Our world has faced no greater threat than it does today.

Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Julie Walters, Rhys Ifans, Bill Nighy, Tom Felton, Fiona Shaw
Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 1, EUA, 2010, Aventura, 146 minutos
Sinopse: Prestes a completar 17 anos, Harry Potter (Daniel Radcliffe) precisa ser transportado da casa dos seus tios, os Dursley, até um local seguro. Lorde Voldemort (Ralph Fiennes) e seus comensais da morte sabem que a transferência está prestes a acontecer e aguardam sua realização para atacar. Para que ela ocorra, vários amigos de Harry, como Rony Weasley (Rupert Grint), Hermione Granger (Emma Watson), Remo Lupin (David Thewlis), Hagrid (Robbie Coltrane) e “Olho-Tonto” Moody (Brendan Gleeson), tomam a Poção Polissuco e assumem a forma física de Harry. A intenção é despistar Voldemort sobre quem é o Harry verdadeiro, de forma que ele possa chegar seguro à Toca, casa dos Weasley. Harry e seus amigos passam a ser caçados impiedosamente, obrigando que ele, Rony e Hermione fujam. Precisando mudar constantemente de lugar, eles elaboram um plano para encontrar e destruir as horcruxes que podem eliminar Voldemort de uma vez por todas.

Com todo o respeito, já ficou cansativo ler os adjetivos “maduro”, “sombrio” e “adulto” para definir Harry Potter. Vamos fazer assim: tudo o que veio depois que David Yates assumiu a cadeira de direção se encaixa nessas definições. Mas ao mesmo tempo que a saga conseguiu essas atribuições, também afastou fãs e desgostou uma parcela de pessoas por conta desse novo tom. A princípio, aprovei a mudança – muito necessária e bem arquitetada, diga-se de passagem – que foi apresentada de forma categórica em A Ordem da Fênix. Contudo, O Enigma do Príncipe colocou tudo a perder quando resolveu dar atenção apenas para o lado cinematográfico da série, esquecendo de valorizar o material original. Com isso, mutilou um livro excepcional e entregou um longa-metragem tedioso e decepcionante em quase todos os sentidos no que se refere a roteiro.
O grande mérito de As Relíquias da Morte – Parte 1 é preservar a maturidade estética e incluir, com muita habilidade, um trabalho de adaptação surpreendente. O último livro de Harry Potter, apesar de ser concluído com grandiosidade, peca por ter uma primeira parte completamente sem ritmo e empolgação. O roteiro de Steve Kloves, no entanto, venceu essas barreiras, conseguindo ir direto ao ponto sempre quando necessário. Desenvolvido com exatidão, o texto abandona qualquer rodeio quando mastiga de forma muito acessível a trama para os espectadores – tanto para os leigos quanto para os fãs da série. Além disso, como já observamos em outras ocasiões, também toma algumas liberdades autorais e adiciona momentos que só trazem ainda mais qualidade para o enredo.
Portanto, essa primeira parte do final derradeiro de Harry Potter encontra em um roteiro quase que impecável a sua maior força. Como fã e leitor das obras de J.K. Rowling, encontrei um longa-metragem fiel ao texto da escritora britânica e coeso com as intenções cinematográficas da série. Sem dúvida, uma das melhores adaptações do ano de 2010. Abordando um pouco mais o trabalho de Yates como diretor, fiquei particularmente satisfeito com o tom apocalíptico adotado por ele. Se A Ordem da Fênix e O Enigma do Príncipe eram filmes que anunciavam uma futura era sombria e trágica para o protagonista, As Relíquias da Morte – Parte 1 é o relato desses trágicos tempos para Harry. Ele está sentido na pele, como nunca antes, o efeito de mortes, traições e maldades. Antes, tudo era um anúncio. Agora, é realidade.
