Cinema e Argumento

Amélia

Who wants a life imprisoned in safety?

Direção: Mira Nair

Elenco: Hilary Swank, Richard Gere, Ewan McGregor, Mia Wasikowska, Cherry Jones, Joe Anderson, Christopher Eccleston, Aaron Abrams

EUA, 2009, Drama, 111 minutos

Sinopse: Amelia Earhart (Hilary Swank) foi a primeira mulher a sobrevoar o oceano Atlântico e Pacífico pilotando um avião. Ela planejava cruzar o planeta seguindo a linha do Equador quando sua aeronave desapareceu, no final da década de 30.

Logo quando começaram as especulações para o Oscar desse ano, Hilary Swank era uma das mais cotadas para ganhar o prêmio de melhor atriz por seu desempenho em Amélia. No entanto, como já vimos muitas vezes, bastou o filme entrar em cartaz que o ibope dela simplesmente desaparecesse. A produção foi mal recebida pela crítica e nem mesmo a presença de Swank foi reconhecida por qualquer premiação. A verdade é que não é para tanto. Amélia está muito longe de ser excepcional, mas também nem chega a se aproximar da catástrofe.

Mira Nair, a diretora, criou uma biografia convencional como várias outras, mas que tem o diferencial de não ter uma duração interminável – filmes como Ray e O Aviador, por exemplo, sofrem desse terrível mal. Amélia é objetivo, mesmo que não tenha maiores desdobramentos nos conflitos emocionais da protagonista. É uma produção requintada, com boa ambientação de época e que traz uma história de revolução feminina. Nesse sentido, o roteiro realiza uma abordagem apenas aceitável e, assim como todo o filme, fica no nível do básico.

O destaque é, no final das contas, a atuação de Hilary Swank. Ela é uma boa pessoa e sabe atuar. Contudo, é superestimada: não merecia ter dois Oscars em casa. Sem falar, claro, que, constantemente, realiza algumas péssimas produções como A Colheita do Mal. Portanto, ela, de certa forma, é uma profissional questionável. Mas aqui ela tem uma boa aparição e cumpre um bom papel. O mesmo bom nível é apresentado por seus companheiros Richard Gere e Ewan McGregor (esse último só prejudicado pelo papel inconstante). Fica ao final, então, a impressão que o filme sobre a famosa aviadora tem seus momentos e que não merecia ter sido fadado ao fracasso.

FILME: 7.0


A Jovem Rainha Vitória

Direção: Jean-Marc Vallée

Elenco: Emily Blunt, Paul Bettany, Jim Broadbent, Miranda Richardson, Thomas Kretschmann, Mark Strong, Jeanette Hain, Julian Glover

The Young Victoria, Inglaterra, 2009, Drama, 105 minutos, 12 anos

Sinopse: A ascenção ao trono da rainha Vitoria (Emily Blunt), centrando-se nos atribulados primeiros anos do seu reinado e no seu lendário romance e casamento com o Príncipe Albert (Rupert Friend).

Seguindo à risca os demais filmes de época que venceram o Oscar de figurino (Elizabeth – A Era de Ouro e A Duquesa), A Jovem Rainha Vitória traz todos os atributos tão presentes em filmes desse estilo. Ou seja, a produção é impecável, mas o argumento nunca parte para a inovação. É sempre aquela linguagem narrativa que todos nós estamos muito acostumados a acompanhar. O filme de Jean-Marc Vallée aposta nessa estrutura e é prejudicado por ter aparecido depois de tantos trabalhos como esse. Filmes de época, infelizmente, enfrentam uma forte crise: não possuem mais frescor.

No entanto, não é justo desmerecer as qualidades por causa dessa saturação do gênero. A Jovem Rainha Vitória alcança boa qualidade no que se propõe: é uma produção bem cuidada, com figurinos pomposos, direção de arte impecável e uma trama palaciana suficientemente interessante para o espectador. Seja no sentido histórico ou dramático. O filme cumpre sua missão. Mas, como já mencionado, não consegue ir além disso. Parece que falta vontade de ter algum diferencial.

