Cinema e Argumento

Os indicados ao BAFTA

Finalmente foram divulgados os indicados ao BAFTA, um dos meus prêmios favoritos. A lista não tem maiores surpresas, a não ser o esquecimento de Batman – O Cavaleiro das Trevas (de novo?!) e o excesso de indicações para A Troca, que foi lembrado até na categoria de direção. Abaixo, breves comentários sobre a lista. Os vencedores serão divulgados dia oito de fevreriro. Para conferir os indicados, na lista completa do prêmio, clique aqui.

  1. E novamente Batman – O Cavaleiro das Trevas foi esquecido. Depois de ter sido esnobado no Globo de Ouro, o filme de Christopher Nolan só conseguiu indicações técnicas no BAFTA. Será mesmo que consegue chegar aos finalistas do Oscar?
  2. Também repetindo o efeito da sua dupla vitória no Globo de Ouro, Kate Winslet recebe dupla-indicação… Na mesma categoria! Tenho até medo do que o Oscar está reservando pra ela. Ainda fico com a opinião de que ela tem que ter apenas uma indicação, porque assim ganha o prêmio da Academia de uma vez! Com isso, abre espaço para a vitória de Meryl Streep no prêmio inglês. Ou até mesmo da Kristin Scott Thomas.
  3. Milk – A Voz da Igualdade ganha mais forças com sua indicação na categoria principal, mas Gus Van Sant não foi lembrado.
  4. Todo mundo sabe que o Dev Patel (Slumdog Millionaire) não vai ser lembrado como ator principal no Oscar, mas aqui a sua classificação na categoria foi perfeita. Afinal, ele é o protagonista.
  5. Quem também recebe indicação dupla é… Brad Pitt! Além de ser lembrado por O Curioso Caso de Benjamin Button, foi lembrado por Queime Depois de Ler.
  6. Tilda Swinton como melhor atriz coadjuvante por Queime Depois de Ler? Exagero, hein.
  7. Amy Adams se fortalece na categoria de atriz coadjuvante enquanto sua companheira Viola Davis foi esquecida. Adams está cada vez mais perto de uma indicação ao Oscar.
  8. Muita gente pode achar a indicação de Mamma Mia! para melhor filme britânico um exagero. O filme pode até não merecer, mas diante do estrondoso sucesso do filme na Inglaterra, era de se esperar essa indicação. Sem contar que o longa de Phyllida Lloyd foi indicado para trilha sonora também. Que coisa engraçada!
  9. Sério, pra quê tantas indicações para A Troca??? Direção? Montagem? Roteiro Original? Som? Era só o que me faltava ver o Clint Eastwood ser indicado ao Oscar de diretor por um trabalho tão sem personalidade dele como esse. Falando em Clint, foi esquecido – de novo – por Gran Torino
  10. Uma surpresa por der O Leitor, que conseguiu indicações para filme, atriz, roteiro adaptado, fotografia e direção.
  11. Se Batman – O Cavaleiro das Trevas foi esquecido, WALL-E também foi. Conseguiu apenas três indicações. Mas ainda acredito no filme.
  12. E provavelmente a Penélope Cruz vence dessa vez, né?
  13. Não tem jeito, Slumdog Millionaire é o favorito absoluto, enquanto O Curioso Caso de Benjamin Button deve fazer apenas nome nas festas.

Fatal

Direção: Isabel Coixet

Elenco: Ben Kingsley, Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Peter Sarsgaard, Dennis Hopper, Sonja Benett, Deborah Harry

Elegy, EUA, 2007, Dram, 107 minutos, 16 anos.

Sinopse: David Kepesh (Ben Kingsley) é um renomado professor de faculdade que se encanta por Consuela Castillo (Penélope Cruz), uma de suas alunas. Logo eles começam a namorar, apesar de David manter um relacionamento puramente sexual há mais de 20 anos com Carolyn (Patricia Clarkson). David aos poucos se apaixona por Consuela, mas sempre teme que a diferença de idade entre eles seja um empecilho.

Isabel Coixet mais uma vez acerta na melancolia da vida para compôr uma história adulta e madura.

