Cinema e Argumento

Filmes em DVD

O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich (revisto)

Com Bette Davis, Joan Crawford e Victor Buono

De todos os personagens maquiavélicos que a grande Bette Davis interpretou no cinema, o desse filme deve ser o mais marcante. Davis alcança mais um resultado maravilhoso como a cruel Baby Jane do título. É aquele tipo de personagem que, de tão bem interpretado, cativa o espectador. Mesmo que Baby Jane faça inúmeras maldades, é por ela que torcemos e não pela pobre Blanche – Joan Crawford, que faz o que está ao seu alcance com o papel ingrato e sem brilho. O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, na realidade, nem chega a ser um grande filme, mas tem uma interpretação tão poderosa de Davis, que podemos defini-lo dessa maneira. Sem falar, claro, que tem duas cenas memoráveis: a que Davis canta I’ve Written a Letter to Daddy e também aquela em que serve um rato morto de almoço para sua irmã.

FILME: 8.5

Kramer vs. Kramer, de Robert Benton (revisto)

Com Dustin Hoffman, Meryl Streep e Jane Alexander

Não sei se Kramer vs. Kramer chega a ser um grande filme, mas os atores, facilmente, deixam um pouco dessa sensação. Dustin Hoffman e Meryl Streep – ambos excepcionais e vencedores do Oscar por esse filme – são a grande força da história. Sem falar, claro, do garotinho que faz o filho deles. Kramer vs. Kramer é uma película sobre a importância de cuidar de um filho, sobre companheirismo e, acima de tudo, sobre amor (a última cena de Streep, contundente em suas emoções, é um exemplo disso). Aí que reside a força do texto.

FILME: 8.0

Adam, de Max Mayer

Com Hugh Dancy, Rose Byrne e Amy Irving

Histórias românticas de pessoas muito distintas são sempre interessantes de se ver. Adam, um adorável filme independente, trata sobre isso. Rose Byrne faz o papel de uma mulher comum que, aos poucos, se vê apaixonada pelo vizinho que tem síndrome de Asperger. O jovem tem problemas em se socializar, mas conquista a garota de imediato. O filme, então, vai narrar os sinceros momentos entre os dois – desde o momento que se apaixonam até os difíceis momentos dessa relação. Adam pode parecer simplista, mas é conduzido por uma ótima interpretação de Hugh Dancy e por uma Rose Byrne mais eficiente do que o normal.

FILME: 8.0

Por Uma Vida Melhor, de Sam Mendes

Com John Krasinski, Maya Rudolph e Maggie Gyllenhaal

Não sei se Sam Mendes continua sendo aquele grande diretor de Beleza Americana e Estrada Para Perdição, mas nos últimos tempos ele tem se mostrado um pouco aquém das expectativas. Foi assim com o mediano Foi Apenas Um Sonho e agora com esse apenas simpático Por Uma Vida Melhor. No entanto, esse último tem uma sinceridade maior que a do filme estrelado pelo casal de Titanic. Isso se deve ao fato de que alma independente da história torna tudo mais verdadeiro. É um road movie regular, com todas aquelas estruturas que estamos acostumados a ver nesse gênero, mas que consegue um resultado positivo – ainda que pouco pelo talento de Mendes. Destaque para a divertida participação de Maggie Gyllenhaal.

FILME: 7.0

Salve Geral, de Sérgio Rezende

Com Andrea Beltrão, Eucir de Souza e Kiko Mascarenhas

Não sei o que passa na cabeça de alguém para realizar um filme desses. Salve Geral é um longa que nos deixa com vergonha da nossa nacionalidade. Principalmente, quando nos lembramos que foi esse vergonho filme que o nosso país mandou para o Oscar. Nem mesmo a sempre ótima Andrea Beltrão consegue sequer disfarçar a vergonha que é a direção e o roteiro. Tudo é um exagero só – a trilha sonora, então, nem se fala – numa trama absurdamente mal conduzida. Se não fosse a protagonista, teríamos aqui um longa terrível por completo e que não se salvaria em nenhum aspecto.

