Cinema e Argumento

“Hamnet” é sobre o homem, não o ícone — e, mais ainda, sobre a mulher que definiu a sua vida

The rest is silence.

Direção: Chloé Zhao

Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell, baseado no romance “Hamnet: A Novel of the Plague”, de Maggie O’Farrell

Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Noah Jupe, Olivia Lynes, Bodhi Rae Breathnach, David Wilmot, Freya Hannan-Mills, Dainton Anderson, James Skinner, Louisa Harland

Hamnet, Reino Unido/Estados Unidos, 2025, Drama, 125 minutos

Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare (Paul Mescal) vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes (Jessie Buckley) quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.

Há poucas certezas e muitas conjecturas no que se sabe sobre a vida pessoal do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564 – 1616). Tanto que a escritora Maggie O’Farrell e a diretora Chloé Zhao, tomaram a liberdade de abraçar a imaginação na confecção do roteiro de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que deixa quase em segundo plano o Shakespeare autor para adentrar as possibilidades de quem ele teria sido como um homem comum. E o ponto de vista adotado pelo longa não poderia ser mais humano em sua cotidianidade: o de Agnes (Jessie Buckley), mulher com quem William (Paul Mescal) escolheu viver sua vida e com quem teve três filhos.

Conhecendo-se a filmografia da chinesa Chloé Zhao, a abordagem não vem como nenhuma surpresa. Pelo contrário: a delicadeza inerente aos seus trabalhos autorais distancia Hamnet da ideia que temos de uma mera cinebiografia para aproximá-lo de um drama palpável e muito próximo do espectador. Ou seja, não se trata de uma obra que pretende reverenciar o ícone William Shakespeare e olhar pela fechadura de sua vida íntima. Todos saem ganhando: Zhao, que pode fazer um filme com a sua assinatura; e a própria plateia, que não se vê enredada em mais uma cinebiografia pretensiosa ou enfadonha.

Se, por um lado, a estrutura do texto nem sempre funciona — Hamnet avança a partir de inúmeras elipses, o que suprime a reverberação de determinadas construções dramáticas —, todo o resto compensa eventuais efeitos colaterais, como o próprio ritmo da história. Isso é perceptível desde a primeira cena, centrada em Agnes e já fundamental para entendermos o quanto sua relação com a natureza e com o místico terá papel importante na relação com William e até mesmo na tragédia que acometeu um dos seus três filhos. Tragédia essa que acabou levando o dramaturgo a criar Hamlet, possivelmente sua obra mais icônica.

Como a observação do encontro entre duas pessoas comuns, Hamnet nos apresenta a uma Agnes deslocada, tida em sua cidade como “a filha de uma bruxa da floresta”, em função do poder que teria de ver o futuro das pessoas apenas ao tocar em suas mãos. Em casa, excetuando a relação com o irmão, tem pouca conexão com a família, que já lhe cobra um casamento. Em William, ela encontra um semelhante: tutor de latim, ele também tem lá seus percalços familiares e confessa ter dificuldade em se comunicar com as pessoas. A aproximação é imediata, e Agnes logo entende que tudo se dá porque ele a ama por quem ela é, não por aquilo que os outros querem que ela seja.

Não tarda para que Hamnet comece a desconstruir o relacionamento, a começar pela maneira com que explora a insatisfação de William consigo mesmo. Ele teme beber demais, ter rompantes violentos ou, quem sabe, precisar de uma morada em Londres onde possa desenvolver seu lado de autor. Agnes aceita e o que vem dessa decisão muda para sempre a dinâmica entre os dois: longe de casa, ela terá filhos sem a presença do marido — e, eventualmente, perderá um deles amparada apenas pela sogra, vivida por Emily Watson em papel pequeno, mas de presença forte.

Entre as várias elipses do filme, Chloé Zhao ora encena a sinergia muito verossímil de uma família feliz quando William está presente, ora o profundo abismo em que Agnes se encontra com a ausência de um homem cujo trabalho ela sequer conhece — enquanto imaginava que Shakespeare escrevia uma comédia, ele estreava, na verdade, uma tragédia que, antes mesmo de estrear, já despertava o boca-a-boca do público londrino. É um arco sempre doloroso o do casal outrora feliz que se desintegra, ainda mais quando acometido por um luto indescritível, e Zhao, sabendo disso, faz o mínimo de intervenções técnicas ou estéticas para sublinhar o drama.

