Cinema e Argumento

“Amores Materialistas”: proposta de leitura dos relacionamentos modernos não parece vir da mesma diretora de “Vidas Passadas”

Dating is a risk.

Direção: Celine Song

Roteiro: Celine Song

Elenco: Dakota Johnson, Chris Evans, Pedro Pascal, Zoe Winters, Marin Ireland, Dasha Nekrasova, Emmy Wheeler, Louisa Jacobson, Eddie Cahill, Sawyer Spielberg, Joseph Lee, John Magaro, Nedra Marie Taylor

Materialists, EUA/Finlândia, 2025, Drama/Comédia/Romance, 116 minutos

Sinopse: Os negócios de uma casamenteira de Nova York (Dakota Johnson) se complicam quando ela se envolve em um triângulo amoroso com seu ex-namorado ator (Chris Evans), que ganha a vida como garçom, e um novo pretendente ricaço (Pedro Pascal).

Uma personagem de Amores Materialistas diz, em determinado momento, que trabalhar como matchmaker é uma tarefa complexa porque envolve lidar com a dor de pessoas que, para aplacar a solidão e o medo da rejeição, estão dispostas a ficar sem roupa para estranhos. Trata-se de uma passagem breve e de um texto interpretado por uma personagem secundária, mas que dá uma interessante dimensão ao que diretora e roteirista Celine Song tenta alcançar — sem muito sucesso — ao longo das outras quase duas horas de projeção do seu mais novo longa-metragem. É como se ali estivesse o vislumbre do que, talvez, Amores Materialistas pudesse ter realmente discutido em detrimento do olhar redundante que acaba lançando para os relacionamentos modernos.

Song parte de um ponto de vista bastante realista: a maneira como hoje as pessoas buscam um relacionamento não pelo seu encantamento ou por seu mistério, e sim pela série de itens que um pretendente precisa gabaritar para ser considerado digno ao posto. Altura, peso, profissão, cor do cabelo, salário anual, gosto musical, preferência por cães ou gatos, nível de vida fitness, roupas, um bom carro, que more em um raio de no máximo dois quilômetros… Exaustivo, para dizer o mínimo. Irreal, na verdade. E, na busca incessante por um alguém perfeito, todos acabam ficando sozinhos e insatisfeitos. Amores Materialistas começa acertando no pragmatismo desse retrato: se você está “apenas” na média, esqueça, ninguém vai se interessar.

A própria protagonista vivida por Dakota Johnson não deixa de se comportar do mesmo modo que as suas clientes em busca do homem perfeito. Mais importante do que o amor é que seu pretendente seja muito rico. Ela, inclusive, terminou uma antiga paixão porque seu namorado era um ator com dificuldades financeiras e que pechinchava o estacionamento mais barato quando saíam para almoçar nos aniversários de namoro. Até que ela encontra Harry, o homem dos sonhos. Vivido por Pedro Pascal, ele trabalha no setor de finanças, mora em um apartamento chiquérrimo, tem dinheiro a beça, é bonito, interessado por ela e… Bom, quem sabe perfeito demais?

A virada a partir daí é óbvia. A antes tão pragmática protagonista começa a perceber que não existe fórmula para se encontrar alguém e que, no frigir dos ovos, amor é amor — e ele não escolhe estatura, cor dos olhos ou conta bancária. Com a mudança da personagem, o filme também muda, e toda a graça que o roteiro vinha ensaiando até ali — às vezes acertadamente, outras com abordagens duvidosas — começa a ir para o ralo. Primeiro porque, aqui, Celine Song nem parece ser a mesma contadora de histórias do belo Vidas Passadas. E segundo porque falta química ao trio principal. Por mais galãs que sejam, ainda estou por ser convencido de que Chris Evans e Pedro Pascal são bons atores. Por fim, não fica muito claro o que o filme quer ser em termos de tom, oscilando em atmosfera sem encontrar unidade.

Como diretora, Celine Song também entrega um filme deveras frustrante. Os romances são inócuos, a comédia não chega a ser fresca e os dramas ficam na superfície, principalmente quando temos uma protagonista sem vida pessoal para além das relações estabelecidas com dois homens: não há uma amiga ou uma familiar com quem ela possa compartilhar seus dilemas. A própria aproximação com uma cliente que se vê envolvida em um caso de violência sexual se dá quase ao final do longa, quando poderia ter sido um ponto importante de sensibilidade ao longo de toda a história. Obviamente as expectativas eram altas após Vidas Passadas, mas jamais era de se esperar que Amores Materialistas fosse tão insípido, básico e, sinto em dizer, desinteressante.

