bruta mistura sexualidade (e consequentemente a quebra do tabu da nudez e do corpo masculino) com os dilemas de uma juventude que não sabe muito bem o que sentir ou para onde ir (todos os personagens dizem viver em uma espécia um purgatório e que não sentem que aquele é o lugar onde deveriam estar), propondo mais do que uma mensagem de resistência, mas sim de reação — e, na época nefasta que atravessamos, isso pode significar desde a coragem de não receber qualquer tipo de violência com passividade até simplesmente dançar como se ninguém estivesse olhando em uma noite qualquer.
“As Viúvas”: certeiro ao renegar definições e ao criar atmosfera própria, filme de Steve McQueen fraciona potência dramática em excessos
No one thinks we have the balls to pull this off.

Direção: Steve McQueen
Roteiro: Gillian Flynn e Steve McQueen, baseado no romance homônimo de Lynda La Plante
Elenco: Viola Davis, Elizabeth Debicki, Michelle Rodriguez, Colin Farrell, Daniel Kaluuya, Robert Duvall, Cynthia Erivo, Liam Neeson, Carrie Coon, Jackie Weaver, Jon Bernthal, Brian Tyree Henry, Manuel Garcia-Rulfo
Widows, EUA/Reino Unido, 2018, Drama/Policial, 129 minutos
Sinopse: Um assalto frustrado faz com que Harry Rawlins (Liam Neeson) e sua gangue sejam mortos pela polícia e o dinheiro que roubaram seja destruído pelas chamas. Isto faz com que a viúva de Harry, Veronica (Viola Davis), seja cobrada para que a quantia roubada seja devolvida. Pressionada, ela encontra um caderno de anotações de Harry que prevê em detalhes aquele que seria seu próximo golpe. Veronica então decide realizar o roubo, tendo a ajuda das demais viúvas dos mortos no assalto frustrado. (Adoro Cinema)

As Viúvas não é exatamente o que você espera, e talvez tenha sido essa a intenção do cineasta Steve McQueen. Em seu primeiro trabalho após a consagração de 12 Anos de Escravidão no Oscar, ele promove uma assumida mistura de gêneros e estilos: não somente As Viúvas está muito longe de ser um mero relato sobre mulheres que orquestram um grande assalto como também renega qualquer traço do dramalhão que poderia nascer de uma história sobre esposas que perdem os maridos mafiosos em um confronto fatídico com a polícia. Aliás, McQueen, que escreveu o roteiro ao lado de Gillian Flynn (Garota Exemplar), prefere encarar o luto com certa distância e frieza, uma vez que Veronica, a protagonista interpretada por Viola Davis, sequer tem tempo para sofrer: no mesmo dia do velório, ela já recebe a visita de um homem perigoso que exige receber os dois milhões de dólares perdidos no ataque da polícia aos falecidos mafiosos. A partir disso, As Viúvas mistura dramas pessoais, ironia, política, crítica social e adrenalina, compondo um relato cuja maior força é, justamente, não ter estilo algum, o que é no mínimo uma provocação para plateias que costumam se incomodar com qualquer dose de indefinição ou imprevisibilidade.
Subversivo no sentido de criar uma história onde mulheres estão na linha de frente de um serviço essencialmente masculino (e retratado pelo Cinema da mesma maneira), As Viúvas é um primor em termos de representatividade, começando pela protagonista, uma mulher negra que, mesmo sabendo, nunca se envolveu com os atos ilícitos de seu marido branco, construindo uma carreira própria e bem sucedida (isso é o que acusa cada look elegantíssimo que Viola Davis, nunca tão bem fotografada, ostenta entre uma cena e outra). Mais uma viúva da trama, a latina vivida por Michelle Rodriguez se preocupa, mas não entra em colapso ao ver ruir o negócio que administrava e até então dava como certo. Pelo contrário: por ser mãe em uma nova condição não tão favorável, ela vai à luta e é a primeira a seguir toda ordem disparada pela personagem de Viola Davis. Já a esguia Alice interpretada por Elizabeth Debicki carrega um perceptível histórico de abuso familiar e matrimonial, mas, aos poucos, começa a juntar forças que ela própria não imaginava ter para, de sua própria maneira, conseguir se desvencilhar dos vícios e malefícios trazidos por esses traumas. Por incrível que pareça, ainda em 2018, é importante festejar decisões como essas quando elas deveriam ser perfeitamente corriqueiras na maioria esmagadora das produções que vemos ao longo dos anos.