FILME: 3.0

Ilha do Medo

Direção: Martin Scorsese

Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams, Max Von Sydow, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jack Earle Haley

Shutter Island, EUA, 2009, Suspense, 138 minutos, 16 anos

Sinopse: Em 1954, uma dupla de agentes federais (Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo) investiga o desaparecimento de uma assassina (Emily Mortimer) que estava hospitalizada. Ao viajarem para Shutter Island – ilha localizada em Massachusetts – para cuidar do caso, eles enfrentam desde uma rebelião de presos a um furacão, ficando presos no local e emaranhados numa rede de intrigas.

Se eu assistisse Ilha do Medo sem saber quem estava por trás das câmeras e, ao final da sessão, me perguntassem quem é o diretor do filme, eu certamente faria uma lista de vários nomes. No entanto, nunca colocaria o nome de Martin Scorsese. Ao menos para mim, esse mais novo longa-metragem do diretor é diferente de tudo que ele já realizou. Aqui ele abondona o conhecido estilo policial e aposta em um suspense psicológico. As mudanças de Scorsese trazem resultados posivitos e negativos – mas, acima de tudo, uma experiência diferente da filmografia dele.

Fica bem claro, em todos os aspetos, que Ilha do Medo tem a intenção de abranger um público maior do que o habitual para o diretor. A história é de suspense, o trailer apontava um filme com tom comercial e o pôster apostava em uma atmosfera nebulosa e sombria. Todo o marketing do filme apelava para uma maior aceitação do público (e vale lembrar que aqui no Brasil recebeu um título ainda mais sedutor para as grandes massas). O resultado foi certeiro: a maior bilheteria de toda a carreira de Scorsese.

Ilha do Medo tem um elenco que é difícil de rivalizar. Leonardo DiCaprio é quem encabeça a lista de atores. Ele está se tornando cada vez melhor e nesse filme ele alcança mais um ótimo nível – e como prova podemos citar a cena em que é revelada a verdadeira história de seu personagem com sua mulher e filhos, que é uma sequência devastadora. Enquanto Mark Ruffalo aparece pouco interessante, outros atores possuem participaçoes muito dignas – sir Ben Kingsley e Patricia Clarkson, por exemplo, estão excelentes em suas respectivas representações.

Mas se o elenco funciona e a parte técnica é ótima (a reconstituição de época é impecável), o roteiro já não flui tão bem assim. Sempre achei que Scorsese realiza bons filmes (mesmo que eu o considere superestimado), mas são filmes que nunca alcançam um resultado 100% no roteiro. Ilha do Medo começa a engrenar só depois da metade e ainda tem o defeito de possuir um final que dá para deduzir nos momentos derradeiros. Claro que não dá para tirar os méritos da resolução, já que esses filmes sobre pessoas que tentam provar que não estão loucas sempre são bombas (lembram de Os Esquecidos, com a Julianne Moore, que era até um bom filme mas tinha um desfecho deplorável?). Mas Ilha do Medo não se conclui de forma tão satisfatória.

Aliás, é um caminho tortuoso para o filme se desenvolver. Durante boa parte fica a impressão de que o filme não sabe onde quer chegar – a primeira hora chega a ser tediosa. O roteiro, ao mesmo tempo em que procura atingir o grande público com tons de investigação e suspense, também aposta em encenações mais artísticas que não funcionam para esses espectadores. Aquelas imaginações do personagem de DiCaprio com a esposa são lindamente dirigidas, mas infecientes para essas pessoas. São cenas que chegam, inclusive, a quebrar o ritmo que estava sendo alcançado.

Portanto, Martin Scorsese ficou no meio do caminho com Ilha do Medo. Não chegou a impressionar, mas também não abraçou o nível da decepção. É um filme que tem uma intriga bem amarrada, uma boa direção, um elenco apropriado e uma parte técnica exemplar. Mas, infelizmente, é um produto que não cativa. Mudanças fizeram bem para Scorsese, que agora mostra que sabe realizar filmes não tão voltados para o público artístio da sétima arte. Mas, por isso mesmo, ao se desviar de suas estruturas, ele não tenha sido tão bem sucedido em suas escolhas.

