Cinema e Argumento

A Estrela da Comédia Televisiva

Já se foi o tempo em que Tina Fey era apenas um nome e um rosto escondido na excelente comédia teen chamada Meninas Malvadas. Por mais que ela tenha investido na carreira do cinema, é na televisão que está a fonte de sucesso de Tina. Para alguns profissionais, a televisão é uma maldição, mas não para ela. Egressa do Satudarday Night Live, resolveu criar um seriado onde ela mesma seria a protagonista, além de roteirizar os episódios. À primeira vista, estaríamos diante de uma figura egocêntrica (já não nos cansamos de ver figuras que querem comandar toda uma produção e retumbam ao fracasso?). Contudo, Tina Fey tem talento. E isso foi decisivo para que ela se tornasse a maior estrela da atual comédia televisiva.

Chegando em tempos difíceis para a comédia no mundo da televisão, 30 Rock foi inesperado sucesso – tanto que, logo em sua primeira temporada, levou o Emmy na categoria principal. Ajudado também por um grande sucesso de público, o seriado “egocêntrico” de Tina Fey mostrou-se como o melhor produto da comédia recentemente. E algo se confirmou – Tina é cheia de talento, uma raridade que deve ser preservada. Se nos roteiros ela consegue ser excepcional em suas comédias, também tem uma incrível e surpreedente simpatia como atriz. Um magnetismo difícil de explicar e que só lhe traz benefícios. Um ano se passou e 30 Rock reinou absolutamente no Emmy desse ano novamente. Tina recebeu três estatuetas (série, roteiro e atriz) e ainda de quebra o seriado também concedeu um prêmio para Alec Baldwin, outra grande surpresa do casting. Embalada com todo esse sucesso, Tina só parece crescer. O sucesso não lhe sobe à cabeça e ela não erra. Um nome para se guardar, sem dúvida alguma!

Filmes em DVD

Um Sonho Sem Limite, de Gus Van Sant

Com Nicole Kidman, Matt Dilon e Joaquin Phoenix

Mais um trabalho correto demais do irregular Gus Van Sant na cadeira de direção (mas não sem personalidade como Gênio Indomável), cuja inércia é totalmente compensada por seu impecável elenco, todos em seus devidos lugares. No entanto, é Nicole Kidman quem comanda o espetáculo, em uma de suas melhores interpretações no cinema. Injustamente lembrada apenas pelo Globo de Ouro (onde venceu na categoria de melhor atriz), Kidman mescla muito bem a inocência e ambição de uma personagem difícil, mas que no desenrolar do longa metragem vai conquistando o espectador. Um Sonho Sem Limite é aquele tipo de filme que começa pelo final-catástrofe e que utiliza disso para manter a atenção do espectador, que fica preso até o fim para saber como tudo se sucedeu. Nada de brilhante, mas muito bem produzido e atuado.

FILME: 8.0

Touro Indomável, de Martin Scorsese

Com Robert De Niro, Joe Pesci e Cathy Moriarty

Muita gente considera esse filme a obra-prima do superestimado diretor Martin Scorsese. Eu ainda prefiro o excelente Taxi Driver. Mas, ainda assim, Touro Indomável é um dos melhores exemplares da carreira do diretor. Mesmo que eu continue implicando com alguns tiques do diretor, fui bastante envolvido nessa produção que tem como principal destaque a transformação física que o ator Robert De Niro sofreu para viver o protagonista, que por sinal é um personagem bem complicado (não dá pra se identificar com ele), mas que De Niro conseguiu conduzir com maestria. Tal excelência lhe rendeu um Oscar de melhor ator. Outro destaque é a bela coadjuvante Cathy Moriarty e a impressionante montagem (também premiada com o troféu da Academia).

FILME: 8.0

A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra

Com James Stewart, Dona Reed e Lionel Barrymore

Nos dias de hoje, mensagens de paz e que “a vida é bela” já não funcionam mais como antigamente. Contudo, se você ainda conseguir entrar nesse espírito feliz, é bem provável que você aprove completamente o resultado de A Felicidade Não Se Compra – obra cheia de inocência e muito pura em suas intenções. É exatamente aí que reside o charme da obra de Frank Capra, que apresenta uma sociedade que já não existe mais. O grande ato do filme se concentra apenas no final, onde o protagonista vai participar de uma viagem de aprendizado que mudará sua vida, mas durante todo o roteiro o filme se equilibra entre boas atuações e uma história muito bem narrada. Cinema antigo e de qualidade.

FILME: 8.0

Dança Com Lobos, de Kevin Costner

Com Kevin Costner, Graham Greene e Mary McDonnell

Superestimado? Sem dúvida alguma. O filme não merecia metade do reconhecimento que teve, mas ainda assim é extremamente competente e agradável. Lembra muito a trilogia literário O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo aqui do Sul, onde duas raças passam a conviver juntas e aprendem muito sobre a vida compartilhada. É louvável a dedicação de Kevin Costner, que teve momentos brilhantes de direção no longa – a cena, por exemplo, onde ele persegue uma manada de búfalos é surpreendente – e que cria um épico interessantíssimo. Pena que Dança Com Lobos tenha sido vítima daquelas louvações em exagero da Academia. Nada mais é que uma história bem feita e com ótimos momentos. Mas nada digno de tanto sucesso.

FILME: 8.0

Mentiras Sinceras, de Julian Fellowes (revisto)

Com Tom Wilkinson, Emily Watson e Rupert Everett

Não entendo a tamanha implicância com esse longa que, apesar de não ser nem metade do que poderia ser, é até bem produzido. A força do longa, claro, reside nos desempenhos de Tom Wilkinson e Emily Watson. Ele competente sempre e ela eficiente como de hábito. A história de traição é meio improvável, principalmente porque fica difícil acreditar nas atitudes dos personagens. Contudo, por alguma razão misteriosa, o filme me conquista com seu charme ingês de fazer cinema e não me desagrada. Falho? Com certeza. Mas nem por isso ruim.

FILME: 7.5

Doutor Jivago, de David Lean

Com Omar Sharif, Julie Christie e Geraldine Chaplin

Esse filme tem uma legião de admiradores e é encaixado em diversas listas dos melhores filmes de todos os tempos. Doutor Jivago é um épico grandioso e incrivelmente bem produzido (quem não se impressiona com aquelas paisagens maravilhosas e a fotografia belíssima?), com uma marcante trilha sonora que é impossível esquecer. Porém, ao contrário de outras maravilhosas produções como E O Vento Levou, falta sentimento ao longa, que não se preocupa em criar emoções ou momentos mais contundentes para os personagens. O romance entre Yuri (Omar Shariff, impecável) e Lara (Julie Christie, lindíssima, mas que precisava de um pouco mais de tempo em cena) fica em segundo plano e não tem o devido efeito. Reclamo daqueles habituais defeitos da duração excessiva e da narrativa repetitiva. Mas não nego que há muita coisa a se admirar no filme. Ele só não me atingiu.

FILME: 7.0

As Chaves de Casa, de Gianni Amelio

Com Kim Rossi Stuart, Andrea Rossi e Charlotte Rampling

Alguns filmes de deficientes têm um problema que me incomoda bastante – sempre o enfermo principal é mais esperto, engraçadinho ou inteligente que os outros a sua volta. Foi o caso da Sigourney Weaver em Um Certo Olhar e é o caso de Andrea Rossi nesse As Chaves de Casa. Esse detalhe faz o filme perder um pouco da humanidade que poderia ter, uma vez que nos emocionamos mais com os coadjuvantes do que com o próprio protagonista. Esse longa italiano foi elogiado por conta de sua humanidade, mas eu não vi nada de muito novo que já não tenha sido mostrado antes. Na realidade, As Chaves de Casa é um retrato meio que didático de pessoas com deficiência, limitando-se apenas a narrar as dificuldades de um tratamento para pessoas com essse tipo de dificuldade. Contudo, é Kim Rossi Stuart e Charlotte Rampling que validam a experiência, ambos impecáveis em seus papéis, fazendo aquilo que o roteiro não conseguiu fazer com muito êxito – tocar o espectador.

FILME: 7.0

A Força da Amizade

Direção: Christopher N. Rowley

Elenco: Jessica Lange, Kathy Bates, Joan Allen, Christine Baranski, Tom Skerritt, Tom Wopat, Laura Park

Bonneville, EUA, 2008, Drama, 92 minutos, Livre.

Sinopse: Quando a vida de Arvilla (Jessica Lange) vira do avesso ela decide chamar suas duas melhores amigas, Margene (Kathy Bates) e Carol (Joan Allen), para viajar pela estrada a bordo de seu Bonneville conversível. A dupla aceita o convite e, durante a viagem, elas conhcem paisagens deslumbrantes, aventuras inesperadas e o simpático caminhoneiro Emmett (Tom Skerritt), que logo se torna um pretendente.

Realizado de forma sem personalidade, A Força da Amizade é um longa que não funciona nem como um clichê do gênero – tem visual pobre e atuações desperdiçadas.”

