Cinema e Argumento

Opinião – Ator x Personagem

No último fim-de-semana, estava discutindo cinema com o Robson, do Portal Cine, e fomos parar num questionamento muito interessante: até que ponto um personagem pode influenciar nossa percepção sobre uma atuação? O assunto surgiu quando questionei o merecimento do Oscar de Penélope Cruz. Mencionei que, para mim, a grande interpretação de Penélope está em Volver e que em Vicky Cristina Barcelona ela foi mais impulsionada por um maravilhoso personagem do que pela interpretação em si. Mas, veja bem, de forma alguma estou dizendo que ela não teve boa interpretação. O que alego é que Maria Elena é muito mais interessante do que Penélope Cruz.

Sim, partilho da visão de que personagem e ator podem andar separados. Uma interpretação pode ser maravilhosa e o personagem ser terrível. Assim como a interpretação pode ser negativa e o personagem maravilhoso. Outra atriz que surgiu no contexto do bate-papo foi Viola Davis. Arrasadora em Dúvida, podemos observar que o impacto de sua aparição no longa de John Patrick Shanely se deve mais ao brilhantismo da atriz do que ao perfil da personagem – até porque a sra. Miller tem pouco tempo em cena para ganhar uma maior abordagem. Já partindo para uma situação mais radical, podemos citar Sally Hawkins em Simplesmente Feliz. Personagem pavorosa ofuscando completamente uma boa atuação.

Em outras situações, podemos ter grandes atuações e personagens atuando juntos. E aí podemos citar vários exemplos: Meryl Streep em O Diabo Veste Prada, Heath Ledger em Batman – O Cavaleiro das Trevas, Julianne Moore em As Horas e Javier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez, por exemplo. É fácil encontrar fusões assim. Mas, agora, será mesmo que atuações e personagens podem influenciar uns aos outros? Será que um personagem independe de um ator ou vice-e-versa para conseguir êxito? Eu acho que sim, completamente.  E você?

O que esperar de Nine?

Eu adoro filmes com grandes nomes do elenco. Sou aquele tipo de cinéfilo que é fanático por interpretações – tanto, que nas premiações essas são, disparadas, as minhas categorias favoritas. Nine, portanto, teria que me fazer salivar (também por ser um musical). Mas não faz. Aprendi a não confiar em filmes com grandes nomes. A Grande Ilusão e Bobby foram algumas decepções envolvendo grandes atores.

Contudo, o que não me atrai em Nine é o nome do diretor Rob Marshall no comando. Ele, que esteve dirigindo o musical mais superestimado da década (sim, Chicago, pra mim, é nada mais que apenas aceitável), é um diretor completamente irregular. Chicago é um teatro com música que até funciona, mas parece não ter personalidade. Depois ele pisou na bola com Memórias de Uma Gueixa, um filme esteticamente lindo mas que é totalmente perdido no roteiro e na direção.

Agora, ele quer retomar sua era de ouro com Nine. E cada vez mais me convenço que Marshall parece estar vindo com um Chicago 2. A cada imagem e a cada vídeo fico mais convencido disso. Esse trecho do filme que posto aqui só me cativou por uma razão: Marion Cotillard. Ela parece estar mostrando de forma definitiva que não é só Piaf. Ela tem sim muito talento. Portanto, não espero um grande filme de Nine. Ele até pode ser um dos maiores espetáculos do ano sim e eu posso estar redondamente enganado. Mas, até agora, não tenho motivos para sentir expectativas.

2012

Direção: Roland Emmerich

Elenco: John Cusack, Amanda Peet, Danny Glover, Chiwetel Ejiofor, Woody Harrelson, Thandie Newton, Oliver Platt

EUA, 2009, Aventura, 150 minutos, 12 anos

Sinopse: Em 2008, o presidente americano (Danny Glover) convoca uma reunião de emergência com as principais potências para conversar sobre um grande perigo para a humanidade. Os anos passam e, com a proximidade de 2012, as autoridades decidem que não é mais possível conter o perigo eminente que pode significar o fim do mundo. Com isso, colocam em prática o plano iniciado anos atrás, sob o comando dos cientistas Adrian Helmsley (Chiwetel Ejiofor) e Carl Anheuser (Oliver Platt). Enquanto isso, o escritor Jackson Curtis (John Cusack) leva sua vida de marido separado, pai de dois filhos, como motorista de limusine e tendo que aturar as reclamações da ex esposa (Amanda Peet). Ao levar os filhos para passear, ele descobre os primeiros sintomas da destruição do planeta.

