Cinema e Argumento

Na coleção… Boogie Nights – Prazer Sem Limites

São poucos os diretores que, a cada trabalho, conseguem mostrar superação e também despertar no público a sensação de que estamos diante de um “mestre”. Paul Thomas Anderson pode se considerar um desses caras. Tem, pelo menos, três filmes no seu currículo que são definidos como “obra-prima”. Se Magnólia e Sangue Negro (esse não chega a despertar minha admiração) são os exemplares mais recentes, foi Boogie Nights – Prazer Sem Limites que abriu os olhos do mundo para Anderson – e o filme justifica muito bem o porquê.

Não é só em função da temática no mínimo curiosa (os bastidores da indústria pornográfica) que o filme obteve sucesso. A produção, em um conjunto geral, tem aspectos extremamente interessantes. Anderson já demonstra absurda segurança em um de seus primeiros trabalhos. O talento dele está nas tomadas bem trabalhadas ou, então, no lado pop da história (a trilha sonora maravilhosa tem papel fundamental no desenrolar dos fatos). Sem falar, claro, na própria direção de atores.

Lançado em 1997, Boogie Nights lançou Mark Wahlberg ao estrelato (e ainda o ator tem aqui o melhor desempenho de sua carreira) e também já contava com nomes que estavam prestes a serem reconhecidos nos próximos anos, como Julianne Moore (no auge de sua beleza e em uma interpretação indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e Philip Seymour Hoffman. Burt Reynolds, como o diretor de filmes pornográficos, também tem excelente destaque.

A princípio, é um filme que pode parecer demasiado longo. Mas, se formos levar em conta o número de personagens e como cada história tem satisfatórios desenvolvimentos, isso não é um problema. Boogie Nights, portanto, marcou uma década e é um dos filmes que melhor definem o jeito de fazer cinema nos anos 90. Difícil escolher entre esse trabalho ou Magnólia. Mas, independente disso, afirmo, sem pestanejar, que Paul Thomas Anderson é um sujeito que não se encontra em qualquer canto.

FILME: 9.0

Lembranças

Caroline asked me what I would say if I knew you could hear me. I said I do know: I love you. God, I miss you. And I forgive you.

Direção: Allen Coulter

Elenco: Robert Pattinson, Emilie De Ravin, Pierce Brosnan, Chris Cooper, Lena Olin, Ruby Jerins, Gregory Jbara, Tate Ellington

Remember Me, EUA, 2010, Drama, 113 minutos

Sinopse: Tyler Roth (Robert Pattinson) é um jovem rebelde que não tem uma boa relação com o pai, Charles (Pierce Brosnan), desde que uma tragédia abalou sua família. Ele divide um apartamento com Aidan (Tate Wellington) e com ele sai para uma boate. Ao deixar o local, Tyler se intromete em uma briga. Neil Craig (Chris Cooper), um policial traumatizado pelo assassinato de sua esposa dez anos antes, é chamado ao local. Ele libera Tyler e Aidan mas, após uma provocação de Tyler, lhe dá uma surra e manda prendê-lo. Dias depois, Aidan descobre que Ally (Emilie de Ravin), a filha de Neil, estuda com eles. Ele propõe a Tyler que tente conquistá-la, para se vingar. Inicialmente relutante, Tyler aceita a proposta. Só que, aos poucos, se apaixona por Ally.

Não existe situação mais frustrante no cinema do que ter expectativas com um filme e elas não serem correspondidas. Também não existe situação mais animadora do que assistir um filme e ele conseguir ser muito mais do que aquilo que você esperava. É o caso de Lembranças, um filme que surpreende em diversos aspectos. Por ser uma produção estrelada pelo pior jovem ator dos dias de hoje, Robert Pattinson, Lembranças já desperta preconceito. Mas, quem der uma chance, pode levar uma surpresa e até mesmo se emocionar com os momentos finais da história.