Melhores de 2024: marco do cinema brasileiro, “Ainda Estou Aqui” vence em quatro categorias, incluindo melhor filme

Já estava mais do que na hora (que vergonha!) — e talvez não houvesse ocasião tão apropriada quanto esta: pela primeira vez desde 2007, quando comecei a fazer a lista de melhores do ano aqui no blog, uma produção brasileira leva a categoria principal. No caso, Ainda Estou Aqui, também vencedor das nossas categorias de melhor atriz, melhor elenco e melhor roteiro adaptado. O longa de Walter Salles se tornou um clássico instantâneo do cinema brasileiro e passou a morar no meu coração desde setembro do ano passado, quando o assisti pela primeira vez no Festival Internacional de Cinema de Toronto. A cada revisão, admiro ainda mais esse trabalho profundo, delicado e tão reflexivo sobre nossa identidade como nação, com suas qualidades e cicatrizes.

Os quatro desempenhos escolhidos para as categorias de atuação também são um marco para mim, a começar obviamente por Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui), em um papel que, como ela própria admite, foi capaz de transformá-la como atriz e ser humano. Andrew Scott, o melhor ator por Todos Nós Desconhecidos, é dono de outro desempenho íntimo, pessoalíssimo e comovente, engrandecendo o trabalho já sublime do diretor Andrew Haigh. Entre os coadjuvantes, fiquei com dois trabalhos fortes e provocadores: tanto Julianne Moore em Segredos de Um Escândalo quanto Jeremy Strong em O Aprendiz brilham na maneira com que mergulham nas epinhosas camadas de personagens complexos, para dizer o mínimo. Todos os quatro são atores admiráveis e merecedores de cada (re)descoberta do público.

Abaixo, a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Ainda Estou Aqui
MELHOR DIREÇÃO: Coralie Fargeat (A Substância)
MELHOR ELENCO: Ainda Estou Aqui
MELHOR ATRIZ: Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
MELHOR ATOR: Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Julianne Moore (Segredos de Um Escândalo)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Jeremy Strong (O Aprendiz)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: A Substância
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Ainda Estou Aqui
MELHOR MONTAGEM: Rivais
MELHOR FOTOGRAFIA: Pobres Criaturas
MELHOR TRILHA SONORA: Rivais
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Pobres Criaturas
MELHOR FIGURINO: Pobres Criaturas
MELHOR SOM: Zona de Interesse
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Vaster Than Empires” (Queer)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Alien: Romulus
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: A Substância

Rapidamente: “Bridget Jones: Louca Pelo Garoto”, “A Cozinha”, “Mickey 17” e “Virgínia e Adelaide”

Gabriela Correa e Sophie Charlotte no ótimo Virgínia e Adelaide, de Yasmin Thayná e Jorge Furtado.

BRIDGET JONES: LOUCA PELO GAROTO (Bridget Jones: Mad About the Boy, 2025, de Michael Morris): Mundialmente, chegou aos cinemas com pompa de lançamento comercial, mas, nos Estados Unidos, Bridget Jones: Louca Pelo Garoto, o quarto e (ao que tudo indica) último capítulo sobre as aventuras amorosas da célebre personagem-título, foi produzido e exibido pela Peacock, streaming da NBC Universal. De certo modo, isso assinala as modestas expectativas dos produtores acerca do projeto, e há motivos para uma eventual contenção de expectativas. Tanto a história quanto a protagonista já não esbanjam mais o mesmo carisma de outrora, talvez explorado ao último suspiro no capítulo anterior, O Bebê de Bridget Jones. Não é que falte empenho por parte de Renée Zellweger, em seu primeiro longa-metragem após Judy: Muito Além do Arco-Íris, ou que Michael Morris, do ótimo To Leslie, não seja bom diretor. Acontece que Louca Pelo Garoto, centrado nos recomeços diários de Bridget após uma dolorosa perda, tem pouco a acrescentar em termos de camadas para a personagem e até mesmo para a discussão isolada do luto. A própria parte cômica, exemplificada no título e focada no relacionamento da protagonista com um pretendente bem mais jovem, fica no meio termo, no limite de infantilizar uma mulher de meia-idade que teria tantas outras questões inerentes à sua faixa etária para fazer graça. Nosso afeto por Bridget, enfim, não chega a equilibrar a frustração de uma despedida bastante morna para uma personagem que, de tão pop e irresistível, chegou a render a Renée uma merecida indicação ao Oscar de melhor atriz em 2002 — coisa rara, ainda hoje, mais de 20 anos depois, tratando-se de um papel cômico.