Foi-se o tempo em que os palácios eram dotados de intrigas magnéticas (o maravilhoso Ligações Perigosas, de Stephen Frears, é um ótimo exemplo) e A Jovem Rainha Vitória tem um grande problema no que se refere a roteiro. Mesmo que o filme segure a atenção, não consegue se destacar em nenhum momento. Fica aquela sensação: “okay, dá pra assistir” e não a de que estamos nos empolgando com a trama. O roteiro realiza uma produção básica, sem grandes momentos. E, mais uma vez, a história no cinema alcança apenas o nível do aceitável.

FILME: 6.5

NA PREMIAÇÃO 2010 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Marion… Marion…

No tempo em que Marion Cotillard concorria ao Oscar de melhor atriz por Piaf – Um Hino Ao Amor, algumas pessoas creditavam a grandiosidade da interpretação somente ao excepcional trabalho de maquiagem. Cotillard, inclusive, nem reinava nas apostas para vencer o prêmio da Academia (o grande nome, na época, era Julie Christie). A francesa deu a volta por cima, e venceu o prêmio. Hoje, ela está calando a boca de muita gente que não acreditava no seu brilhantismo.

Marion já era estupenda desde os tempos de Piaf (a maior interpretação feminina da última década), mas foi com o ótimo trabalho em Inimigos Públicos que ela começou a se firmar como uma profissional de segurança. E mesmo enquanto Nine se via sucumbir ao total fracasso, era a atriz quem saía ilesa da história – e, aliás, foi a única pessoa do elenco que teve plena unânimidade nos elogios. Eu já sou fã de carteirinha dela desde  quando ela arrasou como a cantora Edith Piaf. Hoje, a minha admiração por Marion só cresce.

Ela tem pinta de estrela, daquele tipo de atriz que sabe muito bem unir talento, beleza e boas escolhas. Marion, inclusive, lembra os bons tempos que Nicole Kidman teve na época que estava em alta com Moulin Rouge!, Os Outros e As Horas. Só espero, claro, que a francesa não siga os mesmos passos de Kidman. Nessa semana, foi divulgado um clipe dela cantando junto com Franz Ferdinand. O que, mais uma vez, comprova que a atriz está em alta. Seria ela uma das grandes estrelas da nova geração? Eu aposto que sim. Abaixo, o vídeo:

O Mensageiro

Direção: Oren Moverman

Elenco: Ben Foster, Woody Harrelson, Samantha Morton, Jena Malone, Steve Buscemi, Lisa Joyce, Eamonn Walker

The Messenger, EUA, 2009, Drama, 112 minutos, 14 anos

Sinopse: O soldado americano Will (Ben Foster) é mandado para casa, após ferir-se no Iraque. Ele tem ainda três meses de serviço e é remanejado para a divisão de notificação de falecimento de militares no front a familiares. Para enfrentar este trabalho doloroso, ele conta com um parceiro mais velho e mais experiente, o capitão Tony Stone (Woody Harrelson), com quem acaba desenvolvendo uma grande amizade. Contudo, um dia, Will quebra o código de conduta e se apaixona por uma das viúvas que encontra em serviço e a paixão o coloca em um dilema moral.

O Mensageiro tem a dádiva de ser um filme muito emocional. É um dos poucos relatos de guerra que consegue se concetrar quase que inteiramente nos efeitos psicológicos e sentimentais trazidos por uma guerrilha e não no evento em si. Nem mesmo o cultuado Guerra ao Terror conseguiu ter um coração – o filme de Kathryn Bigelow é, na verdade, algo mais racional. O Mensageiro muda esse cenário de filmes de guerra. Só não o faz de forma contundente ou muito marcante.

Não sei nem se é mérito maior do roteiro (que, por sinal, não precisava ter sido indicado ao Oscar). Numa abordagem mais detalhada, percebe-se que o impacto causado pelas cenas vem particularmente dos atores. A direção de elenco é notável, onde todos eles possuem momentos de grande excelência. Woody Harrelson alcança o grande momento de sua carreira, ao passo que a sempre ótima Samantha Morton foi injustamente preterida por todos. Mas é o protagonista Ben Foster (que já era excelente ator desde os tempos do seriado Six Feet Under) que rouba a cena em mais uma atuação impecável. São eles mais outros corriqueiros coadjuvantes conhecidos (Steve Buscemi, ótimo) ou anônimos que valem o filme.

