Cinema e Argumento

Caso 39

“Everybody has fears… now, what scares you?”

Direção: Christian Alvart

Elenco: Renée Zellweger, Ian McShane, Bradley Cooper, Adrian Lester, Jodelle Ferland, Kerry O’Malley, Georgia Craig

Case 39, EUA, 2009, Suspense, 109 minutos, 14 anos

Sinopse: Uma assistente social (Renée Zellweger) salva uma garota de 10 anos de idade (Jodelle Ferland) de seus pais. Porém, ela descobre que a história da menina é mais complicada do que parece.

Observem bem a foto acima. Agora me digam: Renée Zellweger está chorando, morrendo de medo ou sorrindo? Por via das dúvidas, você vai dizer que ela está com medo, já que o gênero do filme é suspense. E você está mais do que correto. Mas em vários momentos de Caso 39 não dá para adivinhar. Zellweger é uma de tantas atrizes que estragou o seu rosto com plásticas. Nos últimos tempos, ela provou que tantas mudanças estéticas em seu rosto lhe incapacitaram de fazer qualquer outro tipo de filme que não seja comédia (e isso porque, vai saber o motivo, tem gente que adora as caras e bocas “engraçadas” dela).

Defendi Zellweger até onde pude – afinal, em algum lugar remoto do passado, ela foi boa. Mas, hoje, já desisti e faço parte do grupo que aproveita qualquer oportunidade para falar mal dela. Caso 39, tal como Recém Chegada, é mais um filme que consegue me dar essa deixa para difamar a atriz. Pelas mais diversas razões. Primeiro, quem se entrega a um filme desses, está assinando seu atestado de óbito cinematográfico. Segundo, Renée foge completamente de seu estilo e o resultado de sua atuação é uma lástima. E, finalmente, terceiro, o filme é uma verdadeira porcaria. Mais um daqueles longas totalmente previsíveis em seu suspense e que não adiciona nada para o gênero – bem pelo contrário, enfraquece ainda mais o estilo.

Se a escalação da protagonista fosse o único problema, poderíamos até levar numa boa. O que acontece é que Caso 39 é uma sucessão de escolhas erradas. E, talvez, a mais grave seja o enredo. Não sei o que enxergam nessas tramas de crianças endiabradas e maquiavélicas – gênero esse que já saturou. O filme fica rodeando esse tipo de tensão envolvendo a criancinha maquiavélica o tempo inteiro. Quando decide fazer isso, cai em diversos clichês: a criança fica sozinha no mundo e uma bondosa alma caridosa resolve adotá-la, só a burra da protagonista não enxerga a maldade da pequenina, todos que tentam desvendar o mistério morrem e por aí vai…

Mas, antes fosse só isso. O filme ainda comete alguns grandes exageros (chega a ser ridículo, por exemplo, a protagonista atear fogo na própria casa por livre e espontânea vontade como se isso fosse a coisa mais natural do mundo) e não faz a mínima questão de explicar essa origem bizarra da criança. Zellweger oscila entre vozes irritantes, expressões irreconhecíveis e gritos que soam constrangedores. A menina beira o banal e o elenco coadjuvante também não tem nada de especial. Caso 39 funciona tranquilamente para pessoas que gostam de histórias assim. Mas, no final, fica aquela velha questão: até quando vamos ver produções ruins e banais como essas? A resposta é simples: quando vier outro tipo de suspense que seja copiado em todos os cantos. O estilo Atividade Paranormal teria encerrado essa fase e iniciado outro ciclo?

FILME: 4.0


Na coleção… Um Amor Verdadeiro

Tenho um grande fraco por filmes que retratam histórias de câncer. Mas, também, não pode ser qualquer filme. Considero inadmissíveis essas produções insuportavelmente clichês e que nem atores bons possuem para trazer algum tipo de emoção. Lembro, diretamente, daquele péssimo filme com o casal Amanda Peet e Dermot Mulroney, O Amor Pode Dar Certo. Agora, quando só uma atuação acerta de forma contundente, já é o suficiente para me emocionar. E, convenhamos, a maioria dos bons filmes com essa temática são assim: não passam de um ótimo trabalho de elenco.

Um Amor Verdadeiro não se difere dos seus irmãos nessa temática. Entretanto, o que faz o diferencial aqui é que todos os atores estão em ótimos momentos. A beneficiada poderia ser apenas Meryl Streep, já que ela é a vítima da doença. Não é o que acontece. Renée Zellweger, William Hurt e Tom Everett Scott também estão impecáveis como a família que, de repente, tem que aprendar a lidar com o câncer da matriarca. A sinopse é exatamente essa e não existe muito o que se dizer: Um Amor Verdadeiro trata sobre as feridas sentimentais que ficam expostas quando as estruturas de uma família ficam fargilizadas após a doença de alguém. O que existe aqui é uma grande sinceridade – que é transmitida com muita competência pelos atores.