A COZINHA (La Cocina, 2024, de Alonzo Ruizpalacios): Enquanto Emilia Pérez era bombardeado na última temporada de premiações em função de sua falta de representatividade mexicana, A Cozinha dava sopa sem que ninguém percebesse, mesmo com indicações ao Independent Spirit Awards de melhor direção e fotografia. O que acontece para o público, tão crítico ao musical de Jacques Audiard, não buscar um filme escrito, dirigido, produzido e interpretado por, justamente, profissionais mexicanos? À parte essa reflexão sobre o público como agente importante no incentivo à representatividade, A Cozinha é virtuoso e ambicioso no seu relato sobre os imigrantes invisíveis que fazem funcionar a cozinha de um grande restaurante localizado na Times Square, em Nova York. De um lado, temos a observação realista de um caos gastronômico bem ao estilo do seriado The Bear, mas com personalidade própria: há, inclusive, um plano-sequência impressionante que alterna entre a cozinha e o salão para contrastar a completa desordem entre os cozinheiros e a absoluta organização dos clientes à espera de seus pratos. De outro, acompanhamos jornadas individuais, como a da imigrante recém-chegada que rema para compreender o ritmo e o espírito de um ambiente de trabalho selvagem, e a do cozinheiro de gênio dificílimo, por vezes tóxico, que se vê envolvido com a garçonete vivida por Rooney Mara. A relação entre o individual e o coletivo suscita muitas reflexões sobre como as condições de trabalho, em especial aquelas oferecidas a quem vai para os Estados Unidos tentar a vida, inevitavelmente definem destinos e estados emocionais. Isso sem falar na bela e eficiente fotografia em preto-e-branco de Juan Pablo Ramírez. Merece a descoberta.

MICKEY 17 (idem, 2025, de Bong Joon-Ho): Seis anos separam Mickey 17 de Parasita, clássico contemporâneo assinado por Bong Joon-Ho que rompeu fronteiras internacionais e se tornou o primeiro longa-metragem em língua não-inglesa a ganhar o Oscar de melhor filme internacional. Claro que não seria justo esperar, de prontidão, uma nova obra-prima do diretor após tamanho êxito. No entanto, a longa espera poderia ter resultado em uma experiência mais oxigenada. Mesmo que divertido e realizado com a disposição habitual e sempre bem-vinda de Bong Joon-Ho para cutucar feridas do mundo em que vivemos, Mickey 17 é uma reciclagem de várias discussões abordadas pelo cineasta em outros trabalhos como Okja, Expresso do Amanhã e o próprio Parasita. No centro da história está Mickey (Robert Pattinson), um funcionário “descartável” que pode morrer infinitas vezes, seja lá qual for a circunstância, o que lhe torna a cobaia perfeita para todo o tipo de experimento. Se a a perspectiva do ser humano como mero produto é boa, o roteiro a cerca com uma série de outras discussões que se dispersam também em função do tom tragicômico, ora bem defendido por Robert Pattinson, ora sabotado pela performance de Mark Ruffalo como um vilão abertamente inspirado em Donald Trump e, por isso mesmo, tão pouco autêntico em sua caricatura. Outro problema é que, entre Parasita e Mickey 17, houve Não Olhe Para Cima, também uma sátira política de humor escrachado, com mensagens escancaradas e toques de ficção científica. Ou seja, ainda que seja sempre bom ver um novo trabalho de Bong Joon-Ho, Mickey 17 não é bem uma novidade ou um dos trabalhos mais arejados de seu realizador.