Décadas vão se passar e Roland Emmerich ainda vai estar fazendo o mesmo tipo de filme. Ele e Michael Bay são profissionais que não possuem conteúdo algum, o que fica bem evidente nos filmes que produzem – são longas sempre com aquele efeito pipoca, para se assistir com o cérebro desligado. Mas se Bay comete o pecado de sempre incutir situações de mal gosto e humor tosco, Roland Emmerich não o faz. Ao menos não fazia até esse 2012, que é a grande piada do ano.

A profecia maia de que, em determinado momento do ano de 2012, o mundo supostamente chegará ao fim é mero pretexto para que Emmerich possa, novamente, gastar milhões de dólares explodindo o mundo. Não existe fundamento teórico em 2012, é tudo aleatório. Não era de se esperar algo diferente de um diretor que fez O Dia Depois de Amanhã (esse sim, um verdadeiro guilty pleasure), mas bem que ele podia não ter sido tão ganancioso. Encontramos aqui um filme que quer se mostrar movimentado a cada minuto, que quer mostrar que é uma produção monumental. Para isso, traz muitas reviravoltas e muita ação.

O roteiro não poderia ser mais desastroso. São longos 150 minutos de puro clichê (literalmente, é um atrás do outro e dos mais insuportáveis que você possa imaginar), onde fica evidente que cada acontecimento da história é motivo pra explosão, pra correria. Falando nisso, é preciso muita boa vontade pra acreditar nas cenas de ação, que desafiam o limite de aceitação do espectador em relação ao absurdo. Unimos a isso personagens irrelevantes, explicações didáticas aleatórias, abordagens dramáticas lastimáveis e desenvolvimento mal construído.

2012 é um dos fortes candidatos a pior filme do ano. Chega a causar risadas involuntárias de tão sem noção que é. Aspectos consideráveis existem, como os efeitos especiais dignos de Oscar (eles, realmente, são de deixar o espectador de boca aberta) e a parte sonora que é impecável. Mas é uma pena ver que Roland Emmerich – antes um realizador de filmes-pipoca compentente – tenha se encaminhado para a mediocridade definitiva. E de forma tão desastrosa…

FILME: 3.5


A trilha sonora de… Duplicidade

O ano pode até estar sendo fraquíssimo para o cinema (só eu tenho essa impressão?), mas é incrível como temos tantas trilhas sonoras marcantes em 2009. Vamos a alguns exemplos. Alexandre Desplat vem com nada menos que quatro excelentes trilhas (O Curioso Caso de Benjamin Button, Chéri, Coco Antes de Chanel e Julie & Julia). Nicholas Hooper se superou em Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Michael Giacchino arrasou em Up – Altas Aventuras. A.R. Rahman – apesar da trilha que não me convence muito – trouxe uma sonoridade extremamente dançante para Quem Quer Ser Um Milionário? Nico Muhly se mostrou uma das revelações do ano por seu trabalho em O Leitor. E por aí vai…

Como se não bastasse todos esses trabalhos maravilhosos, ainda temos o mestre James Newton Howard em dois momentos inspirados. O primeiro é em Um Ato de Liberdade (que lhe deu uma indicação ao Oscar) e o segundo é nesse álbum de Duplicidade. A trilha que Howard produziu para o longa-metragem de Tony Gilroy é uma das mais refrescantes do ano, com sonoridades muito empolgantes, condizendo com todo o clima descontraído da história entre Julia Roberts e Clive Owen. O filme pode até ser detestado por alguns, mas é inegável que a parte sonora é um dos pontos altos do filme. Quem ainda não conhece, procure conhecer!