Há quem diga que o filme manipula emoções e que se regozija no sofrimento dos personagens para ensaiar algum estofo. Assim como nos recentes Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria — outras duas obras que, cada uma à sua maneira, discute o pesado fardo da maternidade —, discordo de tal afirmação porque sou profundamente solidário aos conflitos das personagens e, como homem, acredito ser no mínimo pretensioso ou equivocado o conceito de tentar dimensionar as profundezas dos dilemas femininos, em especial os maternos. Para mim, foram três sessões que só me trouxeram ainda mais empatia pelas mulheres.

Gostando-se ou não de Hamnet, creio ser impossível sair ileso à sequência final, que coloca no palco, enfim, o Hamlet de William Shakespeare como viemos o conhecer em sua influência dramatúrgica mundial. Ao mesmo tempo, tudo ganha um novo sentido ali depois de tudo que testemunhamos. É quando Zhao termina seu longa no auge, por diversas razões. Talvez porque ali estejam melhor exemplificadas as maravilhosas performances de Jessie Buckley e Paul Mescal. Ou, então, porque ela reverbera a sempre comovente mensagem de como a arte é capaz de expurgar e ressignificar as dores mais intransponíveis. Contudo, desconfio que seja mesmo porque ali estão concentrados, de vez, os sentimentos mais verdadeiros e profundos que Chloé Zhao e Maggie O’Farrell quiseram extrair do específico mundo de Shakespeare para que se tornassem universais, como todo bom drama produzido pelo cinema.

Os vencedores do Globo de Ouro 2026 (e deu Brasil de novo, agora em dose dupla!)

Wagner Moura e o seu Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama por O Agente Secreto.

É mais do que oficial: o cinema brasileiro vive uma verdadeira era de ouro. Não bastasse o Globo de Ouro de melhor atriz em filme de drama para Fernanda Torres e o Oscar de melhor filme internacional para Ainda Estou Aqui em 2025, agora O Agente Secreto garante nosso protagonismo na temporada de premiações pelo segundo ano consecutivo. E, mesmo já colecionando consagrações desde o Festival de Cannes, é novamente no Globo de Ouro que um representante brasileiro vê suas chances serem consolidadas na corrida pelo Oscar. O resultado, aliás, foi melhor do que o imaginado: não só o favoritismo de Wagner Moura se confirmou na categoria de melhor ator em drama, como o próprio O Agente Secreto acabou levando o prêmio de melhor filme em língua não-inglesa. A segunda conquista dá enorme gás para a produção pernambucana porque ela foi capaz de desbancar Valor Sentimental, indicado em nada menos do que oito categorias, e Foi Apenas Um Acidente, que concorria em segmentos importantíssimos como os de direção e roteiro. É uma vitória triunfante e que muda de forma radical o jogo na disputa entre os filmes internacionais. Os caminhos abertos por Ainda Estou Aqui realmente não foram poucos.

Outros ótimos momentos de uma cerimônia bastante em discursos e seus respectivos posicionamentos diante do que vem acontecendo no mundo e, mais especificamente, nos Estados Unidos, ficaram por conta dos coadjuvantes. Primeiro, Teyana Taylor voltou a tomar a dianteira na disputa de atriz coadjuvante com seu reconhecimento por Uma Batalha Após a Outra. Logo em seguida, no mesmo bloco, Stellan Skarsgård foi escolhido o melhor ator coadjuvante por Valor Sentimental. Ambos os troféus movimentam disputas ainda suscetíveis a mudanças daqui para a frente, o que é sempre muito bom para qualquer temporada. O Globo de Ouro também não fez mais do mesmo em melhor filme de drama, desbancando o favorito Pecadores — que acabou vitorioso na categoria de conquista cinematográfica e de bilheteria — para premiar Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. A surpresa é excelente notícia para Jessie Buckley, pois evidencia o quanto sua celebração em melhor atriz vem ampliada pelo amor ao filme de Chloé Zhao. E, por falar em amor, acho que já dá para dizer que Uma Batalha Após a Outra é mesmo imparável. Definitivamente, chegou a hora de Paul Thomas Anderson.