VIRGÍNIA E ADELAIDE (idem, 2025, de Yasmin Thayná e Jorge Furtado): Uma das gratas surpresas do ano, Virgínia e Adelaide traz os talentos que consagraram Jorge Furtado como diretor e roteirista ao mesmo tempo em que complementa a visão do gaúcho com a chegada do olhar atento e feminino de Yasmin Thayná como sua parceira atrás das câmeras. Ambos são muito exitosos na naturalidade conferida a um longa-metragem suscetível à mera exposição ou às vaidades de uma possível verborragia. Se o tema abre margem para isso — o diálogo através dos anos entre as duas mulheres que inauguraram a psicanálise no Brasil —, a dupla dá conta de, também por meio das excelentes interpretações de Sophie Charlotte e Gabriela Correa, abordar a investigação formal ou não da mente com os pés no chão, mantendo-se próximo ao espectador, sem jamais se tornar ininteligível ou por demais intelectual. Tudo transcorre em basicamente apenas um cenário — a casa da psicanalista alemã Adelaide Koch —, o que não se revela um problema para Thayná e Furtado, pois eles compreendem como a geografia emocional das personagens e a respectiva evolução de seus estados de espírito abarcam espaços e leituras que não se limitam a um mero espaço. Virgínia Adelaide é, sim, sobre duas mulheres responsáveis pelo nascimento da psicanálise, mas também sobre a jornada pessoal de cada uma delas a partir desse encontro. Enquanto Virgínia reflete sobre sua presença no mundo como uma mulher negra em busca de um lugar ao sol e de resolver suas próprias questões, Adelaide revê muitos de seus posicionamentos como uma profissional já estabelecida em (re)conhecimentos. Entre o acessível e o reflexivo, o longa ilumina uma história que há muito já deveria ter sido descoberta e contada.

“Homem com H” é celebração fiel e tocante à essência de Ney Matogrosso

O Ney é um grande artista.

Direção: Esmir Filho

Roteiro: Esmir Filho

Elenco: Jesuíta Barbosa, Rômulo Braga, Hermila Guedes, Jullio Reis, Bruno Montaleone, Caroline Abras, Mauro Soares, Lara Tremouroux, André Dale, Bruno Parmera, Pedro Zurawski, Jeff Lyrio, Luiz Xavier

Brasil, 2025, Drama, 129 minutos

Sinopse: Dono de uma voz inconfundível e de performances memoráveis, Ney Matogrosso morava com os pais e irmãos na pequena cidade de Bela Vista (MS). Os embates com o pai, que insistia que o menino “virasse homem”, levaram Ney a se afastar da família, antes de enveredar para a vida artística. Anos depois de sair de casa, em São Paulo, estreou como vocalista dos Secos e Molhados, dando início às performances históricas que o definiram como um dos maiores artistas brasileiros da atualidade.

Quando anunciada, a escolha de Esmir Filho para dirigir a cinebiografia de Ney Matogrosso causou certa estranheza. Para além da admiração pelo cantor, por que um cineasta afeito ao cinema autoral (são seus filmes como Os Famosos e os Duendes da Morte e Verlust) de repente migraria para o tão saturado — e comercial — mercado das cinebiografias atuais? Das duas uma: ou Esmir estava disposto a se entregar às convenções do gênero para experimentar as glórias de um grande sucesso comercial ou havia fechado um acordo precioso para poder contar, com liberdade e autoralidade, a história de uma importante figura da cultura brasileira. Felizmente, estamos diante da segunda alternativa.

Homem com H, que, no título em, já dribla a saída fácil e preguiçosa de dar ao projeto o nome de seu biografado, é um mergulho muito pessoal e corajoso na vida de um cantor avesso a normas e padrões. Contar a vida de Ney Matogrosso sem as devidas doses de liberdades ou provocações seria um desrespeito com o público e, antes de tudo, com o próprio Ney, que acompanhou o desenvolvimento do projeto munido do mesmo comportamento admirável de Elton John em Rocketman: ambos contribuíram para os roteiros sem nunca censurar ideias ou amaciar momentos complicados de suas trajetórias.

É uma benção importante para Homem com H porque confere verdade a um filme formal em estrutura, mas genuíno em emoção, narrativa e interpretações. Esmir Filho não tem medo de comandar essa história sem revisitar as barreiras rompidas por Ney ao longo de uma carreira que tentavam a todo custo censurar, seja literalmente, durante os tempos em que a ditatura militar brasileira interferia até mesmo no número de rebolados que um homem poderia dar nos palcos, ou por uma sociedade conservadora e despreparada para uma figura tão descontruída quanto ele.