Meryl Streep (em uma duvidosa indicação ao Oscar de melhor atriz, já que, claramente, não é a protagonista) dá um nó em nossos corações com cenas totalmente avassaladoras – especialmente naquelas em que está aniquilada pela doença. Renée Zellweger, em ótimo momento (possivelmente, o meu favorito da atriz), representa a força da família – uma vez que é a filha que voltou para casa apenas para cuidar da mãe, já que os o pai e o outro filho não conseguem lidar direito com isso. William Hurt, como o patriarca que, a princípio, parece relapso e sem coração, entrega outro excelente desempenho ao passo que Tom Everett Scott se sai muito bem em suas poucas cenas.

Um Amor Verdadeiro é longo em demasia (chega a ultrapassar duas horas de duração para narrar uma história que poderia ser contada de forma mais objetiva) e tem vários clichês – o Natal não poderia faltar, claro. Contudo, é um desses filmes de câncer que dá muito certo. Entramos de corpo e alma na história e conseguimos sofrer junto com aquela família. E, também, notamos que não é mérito apenas de uma dedicada Meryl Streep que sofre o tempo inteiro. É mérito de uma equipe de atores e de um roteiro que sabem que existe uma linha muito tênue entre o emocionante e o forçado. Um Amor Verdadeiro pode até apelar para as formas mais convencionais, mas nunca soa forçado ou sequer incômodo por ser formulaico. E, por isso mesmo, é um ótimo longa.

FILME: 8.5


A Fita Branca

Direção: Michael Haneke

Elenco: Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaubner, Maria-Victoria Dragus, Leonard Proxauf

Das Weisse Band – Eine deutsche Kindergeschichte, Alemanha, 2009, Drama, 144 minutos, 14 anos

Sinopse: Um vilarejo protestante no norte da Alemanha, em 1913, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. A história de crianças e adolescentes de um coral dirigido pelo professor primário do vilarejo e suas famílias: o barão, o reitor, o pastor, o médico, a parteira, os camponeses. Estranhos acidentes começam a acontecer e tomam aos poucos o caráter de um ritual punitivo. O que se esconde por trás desses acontecimentos?

Propositalmente ou não, o roteiro de A Fita Branca traz inúmeras semelhanças com a ambientação criada por M. Night Shyamalan no subestimado A Vila. Assim como o filme estrelado por Bryce Dallas Howard e Joaquin Phoenix, esse mais novo trabalho do pretensioso cineasta Michael Haneke narra, também, a vida de uma pequena comunidade que se vê obrigada a lidar com fatos estranhos. A quebra da paz, em ambos os filmes, despertam a desconfiância dos personagens, que passam a analisar uns aos outros procurando uma forma de solucionar o que está surgindo de diferente no lugar onde vivem.

Mas, no entanto, as semelhanças entre os dois filmes param por aí. Somente a ambientação e o clima é o que existe de semelhante porque, a partir daí, A Fita Branca e A Vila tomam rumos completamente diferentes. O longa de Haneke, apesar de ter um mistério incutido na sua história, não faz disso sua matéria-prima. O que acompanhamos, de fato, é o dia-a-dia dos personagens. Poderia ser algo desinteressante, mas aqui seguimos de perto toda a rigidez de uma Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial. São figuras extremamente bem calculadas e que parecem saídas de um livro de boas maneiras. Existem os desobientes (especialmente as crianças, fortemente ilustradas como figuras mais “diferentes” dos demais), mas mesmo elas são representadas como temerosas em relação a fugir do que aquela sociedade julga como correto.

É nesse clima categórico, para não dizer frio, que se desenrolam os acontecimentos de A Fita Branca. Talvez, seja o filme mais recente do país que consiga justamente unir o conhecido rigor da sociedade alemã com a própria estrutura tão formal desse cinema. Digo isso porque filmes como A Onda e A Vida dos Outros parecem seguir uma cartilha – são filmes que , apesar de certas liberdades, parecem sempre meticulosamente pensados e planejados. O trabalho de Haneke não deixa tanto essa sensação, justamente porque retrata uma sociedade que tem essas mesmas características. Assim, o diretor não só realiza um trabalho extremamente interessante do ponto de vista sócio-histórico, como também se sai excelente como produto cinematográfico.

A Fita Branca era o favorito ao Oscar de filme estrangeiro esse ano. Entretanto, assim como vários outros filmes badalados e também considerados favoritos ao prêmio – entre eles, O Labirinto do Fauno, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Valsa Com Bashir – saiu da principal festa do cinema de mãos abanando. E é muito fácil entender o porquê. Haneke não realiza trabalhos fáceis e aqui não é diferente. Contudo, a boa notícia é que A Fita Branca não é um cinema inacessível ou incômodo de tão alternativo e pretensioso como o superestimado Caché. Temos nesse novo longa do diretor um filme intrigante dramaticamente e muito bem executado. Agora, só entra mesmo na história quem curte esse tipo de cinema mais subjetivo.