Ninguém vai dizer que Lembranças é um filme que constrói dramas complexos ou muito menos conflitos singulares. Tudo o que existe no longa-metragem já foi mostrado diversas vezes no cinema, nas mais variadas formas. É o velho esquema do garoto rebelde que tem vários problemas na família e que se envolve com uma garota que também tem várias tragédias pessoais. O filme é comandado por um certo Allen Coulter, que já dirigiu episódios de vários seriados, como, por exemplo, Six Feet Under e Damages. Essa é a segunda vez que Coulter realiza um longa (o anterior foi Hollywoodland). Ao julgar pelo que se vê aqui, é um diretor que tem potencial.

Explico. Lembranças tinha tudo para ser um filme clichê, meloso ou até mesmo forçado. Não é. Mesmo que tenha que lidar com algumas supercialidades (também podemos incluir alguns dramas bobos) e, principalmente, com um péssimo ator encabeçando o elenco, Coulter realiza um filme que acerta nos tons dramáticos e que faz um trabalho satisfatório no roteiro. O diretor, inclusive, consegue amenizar os danos que Pattinson normalmente traz para os filmes que estrela. Longe de mim dizer que o ator está bem em cena. Na realidade, ele só não cai em exageros ou caretas. Mas, continua fraco, inexpressivo e sem carisma algum.

Se não fosse por Pattinson, Lembranças consegueria ser mais satisfatório. Ele é o único grande empecilho de todo o filme, já que todo o resto do elenco está bem ajustado. Como já dito, não é o caso de uma produção digna de grandes aplausos. A realidade é que Lembranças surpreende por ter uma história bem contada – mesmo que com pequenas ressalvas no texto. Agora, impossível ficar indiferente com o desfecho surpresa. Alguns podem dizer que foi gratuito e pensado exatamente para aparecer do nada só emocionar todo mundo. Se foi gratuito, não sei. Mas funcionou? Ah, com certeza!

FILME: 8.0


Destaques negativos de 2010 (até agora)

O segundo filme é o momento mais desastroso no histórico de Sex and the City.

Richard Kelly coloca em dúvida seu talento no pseudo-intelectual A Caixa.

A decadência definitiva de Renée Zellweger em Caso 39.

O monótono e fora de tom Sherlock Holmes.

O decepcionante resultado do elenco de Nine (excetuando Marion Cotillard).

A inexpressividade do mundo criado por Tim Burton em Alice no País das Maravilhas.

O mal realizado Um Olhar do Paraíso.

Um Homem Sério traz um dos filmes mais monótonos dos irmãos Coen.

Filmes em DVD

O Homem Que Sabia Demais, de Alfred Hitchcock

Com James Stewart, Doris Day e Bernard Miles

Nunca pesquisei com muitos detalhes a filmografia de Alfred Hitchcock e a última vez que havia entrado em contato com os filmes do diretor foi há muito tempo atrás, com Psicose e Os Pássaros. Nessa minha retomada, comecei com o pé direito. O Homem Que Sabia Demais é um exemplo de simplicidade e suspense. A história não tem grande originalidade ou desdobramentos excepcionais, mas mesmo assim envolve de forma certeira. Nem dá para sentir as duas horas de duração, já que tudo passa com certa rapidez. Menções honrosas também merecem James Stewart e Doris Day, super competentes em seus papéis.

FILME: 8.5

A Rainha, de Stephen Frears (revisto)

Com Helen Mirren, Michael Sheen e James Cromwell

Da safra do Oscar daquele ano, A Rainha era o filme mais elegante de todos. Inclusive, também o categorizo como um dos mais subestimados. O longa-metragem de Stephen Frears é muito mais do que a ótima interpretação de Helen Mirren. Além da espetacular trilha de Alexandre Deslat (que é um elemento técnico muito marcante para a história), a direção de arte é perfeita e tanto os figurinos quanto a fotografia possuem momentos de destaque. No entanto, o que mais chama atenção em A Rainha é a forma como a história foi contada sem maniqueísmos ou apelações. Tudo na medida e com qualidade – características muito comuns do cinema britânico.

FILME: 8.5

Amor Sem Escalas, de Jason Reitman (revisto)

Com George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick

Minha visão de Amor Sem Escalas continua a mesma em DVD. Gosto muito da melancolia que existe em determinadas partes, das interpretações e dos diálogos inteligentes e reflexivos. Ainda que não seja uma produção que tenha me conquistado por inteiro, adquiriu a minha admiração. Jason Reitman merece aplausos por seu notável amadurecimento atrás das câmeras desde o apenas simpático Juno. Ele também tem méritos em Amor Sem Escalas. No entanto, o destaque é a forma verdadeira como tudo acontece. Presente de um ótimo elenco e de um texto muito especial, que não merecia ter perdido o Oscar para Preciosa – Uma História de Esperança.

The Rocky Horror Picture Show, de Jim Sharman

Com Susan Sarandon, Tim Curry e Barry Bostwick

De todos os musicais que já tive a oportunidade de assistir na minha vida de cinéfilo, esse é o mais inusitado e insano de todos. É exatamente por causa disso que The Rocky Horror Picture Show funciona tão bem. Fica claro que o filme não é para ser levado a sério. Quem conseguir entrar nesse clima e se divertir com a essência trash da história vai encontrar um ótimo entretenimento. Claro que o filme tem seus problemas (especialmente no que se refere a roteiro, ou melhor, na  quase ausência do mesmo), mas nada que apague o clima de diversão proporcionado por ele. Destaque para uma Susan Sarandon bem novinha e para as boas canções.

FILME: 8.0


O Fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson

Com as vozes de George Clooney, Meryl Streep e Bill Murray

Se por um lado não dá para desmerecer o domínio da Pixar nas premiações, por outro dá para lamentar o fato de outras boas animações não terem espaço por causa da produtora. Se Up – Altas Aventuras não tivesse na disputa, certamente, O Fantástico Sr. Raposo seria o grande vencedor. Ainda prefiro a aventura de Carl na casa cheia de balões, mas também fui conquistado de surpresa por essa adorável animação que conta com uma das melhores dublagens do gênero nos últimos tempos. O Fantástico Sr. Raposo tem um charme perfeito, conquistando qualquer bom apreciador de desenhos animados. A animação não chega a ser espetacular, mas é certo que é uma das mais originais e divertidas das últimas que apareceram.

FILME: 8.0

Maus Hábitos, de Pedro Almodóvar

Com Julieta Serrano, Marisa Paredes e Cecilia Roth

Maus Hábitos foi um dos primeiros filmes em que Almodóvar começou a apresentar as suas características tão conhecidas. Existe muita crítica e ironia no roteiro. Ao narrar o cotidiano de um convento cheio de freiras viciadas em heroínas e todas com um quê de corrupção, Almodóvar não só trouxe uma abordagem diferente nesse tipo de história como também conseguiu construir dramas simples e complexos. É fácil perceber que, em Maus Hábitos, o diretor ainda estava em fase de crescimento. Contudo, também nota-se que, desde já, ele sabia muito bem o que estava fazendo.

FILME: 8.0

Destaques de 2010 (até agora)

Considerando a data de lançamento dos filmes no Brasil…

Em trabalho de estreia atrás das câmeras, o estilista Tom Ford chega arrebentando em todos os setores de Direito de Amar

Esmir Filho e Henrique Larré fazem um angustiante retrato da solidão em Os Famosos e os Duendes da Morte

Carey Mulligan é uma das grandes revelações do ano no ótimo Educação

Tensão dramática no excelente trabalho de Michael Haneke em A Fita Branca

Marion Cotillard foi o coração e a força do vazio Nine

Ignorado nos cinemas, Lunar é uma ficção exemplar que chega direto em DVD

Interpretações e diálogos reflexivos trazem uma certa melancolia para o maduro trabalho de Jason Reitman em Amor Sem Escalas

A denúncia de A Enseada, um dos filmes mais bem executados do ano

As atrizes trazem a força de Preciosa – Uma História de Esperança