Ao renegar escolhas convencionais quando retrata o processo de luto, As Viúvas ganha em sobriedade, inclusive criando uma atmosfera gélida que casa com a ameaça e a instabilidade da sociedade corrompida e calejada que procura retratar. Tanto essa contextualização dá certo que o longa parece no mínimo artificial, para não dizer novelesco, quando tenta criar alguma passagem mais calorosa, como aquela em que a personagem de Viola Davis coloca Wild is the Wind, da icônica Nina Simone, para tocar e imagina um abraço do falecido marido ao ver seu reflexo da janela da sala. É buscando a sobriedade que McQueen cria os melhores momentos de As Viúvas, quase como se quisesse criar um certo distanciamento de 12 Anos de Escravidão, longa onde não poupou sofrimento, sangue e violência ao falar sobre racismo e escravidão. Para quem desejava algo na linha do premiado filme estrelado por Chiwetel Ejiofor ou até mesmo algo mais comercial como o recente Oito Mulheres e Um Segredo por se tratar de uma história de roubo, o resultado pode ser deveras anti-climático, o que, ao meu ver, nada mais é do que uma grata surpresa.
Há, contudo, um certo estranhamento, dessa vez bem menos interessante, que é o de uma trama fracionada em uma grande quantidade de situações e personagens. Temos uma protagonista conduzindo a história, mas, em muitos casos, ela divide praticamente o mesmo tempo de tela entre com os outros personagens. Alguns deles são interessantíssimos, enquanto outros desapontam por estarem quase em um relato a parte, a exemplo do político interpretado sem muita energia ou criatividade por Colin Farell. Com isso, As Viúvas não constrói necessariamente uma unidade e acaba se embolando, como se prometesse um clímax engenhoso pra amarrar tantas jornadas paralelas. E mais: com o meio de campo tão lotado, há pouco aproveitamento de excelentes intérpretes, tanto masculinos quanto femininos, a exemplo da grande Carrie Coon, cujo potencial testemunhamos durante três anos do seriado The Leftovers. Nesse balanço irregular, os acertos são preciosos: Viola Davis traz sua intensidade de sempre para uma mulher que se vê obrigada a colocar a razão antes de qualquer emoção, Daniel Kaluuya surge com uma energia macabra como um criminoso que exala perigo e Elizabeth Debicki se destaca pela delicadeza com que tateia o reerguimento de uma mulher bastante fragilizada do ponto de vista emocional.
Como um exemplar mais sofisticado de tantos filmes de suspense que se eternizaram nas madrugadas da TV aberta, As Viúvas traz a sua boa dose de reviravoltas e revelações. Prepare-se para ver personagens virando a casaca, surpresas de última hora em situações decisivas, coadjuvantes se revelando mais fundamentais para o encaixe das pessoas do que se poderia supor e até mesmo o clássico disparo de revólver que, na verdade, não foi feito por quem o longa nos sugeriu. Quando se encaminha para o desfecho, As Viúvas traz plot twists e explicações de maneira equivalente ao seu número de personagens, o que fragiliza um tanto mais o roteiro, pois não há tempo hábil para encorpar certas reviravoltas que mereciam mais digestão e construção de atmosfera. Como exercício de direção, o longa se engrandece muito mais, e por isso mesmo o descompasso é sentido. Na dificuldade em ser conciso (até chegar a sua versão final, o primeiro corte teria registrado, segundo o próprio McQueen, um filme de três horas de duração), As Viúvas fragiliza uma potência madura e envolvente que, sejamos francos, é sempre muito difícil de ser encontrada por aí.
“Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”: de escritora à roteirista, J.K. Rowling limita potência criativa do mundo bruxo com excessivo controle artístico
Their arrogance is a key to our victory.

Direção: David Yates
Roteiro: J.K. Rowling
Elenco: Eddie Redmayne, Johnny Depp, Jude Law, Ezra Miller, Katherine Waterston, Zoë Kravitz, Dan Fogler, Callum Turner, Alison Sudol, Claudia Kim, Kevin Guthrie, Brontis Jodorowsky
Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, EUA, 2018, Aventura, 134 minutos
Sinopse: Newt Scamander (Eddie Redmayne) reencontra os queridos amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler). Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da MACUSA (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos. (Adoro Cinema)

Criatividade é uma das qualidades que a escritora J.K. Rowling tem de sobra, e é impossível dizer o contrário quando qualquer espectador entra em contato, especialmente pela primeira vez, com a saga Harry Potter, um dos maiores ícones cinematográficos dos anos 2000. Por isso mesmo, é natural que a autora queira cuidar da sua galinha de ovos de ouro (a Forbes já chegou a estimar que a fortuna de Rowling tenha ultrapassado um bilhão de dólares, tornando-a mais rica do que a Rainha Elizabeth II, sua conterrânea britânica). Contudo, há uma linha muito tênue entre o zelo saudável com esse material de prestígio estratosférico e o prejudicial controle criativo por um projeto que precisa de outros olhares e interpretações para ganhar novas qualidades. Pois com Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, Rowling está no limite de romper essa linha: se no primeiro filme dessa nova saga estrelada por Eddie Redmayne as suas limitações ao assumir o posto de roteirista absoluta da franquia já eram perceptíveis, a situação se complica por definitivo neste segundo capítulo, onde o excessivo controle criativo da autora coloca em risco todo o potencial criativo de uma história que parece se prolongar de maneira tão desnecessária e desestimulante quanto os três intermináveis capítulos de O Hobbit dirigidos por Peter Jackson.
Encarando a saga Animais Fantásticos mais como um parque de diversões destinado aos fãs incondicionais do que como um produto cinematográfico a ser entregue para o mundo, J.K. Rowling escreve a trama de Os Crimes de Grindelwald sem uma peneira cinematográfica. Isso é um grande problema porque parte do sucesso da saga Harry Potter (e de grande parte das grandes adaptações feitas para o Cinema) se deu pelo olhar compartilhado com roteiristas e diretores. Não que exista algum problema em escritores tornando-se roteiristas (autora de Garota Exemplar, Gillian Flynn foi talentosíssima ao fazer a transposição cinematográfica de seu próprio livro, por exemplo), mas, se o dinheiro não falar mais alto e Rowling tiver bons amigos, alguém certamente precisa avisá-la de que Animais Fantásticos tem tudo para se tornar uma dessas desestimulantes franquias que servem apenas para agradar aos fãs. Além de ser claramente conduzido com estrutura e ritmo de uma obra literária, Os Crimes de Gindelwald pouco avança com uma trama que cai no vício de plantar todo tipo de curiosidade do mundo de Harry Potter para que os fãs se divirtam isso. Em incontáveis sequências, Rowling resgata cenários, feitiços e personagens de Harry Potter para pegar os espectadores pelo afeto, o que, na prática, não acrescenta muito pouco ao que o filme tem a dizer.
Com o mérito de não ter pressa alguma ao desenvolver conflitos, Os Crimes de Grindelwald ao mesmo tempo se embola ao contar diversas histórias paralelas para, ao fim, não contar muita coisa. Com isso, Newt Scamander, o suposto protagonista da franquia, termina por se tornar tão coadjuvante quanto os outros personagens, desperdiçando assim toda a doçura que Eddie Redmayne imprime a um adorável e atípico herói e a despedaçada jornada pessoal de Credence (Ezra Miller). Menos sofisticado dramaticamente do que poderia se esperar, o roteiro ainda opta por caminhos simplistas, como na sequência em que faz determinados personagens se voltarem para o lado do mal porque, sem isso, eles não teriam mais razão para existir nos próximos capítulos da saga. Até mesmo para um livro Os Crimes de Grindelwald seria uma obra menor e pouco interessante.
Frente a tudo isso, a maior surpresa de Os Crimes de Grindelwald é a aparente volta por cima de Johnny Depp, que, pelo menos na última década, interpretava todo e qualquer personagens com indiscutível descaso ou desinteresse. Aqui, ele parece ter acordado para a questionável oportunidade de ouro que lhe foi entregue: enigmático, reticente e intimidante como Grindelwald, o ator tem presença suficiente para criar um personagem que, tratando-se da composição de um intérprete, facilmente se distancia do vilão outrora vivido por Ralph Fiennes no mundo bruxo. Enquanto isso, Jude Law, que vem do melhor desempenho de sua carreira na minissérie The Young Pope, também é uma boa adesão ao elenco, mesmo que seja um tanto difícil acreditar que seu Alvo Dumbledore possa ter tido qualquer tipo de ligação próxima (inclusive afetiva!) com o agora temido antagonista. Em nome da interessante composição dessa dupla, é justo esperar que Animais Fantásticos consiga se oxigenar daqui para frente, ainda que isso não pareça tão provável, uma vez que não só J.K. Rowling segue no comando do roteiro. Como um grande fã de Harry Potter fico sempre na torcida, mas, antes de tudo, como um cinéfilo incondicional, já não me sinto estimulado esperar maiores comoções com Animais Fantásticos depois de Os Crimes de Grindelwald.
“Bohemian Rhapsody”: mesmo com fórmula tradicional, cinebiografia cativa por capturar a essência do Queen com música e energia
What on earth is it about? Scaramouche? Galileo? Beelzebub?

Direção: Bryan Singer
Roteiro: Anthony McCarten, baseado em história própria e de Peter Morgan
Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker, Meneka Das, Ace Bhatti
EUA/Reino Unido, 2018, Drama, 134 minutos
Sinopse: Freddie Mercury (Rami Malek) e seus companheiros Brian May (Gwilyn Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) mudam o mundo da música para sempre ao formar a banda Queen, durante a década de 1970. Porém, quando o estilo de vida extravagante de Mercury começa a sair do controle, a banda tem que enfrentar o desafio de conciliar a fama e o sucesso com suas vidas pessoais cada vez mais complicadas. (Adoro Cinema)

Quantas cinebiografias encomendadas e empacotadas para o grande público você já viu na vida? Por encomendadas e empacotadas me refiro àquelas com início, meio e fim bem pontuados e que tornam palatáveis, em forma e conteúdo, a vida muitas vezes conturbada de seus respectivos biografados. Se você chutar uma árvore, caem cerca de cinco por ano, enquanto títulos elegantíssimos como Capote, A Rainha e Steve Jobs, surgem a cada dois ou três anos. Tão incomuns quanto essas cinebiografias mais sofisticadas em direção e roteiro são aquelas que, mesmo formais e altamente previsíveis, conseguem transpôr para a tela, com alma e dignidade, a força-motriz dos personagens reais retratados na tela. É assim com Bohemian Rhapsody, um filme que supera as suas claras limitações criativas para, dentro do possível, ajustar certos vícios e se tornar uma experiência viva, espirituosa e até mesmo vibrante.
Difícil seria não alcançar esse status quando estamos falando do Queen, uma das bandas mais originais e viscerais de que se tem notícia até os dias de hoje. Bohemian Rhapsody, em termos cinematográficos, não se equivale à revolução trazida pelo grupo no meio musical, mas sabe exatamente o que precisa encenar para justificar as razões que levaram essa história a ser contada na tela grande. A passagem que melhor representa isso é aquela em que o Queen, já surfando na onda de certo sucesso, enfrenta o produtor de sua então gravadora para convencê-lo de que a canção Bohemian Rhapsody, mesmo com seis minutos de duração e um estilo de difícil definição, deveria ser o carro-chefe da promoção do mais recente álbum. O produtor não aceita de jeito nenhum, e os garotos, extremamente confiantes do produto diferenciado que têm em mãos, demitem a gravadora, provando que nada é mais importante para cada um deles do que a total fidelidade ao trabalho que desenvolviam com tanta convicção criativa e artística.
