Cinema e Argumento

Uma Manhã Gloriosa

Direção: Roger Michell

Elenco: Rachel McAdams, Harrison Ford, Diane Keaton, Patrick Wilson, Jeff Goldblum, Jeff Hiller, Linda Powell, Joseph J. Vargas, Mike Hydeck

Morning Glory, EUA, 2010, Comédia, 107 minutos

Sinopse: Becky Fuller (Rachel McAdams) é uma produtora de televisão que foi demitida de seu programa de notícias, mas consegue uma vaga para tentar levantar a moral de outro uma nova emissora. O único problema é que para conseguir isso terá que fazer muitas mudanças, entre elas, convencer o premiado Mike Pomeroy (Harrison Ford) a apresentar matérias de moda, amenidades, de conteúdo fraco e, para piorar, ao lado de uma ex miss Arizona (Diane Keaton), seu desafeto. Com pouco tempo para reverter a queda de audiência, Beck vai ter que ser virar para driblar o humor de seu elenco, ser reconhecida profissionalmente e ainda viver um novo amor. Será que vai dar certo?

Na série 30 Rock, Tina Fey interpreta Liz Lemon, a roteirista do programa de humor The Girlie Show. Muito mais do que criar as situações que os personagens terão que encenar, ela também tem que lidar com a confusão dos bastidores e o confronto de estrelismos dos principais protagonistas do The Girlie Show, Tracy (Tracy Morgan) e Jenna (Jane Krakowski). A situação não é muito diferente em Uma Manhã Gloriosa, onde Rachel McAdams assume um papel muito parecido com o de Tina Fey. O problema é que o filme está longe de ter aquela originalidade tão presente em 30 Rock.

Com roteiro de Aline Brosh McKenna (do deliciosamente pop O Diabo Veste Prada), Uma Manhã Gloriosa dá mais uma oportunidade para Rachel McAdams protagonizar uma comédia. Ela, que foi destaque em Meninas Malvadas e no previsível mas agradável Tudo em Família, parece estar sempre condenada à posição de coadjuvante. A verdade é que, por mais que a moça tente, não consegue a ter o calibre necessário para sustentar sozinha um longa-metragem. O grande público não reconhece o seu nome e ela muito menos tem alguma característica marcante. Eficiente, mas apenas isso – e com algumas ressalvas.

O filme, entretanto, é feliz em várias escolhas. Vamos elogiar primeiro, por exemplo, a escolha do diretor Roger Michell de não apostar tanto em romance (afinal, isso seria justificável, já que ele é o diretor de Um Lugar Chamado Notting Hill) e de não incluir grandes clichês da comédia. Uma Manhã Gloriosa não resulta em uma comédia original, mas sim contida naqueles exageros que estamos acostumados a ver atualmente. O filme é beneficiado, também, pela própria temática que, de certa forma, ameniza a possibilidade do mau gosto aparecer.

Tudo está muito bem encaminhado (leia-se descompromissado e assistível) durante boa parte do filme. Mas eis que, na última meia hora, a história começa a tomar rumos desnecessários. A comédia começa a se tornar quase que apelativa (não foi muito confortável ver Diane Keaton beijando um sapo ou sendo vítima do xixi de um gambá) e os dramas começam a trazer lições de morais mais do que previsíveis. Não precisávamos ver o casal entre tapas e beijos se acertando ou, então, o personagem rabugento dando o braço a torner e falando de seus draminhas pessoais para a protagonista…

Uma Manhã Gloriosa quase coloca tudo a perder no seu ato final cheio de escolhas que poderiam ter sido evitadas. O alívio para nós espectadores é que só precisamos nos lembrar do que estávamos assistindo até então: um filme leve, sem grosserias e que serve perfeitamente para satisfazer aquela vontade de ver algo que não exige raciocíonio e que nos divirta. É assim que Uma Manhã Gloriosa funciona. Começa melhor do que acaba, mas nada preocupante para uma comédia que não tem qualquer intuito de ser marcante.

FILME: 6.5


Mildred Pierce na HBO!

Cansado dessa fase sem inspiração do cinema pós-Oscar? Pois, então, não perde tempo e vai logo para a frente da TV assistir a Mildred Pierce. A nova minissérie da HBO já começou a ser exibida aqui no Brasil. Cada domingo, um novo episódio. Dividida em cinco partes, a minissérie é dirigida por Todd Haynes (do ótimo Longe do Paraíso) e tem como protagonista a sempre maravilhosa Kate Winslet. Ainda no elenco, Melissa Leo, Evan Rachel Wood, Guy Pearce, Hope Davis, entre outros! No meu blog de séries, você pode conferir, toda semana, uma resenha sobre cada capítulo exibido. Não vai perder, né? Afinal, não é sempre que temos a oportunidade de ver uma estrela do calibre de Kate Winslet a cada domingo na TV. Emmy à vista para ela?

Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família

Yeah, well I have eyes too, so I’ll be watching you… watching me.

Direção: Paul Weitz

Elenco: Ben Stiller, Robert De Niro, Blythe Danner, Jessica Alba, Teri Polo, Owen Wilson, Barbra Streisand, Dustin Hoffman, Laura Dern, Daisy Tahan

Little Fockers, EUA, 2010, Comédia, 98 minutos

Sinopse: Pam (Teri Polo) e Greg (Ben Stiller) vivem felizes e são pais dos gêmeos Henry e Ashley Focker, de cinco anos. Quando todo o clã de Greg e Pam – incluindo o ex-apaixonado de Pam, Kevin (Owen Wilson) – se reúne para a festa de aniversário dos gêmeos, Greg tem que provar para o cético Jack (Robert De Niro) que ele é inteiramente capaz de ser o homem da casa. E o desafio põe Greg numa enrascada: ou ele prova para todos que vai assumir o lugar de Jack e conduzir a família ou quebra o “círculo de confiança” para sempre.

Não existe qualquer justificativa plausível que explique essa segunda continuação de Entrando Numa Fria. O primeiro foi bem divertido, mas o segundo já não trazia o mesmo vigor (ainda que trouxesse novos personagens e certa “razão” para existir). O terceiro filme, por outro lado, traz um enredo completamente comum e que, em nenhum momento, demonstra qualquer motivo para que essa história tenha sido contada.

O problema já começa pelo tom das piadas. Agora a equipe inventou que vômito, arroto e ereções são os ingredientes para uma  boa comédia. Não sei qual a quantidade de amor próprio de Robert De Niro, mas, a julgar por Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família, podemos dizer que é quase zero. Ok, nos outros filmes ele se divertia e tudo mais… Mas será mesmo que o ator de marcantes atuações como O Franco Atirador e Touro Indomável precisava se rebaixar em, por exemplo, cenas de socos e pontapés com Ben Stiller numa piscina de bolinhas?

Em suma, o vigor já não é mais o mesmo – e não só no que se refere a Robert De Niro ou a todo o elenco (nem Ben Stiller parece mais se divertir com a brincadeira), mas também ao enredo. A rivalidade entre os personagens principais já saturou e todas as piadas possíveis já foram exploradas. Constata-se, então, que Entrando Numa Fria virou uma típica comédia pastelão norte-americana: comercial, com piadas bobas e conflitos ainda mais bobocas.

Para não me acusarem de rabugento, digo que até existem momentos de descontração (vindos, claro, do elenco – afinal, não podemos nos esquecer que os atores são bons). No entanto, fica complicado ter boa vontade com uma franquia que já esgotou suas ideias e que faz uma segunda continuação sem uma história que, de fato, sustente um filme. Os acontecimentos de Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família são fracos, assim como o produto final. Espero que parem por aqui, sinceramente.

FILME: 5.5


Cópia Fiel

Direção: Abbas Kiarostami

Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière, Agathe Natanson, Gianna Gianchetti, Adrian Moore, Angelo Barbagallo

Copie Conforme, França, 2010, Drama, 106 minutos

Sinopse: James Miller (William Shimell) é um filósofo inglês que vai a uma pequena cidade da Toscana apresentar seu livro sobre o valor da cópia na arte. Chegando lá, encontra Elle (Juliete Binoche), uma francesa que é dona de uma galeria de arte há muitos anos, que vive com seu filho pré-adolescente (Adrian moore). Eles passam a tarde juntos. Ao mesmo tempo em que vão se conhecendo, começam a desenvolver um complexo jogo de interpretação de personagens.

Sei que vou despertar iras descontroladas após esse comentário, mas devo dizer que Cópia Fiel é um filme admirado por um número significativo de cinéfilos pedantes. Ou seja, é filme de arte, que fala sobre arte e que questiona arte. Portanto, todo mundo tem que adorar. Caso contrário, você  não entende nada de cinema e muito menos compreendeu o que o diretor quis dizer. Então, é com muito receio que escrevo sobre esse Cópia Fiel, um longa-metragem cheio de altos e baixos e que funciona melhor na teoria do que na prática. O filme recebeu maior destaque mundial por ter vencido a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes para a francesa Juliette Binoche.