Praticamente ninguém viu A Força da Amizade, retumbante fracasso nos Estados Unidos que não chegou a faturar nem 500 mil (sim, mil!) nas bilheterias. Também não é pra menos, o longa de estréia do diretor Christopher N. Rowley é um amontoado de clichês e situações incrivelmente repetitivas, que nunca conseguem sequer emocionar com seu drama enfadonho. Se o tema já é algo saturado (um road movie onde os personagens aprendem mais sobre a vida e sobre si mesmos), poderíamos ao menos assistir a um produto agradável dentro de certas limitações; mas não é o que acontece aqui. É fato que esse gênero é complicado por conta de suas constantes releituras, entretanto, ainda temos bons exemplares dele – como o maravilhoso Transamérica, por exemplo. A Força da Amizade não faz a mínima questão de ter um pingo de originalidade, e isso prejudica totalmente o seu resultado.

Se já é difícil compreender o porquê de tamanha bobagem descartável ter sido feita, mais difícil ainda é entender como nomes tão talentosos foram parar nesse projeto. Jessica Lange (com um rosto estranhamente desfigurado por causa de cirurgias plásticas) tem o ingrato papel da protagonista que acaba de perder o marido. Com as habituais cenas previstas para a personagem, Lange faz o que pode, mas não vemos qualquer profundidade ou uma emoção mais concreta em sua aparição. É nula a sua presença, assim como a neutralidade existente em Kathy Bates e Joan Allen, desperdiçadas durante todo o longa. Ainda podemos ver uma pequena participação de Christine Baranski, que recentemente divertiu em Mamma Mia! e de Tom Skerritt, o patriarca do seriado Brothers & Sisters.

Tomando um passo lento (os 92 minutos de duração aparentam muito mais), A Força da Amizade tem algumas boas passagens, especialmente aquelas em que estamos diantes das belas paisagens naturais da viagem e quando o roteiro exalta a amizade entre as personagens, embaladas por canções adequadas. Todavia, é muito pouco. Incrivelmente pouco. Falta personalidade e, principalmente, força.

FILME: 5.0

2

O Sonho de Cassandra

Direção: Woody Allen

Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Tom Wilkinson, Sally Hawkins, Hayley Atwell

Cassandra’s Dream, Inglaterra, 2007, Drama, 95 minutos.

Sinopse:Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) são irmãos que decidem comprar o barco “Cassandra’s Dream”, apesar dos problemas financeiros que ambos atravessam. Terry trabalha em uma oficina, mas é viciado no jogo e sempre está às voltas com novas dívidas. Já Ian trabalha no restaurante do pai (John Benfield), mas sonha em largar o negócio para alçar vôos mais altos. Ambos moram com os pais, com a família sendo auxiliada financeiramente pelo tio Howard (Tom Wilkinson). Um dia Howard aparece para uma visita, o que anima Ian e Terry. Eles pretendem pedir dinheiro ao tio, para que possam realizar os sonhos que têm para suas vidas. Howard aceita ajudá-los, mas o que exige em troca muda para sempre a vida dos irmãos.

Se em Match Point a mudança de ares foi excelente para o diretor Woody Allen, aqui nesse O Sonho de Cassandra o resultado é decepcionante. Allen conduz de forma óbvia uma história previsível, que só vale ser conferida por causa de sua dupla de protagonistas.”

Desde um grande sucesso chamado Match Point, Woody Allen se modificou completamente. Deixou de lado suas habituais características e adotou um tom mais sério e trágico. Se essa nova estrutura foi um acerto imenso em Macth Point, nesse O Sonho de Cassandra não é. É de se admirar que Woody Allen tenha selecionado uma história tão óbvia como esse e nem sequer ter colocado um pingo de originalidade no roteiro. Tudo é linear do início ao fim e nem mesmo o desfecho consegue ter a surpresa e o impacto que deveriam ter. É o roteiro que faz com que O Sonho de Casssandra seja um filme aquém do esperado, enquanto diversos outros fatores do longa são bem aceitáveis.

Para protagonizar a história, foram escolhidos dois atores que andavam um pouco apagados nos últimos tempos. O primeiro é o talentoso Ewan McGregor, que ultimamente só aprece em pequenas produções e não apresenta nada de significativo desde Moulin Rouge! – Amor Em Vermelho. O segundo é o estranho Colin Farrell, um ator perdido no mundo do cinema e que até hoje não mostrou ao que veio. Ambos realizam excelentes trabalhos no longa e acabam por ser o aspecto mais positivo de todo o filme. Também citaria o sempre ótimo Tom Wilkinson, mas a sua aparição é tão limitada, que mal dá para lhe dar um crédito maior.

O compositor Philip Glass aparece com uma trilha contundente (o tema principal é maravilhoso), mas que é uma completa variação do seu trabalho anterior: Notas Sobre Um Escândalo. Woody Allen criou em O Sonho de Cassandra o típico filme “ame-o ou deixe-o”, já que a crítica se dividiu bastante. Com certeza não é um longa ruim (longe da monotonia de Melinda e Melinda e da bobagem previsível de Scoop – O Grande Furo), é apenas desnecessário, com aquela forte sensação de que “já vi isso antes”.

FILME: 6.5

3