Isabel Coixet é uma diretora de emoções, não de grandes filmes. Todas as histórias que ela conta são envolvidas por uma interessante melancolia e uma efetiva dramaticidade. Entretanto, seus filmes nunca passam de satisfatórios; não chegam a ser empolgantes ou de maior magnitude. É o caso, também, desse Fatal, longa mais maduro da diretora, que discursa sobre como o amor afeta as pessoas mais velhas e solitárias.

Na realidade, a diferença de idades entre o professor David (Ben Kigsley, ótimo) e sua aluna Consuela (Penélope Cruz, boa, mas sem inspiração) é mero pretexto para uma história de isolamento de pessoas. David é um homem que, apesar de possuir uma relação de 20 anos sem compromisso com Carolyn (Patricia Clarkson), encontra-se sempre sozinho. Consuela é linda, mas não sabe o que fazer com sua beleza, e passa o tempo inteiro indo e vindo, com uma inquietude interior muito presente. O encontro entre os dois muda bastante coisa, mas a percepção que ambos têm um do outro difere. Ela gosta dele, mas não consegue aplicar os seus sentimentos para algo mais sólido. Ele é completamente cheio de afeto por ela, mas não demonstra isso. E, em diversas vezes, acaba por perdê-la por não demonstrar o que sente.

Fatal é um longa muito adulto, cheio de análises – e restrito por conta disso. É um pouco complicado entrar no mundo do longa, que possivelmente vai funcionar mais para paladares mais sensíveis e subjetivos. Assim como toda a filmografia da diretora Coixet. A diferença é que aqui ela não se utiliza de uma tragédia para criar o fio condutor de sua história, ao contrário de seus outros filmes. Em Minha Vida Sem Mim, tinhamos a mãe que sofre de uma doença e que em breve vai morrer. Em A Vida Secreta das Palavras, um homem sofre queimaduras e forma um laço sentimental com sua enfermeira. A tragédia aparece sim em Fatal, mas só no final. E isso é um erro, já que fica um pouco fora de contexto e não emociona da maneira como deveria. O filme acaba meio que repentinamene e sem grandes emoções – diria até que em um ponto baixo da projeção.

Tudo é muito tímido, carente de originalidade ou ousadias. Contudo, a diretora nunca deixa a qualidade cair. Sempre, durante toda a história, vemos uma história muito bem narrada em Fatal. O longa certamente possui defeitos, mas a habilidade da diretora em falar sobre sentimentos mascara fatos mais incomodativos que possam chamar a atenção do espectador. Os méritos do lado positivo do filme não se devem somente a ela. Ben Kinglsey realiza um excelente trabalho. Ele, que é um ótimo ator, encontra o tom certo para seu personagem e, num balanço geral, é o ponto alto. Sua companheira Penélope Cruz já teve momentos melhores e expõe sua personagem de forma simpática – mas com aquele seu terrível sotaque que parece fazer com que ela não seja uma boa atriz. O que não é verdade. Fatal, então, é simples. Não é o melhor filme da diretora e muito menos um marco na vida de qualquer um dos envoldidos. Mas só por sua maturidade já vale a pena ser assistido.

FILME: 7.0

3

Melhores de 2008 – Figurino

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Eu aceito qualquer tipo de reclamação sobre o roteiro de Elizabeth – A Era de Ouro e até mesmo da personificação apresentada pela protagonista Cate Blanchett. O que não acho justo é o lado técnico do longa ser criticado. Assim como diversos pontos do filme, a roupagem tem seus exageros, mas é um dos pontos altos do criticado longa de Shekar Kapur. Toda a grandiosidade da realeza na época em que a rainha Elizabeth I derrotou a Incrível Armada Espanhola é minuciosamente capturada pelos soberbos figurinos. A dedicação com as roupas é visível, uma vez que tudo é perfeitamente capturado em cada detalhe. E, ao contrário do que muitos dizem, o Oscar para essa categoria foi sim bastante merecido. Vencedor do ano passado: Maria Antonieta.

costumesexSex And The City / Sem dúvida alguma é o figurino mais variado (até porque a cada cena as personagens trocam de roupa) e o mais fashion dos indicados. O que me leva a não premiar Sex And The City é o fato de que as roupagens não são usados com intuito cinematográfico. Todo mundo sabe que os dólares gastos nas roupas são só pra encantar os olhos femininos e não para encantar tecnicamente como cinema.