Confira abaixo a lista de vencedores:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Wagner Moura (O Agente Secreto)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Timothée Chalamet (Marty Supreme)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)
MELHOR ROTEIRO: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: O Agente Secreto (Brasil)

MELHOR ANIMAÇÃO: Guerreiras do K-Pop
MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K-Pop)
CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA: Pecadores

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMA: The Pitt
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: The Studio
MELHOR MINISSÉRIE OU TELEFILME: Adolescência

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Rhea Seehorn (Pluribus)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Noah Wyle (The Pitt)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Seth Rogen (The Studio)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Michelle Williams (Morrendo por Sexo)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Stephen Graham (Adolescência)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Erin Doherty (Adolescência)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Owen Cooper (Adolescência)
MELHOR PERFORMANCE DE STAND-UP: Ricky Gervais (Ricky Gervais: Mortality)

Apostas para o Globo de Ouro 2026

Quem diria que, após tantos anos ausente na corrida pelo Oscar, o cinema brasileiro teria duas temporadas consecutivas com chances reais de cair nas graças da Academia e ainda conquistar outras estatuetas pelo caminho? E é novamente no Globo de Ouro que temos as maiores chances: se Fernanda Torres se consagrou como melhor atriz em filme de drama no ano passado com Ainda Estou Aqui, agora é Wagner Moura quem chega forte na competição de melhor ator com O Agente Secreto. Wagner se beneficia da divisão de drama e comédia no Globo de Ouro porque o favorito da temporada até aqui — Timothée Chalamet com Marty Supreme — concorre em uma categoria diferente. Também não seria surpresa ver o próprio filme de Kleber Mendonça Filho ganhando entre as produções de língua não-inglesa, visto, por exemplo, a recente vitória no Critics’ Choice Awards em cima do favorito Valor Sentimental. Há motivos para muita torcida!

Para os segmentos principais, não vejo como Uma Batalha Após a Outra possa ser desbancado em melhor filme de comédia/musical e direção. Trata-se do Oppenheimer deste ano: ao que tudo indica, desde já, é favorito absoluto ao Oscar e em todas as premiações que percorrerá até lá. Pecadores também deve confirmar sua ótima repercussão com o prêmio de melhor filme de drama, além de algum outro como trilha sonora e conquista cinematográfica/box office. O Globo também deve esclarecer se Amy Madigan (A Hora do Mal) tem mesmo o favorotismo para romper barreiras e ser premiada em melhor atriz coadjuvante por um terror. E Jacob Elordi? Será que ele, também, coadjuvante, foi apenas um caso isolado do Critics’ Choice ou tem mesmo a preferência na temporada por sua performance em Frankenstein? Em séries e minisséries, pouco a especular: basicamente todas as categorias são encabeçadas por candidatos que já gabaritaram outras premiações.

O Globo de Ouro será transmitido a partir das 21h30 no canal TNT e na plataforma de streaming HBO Max. Já a Rede Globo exibe a premiação após o fim do Fantástico.

Confira abaixo as minhas apostas:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA: Pecadores / alt: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Uma Batalha Após a Outra / alt: Marty Supreme
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Jafar Panahi (Foi Apenas Um Acidente)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) / alt: Renate Reinsve (Valor Sentimental)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria) / alt: Kate Hudson (Song Sung Blue – Um Sonho a Dois)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Wagner Moura (O Agente Secreto) / alt: Michael B. Jordan (Pecadores)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Timothée Chalamet (Marty Supreme) / alt: Ethan Hawke (Blue Moon)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Amy Madigan (A Hora do Mal) / alt: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Stellan Skarsgård (Valor Sentimental) / alt: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ROTEIRO: Uma Batalha Após a Outra / alt: Foi Apenas Um Acidente
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: O Agente Secreto (Brasil) / Valor Sentimental (Noruega)

MELHOR ANIMAÇÃO: Guerreiras do K-Pop / alt: Zootopia 2
MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores / alt: Sirāt