FILME: 7.5


Na coleção… Adeus, Lenin!

Logo quando Adeus, Lenin! tem início e a trilha do sempre fabuloso Yann Tiersen começa a tocar, já dá pra pressentir que estamos diante de um filme promissor. As imagens da infância do protagonista junto com a bela música de Tiersen já anunciam que Adeus, Lenin! é diferente. E é mesmo. Do cinema contemporâneo alemão, esse é o meu exemplar favorito e também o que mais me toca.

Por alguma razão, não foi celebrado pelo Oscar, contrariando o sucesso de bilheteria que o filme conquistou e também todo o prestígio trazido pela crítica. Uma pena. Wolfang Becker dirigiu um longa-metragem que discursa muito bem sobre família e política, sempre alcançando um equilíbrio entre essas duas temáticas. Poderia ser mais um retrato sobre o muro de Berlim, mas não é. Além de tudo isso, o humor inteligente entre em cena e a mistura fica cada vez melhor.

Para quem não sabe, a história narra a trajetória de Alex (Daniel Brühl, no papel que revelou seu talento), que vê sua mãe (Katrin Saas) ficar em coma quando o muro de Berlim cai. Quando ela acorda, depois de oito meses, Alex fica temeroso pela saúde da mãe e faz de tudo para esconder a nova situação política do país – que agora é o oposto do pensamento político de sua mãe. É com muita criatividade e determinação emocional que ele fará de tudo para inventar uma nova nação para a sua matriarca.

Além de todos os fatores já destacados, podemos também citar as ótimas interpretações do elenco. Daniel Brühl, que posteriormente foi para o cinema norte-americano e até trabalhou com Quentin Tarantino, tem aqui o grande desempenho de sua carreira. Ele, junto com a sensível Katrin Saas, forma o grande coração de Adeus, Lenin!. É um filme diferente e original, daqueles que entram para a lista dos mais interessantes do novo cinema estrangeiro.

FILME: 9.0

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Essa é a primeira parte de uma série de posts que vou colocar aqui no blog comentando os filmes que tenho em dvd na minha coleção. A ordem dos filmes é alfabética.

Coração Louco

“Son, I’ve played sick, drunk, divorced, and on the run. Bad Blake hasn’t missed a goddamn show in his whole fucking life.”

Direção: Scott Cooper

Elenco: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, Colin Farrell, James Keane, Beth Grant, Rick Dial, Debrianna Mansini, Jack Nation

Crazy Heart, EUA, 2009, Drama, 112 minutos, 12 anos

Sinopse: Decadente cantor de country alcoólatra (Jeff Bridges) vê a chance de retomar sua carreira e melhorar sua vida quando começa a se relacionar com uma repórter (Maggie Gyllenhaal).

É praticamente impossível assistir Coração Louco e não ter O Lutador em mente. Ambos os filmes são absurdamente iguais em suas temáticas: alguém que um dia foi famoso e prestigiado, mas que hoje amarga esquecimento, problemas financeiros e conflitos familiares. Assim como o Randy “The Ram” Robinson de Mickey Rourke, o Bad Blake de Jeff Bridges também quer retomar a sua vida. E Coração Louco vai falar exclusivamente sobre isso.

Não vejo muita diferença entre esse filme de Scott Cooper com O Lutador (que, para mim, é superestimado, incluindo a atuação do protagonista). Os dois longas possuem a mesma temática e o mesmo tipo de desenvolvimento. A diferença que me salta aos olhos, no entanto, é que Jeff Bridges consegue um feito que Mickey Rourke não conseguiu: se desvencilhar de sua imagem pessoal para viver um personagem. No filme de Aronofsky, tinhamos Rourke. Em Coração Louco, temos Bad Blake e não Jeff Bridges.

