Cinema e Argumento

Filmes em DVD

bluevelvet

Veludo Azul, de David Lynch

Com Kyle MacLachlan, Isabela Rossellini e Laura Dern

35

Mesmo que pesado, sombrio e difícil, Veludo Azul é um dos filmes mais “acessíveis” da carreira de David Lynch. Contando uma história de investigação, o longa tem uma linguagem estética muito forte, junto com as interpretações intensas em cena. Não é um filme de soluções fáceis e que deixa bem claro em seu conjunto que é dirigido para o público mais culto, disposto a interpretar o cinema de arte. O roteiro perde um pouco as rédeas quando começa  a solucionar seus mistérios, mais especificamente na segunda metade, mas mesmo assim consegue manter o interesse do espectador, justamente por causa da direção de Lynch – indicada ao Oscar.

FILME: 8.0

horsdeprix

Amar… Não Tem Preço, de Pierre Salvadori

Com Audrey Tautou, Gad Elmaleh e Marie-Christine Adam

3

A comédia não é um gênero muito presente ou muito bem sucedido na filmografia francesa. Amar… Não Tem Preço é um bom exemplar de comédia vindo do país, especialmente porque tem uma história divertida e que é encenada com muita naturalidade por seus atores, especialmente por Audrey Tautou – que está linda e radiante em cena. O diretor Pierre Salvadori procura não usar humor grotesco e molda uma simpática história de amor: fácil de acompanhar e com boas cenas durante a projeção. A narrativa pode se desgastar mais para o final e é difícil acreditar em algumas coisas, mas tudo é tão singelo que dá pra perdoar os erros facilmente.

FILME: 7.5

boleyn

A Outra, de Justin Chadwick

Com Natalie Portman, Scarlett Johansson e Eric Bana

3

A Outra tem um aspecto louvável: é um filme histórico que não fica trabalhando apenas aspectos históricos em sua narrativa, o longa prefere dramatizar a relação das irmãs Bolena com o rei da Inglaterra. Mas, depois da metade do filme, essa história começa a ficar saturada e o troca-troca entre as figuras em cena e se torna desinteressante – fazendo até com que as esforçadas Johansson e Portman fiquem chatas com suas personagens. Mas, a película de Justin Chadwick consegue manter o interesse e, ao menos, não é um daqueles intermináveis filmes históricos que são entediantes. Destaque também para a excelente trilha de Paul Cantelon.

FILME: 6.5

babymama

Uma Mãe Para Meu Bebê, de Michael McCullers

Com Tina Fey, Amy Poehler e Greg Kinnear

3

Quem pensa que só porque Tina Fey encabeça o elenco de Uma Mãe Para Meu Bebê o resultado vai ser digno das risadas provocadas por ela em 30 Rock, está enganado. O papel de Tina aqui é só emprestar todo seu charme e naturalidade para a protagonista, já que o filme é bem mediano e pouco original – e ela nem está envolvida no roteiro ou em qualquer outro departamento. Tina, portanto, é a principal razão para se assistir esse filme, que ainda tem uma boa Amy Poehler e participações de Greg Kinnear, Steve Martin e Sigourney Weaver. O resultado é digno de comédias de Sessão da Tarde, mas Tina muda os ares da produção toda vez que aparece em cena.

FILME: 6.5

personaleffects

Por Amor, de David Hollander

Com Ashton Kutcher, Michelle Pfeiffer e Kathy Bates

25

É complicado quando um ator conhecido por fazer comédias e por sua limitação resolve participar de uma história dramática. Ashton Kutcher não dá vexame, mas não tem calibr (ou seria talento?) o suficiente para o seu papel aqui. No seu lado, temos uma ineficiente Michelle Pfeiffer que tenta se esforçar no roteiro que não dá margens para maiores nuances. Por Amor é aquele típico filme sobre pessoas que precisam lidar com alguma perda causada por violência. É preciso um grande esforço para não cair em lugar comum com um material desses. O longa de David Hollander repete tudo o que existe nesse estilo de história e cria um resultado fraco, sem emoção ou inspiração. Não é uma desgraça ou mais defeituoso, mas é inexpressivo.