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K- Pop) / alt: “I Lied to You” (Pecadores)
CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA: Avatar: Fogo e Cinzas / alt: Pecadores

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMA: The Pitt / alt: Pluribus
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: The Studio / alt: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE OU TELEFILME: Adolescência / alt: All Her Fault

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Rhea Seehorn (Pluribus) / alt: Kathy Bates (Matlock)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Noah Wyle (The Pitt) / alt: Mark Ruffalo (Task)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Kristen Bell (Nobody Wants This)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Seth Rogen (The Studio) / alt: Martin Short (Only Murders in the Building)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Sarah Snook (All Her Fault) / alt: Claire Danes (O Monstro em Mim)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Stephen Graham (Adolescência) / alt: Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Erin Doherty (Adolescência) / alt: Catherine O’Hara (The Studio)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Owen Cooper (Adolescência) / alt: Tramell Tillman (Ruptura)
MELHOR PERFORMANCE DE STAND-UP: Ricky Gervais (Ricky Gervais: Mortality) / alt: Sarah Silverman (Sarah Silverman: Postmortem)

Os indicados ao The Actor Awards 2026

Com sete indicações, Uma Batalha Após a Outra se torna o filme mais indicado na história do The Actor Awards.

Aconteceu o esperado, mas não deixa de ser frustrante: o Screen Actors Guild Awards — agora renomeado The Actor Awards — decidiu ignorar todas as atuações em língua não-inglesa desta temporada. É um dado que trabalha contra a premiação porque são muitos os títulos internacionais cotados por sindicatos, associações e outros prêmios. Como explicar, por exemplo, a ausência absoluta de Valor Sentimental, que tem quatro interpretações individuais reconhecidas por outros grupos? Ou, então, qualquer lembrança para O Agente Secreto e Foi Apenas um Acidente, dois títulos facilmente dignos de figurarem na categoria de melhor elenco?

Não é de hoje que o The Actor Awards pretere interpretações celebradas como a de Isabelle Huppert em Elle ou a de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui. Acontece que todas as premiações passam por um assumido processo de internacionalização, então, das duas uma: ou o The Actor Awards precisa urgentemente de uma reformulação para não ficar parado no tempo ou deve assumir um critério de seleção que seja restrito a interpretações em língua-inglesa. Do jeito que está, fica ruim para a imagem do prestigiado sindicato de atores.

Com tantos desfalques, os substitutos acabam não sendo escolhas necessariamente fora da curva (caso de Emma Stone, lembrada na categoria de melhor atriz pelo pueril Bugonia) ou de grande influência para a temporada (acho difícil que Miles Caton em ator coadjuvante por Pecadores seja uma tendência a ser seguida daqui para a frente). Se há algo que nós, como brasileiros, podemos comemorar é que, com a ausência de Wagner Moura em melhor ator por O Agente Secreto, os votantes optaram por Jesse Plemons (Bugonia). A notícia é boa porque estancou o crescimento de Joel Edgerton (Sonhos de Trem), que vinha figurando como favorito para emplacar uma vaga que ainda está em aberto e que, eventualmente, poderia prejudicar as chances de Wagner.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Missão: Impossível — O Acerto Final
Pecadores

MELHOR ATRIZ
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Jesse Plemons (Bugonia)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)

Jacob Elordi (Frankenstein)
Miles Caton (Pecadores)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana Grande (Wicked: Parte 2)
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Odessa A’zion (Marty Supreme)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA
Landman
The Diplomat
The Pitt
Severance
The White Lotus

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
The Bear
Hacks
The Studio
Only Murders in the Building

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS EM SÉRIE
Andor
Landman
The Last of Us
Stranger Things
Round 6