Ao longo do filme, são mostrados outros tantos momentos que evidenciam a singularidade do Queen. A própria gravação da canção-título é uma das sequências mais hilariantes por explorar os métodos poucos convencionais adotados pelo grupo na criação de canções que desafiavam acomodados padrões da indústria musical. Compreendemos a originalidade do Queen por essa boa curadoria de acontecimentos que o filme faz, ainda que, em uma grande quantidade de vezes, o roteiro escrito por Anthony McCarten (A Teoria de Tudo, O Destino de Uma Nação) ajuste datas e fatos para causar maior impacto dramático, decisão que tem causado inúmeras controvérsias mundo afora — e, sinceramente, só posso ver esse descontentamento como equivalente às bobas reclamações de quem implica com as adaptações que um livro eventualmente sofre ao ser transposto para o Cinema. Fatos podem ser ajustados sim, desde que se mantenha a honestidade. A total fidelidade aos fatos deve ficar com os documentários.
Ainda fazendo uma comparação com outras cinebiografias, em especial aquelas voltadas a relatos de personalidades musicais, Bohemian Rhapsody é mais coeso porque limpa cacoetes característicos do gênero. Por mais que o longa seja essencialmente sobre o vocalista Freddie Mercury, o roteiro faz questão de jamais perder de vista os outros integrantes da banda, que, em outras obras, costumam ser reduzidos a meros figurantes que somem após o sucesso isolado do protagonista. Em Bohemian Rhapsody, Mercury não é ninguém sem seus companheiros e vice-versa. É por situar o grupo de forma mais central na trama que o filme de Bryan Singer ganha força musicalmente: o repertório do Queen já seria entusiasmante por si só, mas há uma importante vontade de situar a origem da maior parte das canções, tratando com cuidado um um legado musical que não surge na tela apenas para que o longa contemple o maior número de hits possíveis.
É fato, entretanto, que Bohemian Rhapsody não tem maiores profundidades do ponto de vista dramatúrgico, incluindo em pontos cruciais da carreira da banda e de Freddie Mercury. A homossexualidade do protagonista é, no geral, abraçada pelo filme, mas não evita leituras simplistas, como no recorte em que Mercury se afasta de tudo e de todos porque se sente isolado (os outros integrantes da banda casaram, tiveram filhos e constituíram famílias), depositando todas as suas fichas em um namorado que, desde a primeira aparição, sabemos que não é flor que se cheire. A escolha de não tornar a descoberta do HIV uma via crucis apelativa é um ponto a ser considerado em Bohemian Rhapsody (quatro em cinco longas não resistiram à ideia de encenar os pormenores da doença apenas para fazer o protagonista passar por transformações físicas), o que, por outro lado, acaba de certa maneira se tornando apenas um subterfúgio dramático para que o personagem rapidamente remende as pontas deixadas soltas em sua vida pessoal e profissional, como a marcante conexão afetiva que Mercury viveu durante anos com uma mulher e que é mostrada sem muita consistência pelo roteiro.
Na pele de Mercury, Rami Malek leva certo tempo para se ajustar no ícone que está incorporando: na primeira metade, ele é basicamente vítima da caracterização, principalmente porque rivaliza com uma prótese dentária medonha que é o centro das atenções nessa fase em que o vocalista é jovem e ainda não assumiu o visual que viria a lhe tornar icônico. Entretanto, quando surge de bigode e cabelo curto, Malek finalmente some diante do personagem, particularmente na sequência final, onde o diretor Bryan Singer reproduz, quase na íntegra, o icônico show do Queen no Live Aid, considerada por muitos uma das mais icônicas performances musicais de todos os tempos. É pura energia e emoção por Malek, pela ambição do projeto em retratar tal momento e porque encerra Bohemian Rhapsody com grandiosidade e potência, fazendo jus a um grupo cujo repertório musical surge intensamente celebrado. É a síntese perfeita do que existe de mais precioso nesse filme imperfeito e formal, mas vibrante pela clara admiração que nutre por seus biografados.