costumeatonementDesejo e Reparação / Não é só o badalado vestido verde que a Keira Knightley usa em Desejo e Reparação que faz com que o filme esteja nessa lista. Todas as fases históricas representadas no romance-épico dirigido por Joe Wright têm grande representação através dos figurinos. Isso também se vale para a triste jornada guerrilheira de Robbie (James McAvoy) e para a tentativa de redenção de Briony (Saoirse Ronan).

costumesavagePecados Inocentes / Pecados Inocentes pode ser cafona em diversos aspectos (principalmente na trilha sonora), mas não é no figurino. Aliás, é a parte mais interessante de todo o setor técnico. Claro que todo o glamour gira em torno da figura de Julianne Moore – que tem roupas realmente acima do esperado – mas isso não importa, Pecados Inocentes acerta em sua roupagem e é um dos melhores trabalhos do ano.

costumesweeneySweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet / Colleen Atwood é uma grande figurinista e seu trabalho no musical Sweeney Todd não poderia ser menos que fenomenal. As roupas ajudam Tim Burton a imprimir o seu habitual tom sombrio na história, traduzindo todo o mistério da suja Londres representada no roteiro. Mesmo que não seja nada muito original, cada peça encanta com sua ótima competência.

Os visitantes discordaram da escolha do Cinema e Argumento e elegeram Desejo e Reparação como o melhor na categoria. O escolhido do blog, Elizabeth – A Era de Ouro, ficou em segundo lugar. Abaixo, a preferência dos leitores na pesquisa realizada:

1. Desejo e Reparação (37%, 7 votos)

2. Elizabeth – A Era de Ouro (26%, 5 votos)

3. Sweeney Todd (26%, 5 votos)

4. Pecados Inocentes (5%, 1 voto)

5. Sex And The City (5%, 1 voto)

A Noite do Globo de Ouro

Até então Kate Winslet estava completamente sem rumo nas premiações. E continua. Quando ela subiu ao palco para receber o prêmio de melhor atriz coadjuvante por O Leitor, pensei que finalmente um objetivo tinha se firmado na campanha de Kate para o Oscar. Pensei que, a partir daquele momento, ela se consolidaria como a favorita nessa categoria. O problema é que ela venceu também na categoria de melhor atriz dramática, o que embaralha mais ainda a cabeça dos votantes da Academia. Se a indicação-dupla se repetir dia 22 de fevereiro, no anúncio dos indicados ao Oscar, Kate continua sem rumo – uma vez que é quase impossível que ela vença nas duas categorias no maior prêmio do cinema. Não acho que ela seja tão merecedora de um Oscar de atriz; não dessa vez. Foi Apenas Um Sonho é um longa bem mediano e está longe de representar um dos melhores momentos da atriz, apesar da ótima atuação. Mas devo confessar que fiquei incrivelmente feliz pela consagração – convenhamos, muito tardia – dessa estrela de quinta grandeza que alcançou um nível espetacular da sua carreira. Minha querida e favorita Meryl saiu de mãos vazias (coitada, nem teve destaque), mas só a dupla vitória de Kate já me deixou satisfeito.

A festa, no geral, foi boa por causa da ansiedade pelos prêmios. Não teve nenhum discurso muito especial – com excessão do segundo de Kate, onde ela estava visualmente muito emocionada – e tudo aconteceu conforme o planejado. Acho que depois de muitos anos errando o vencedor do Oscar, o Globo de Ouro finalmente vai acertar. Slumdog Millionaire se consagrou totalmente – deixando o pobre Curioso Caso de Benjamin Button sem um mísero prêmio – e só não vence o Oscar se der um surto mental na cabeça dos votantes. O que costuma acontecer com certa frequência. Um prêmio inutil foi o de Colin Farrel, já que eu acho muito improvável que ele chegue muito longe nessa temporada de premiações. O resto foi previsível – Ledger como coadjuvante, Mickey Rourke como ator em drama (mas precisava aparentar tão louco assim?), The Wrestler como canção, Vicky Cristina Barcelona como melhor filme comédia/musical e Slumdog Millionaire vencendo filme dramático, roteiro, trilha sonora e diretor.