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Aime Lou Wood (The White Lotus)
Britt Lower (Severance)
Keri Russell (The Diplomat)
Parker Posey (The White Lotus)
Rhea Seehorn (Pluribus)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Gary Oldman (Slow Horses)
Noah Wyle (The Pitt)
Sterling K. Brown (Paradise)
Walton Goggins (The White Lotus)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (The Studio)
Jean Smart (Hacks)
Jenna Ortega (Wandinha)
Kathryn Hahn (The Studio)
Kristen Wiig (Palm Royale)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Adam Brody (Nobody Wants This)
Ike Barinholtz (The Studio)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Seth Rogen (The Studio)
Ted Danson (A Man on the Inside)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Christine Tremarco (Adolescência)
Claire Danes (O Monstro em Mim)
Erin Doherty (Adolescência)
Michelle Williams (Dying for Sex)
Sarah Snook (All Her Fault)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Charlie Hunnam (Monster: The Ed Gein Story)

Jason Bateman (Black Rabbit)
Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
Owen Cooper (Adolescência)
Stephen Graham (Adolescência)

Rapidamente: “Avatar: Fogo e Cinzas”, “O Filho de Mil Homens”, “Sorry, Baby” e “Wicked: Parte 2”

Eva Victor dirige, escreve e protagoniza Sorry, Baby.

AVATAR: FOGO E CINZAS (Avatar: Fire and Ash, 2025, de James Cameron): Ninguém duvida de que Avatar marcou época e promoveu inúmeras revoluções tecnológicas. Contudo, passados 16 anos desde o lançamento do primeiro filme, a impressão é de que, para o bem e para o mal, estamos falando as mesmas coisas sobre a franquia. Trata-se de algo positivo considerando a verve sempre inquieta de Cameron para criar os grandes espetáculos que hoje Hollywood parece incapaz de produzir, mas também de algo negativo, visto que roteiro nunca foi o forte do diretor — e tanto tempo dedicado a um mesmo universo só reforça essa tese. Em termos de história propriamente dita, as quase dez horas somadas de Avatar soam redundantes, muito mais agora em Fogo e Cinzas, que, por ser o terceiro capítulo, invariavelmente sofre com a ausência de novas ideias. É exaustivo, por exemplo, que tenhamos passado quase duas décadas com um antagonista — o coronel Quaritch, vivido por Stephen Lang — perseguindo o herói Jake Sully (Sam Worthington) de todos os jeitos possíveis, quando ele poderia ter facilmente saído de cena no segundo filme. Ao mesmo tempo em que introduz algumas novidades, como a entrada de outra vilã que traz uma ótima nuance para o mundo dos Na’vi, Fogo e Cinzas segue repetindo os discursos anticolonialistas já tão solidificados nos longas anteriores, assim como somente amplia a escala de sequências de ação muito similares entre os três volumes da saga. Nunca vi nenhum Avatar em casa, apenas nas salas de cinema, o que me deixa com a pulga atrás da orelha: será que, à parte a grandiosidade técnica e estética que vemos na tela grande, a trilogia formada até aqui sustenta parte de sua magia fora no sofá de casa? Ao contrário de outros trabalhos de Cameron, Avatar não me estimula tanto a uma revisão. Mau sinal?

O FILHO DE MIL HOMENS (idem, 2025, de Daniel Rezende): Outrora exímio montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta e Tropa de Elite, o paulista Daniel Rezende agora vem se firmando como um dos diretores brasileiros mais inspirados em atividade. Da irreverência de Bingo: O Rei das Manhãs à sofisticada doçura das duas adaptações de Turma da Mônica, ele navega em diferentes gêneros com o mesmo interesse e afinco. Ele não escapa à regra com O Filho de Mil Homens, em que se lança na complicada missão de levar às telas a literatura bela e poética de Valter Hugo Mãe. Falo em desafio porque a narrativa do autor é muito particular, seja na forma ou no conteúdo, e traduzir em imagens suas reticentes reflexões exige grande sensibilidade. Pois Daniel Rezende acerta outra vez, construindo um longa reverente à obra original, mas, ao mesmo tempo, livre para fazer suas próprias escolhas, inclusive do ponto de vista estético, já que esse se trata de seu trabalho mais apurado tecnicamente. Apesar de começar centrado no calado pescador vivido por Rodrigo Santoro, O Filho de Mil Homens se ramifica em outros personagens com o intuito de, eventualmente, entrelaçá-los e, assim, falar sobre a vida de figuras vistas aos olhos da sociedade como desajustadas, pecaminosas ou problemáticas. Em que pese os dramas genuínos e palpáveis de cada um deles, é a partir do momento em que suas histórias se cruzam que o filme fica ainda mais bonito, afinal, a generosidade é uma das maiores qualidades que qualquer ser humano pode ter hoje em dia. No acolhimento e na compreensão, o longa acentua a delicadeza do texto de Valter Hugo Mãe, e o faz sem ceder a convenções comerciais, evitando que o longa, produzido originalmente pela Netflix, flerte com mensagens rasteiras de autoajuda. O Filho de Mil Homens é bonito de ver e de sentir, além de acenar a todo momento para a literatura com os pés firmes no cinema.