FILME: 8.5


A trilha sonora de… Alice no País das Maravilhas

Não sei se é porque Tim Burton pede ou se é porque o Danny Elfman gosta de fazer isso sempre que trabalha com o diretor. Mas, para mim, todas as trilhas dos filmes de Burton possuem o mesmo perfil. Não é diferente aqui em Alice no País das Maravilhas. Voltamos a ouvir aquele clima gótico, aquele coral presente no fundo de várias canções e os violinos rápidos para trazer agilidade e suspense.

Danny Elfman, que teve uma indicação ao Oscar do ano passado com Milk – A Voz da Igualdade, volta para o óbvio e realiza uma trilha que não passa do satisfatório. No entanto, tal afirmação não quer dizer que o compositor fica abaixo da média. O álbum é exatamente o que pode se esperar de uma trilha de um filme de Tim Burton. Basta pensar assim que você não vai se decepcionar com o resultado.

1. Alice’s Theme

2. Little Alice

3. Proposal/Down the Hole

4. Doors

5. Drink Me

6. Into the Garden

7. Alice Reprise #1

8. Bandersnatched

9. Finding Absolem

10. Alice Reprise #2

11. The Cheshire Cat

12. Alice and Bayard’s Journey

13. Alice Reprise #3

14. Alice Scapes

15. The White Queen

16. Only a Dream

17. The Dungeon

18. Alice Decides

19. Alice Reprise #4

20. Going to Battle

21. The Final Confrontation

22. Blood of the Jabberwocky

23. Alice Returns

24. Alice Reprise #5

_

Para baixar a trilha, clique aqui.

A Vida Íntima de Pippa Lee

Direção: Rebbeca Miller

Elenco: Robin Wright Penn, Alan Arkin, Keanu Reeves, Maria Bello, Julianne Moore, Winona Ryder, Monica Bellucci

The Private Lives of Pippa Lee, EUA, 2009, Drama, 90 minutos, 14 anos

Sinopse: Pode-se dizer que Pippa Lee (Robin Wright Penn) tem uma vida excelente. Aos 50 anos, mora em uma boa casa, é casada com um brilhante editor 30 anos mais velho (Alan Arkin) e é mãe orgulhosa. Até o dia em que seu marido decide que está na hora da aposentadoria e de sair de Nova York. Para embolar de vez, ele também arruma uma amante, bem mais jovem do que ela. Mas as coisas realmente fogem ao controle quando ela começa a ter reações tão diferentes das que tinha quando levava uma vida pacata. E agora, seu mundo, sua vida tranqüila, sua família, tudo o que ela ama está ameaçando ruir.

Os problemas da vida de Pipa Lee (Robin Wright Penn) podem ser batidos, mas também são interessantes para um filme. Ela saiu de casa muito cedo e ficou sem rumo, tinha uma mãe viciada em remédios, casou com um homem  trinta anos mais velho, não tem um bom relacionamento com a filha e ainda descobre que o marido agora está dormindo com outra mulher. Dependendo de quem dirigisse uma história dessas, daria um prato cheio. No entanto, quem comanda a situação é Rebecca Miller, uma aspirante a diretora de filmes femininos e intimistas.

Não vou mentir, Miller, talvez, tenha jeito para o negócio. Mas, infelizmente, não tem a habilidade de se desvencilhar do convencional. Foi assim com O Mundo de Jack e Rose e também com O Tempo de Cada Um. Ela tem boas intenções, mas nunca consegue se diferenciar de tantos outros filmes assim. O mais novo trabalho da diretora, esse A Vida Íntima de Pippa Lee, segue o mesmo esquema. A diferença é que o filme reúne um bom número de estrelas, formando o maior elenco que Miller já conseguiu reunir.

Basicamente, são os atores que validam o filme. Robin Wright Penn, como a protagonista, consegue bom resultado ao representar uma certa inércia de sua personagem. Alan Arkin, companheiro de cena da atriz, tem a sua aparição no cinema mais significativa desde que ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por Pequena Miss Sunshine. Os outros atores, como Monica Bellucci (linda de morrer) e Julianne Moore, possuem aparições interessantes, mas muito corriqueiras e que são prejudicadas pela forma como o roteiro narra a vida da protagonista em curtos flashbacks.

A Vida Íntima de Pippa Lee, portanto, é um drama comum, daqueles que são até interessantes para um domingo chuvoso à tarde mas que não muda a vida de ninguém. Rebecca Miller, mais uma vez, ficou no meio do caminho e não conseguiu entregar uma obra diferente. Mas, ao contrário de outras colegas suas que se repetem incansavelmente com trejeitos (como exemplo, temos Nancy Meyers e a sua infinita reciclagem estrutural), Miller ainda tem, de certa forma, um estilo próprio. Mesmo que isso não signifique que ela consiga sequer ser digna de grandes elogios.

FILME: 6.5