Alguns podem vir me dizer que as semelhanças de Rourke com o roteiro eram imensas e que Bridges não tem nada parecido com o seu personagem. Mas não é aí que está o mérito de um bom ator? Se desvencilhar de qualquer obstáculo de um personagem? Bridges não é um dos meus atores favoritos (aliás, pouco eu sabia sobre ele antes desse filme), mas desde já fico satisfeito por completo com a habilidade que ele apresentou nesse filme.

Ele não cai no caricato, cria uma figura que foge de sua própria imagem e ainda consegue levar os filmes nas costas com bastante humanidade e simpatia. Ele convida o espectador a torcer por ele – e consegue. Agora, se teria o meu voto no Oscar é outra história. Para melhorar a situação, temos a sempre ótima e bem-vinda Maggie Gyllenhaal. Ela, sempre conhecida por fazer papéis mais ousados como Secretária, aqui representa uma mulher simples. Mas nem por isso deixa de alcançar um bom nível de atuação. Ela é o oposto perfeito do protagonista. Outro coadjuvante menor é Colin Farrell, em uma positiva aparição.

Entretanto, é uma verdadeira pena que o filme não funcione tanto como os atores. O que vemos em Coração Louco é aquele velho clichê do famoso que hoje é decadente. Uma história que todo mundo já viu e que todo mundo está cansado de ter que ver, todo santo ano, uma nova cópia desse gênero. E o filme não faz a mínima questão de querer se diferenciar. É exclusivamente por essa razão que o filme não vinga, deixando sempre a sensação de que, se não fossem os atores, teríamos aqui uma experiência que não seria nem sequer agradável.

FILME: 7.5


 

A Caixa

“There are always consequences.”

Direção: Richard Kelly

Elenco: Cameron Diaz, James Marsden, Frank Langella, Deborah Rush, Gillian Jacobs, James Rebhorn, Holmes Osborne

The Box, EUA, 2009, Suspense, 115 minutos, 14 anos

Sinopse: O que você faria se lhe entregassem uma caixa com apenas um botão e que se você o apertasse lhe deixaria milionário mas, ao mesmo tempo, tirasse a vida de alguém que você não conhece? Norma Lewis (Cameron Diaz) é uma professora e o seu marido, Arthur (James Marsden), é um engenheiro da NASA. Eles são um casal com um filho que leva uma vida normal morando no subúrbio. Tudo muda quando um misterioso homem aparece com uma proposta tentadora: a caixa. Norma e Arthur têm 24 horas para fazer a escolha.

Existe uma linha muito tênue nos filmes de Richard Kelly. Uma linha que divide a inteligência da maluquice fora de controle. Em Donnie Darko, Kelly conseguiu transitar com muita habilidade entre seus propósitos e não caiu em armadilhas. Alcançou originalidade sem partir para a confusão excessiva. Em A Caixa, no entanto, ele se perde nas próprias intenções. Na insistente tentativa de querer parecer genial, o diretor perde a mão na vontade de querer surpreender em suas resoluções.

As escolhas erradas já começam na seleção dos atores. Cameron Diaz, totalmente imprópria para o papel (ela passa o filme inteiro choramingando com uma voz irritante e com uma expressão ineficiente) comprova que esse tipo de filme não é o seu forte. Idem para James Marsden, ator raso demais para a dramaticidade que o roteiro tenta – inutilmente – passar em alguns momentos. Ainda temos o coadjuvante Frank Langella, que já se mete em uma roubada logo depois de sua merecidíssima indicação ao Oscar por Frost/Nixon.

A Caixa não é de todo ruim. A história, claro, é instigante e o filme a sustenta de forma satisfatória durante um certo tempo. O grande empecilho é a forma como resolvem tudo. O dilema dos protagonistas (apertar ou não o botão?) já é solucionado antes da metade do filme e o que assistimos depois disso é uma sucessão de enrolações que se misturam com tramas propositalmente confusas (e, como já mencionado antes, com a insistente intenção de parecerem geniais). Aos poucos, Kelly vai se afundando até sair da decepção e estacionar no péssimo. Ao que tudo indica, é um diretor que não passou de uma grande enganação.

FILME: 5.0