1. War
2. Following Claire
3. Security Meeting
4. Split To Rome
5. Tully’s Letter
6. The Ghost
7. Rome Hotel
8. Back To The Unit
9. Split To London
10. The Frame Up
11. Split To Miami
12. Miami Hotel
13. Share My Fire
14. Bench Mark
15. Safe House
16. Split To Cleveland
17. The Formula
18. San Diego Airport
19. A Cream Or a Lotion?
20. Airport Love
21. The Real Setup
22. Played
23. Duplicitá a Due
24. Being Bad

http://rapidshare.com/files/260268835/James_Newton_Howard-Duplicity-OST_CD-2009-OBC.rar

01. War
02. Following Claire
03. Security Meeting
04. Split to Rome
05. Tully’s Letter
06. The Ghost
07. Rome Hotel
08. Back to the Unit
09. Split to London
10. The Frame Up
11. Split to Miami
12. Miami Hotel
13. Share My Fire
14. Bench Mark
15. Safe House
16. Split to Cleveland
17. The Formula
18. San Diego Airport
19. A Cream or a Lotion?
20. Airport Love
21. The Real Setup
22. Played
23. Duplicitá a Due
24. Being Bad (performed by Bitter:Sweet)

(500) Dias Com Ela

People don’t realize this, but loneliness is underrated.

Direção: Marc Webb

Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Clark Gregg, Geoffrey Arend, Patricia Belcher, Chloe Moretz

(500) Days of Summer, EUA, 2009, Romance/Drama/Comédia, 95 minutos, 12 anos

Sinopse: Quando Tom (Joseph Gordon-Levitt), azarado escritor de cartões comemorativos e romântico sem esperanças, fica sem rumo depois de levar um fora da namorada Summer (Zooey Deschanel), ele volta a vários momentos dos 500 dias que passaram juntos para tentar entender o que deu errado. Suas reflexões acabam levando-o a redescobrir suas verdadeiras paixões na vida.

(500) Dias Com Ela é um filme muito doloroso. Sim, ele narra um romance cheio de momentos ternos. Mas, o faz de forma bem diferente. Todos as situações românticas que acompanhamos em cena são memórias e nós acompanhamos tudo sabendo o destino dos personagens: eles não vão ficar juntos. Portanto, entristece demais ver uma história de amor tão sincera como essa e saber que, no final, o relacionamento acaba. É aí que está o grande diferencial dessa grata surpresa, que é uma das melhores produções do ano e, possivelmente, a mais adorável.

O roteiro trata o romance com uma sinceridade que há muito não se via no cinema. É tudo bem realista, aproximando-se demais da vida do espectador – tanto, que nós créditos iniciais, o filme diz que qualquer semelhança com a vida de quem está assistindo ao longa não é mera coincidência. Por essa razão, (500) Dias Com Ela funciona sentimentalmente. É uma história que, em vários momentos, reflete de forma impecável muitas das situações de quem já viveu um romance. E, por essa razão, também, traz uma melancolia contundente.

A direção de Marc Webb não ficou atrás da qualidade do roteiro. Ele realizou uma direção muito dinâmica, cheia de momentos originais e tomadas que dialogam tanto de forma subjetiva quando de forma objetiva com o espectador – que se sente íntimo dos personagens. Méritos também devem ser dados aos protagonistas. Joseph Gordon Levitt (totalmente apropriado) e Zooey Deschanel (encantadora, depois de parecer estar sob o efeito de drogas em Fim dos Tempos) cumprem, com honrarias, a missão de criar empatia.

Um erro do filme é querer criar um final, de certa forma, feliz. Não condiz com toda atmosfera que estava sendo criada até então. Portanto, (500) Dias Com Ela termina de uma forma previsível e que poderia ter sido evitada. Também comete o erro de, em determinado momento, vitimar um personagem e culpar o outro, e de criar situações tão comuns que encontramos em historinhas de amor. O que diferencia esse filme dos outros é que ele tem um formato refrescante, um ótimo roteiro, excelentes protagonistas e um sentimentalismo extremamente real.

FILME: 8.5

4

NA PREMIAÇÃO DO CINEMA E ARGUMENTO: