Opinião – A (falta de) polêmica em “Do Começo ao Fim”

Recentemente, comentei que De Repente, Califórnia é um filme gay que foge da responsabilidade de discutir a sua principal temática. Inclusive, disse que a história tinha medo de discutir o relacionamento gay entre os dois personagens. Isso é porque eu ainda não tinha assistido Do Começo ao Fim, que é, possivelmente, a produção mais covarde e sem noção da verdade já realizada sobre a homossexualidade.
O pôster do filme diz que “para entender esse amor é preciso virar o mundo pelo avesso”. Nem os responsáveis pela publicidade se deram conta do que estavam vendendo. Se o pôster diz que o romance entre Francisco (João Gabriel Vasconcellos) e Thomás (Rafael Cardoso) é complicado, não é nada disso que assistimos no filme. Na realidade, é a coisa mais normal do mundo dois irmãos serem gays e namorados. Todo mundo aceita e o preconceito é inexistente no mundo criado pelo diretor e roteirista Aluisio Abranches.
Inclusive, temos uma absurda cena onde a mãe (Júlia Lemmertz, um acerto), quando questionada pelo pai de um dos garotos sobre a intimidade excessiva deles, afirma que ela percebe o que está acontecendo, mas que não pode dizer para eles que “isso” é errado. Realmente, ser homossexual não é errado. Mas, quer dizer, então, que namorar o irmão também não é? E assim seguem outras inúmeras cenas onde os dois irmãos explicitam o relacionamento e ninguém diz absolutamente nada. Para os personagens da história, o relacionamento é perfeitamente normal.
Mais do que isso, Do Começo ao Fim ainda romantiza incansavelmente a história dos dois da forma mais “bonita” possível e parece que nem está tratando de um incesto. Muitas declarações de amor, diálogos bonitinhos e uma melação sem fim. Problemas não existem para os dois – nem entre eles nem para quem está na volta. O maior conflito que existe em todo o filme é que, em certo ponto, os dois precisam morar longe só porque um deles foi selecionado para treinar na Rússia para as próximas Olimpíadas.
Qualquer pessoa com bom senso não vai levar a sério o mundo fantasioso apresentado em Do Começo ao Fim. Nada daquilo existe. Peço desculpas para quem discorda. Mas, num país onde o preconceito ainda existe, é impossível uma situação tão delicada como aquela ser tratada por tanta gente com a naturalidade mostrada. Talvez, Aluisio Abranches tenha percebido que não tinha capacidade para lidar com um tema tão perigoso e difícil. Assim, resolveu apelar para o comercial, mas descambou para o erro.
Comercial no sentido de que o filme é vendido em função de sua temática promissora/polêmica e apela para muitas cenas de nudez entre os atores (que, claro, foram escolhidos com o propósito de serem atraentes e causarem alvoroço com o público-alvo) e para um romance idealizado e açucarado. Ou seja, sacanagem para quem curte e romance sonhador para quem é sentimental. As cenas de nudez, inclusive chegam a doer de tão constrangedoras. Quando não existe uma pavorosa trilha de fundo (os brasileiros continuam sem saber usar direito esse setor), então aparece uma cafona cena de tango onde os dois atores dançam sem roupa alguma. É lamentável.
No final das contas, Do Começo ao Fim criou uma grande polêmica antes de seu lançamento e não cumpriu nem um milésimo da promessa que foi cultivada. É de se lamentar, portanto, que os dois atores e Júlia Lemmertz – todos bem enquadrados em seus respectivos papéis e funcionando dentro do possível – tenham parado em um filme tão mal resolvido e covarde como esse. Um filme cafona, cheio de problemas narrativos e fora da realidade. É a legítima situação de uma obra que poderia ter causado alguma revolução mas se perdeu dentro de alguns ideais. Ou não teria sido na falta deles?