“Nasce Uma Estrela”: estreia de Bradley Cooper como diretor ganha em sinceridade, mas faz mais do mesmo em comparação a títulos semelhantes
I think you might be a songwriter.

Direção: Bradley Cooper
Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth e Will Fetters, baseado na história Robert Carson e William A. Wellmann, e nos roteiros dos filmes homônimos de 1954 e 1976, escritos respectivamente por Moss Hart e Frank Pierson, Joan Didion e John Gregory Dunne
Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chappelle, Marlon Williams, Brandi Carlile, Michael D. Roberts, Ron Rifkin, Michael Harney, Rebecca Field
A Star is Born, EUA, 2018, Drama, 136 minutos
Sinopse: Jackson Maine (Bradley Cooper) é um cantor no auge da fama. Um dia, após deixar uma apresentação, ele para em um bar para beber algo. É quando conhece Ally (Lady Gaga), uma insegura cantora que ganha a vida trabalhando em um restaurante. Jackson se encanta pela mulher e seu talento, decidindo acolhê-la debaixo de suas asas. Ao mesmo tempo em que Ally ascende ao estrelato, Jackson vive uma crise pessoal e profissional devido aos problemas com o álcool. (Adoro Cinema)

Originalmente um projeto do veterano Clint Eastwood a ser estrelado por Beyoncé, Nasce Uma Estrela, em sua quarta versão para as telas, inevitavelmente puxa à memória, somente nos últimos anos, vários títulos de diferentes nacionalidades que contam basicamente a mesmíssima história, como o ótimo Johnny & June, também sobre a relação entre dois músicos minada pelo alcoolismo de um deles, ou até mesmo o poderoso Alabama Monroe, longa belga sobre um casal de cantores que, entre a música, o amor e a tragédia, são esmagados pela dura realidade de um relacionamento que, no final das contas, parece não ser destinado a dar certo. Não é só por ser a quarta versão de uma mesma história que Nasce Uma Estrela parece ser mais do mesmo, mas também por lembrar uma infinidade de títulos semelhantes (e superiores). Ao mesmo tempo, você pode perguntar: a estreia de Bradley Cooper precisava mesmo ter algo de novo a dizer? Bom, a resposta para essa questão dá a medida do quanto você embarcará ou não nessa obra que vem surpreendendo pela ótima recepção acumulada desde as suas primeiras exibições mundiais e que já tem sido cotada para receber uma boa quantidade de indicações ao Oscar.
Há, sem dúvida, o fator curiosidade que já garante uns bons trocados para o estúdio. Afinal, Bradley Cooper, que estreia agora atrás das câmeras, é um bom diretor? E Lady Gaga dá conta do recado como atriz de Cinema? É o tipo de filme-evento que, independente do que se diz por aí, você verá para tirar as suas próprias conclusões. Considerando as duas perguntas, o que se conclui é que Cooper pode até não ser o diretor mais sofisticado, mas é sincero e convicto quanto aquilo que deseja fazer. Nasce Uma Estrela, mesmo redundante no tipo de história que conta, não tenta dar um passo maior do que a própria perna, assumindo, sem vergonha alguma, a sua proposta de não ser uma obra de maiores pretensões. Ponto, portanto, para Cooper, que em nenhum momento usa a câmera com vaidade, o que seria muito tentador por ele também ser o real protagonista de Nasce Uma Estrela. Aliás, como ator, Bradley é melhor ainda: talvez até ciente do papel batido, ele não cria uma caricatura de seu Jackson Maine, inclusive porque, em mais uma consciência colaborativa, sabe que a sua construção de personagem depende da ótima química que estabelece com Lady Gaga, a agora “cantriz” de Cinema que incendeia a tela toda a vez que canta e que se esforça a cada cena como intérprete, mas que tem suas limitações e que jamais consegue se equiparar ao colega.