SORRY, BABY (idem, 2025, de Eva Victor): A atriz, diretora e roteirista Eva Victor faz pelo menos duas coisas milagrosas em Sorry, Baby. A primeira é conseguir navegar nas diferentes fases de um trauma profundo com sobriedade, economia e até mesmo humor, sem perder de vista o pulso de uma história encenada em diferentes anos na vida da protagonista. Já a segunda é se despir completamente de vaidades para nunca fazer de seu trabalho uma egotrip. Não há deslumbre com as inúmeras diferentes possibilidades da história, sejam elas dramáticas ou cômicas. Tudo está a favor do filme, não do umbigo de sua realizadora. É um feito e tanto para uma cineasta que entrega o seu primeiro longa-metragem e que, a cada minuto dele, prova seu lugar de fala e a maturidade envolvida na construção do roteiro. Gosto, particularmente, da concepção da protagonista, uma acadêmica com senso de humor muito próprio e com plena consciência de que ela não tem as respostas certas para lidar com o que lhe assombra — e será mesmo que elas existem em experiências traumáticas? Aí está outro aspecto fascinante de Sorry, Baby: por meio de Agnes, Eva Victor mostra que cada história é uma história e que, nesta vida, nós administramos as dores a partir do que temos de repertórios ou (in)capacidades. Nada falta ou sobra também em termos de interpretação, visto que é fácil nos solidarizarmos com Agnes e ficarmos do seu lado seja qual for a sua reação diante do que lhe aconteceu.  Concentrando-se no peso do dia-a-dia, assim como nos momentos e nas relações que revigoram o passar do tempo, o filme conversa com o espectador da forma mais orgânica possível, o que só enfatiza a grata surpresa que é conhecer uma contadora de histórias tão sagaz e sensível.

WICKED: PARTE 2 (Wicked: For Good, 2025, de Jon M. Chu): Os aficionados pelo espetáculo original defendem a tese de que, nos palcos, Wicked já tem um segundo ato menos interessante do que o primeiro e que, portanto, não é nenhuma surpresa o fato da versão cinematográfica também ficar aquém do esperado. Bobagem. Adaptações também servem para propor novos olhares e leituras, assim como para mitigar escolhas não tão bem sucedidas. O que falta mesmo a Wicked é um diretor inspirado. A primeira parte, levada às telas com a mesma criatividade técnica e artística que qualquer outra aventura banalíssima da Marvel ou da DC, conseguia ser um entretenimento agradável muito em função de Cynthia Erivo e Ariana Grande, cujo frescor elevava o resultado junto às boas canções, culminando na clássica “Defying Gravity”. Por outro lado, Wicked: Parte 2, rodado simultaneamente com o primeiro filme, apenas deixa evidente a falta de um bom contador de histórias atrás das câmeras. Ao ter comandado os dois longas em um mesmo período, Jon M. Chu de fato concebe a parte 2 como apenas uma extensão da parte 1, sem elaborar absolutamente nada de novo. Não há um elemento ou uma identidade que dê qualquer tipo de vida própria à continuação. Nem mesmo a dupla protagonista, antes tão cintilante, consegue dar algum brilho ao material. De fato, a história decai na reta final, tanto do ponto de vista narrativo quanto musical, e o ritmo oscila entre o arrastado e acelerado, mas, quando os envolvidos não se esforçam para entregar algo minimamente novo, não há mesmo o que ser feito, muito menos quando decisões mercadológicas se impõem e já sugerem a produção de novas obras ambientadas no universo de Wicked.