O roteiro escrito por Esmir adota a subversão de Ney Matogrosso como norte: carregado ora no drama, ora na comédia, o texto nos lembra que ser quem se é traz prazeres e desafios em dosagens parelhas. A difícil relação do protagonista com o pai, por exemplo, que agredia o filho por se negar a ter tanto um homem gay quanto um artista na família, é central na construção dramática, assim como os toques de humor garantem a irreverência necessária para ilustrar o relato de uma resistência que jamais se inclinou para a vitimização.

A subversão como fio condutor do roteiro é percebida ainda em como Homem com H aborda o repertório do cantor. Ao invés de ser um desleixado pout-pourri dos maiores sucessos de Ney para meramente ativar a memória afetiva do público, o filme toma cuidado para dar contexto à entrada das canções na vida de Ney ou como elas traduzem no palco aquilo que ele diz ser: alguém se definições, um bicho que incorpora comportamentos e expressões que o público tem dentro de si, mas morre de medo de externalizar.

Após ter visto o longa, Ney comentou que pode até não ter dito exatamente algumas das coisas que estão na tela — ainda assim, ele reconhece que, sim, não há dúvidas de que ele as poderia ter dito. Aí está a preciosidade de um trabalho como Homem com H: (re)conhecer a essência de seu personagem a ponto de, com notável naturalidade, saber como ele teria falado ou reagido fora dos holofotes da vida pública. É, ao meu ver, um dos maiores atestados de aprovação e admiração que Esmir poderia receber por sua visão artística para essa cinebiografia.

Tamanha compreensão do biografado catapulta a forte e tocante abordagem da expressão corporal e sexual de Ney Matogrosso. Aqui não me refiro ao trabalho técnico impressionante de Jesuíta Barbosa ou à reconstituição de marcantes aparições públicas do cantor — Homem com H é, na verdade, recheado de sensibilidade ao encapsular o corpo como elemento indissociável das dores e alegrias de seu protagonista e como instrumento de expressão e luta para toda uma geração que viu seu prazer se tornar risco de vida com a descoberta da AIDS.

Esmir filma o desejo com sensualidade rara, onde a nudez em si importa menos do que tudo aquilo que ela traduz para o personagem e para a história. Dessa forma, o êxito de Jesuíta Barbosa ultrapassa as fronteiras de um difícil trabalho técnico para ganhar verdadeira potência no modo como ele trabalha a relação entre o interno e externo de um homem que nunca se dobrou diante das inúmeras tentativas de lhe tolherem e que buscou viver, amar e performar do jeito que sempre quis.

Ademais, não poderia deixar de mencionar uma reparação cinematográfica importante feita em Homem com H envolvendo a relação entre Ney Matogrosso e Cazuza. Outrora solenemente ignorado em Cazuza – O Tempo Não Para, o caso de amor entre os dois ganha espaço merecido e considerável agora. Isso porque, além de relação bela e conturbada na vida de Ney, Cazuza representou uma série de outras coisas: ele era, enfim, uma paixão impossível, mas um semelhante em carreira, desejos e forma de se impor diante da sociedade. Ignorar o simbolismo de tamanho encontro foi uma grande mancada do longa de Walter Carvalho e Sandra Werneck que Esmir Filho corrige com elegância e comoção.

A participação do próprio Ney Matogrosso ao final de Homem com H, bem como cenas de sua mais recente turnê, Bloco na Rua, poderia ser, em outros casos, o cacoete fácil de uma cinebiografia que deseja encontrar atalhos óbvios para chegar ao coração de seu público, quase como um fan service mesmo. Contudo, frente a um projeto que abraça com tanta honestidade e carinho um personagem revolucionário do cenário musical brasileiro, o efeito acaba sendo o posto: é lindo ver Ney, hoje com 83 anos, ainda erguendo nos palcos, sem qualquer sinal de que vá parar, bandeiras que foram sempre tão suas e que, ao fim e ao cabo, deveriam ser de todos nós.