Partindo do mesmo argumento que o documentarista brasileiro Eduardo Coutinho utilizou em Jogo de Cena (o jogo entre ficção e realidade), o filme de Abbas Kiarostami demora para mostrar ao público quais são as suas reais intenções. O resultado chega a ser particularmente torturante até a metade, onde longas cenas tomam forma com milhares de diálogos sobre crítica, arte e afins. Ok, isso é necessário para preparar o espectador para o que o filme está prestes a colocar em debate, mas precisava ocupar tanto tempo e apostar em conversas tão cansativas?

A partir do momento em que os personagens param em uma cafeteria da Itália, a situação de tédio é revertida. Nesse momento, o clima de Cópia Fiel fica muito mais instigante e o filme passa a fluir com mais dinamismo. Portanto, a ótima química entre Juliette Binoche e William Shimell passa a ser instrumento fundamental para situar o espectador na misteriosa situação em que os personagens estão envolvidos. Afinal, os personagens estão representando ou, de fato, falando sobre uma história deles próprios?

Binoche, claro, sai beneficiada por ter o papel mais sentimental e expressivo. Shimell não fica muito atrás, mas o brilho é quase todo de Binoche, que já sai ganhando por ter uma sinceridade muito grande em suas expressões. A francesa sempre foi uma atriz que passa muita humanidade e aqui não é diferente. Binoche e Shimell são vitoriosos na hora de transmitir para o espectador tudo aquilo que o roteiro tem certa dificuldade em passar em vários momentos.

Cópia Fiel, como já citado, torna-se um produto cinematográfico muito mais interessante na teoria do que na prática. As discussões geradas pelo diretor Kiarostami são intrigantes. O filme nem tanto. Na realidade, não é aquele tipo de história que necessita de revisões para ser melhor analisado, como Dúvida, por exemplo. Cópia Fiel é objetivo no que deseja passar (leia-se questionamentos), mas não é brilhante nos meios que utiliza para alcançar isso. O resultado, afinal, está longe de ser o que dizem por aí. Filme para se debater, não necessariamente para se admirar. E aí, devo ser levado em menor consideração só por causa disso?

FILME: 6.5


Na coleção… Crash – No Limite

De todos os filmes da última década, Crash – No Limite deve ser aquele que mais desperta o amor e ódio dos cinéfilos. Cheio de defensores e detratores, o filme de Paul Haggis ficou conhecido como uma das maiores surpresas da história do Oscar. Antes do prêmio, pouco era comentado. Depois, passou a ser debatido em todos os cantos do planeta. Mas, afinal, será mesmo que esse filme merecia tanta polêmica por ter tirado o Oscar das mãos de O Segredo de Brokeback Mountain?

Tal questão já foi discutida exaustivamente e, recentemente, quando revi Crash – No Limite reafirmei o meu posicionamento de que o filme está longe de representar esse endeusamento dos admiradores, assim como também está muito distante de ser o horror apontado por quem o odeia. Crash – No Limite, pelo menos para mim, é um filme satisfatório e com algumas virtudes – mas, claro, não isento de falhas.

O exagero está presente (a trilha de Mark Isham, por exemplo, é bastante manipuladora, mesmo que efetiva), mas nada que apague os surpreendentes efeitos causados por um roteiro repleto de cenas tensas e marcantes. Existem pelo menos dois momentos fenomenais – e não vou nem descrevê-los para não estragar a surpresa de quem ainda não conferiu o longa. Em tantas cenas explosivas, quem mais se destaca é Thandie Newton, que chegou a vencer o BAFTA por seu ótimo desempenho.

Celebrado por ser um excelente retrato da violência em Los Angeles, hoje Crash – No Limite deve parecer batido. Contudo, devemos nos lembrar que essa onda de filmes com histórias interligadas surgiu após o trabalho de Paul Haggis. Crash é o original. E, no que se propõe, consegue ser muito acima da média. As ressalvas não comprometem o ritmo efetivo e contundente dessa obra controversa e que será questionada até o fim dos tempos. Não amo nem odeio. Só defendo um filme injustamente massacrado por causa de um Oscar.

FILME: 8.0