Na parte da televisão, no entanto, a distribuição de prêmios foi mais previsível. 30 Rock repetiu o feito do Emmy e se consagrou nas categorias de melhor série, ator e atriz comédia/musical. Foi legal, mesmo que de novo, ver a engraçada turma do seriado recebendo esses tão merecidos prêmios. Pensei até que o Globo de Ouro ia deixar a minissérie John Adams de lado e premiar outros veteranos que estavam concorrendo, como Susan Sarandon, Judi Dench, Shirley McLaine e Kevin Spacey, mas a premiação seguiu o esquema e deu os prêmios de minissérie, atriz, ator e ator coadjuvante para a produção da HBO. A HBO, aliás, alcançou um notável número de prêmios, e alguns até mesmo questionáveis. Como o da Anna Paquin, por exemplo. Ela está ótima em True Blood, mas não era merecedora de um prêmio tão importante como esse. Acho inclusive que a Sally Field merecia mais. E coitado do Michael C. Hall, hein? Mais um ano perdendo por Dexter. E perder logo pro Gabriel Byrne, que eu acho que é ofuscado pelos coadjuvantes em In Treatment. Sem falar que ele nem foi na festa. E como faltou gente nessa festa!

A Troca

Direção: Clint Eastwood

Elenco: Angelina Jolie, John Malkovich, Amy Ryan, Jeffrey Donovan, Frank Wood, Michael Kelly, Colm Feore

Changeling, EUA, 2008, Drama, 140 minutos, 16 anos.

Sinopse: Los Angeles, março de 1928. Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe solteira, se despede de Walter (Gattlin Griffith), seu filho de 9 anos, e parte rumo ao trabalho. Ao retornar descobre que Walter desapareceu, o que faz com que inicie uma busca exaustiva. Cinco meses depois a polícia traz uma criança, dizendo ser Walter. Atordoada pela emoção da situação, além da presença de policiais e jornalistas que desejam tirar proveito da repercussão do caso, Christine aceita a criança. Porém, no íntimo, ela sabe que ele não é Walter e, com isso, pressiona as autoridades para que continuem as buscas por ele.


 

Todo cinéfilo já deve ter visto, alguma vez na vida, um filme em que uma mãe tenta provar que não está louca. Caso de alguns desastres como Os Esquecidos, A Cor de Um Crime e Protegida Por Um Anjo. Esse filme de Clint Eastwood, A Troca, utiliza esse pretexto para construir sua trama. Christine Collins (Angelina Jolie) é uma mãe que tem seu filho desaparecido. Quando a polícia anuncia que seu filho foi achado, ela alega que a criança não é o seu herdeiro de sangue. A partir daí, então, ela tenta provar de todas as maneiras que existe alguma conspiração contra ela e que a polícia lhe trouxe a criança errada.

Claro que um diretor do calibre de Clint Eastwood não cairia em armadilhas típicas desse estilo de filme. E ele não cai mesmo, A Troca é desprovido de qualquer absurdo narrativo ou de bobagens que levem o filme em direção à catástrofe. Tentando evitar erros, Clint caiu em outra armadilha – ao tentar imprimir um tom correto ao longa, perdeu-se em um tratamento preso a esquemas, onde o roteiro é correto demais. E longo também, já que – quando se aproxima do desfecho – o filme parece interminável. A história não precisava ser tão detalhada, narrando minuciosamente cada acontecimento do caso policial que está sendo contado (cansa ver tanta coisa como julgamento, prisão, manicômio e enforcamento num mesmo filme) . Ainda assim, o roteiro permanece como satisfatório em sua condução, mas com bastantes falhas de ritmo.

A estrela de A Troca, obviamente, é Angelina Jolie. Ela, que faz bastante tempo que se empenha para mostrar que não é apenas uma linda mulher e que seu Oscar por Garota Interrompida não foi uma injustiça, tem aqui sua melhor interpretação desde o prêmio da Academia. Fica visível que a sua personagem é óbvia e seu drama é previsível, mas Jolie está extremamente verossímil no papel de Christine Collins. Está bem superior ao seu acalmado trabalho do ano passado em O Preço da Coragem. A perfeita direção de arte, a ótima fotografia, a trilha sonora com jeito de clássica (mas que é repetida a exaustão) e o ótimo desempenho de Jolie conferem competência ao resultado final de A Troca. O problema é que o filme deveria ter sido trabalhado de outra maneira, não de forma tão óbvia como essa. Ao menos era de se esperar algo mais contundente de um diretor tão bom.

FILME: 6.0

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