A partir desses aspectos, Nasce Uma Estrela tem momentos que podem, de fato, validar o excelente status que vem alcançando em suas projeções mundo afora. Um exemplo real disso é a cena onde Cooper e Gaga cantam pela primeira vez Shallow para uma multidão: não só a cantora é de uma talento vocal absurdo como o momento registra emocionalmente a sintonia entre dois personagens perdidos e desiludidos que encontram um no outro uma razão para sorrir e seguir em frente. O problema é que o filme dura 2h30 e, nesse meio tempo, pouco vibra como na cena citada. Escrito por Cooper junto à dupla Eric Roth e Will Feters, o roteiro é o maior problema de Nasce Uma Estrela por cair em armadilhas óbvias, como a de muitas vezes ter música demais e histórias de menos. Entre uma canção e outra, um conflito cai de paraquedas para dar uma movimentada na trama ao mesmo tempo em que, logo em seguida, depois de uma nova apresentação musical, já é solucionado. A falta de uma construção sólida de dilemas em detrimento da música dilui o impacto dos desdobramentos dramáticos e românticos de um filme que, no frigir dos ovos, depende da química de seus protagonistas para segurar uma vivacidade que o roteiro não consegue emanar.
Da metade da projeção em diante, Nasce Uma Estrela muda um pouco a pegada ao transferir boa parte da sua narrativa para a perspectiva de Ally (Gaga) e sua escalada rumo ao tão sonhado sucesso. Os problemas antes pontualmente diagnosticados no roteiro agora se tornam amplos e evidentes: com menos música, as fragilidades emergem com mais facilidade, impulsionadas por uma inegável falta de ritmo. São rasas as saídas que Cooper, Roth e Fetter encontram para minar a relação do casal principal: a cena passada no Grammy, por exemplo, parece produzida por uma novela da Globo tamanha a implausibilidade. Nasce Uma Estrela ainda tenta fazer uma crítica à indústria pop, mas como encontrar alguma profundidade se tudo se resume a um produtor unidimensional cuja única missão é fazer todo tipo de exigência comercial para desconstruir a verdadeira personalidade de Ally? São tentativas válidas no sentido de tornar contemporânea a refilmagem de uma obra encenada pela primeira vez nos anos 1930, mas, na prática, tais circunstâncias não surgem orgânicas, e mais soam como meras ferramentas encontradas pelo roteiro para bagunçar um pouquinho mais a vida do casal, como se o centro de todo o drama fosse o que os fatos fazem com eles e não como cada um administra o peso que a vida joga em suas costas.
Nasce Uma Estrela se sustenta comercialmente e goza de imenso hype pela força do estrelato de Lady Gaga, uma cantora que estourou como ícone pop e que, aos poucos, foi reinventando e pluralizando sua carreira, hoje também marcada por criações e colaborações para o country e para o jazz. Gaga é uma artista nata, fato comprovado inclusive por suas belíssimas participações no Oscar até aqui, em especial aquela em que ela homenageou A Noviça Rebelde, dando voz a clássicos desse inesquecível musical estrelado pela grande Julie Andrews. Cito esse momento porque ele é uma prova cabal do poder cênico e vocal da cantora, que poderia facilmente trilhar uma carreira na Broadway (e é difícil entender como isso ainda não aconteceu!). Já na tela grande, Gaga encanta toda vez que canta, além de ser a base do sucesso conquistado pelo filme, o que não quer dizer que a sua forte presença seja o suficiente para alçar o longa ao status de emoção e narrativa sofisticada que público e crítica vêm lhe atribuindo. Até porque não custava Nasce Uma Estrela ser um tantinho menos previsível para despertar, pelo menos, emoções que já não tenhamos vivido em outros projetos de temáticas semelhantes.