A proposta é pra lá de interessante e tal inspiração se mantem intacta até a metade do longa. O que acontece e que chega em determinado momento que O Mensageiro começa a perder força – talvez pela repetição da narrativa que insiste em trabalhar os mesmos tipos de conflitos até o último minuto. É, portanto, um longa bem matizado mas que, infelizmente, não consegue repetir durante a projeção todos os momentos de brilhantismo que apresentou logo nos seus primeiros momentos. Mas só por Foster, Harrelson e Morton já dá para perdoar esses detalhes e entrar no clima do filme.

FILME: 7.5


Oscar 2010: tsc, tsc, tsc…

Meryl Streep: vestida e preparada para vencer seu terceiro Oscar. E, mais uma vez, ficou para outra hora…

Tudo o que o Oscar conquistou com a maravilhosa festa do ano passado foi por água abaixo na noite do último domingo. Não só a distribuição de prêmios foi insossa, como a festa em si foi uma completa decepção. Culpa dos apresentadores é que não foi, pois Alec Baldwin e Steve Martin fizeram um ótimo trabalho e apresentaram uma química muito boa. O problema foi a produção da cerimônia mesmo. Primeiro podemos citar a má escolha de apresentadores, onde poucas figuras realmente relevantes apareceram. Com isso, figuras inexplicáveis vieram ao palco – como Miley Cyrus apresentando o prêmio de canção, por exemplo.

Não foi só isso. Se Adam Shankman parecia ter acertado nos minutos iniciais com um número musical, eis que nada aconteceu. A cerimônia foi uma sucessão de momentos banais. Quando resolvia inventar, o resultado dava em bobagem. Aquele número dos dançarinos de rua na categoria de trilha sonora foi uma verdadeira vergonha – além das coregorafias não nos remeterem aos filmes em questão, a cena em si não foi nada impressionante. Na categoria de ator e atriz manteve-se o esquema de outros profissionais falando dos indicados. Dessa vez foi até mais emocionante, porque eram pessoas que tinham ligações com os nomeados. Isso deveria se manter todo o ano.

A festa, que muita gente diz ter até dormido de tão monótona, foi uma sucessão de escolhas corretinhas demais. Se antes reclamavam daquela edição de Onde os Fracos Não Têm Vez, dessa vez receberam a decepção em dobro. Não funcionou como festa e muito menos como premiação. Quer dizer, todos os prêmios foram para quem a maioria apostava (apareceu uma ou outra surpresa, como Preciosa roubando, injustamente, o roteiro de Amor Sem Escalas), mas o Oscar vem se mostrando cada vez mais um prêmio sem personalidade. Desde que premiou Crash – No Limite (muitos podem até não gostar, mas ao menos os votantes foram autênticos na hora de votar), a Academia não investe mais em surpresas. Uma coisa é certa: aposte no óbvio e você ganhará qualquer bolão do Oscar.

Correto estava eu quando disse que Avatar estava com pinta de Benjamin Button: maravilhoso tecnicamente, milhares de indicações e sai só com uma ou outra estatueta. Levou apenas três. O que confirma algo que há muito tempo já dá pra se notar: o Oscar gosta de filmes pequenos. Blockbusters devem se contentar apenas com prêmios técnicos. Se bem que a derrota do filme de James Cameron não quer dizer grande coisa, uma vez que o próprio vencedor da noite, Guerra ao Terror, é mais um exemplar de filme superestimado (assim como a maioria dos indicados no segmento principal).

De resto, tudo seguiu a regra, mas o grande acontecimento da noite (no péssimo sentido, claro) foi a vitória de uma certa Sandra Bullock. Ela estava linda e simpática como sempre – mas o fato é que nem ela parecia acreditar na própria vitória. Não é para menos, ela não merecia de jeito nenhum aquele prêmio. Fez um discurso inteligente, é verdade. Mas não seria muito mais gratificante ver Meryl Streep subindo ao palco para finalmente receber o seu terceiro Oscar (e, por favor, não me venham com essa ladainha de que Meryl sempre tá fazendo coisa boa, ela vai ganha depois com certeza)? Isso, junto com a vitória da Kathryn Bigelow, poderia, ao menos, nos remeter a essa cerimônia com afeto. E não com indignação de termos assistido a um prêmio injusto de atriz e a uma festa tão decepcionante. Alguém colocou teu nome numa galinha recheada com pipoca e cercada por velas, hein, Meryl! Hora de ir num pai de santo para reverter essa macumba.