FILME: 6.0

sweetnovember

Doce Novembro, de Pat O’Connor

Com Keanu Reeves, Charlize Theron e Jason Isaacs

2

Filmes clichês podem funcionar. Lado a Lado, por exemplo. Mas se no filme de Chris Columbus tinhamos uma ótima Susan Sarandon e uma radiante Julia Roberts para salvar o dia, aqui em Doce Novembro não temos nada que compense o roteiro previsível. A história, que no início causa estranheza por causa da personagem sem sentido de Charlize Theron, aos poucos vai se tornando um romance não muito convincente. Para completar, coloque uma storyline de doença terminal e corações partidos e você terá o resultado ruim de Doce Novembro. Theron é boa atriz, mas simplesmente ela não combina com o inexpressivo Keanu Reeves e, no final das contas, isso também prejudica o filme. Ainda que não seja tão terrível como o nojento-de-tão-melodramático Outono em Nova York, o longa de Pat O’Connor soa clichê e vazio demais para o meu gosto.

FILME: 5.0

Últimas Trilhas Sonoras

Harry Potter and the Half-Blood Prince, por Nicholas Hooper

4

Em A Ordem da Fênix, Nicholas Hooper já havia demonstrado grande habilidade ao compôr uma trilha sonora que fugia dos típicos arranjos de John Williams. Na trilha de O Enigma do Príncipe, ele volta a demonstrar talento ao compilar um álbum muito eclético, que reúne canções de diversos estilos – desde algumas melancólicas (Harry & Hermione ou Farewell Aragog, por exemplo) até outras mais tensas e grandiosas. O álbum é mais um mérito da impecável técnica do filme de David Yates e já estou na torcida para que Hooper tenha o reconhecimento que merece nas próximas premiações.

The Other Boleyn Girl, por Paul Cantelon

4

Paul Cantelon já tinha chamado a minha atenção com o seu trabalho melancólico para a trilha de O Escafandro e a Borboleta. Com o álbum de A Outra, ele já começa a adquirir a minha confiança. É impressionante como o compositor criou uma trilha relativamente longa (são mais de 60 minutos de duração), mas que nunca cai em armadilhas ou se torna repetitiva – ainda que algumas poucas canções possuam mais ou menos a mesma sonoridade. O filme pode não ser grande coisa, mas o excelente resultado alcançado por Cantelon merece ser descoberto.

Evening, por Jan A.P. Kaczmarek

4

Jan A.P. Kaczmarek sabe criar trilhas emocionantes. Coroado com o Oscar pela trilha de Em Busca da Terra do Nunca, o compistor criou outro lindo trabalho em Ao Entardecer. Vale lembrar que o álbum une as composições originais de Kaczmarek (que são oito, ao total) e outras canções que tocam no longa. É fácil admirar os trabalhos dele ao piano, principalmente a música-tema, que possui uma linda melodia que fica perpetuando na cabeça do espectador após o filme. A trilha de Ao Entardecer é um dos pontos altos de um filme que tem bastante falhas.

Eastern Promises, por Howard Shore

4

Notável trabalho do compistor Howard Shore – que, apesar de ter uma vasta carreira, nunca chamou muito a minha atenção. Sua trilha para o bom Senhores do Crime tem um resultado muito efetivo, especialmente porque sou conquistado por trilhas que costumam utilizar violinos (um dos instrumentos que eu, um dia, ainda quero aprender a tocar). A música tema, Eastern Promises, já dá um ar de qualidade para o álbum e o resultado do conjunto só melhora a cada canção. Mesmo que tenha algumas faixas não tão interessantes, Shore acertou no estilo e trouxe uma ótima trilha.

White Oleander, por Thomas Newman

3

Thomas Newman pode surpreender e decepcionar na mesma medida. A trilha dele para Deixe-Me Viver fica na segunda opção, já que não passa de uma reciclagem cíclica de um mesmo estilo sonoro a cada faixa. Existem apenas três canções que são ligeiramente melhores que as outras: Oleander Time, Plain Demim Dress e Claire. Todas as outras possuem aquele velho estilo de Newman ao piano e não se diferem muito, o que tornam a experiência com a trilha de Deixe-Me Viver um pouco decepcionante.

World Trade Center, por Craig Armstrong

25

As Torres Gêmeas é um tiro no pé. O filme não deu certo, não emocionou e foi uma pobre homenagem aos que morreram no trágico 11 de setembro. A trilha de Craig Armstrong tem a mesma cara do filme e apresenta um resultado muito neutro. Existe uma ou outra música que se sobressaia, como Allison at the Stoplight, mas elas justamente conseguem ter efeito porque são melodias tocadas em piano, um instrumento que sempre causa uma sonoridade melancólica e emocionante quando utilizado da maneira certa. A trilha, portanto, tem certa linearidade, mas é pouco para uma história que não teve a reconstituição emocional que merecia.

Divã

Direção: José Alvarenga Jr.

Elenco: Lilia Cabral, José Mayer, Alexandra Richter, Reynaldo Gianecchini, Cauã Reymond, Eduardo Lago

Brasil, 2008, Comédia Dramática, 98 minutos, 12 anos

Sinopse: Mercedes (Lília Cabral) é uma mulher casada e com dois filhos que, aos 40 anos, tem a vida estabilizada. Um dia ela resolve, por curiosidade, procurar um analista. Aos poucos ela descobre facetas que desconhecia, tendo que contar com o marido Gustavo (José Mayer) e a amiga Mônica (Alexandra Richter) para ajudá-la.

“Ajudado por boas reflexões e uma ótima Lilia Cabral, Divã funciona em seu conjunto, ainda que seja um filme bem simples”

Não vou esconder a minha falta de interesse pelos textos da minha conterrânea Martha Medeiros. Sempre considerei seus trabalhos meio repetitivos e seu estilo de literatura não muito atraentes – exatamente porque a autora trata sempre, incansavelmente, do mesmo assunto: o mundo das mulheres. Seus textos parecem nunca variar, sem evolução. Felizmente, o diretor José Alvarenga Jr. absorveu o que existe de interessante nas reflexões de Medeiros e fez esse Divã, que pode muito bem ser considerado um bom resumo da obra da gaúcha.

Antes de se tornar cinema, a história da protagonista Mercedes (Lilia Cabral) já havia sido encenada nos teatros, com a mesma Lilia Cabral comandando o elenco. Certamente, Divã é um filme calcado em interpretações – mais especificamente na de sua protagonista – e nas discussões sentimentais que propõe. Porque, de resto, é um longa-metragem que não tem atrativo algum, nem uma direção de arte mais significativa ou uma trilha mais marcante, por exemplo.

É muito positivo constatar que temos aqui um produto que soube aproveitar de boa maneira o que tinha em mãos. Principalmente no que se refere ao roteiro e ao desempenho de Lilia Cabral. Lilia, que é uma excelente atriz e que já tinha experiência com o texto por causa da peça, encarna a protagonista com notável naturalidade, empregando verossimilhança para a personalidade da personagem e, acima de tudo, conquista a simpatia do espectador com muita facilidade por causa de sua vitalidade cômica e dramática.

O roteiro é outro aspecto com bom balanceamento, especialmente no que se refere à distribuição de comédia e drama durante a película. Nunca nenhum gênero se sobrepõe ao outro e por isso temos uma história agradável, que em momento algum fica reflexiva ou superficial demais. Mas, quando se encaminha para os momentos finais, começa uma repetição de fatos e a narrativa vai se desgastanto, criando até mesmo algumas passagens dispensáveis, como a storyline envolvendo o personagem de Cauã Reymond.

Tal falta de carga de qualidade nos últimos momentos prejudica a percepção que Divã vai deixar, porque o filme acaba num momento meio baixo, ao contrário da positividade que exerceu durante boa parte da produção. O trabalho de José Alvarenga Jr. é simpático – ainda que carente de um formato mais cinematográfico e profundo – e vai agradar, justamente pela sua simplicidade e humildade.

FILME: 7.5

3


Dez Canções da Década

thewrestler

Toda vez que Bruce Springsteen inventa de se inserir no cinema, o resultado é memorável. O cantor já havia obtido um resultado impecável com Streets of Philadelphia e em O Lutador alcança outra vez um nível maravilhoso. O que mais importa na canção tema do filme de Darren Aronofsky é que ela sintetiza perfeitamente o personagem de Mickey Rourke e toda a jornada dele durante a projeção. Com uma linda melodia e uma letra excepcional, The Wrestler é um marco das músicas cinematográficas contemporâneas.

comewhatmay

Calcado em músicas de amor, Moulin Rouge! – Amor em Vermelho alcança o seu melhor resultado musical quando apresenta a inesquecível Come What May. Interpretada apaixonadamente por Nicole Kidman e Ewan McGregor – ambos em uma química cintilante – a música além de resumir a marcante paixão dos personagens, consegue empolgar e transmitir todo o estilo autoral do inovador musical de Baz Luhrmann. Como eu já disse por aqui, gostando ou não, nunca poderá ser dito que algo parecido com Moulin Rouge! já foi feito.

inconvenient

Provavelmente uma das melhores canções que o Oscar já premiou, I Need to Wake Up cativa com o seu ritmo e possui uma melodia fora do comum para uma letra desse gênero – que fala sobre mudanças e a necessidade de abrir os olhos para o que está acontecendo na volta. Mas, o que mais encanta é que a canção está presente em um documentário, tipo de filme que normalmente não possui canções maravilhosas como essa. A voz de Melissa Etheridge entoando a música foi uma grata surpresa.

brokeback

Não faço parte do grupo que se comove com o romance de Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger), mas não consigo ficar indiferente com a bela canção A Love That Will Never Grow Old. A melancolia da melodia é algo impressionante e a letra consegue ser ainda mais emocionante, conferindo um resultado notável para a música. Pena que não tenha maior presença no longa, que certamente ficaria mais triste com a presença dela.

trabelinthru

Assim como In the Deep, era uma canção que merecia mil vezes mais o Oscar no ano em que It’s Hard Out Here for a Pimp ganhou a estatueta. Dolly Parton é quem dá voz para Travelin’ Thru canção que situa bem os sentimentos dos personagens em cena e que, de certa forma, “narra” a jornada de Bree Osbourne (Felicity Huffman). Singela e cativante, a música conquista pela sua simplicidade e encerra Transamérica de forma digna e com uma sensação muito especial de que sempre existirá esperança para quem espera dias melhores.

fallingslowly

Outra canção que embala uma história de amor. Falling Slowly venceu o Oscar de melhor canção original e encantou muita gente, especialmente por causa da perfeita química de sua dupla. Glen Hansard e Marketa Irglová, além de serem perfeitos cinematograficamente, conseguem ainda ter o mesmo efeito em suas canções, que são sinceras e emocionantes. Falling Slowly se destaca por ser a principal canção dos dois, que chega a ser tocada, inclusive, duas vezes durante o longa de John Carney.

jaiho

Não poderia faltar nessa lista uma canção da inovadora trilha sonora de Quem Quer Ser Um Milionário? Selecionei a mais cativante do álbum e também a que mais fez sucesso – ganhando até uma versão na voz das péssimas Pussycat Dolls. Jai Ho finaliza o longa de Danny Boyle com muita empolgação e, certamente, é uma canção que perpetua na cabeça após o filme. Não querendo desmerecer as outras faixas da trilha, mas essa é, disparada, a melhor.

guaranteed

Outro caso de filme em que as canções, de certa forma, narram toda a trajetória e os ideais de um determinado personagem na sua respectiva jornada. O filme dirigido pelo ator Sean Penn tem uma memorável trilha de Eddie Vedder e cada canção tem um significado muito especial para o longa. Mas, na minha opinião, é a bela Guaranteed que se destaca na coletânea, exatamente por ter uma melodia simples, que transmite com muita humildade o clima do longa e a mensagem que ele quer passar.

mayitbe

May It Be encontrou a tradução perfeita de sua magia na voz de Enya. A escolha da cantora não poderia ser mais acertada, pois toda a magia que existe na trilogia de O Senhor dos Anéis está expressa nessa linda canção. Presente no primeiro volume da trilogia, A Sociedade do Anel, é a música mais especial de toda a saga, até mais que Into the West, que levou o Oscar de canção original, enquanto May It Be ficou de mãos abanando. Independente disso, a música encanta em todos os aspectos.

lefestin

Decidi que não poderia faltar uma canção de desenho animado nessa lista, mas ao ter que escolher fiquei num tremendo impasse. Adoro a melancolia de When She Loved Me, a animação de Accidentally in Love e a singularidade de Down to Earth. Mas, Le Festin ganha das outras por possuir uma letra muito mais bonita e uma melodia que nos remete completamente ao longa de Brad Bird. Cantada pela Camille em francês, Le Festin também representa como a Pixar evoluiu nesse setor.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Direção: David Yates

Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Michael Gambon, Jim Broadbent, Alan Rickman, Tom Felton, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Robbie Coltrane, Timothy Spall, Julie Walters

Harry Potter and the Half-Blood Prince, EUA/Inglaterra, 2009, Aventura, 153 minutos, 12 anos

Sinopse: Lorde Voldemort (Ralph Fiennes) é uma ameaça real, tanto para o mundo dos bruxos quanto o dos trouxas. Harry Potter (Daniel Radcliffe) suspeita que o perigo esteja dentro da Escola de Artes e Bruxaria de Hogwarts, mas Alvo Dumbledore (Michael Gambon) está mais preocupado em prepará-lo para o confronto final com o Lorde das Trevas. Dumbledore convida seu colega Horácio Slughorn (Jim Broadbent) para ser o novo professor de Poções, já que Severo Snape (Alan Rickman) enfim alcançou o sonho de ministrar as aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas. Paralelamente Harry começa a ter um interesse cada vez maior por Gina Weasley (Bonnie Wright), irmã de seu melhor amigo Rony (Rupert Grint), que também é alvo de interesse de Dino Thomas (Alfie Enoch).

Lembro até hoje quando entrei em contato pela primeira vez com Harry Potter. Ganhei o livro A Pedra Filosofal da minha avó. Deixei o livro mofando durante meses na estante por falta de interesse, até o dia em que eu resolvi dar uma chance a ele. Amor à primeira vista: me envolvi intensamente com a história e fiquei até os 16 anos de idade lendo os livros da série conforme eles eram escritos. Também tive o prazer de poder acompanhar a saga do bruxo nas telas de cinema desde o princípio – já que também lembro da minha sessão de A Pedra Filosofal. Se antes eu só me importava com a fidelidade na obra de cinema, com o tempo aprendi a entender que, para o filme funcionar de verdade, precisa ir além disso – e, muitas vezes, precisa até mesmo deixar essa questão em segundo plano.

Evoluindo na sua qualidade até o quarto volume da série, a saga de Harry Potter deu uma ligeira caída no quinto volume e mais um pouco nesse sexto – que, apesar de bem-sucedido em milhares de aspectos, deve demais em um fator fundamental: o roteiro. O Enigma do Príncipe já causa impacto estético desde a sua primeira cena. Eu sei que é extremamente chato ficar falando que a série ficou mais “sombria” e “adulta”, mas é impossível falar desse longa sem mencionar esses adjetivos. Pesado e com um tom que difere em grande parte dos outros, a película de David Yates é a mais cinematográfica de todas, especialmente porque parece um produto dirigido mais para os cinéfilos do que para os fãs da série.

O Enigma do Príncipe impressiona em sua técnica: a ótima trilha de Nicholas Hooper – que já havia demonstrado um trabalho promissor em A Ordem da Fênix – abandona os tradicionais arranjos das melodias de John Williams (vale lembrar que ignoro completamente o péssimo trabalho de Patrick Doyle em O Cálice de Fogo) para criar um estilo muito autoral, digno da grandiosidade técnica que o filme demonstra. A fotografia, entretanto, é o que possivelmente mais chama a atenção. São sempre tons escuros e melancólios, tranformando aquele mundo antes mágico e colorido de A Pedra Filosofal em algo tétrico, difícil. Efeitos, então, nem se falam – o cinema se supera cada vez mais nesse quesito e aqui não é diferente. A direção de arte é outro setor impecável.

Os três atores principais estão em um momento gratificante, onde parecem mais à vontade do que nunca, seguros de suas habilidades para construir seus personagens. Mas não são só eles, já que o elenco de suporte dessa vez não está tão mal aproveitado, com ótimos atores como Michael Gambon, Jim Broadbent e Alan Rickman em aparições dignas. E até mesmo aqueles que normalmente mal aparecem, como o jovem Tom Felton e seu misterioso Draco Malfoy. Outros astros como Helena Bonham Carter, Maggie Smith, Julie Walters continuam com suas mínimas aparições que não têm maiores chances.

Mas se Harry Potter e o Enigma do Príncipe é um filme tão perfeito tecnicamente, o que faz com que ele simplesmente não cative como outros volumes da saga? Bom, o roteiro é o único porém do resultado. O sexto livro de J.K. Rowling é, sem dúvida alguma, um dos mais divertidos em todos os aspectos. Infelizmente, o roteiro de Steve Kloves selecionou muito pouco do que existia na obra literária. Ficou resumido demais. Mas se A Ordem da Fênix era resumido demais e soava um filme ligeiro, esse consegue o feito de ser resumido demais e longo demais. É visível que a história não sustenta a duração de aproximadamente 150 minutos e o roteiro termina por ser um exercício sem inspiração de uma excelente história que poderia render bem mais.

Contrariando a unânimidade que permeia esse filme, achei o resultado muito positivo e muito negativo ao mesmo tempo. Temos aqui uma imensa evolução técnica, que aproxima o filme do extremo realismo e do palpável, conseguindo o resultado de ser cinema de verdadeira qualidade. Mas também temos um roteiro deficiente, que não traz a empolgação necessária tão necessária para a série e que é carente de ação ou cenas memoráveis. Podemos dizer, então, que O Enigma do Príncipe é sim o volume mais competente da história do bruxo quando nos referimos ao lado técnico. Pena que o resultado de sucesso tenha ficado na metade do caminho com o roteiro que não ajuda muito.

FILME: 7.5

3