A história ganha contornos melancólicos que nunca haviam sido mostrados antes. Logo na primeira cena, quando somos brindados com a belíssima composição The Obliviation, de Alexandre Desplat (que aqui decepciona com uma trilha que, em sua totalidade, tem pouquíssimos momentos efetivos), já podemos notar uma dramaticidade verdadeira e cheia de nuances minimalistas. Não é só a barba por fazer estampada na face de Harry (Daniel Radcliffe) que demonstra a nova fase alcançada pela história, mas também o lado emocional aflorado em diversas passagens. A tragédia está visível no rosto dos personagens e cada atitude deles reflete suas angústias e medos de viverem em um mundo que não é seguro em lugar algum.
O trio de atores, por sinal, encena com louvor cada momento. Pela primeira vez, em toda a série, o trio trabalha em perfeita sintonia. Entretanto, quem mais surpreende é Emma Watson. Ela, que, ao meu ver, sempre foi um problema de elenco, apresenta um desempenho digno de aplausos para os padrões da saga. Watson costumava se apoiar em caras e bocas para representar uma personagem que, por muitas vezes, a atriz parecia não compreender. Em As Relíquias da Morte – Parte 1, isso mudou. Ela carrega boa parte do peso dramático, ao mesmo tempo que necessita ser um balanço entre o senso de liderança independente de Harry e a necessidade afetiva escondida em uma armadura cômica de Rony (Rupert Grint). Mas, repito, os três alcançam ótimos níveis.
Agora, As Relíquias da Morte – Parte 1 está livre de erros? Não. Pode parecer bobagem, mas fiquei incomodado com a fotografia. Desde A Ordem da Fênix os tons ficam cada vez mais escuros. Só que, nesse último volume, fiquei com a impressão de um pouco de exagero. Em certos momentos, a tela fica escura até demais e esse certo exagero está quando alguma cena alterna para outra mais clara e iluminada. A edição é outro problema. Não nos aspectos dramáticos – nesse, sai-se muito bem – mas sim nas tomadas movimentadas. Por adotar um tom frenético, essas sequências não tem os devidos efeitos. Mal dá para saber o que está acontecendo (a cena da floresta é um exemplo), tudo parece uma bagunça e não existe a fluidez necessária para uma melhor compreensão dos acontecimentos dos fatos.
Avaliando o filme em termos de adaptação, esse trabalho de David Yates se estende além da conta e termina sim, como muitos dizem, de forma abrupta. Dava, facilmente, para As Relíquias da Morte – Parte 1 ter sido finalizado na sequência da floresta. Toda a ação envolvendo Hogwarts e a morte de um personagem (essa uma sequência muito tocante e o ponto alto dramático do filme) poderiam ter ficado para a segunda parte, concentrando, de uma vez por todas, a sequência final de violência, mortes e decisões extremas envolvendo o difícil mundo dos personagens. Nesse sentido, a história foi interrompida no momento errado. Outro defeito, como era de se esperar, visto o material original, é o compasso lento em determinadas passagens desnecessárias. Isso ajuda para a sensação que o filme deixa de dependência dos outros volumes. Ou seja, difícil analisá-lo sem o longa anterior ou sem pensar nas conclusões da segunda parte. Não é uma história independente.
Em contraste, a boa notícia é que todos esses defeitos são perfeitamente fáceis de ser relevados. David Yates alcançou um equilíbrio notável como diretor dentro da série e, hoje, me parece a decisão acertada para comandar o desfecho de Harry Potter (algo que eu não apoiava muito devido ao último volume). As Relíquias da Morte – Parte 1 é uma excelente surpresa e, mesmo que esteja longe de ser um produto revolucionário como cinema, consegue ser excelente exatamente onde deve ser: dentro da série. O terreno foi preparado de forma mais do que satisfatória para os momentos finais. E é bom você não me decepcionar, sr. Yates, já que, agora, você conseguiu, finalmente, me convencer como um realizador muito completo e competente dentro de Harry Potter!
FILME: 8.5