Melhores de 2024: “Todos Nós Desconhecidos” e “Pobres Criaturas” recebem o maior número de indicações

Um drama intimista e outro de grandes ambições estéticas e narrativas despontam como os títulos mais indicados da nossa lista de melhores filmes de 2024. Tanto Todos Nós Desconhecidos quanto Pobres Criaturas acompanham jornadas pessoais muito particulares, ambas emolduradas por admiráveis sofistificações técnicas e ideias fora da curva que se refletem em nada menos do que indicações em dez categorias para cada longa. Eles são seguidos de perto por Ainda Estou AquiO Aprendiz, lembrados em oito categorias. O Oscarizado longa-metragem de Walter Salles e cinebiografia de Donald Trump levam figuras da vida real para as telas com narrativas ímpares, conferindo marcante frescor para um gênero frequentemente preso a fórmulas.

Confira abaixo a lista completa de indicados, cujo recorte se dá a partir dos filmes lançados comercialmente no Brasil ao longo do ano, seja nas salas de cinema ou em streaming:

MELHOR FILME
Ainda Estou Aqui
Anatomia de Uma Queda
O Aprendiz
Jurado Nº 2
Pobres Criaturas
Saudade Fez Morada Aqui Dentro
A Substância
Todos Nós Desconhecidos
Vidas Passadas
Zona de Interesse

MELHOR DIREÇÃO
Andrew Haigh (Todos Nós Desconhecidos)
Coralie Fargeat (A Substância)
Jonathan Glazer (Zona de Interesse)
Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)
Walter Salles (Ainda Estou Aqui)

MELHOR ELENCO
Ainda Estou Aqui
Ficção Americana
Pobres Criaturas
As Três Filhas
Todos Nós Desconhecidos

MELHOR ATRIZ
Demi Moore (A Substância)
Emma Stone (Pobres Criaturas)
Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
Natalie Portman (Segredos de Um Escândalo)
Sandra Hüller (Anatomia de Uma Queda)

MELHOR ATOR
Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos)
Bruno Jeferson (Saudade Fez Morada Aqui Dentro)
Jeffrey Wright (Ficção Americana)
Kōji Yakusho (Dias Perfeitos)
Sebastian Stan (O Aprendiz)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Claire Foy (Todos Nós Desconhecidos)
Julianne Moore (Segredos de Um Escândalo)
Maria Bakalova (O Aprendiz)
Penélope Cruz (Ferrari)
Toni Collette (Jurado Nº 2)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jamie Bell (Todos Nós Desconhecidos)
Jeremy Strong (O Aprendiz)
Milo Machado Graner (Anatomia de Uma Queda)
Paul Mescal (Todos Nós Desconhecidos)
Selton Mello (Ainda Estou Aqui)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Anatomia de Uma Queda
Jurado Nº 2
Segredos de Um Escândalo
A Substância
Vidas Passadas

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ainda Estou Aqui
Ficção Americana
Pobres Criaturas
Todos Nós Desconhecidos
Zona de Interesse

MELHOR MONTAGEM
Ainda Estou Aqui
Anatomia de Uma Queda
O Aprendiz
Rivais
Todos Nós Desconhecidos

MELHOR FOTOGRAFIA
O Aprendiz
Pobres Criaturas
O Sabor da Vida
Todos Nós Desconhecidos
Zona de Interesse

MELHOR TRILHA SONORA
O Aprendiz
Pobres Criaturas
O Quarto ao Lado
Rivais
A Substância

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Ainda Estou Aqui
Estômago 2: O Poderoso Chef
Pobres Criaturas
Zona de Interesse
Wicked

MELHOR FIGURINO
Furiosa: Uma Saga Mad Max
Pobres Criaturas
Priscilla
O Quarto ao Lado
Wicked

MELHOR SOM
Alien: Romulus
Furiosa: Uma Saga Mad Max
Um Lugar Silencioso: Dia Um
A Substância
Zona de Interesse

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Compress/Repress” (Rivais)
“Folie à Deux” (Coringa: Delírio a Dois)
“Never Too Late” (Elton John: Never Too Late)
“Quiet Eyes” (Vidas Passadas)
“Vaster Than Empires” (“Queer”)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Alien: Romulus
Furiosa: Uma Saga Mad Max
Guerra Civil
Um Lugar Silencioso: Dia Um
O Mal Que Nos Habita

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
O Aprendiz
Um Homem Diferente
Pobres Criaturas
A Sociedade da Neve
A Substância