Cinema e Argumento

Na coleção… Volver

Volver é um dos filmes recentes de Almodóvar que melhor traz tudo aquilo que um dia lhe deu sucesso: universo feminino, relações familiares conturbadas, passado trágico e um presente igualmente angustiante. Por mais que A Pele Que Habito seja espetacular e Volver não chegue perto de, pelo menos para mim, alcançar o brilhantismo do exemplar mais recente do diretor, é a história estrelada por Penélope Cruz que traz todos os ingredientes de um bom e velho Almodóvar. Também não é para menos: o diretor revelou que Volver é uma homenagem à sua infância nos anos 1950 em La Mancha e que o longa-metragem, antes mesmo de ser rodado, já havia sido idealizado em torno de memórias e de um reencontro com as fortes mulheres de seu passado.

Nada mais esperado, portanto, do que encontrar um filme repleto de figuras femininas, onde elas lutam contra seus dramas e tentam tornar a vida melhor. É exatamente nessa essência almodóvariana que se encontra todo o charme de Volver, um filme extremamente simples, mas que, por conservar o talento singular do diretor ao falar sobre o universo feminino, torna-se acima da média e um dos mais interessantes que ele fez nos últimos tempos – superando, com sobras, o exagerado Má Educação e o mediano Abraços Partidos. O caráter simplista do filme já começa na premissa, e falar muito sobre ela é estragar as pequenas (e agradáveis) surpresas que ele nos revela, mas basta saber que Volver é sobre a vida de Raimunda (Penélope Cruz), uma mulher que precisa lidar com um trágico acontecimento envolvendo a sua filha ao passo que enfrenta o retorno de um passado com sua mãe que parece iminente.

O que mais impressiona nesse filme, no entanto, é a interpretação de Penélope Cruz, especialmente se formos levar em consideração o ano de lançamento de Volver. Até 2006, Penélope já tinha pequenas participações em outros filmes de Almodóvar, mas sua carreira era marcada por completas bobagens (a exemplo do péssimo Bandidas) ou, então, por interpretações insossas, como a de Anjo de Vidro. Volver trouxe uma revolução para sua vida profissional: Penélope, instruída com completa precisão por Almodóvar, mostrou-se contundente, unindo beleza e talento numa interpretação extremamente segura, onde aparece sempre muito natural e, claro, emotiva ao incorporar todo o sentimentalismo proposto pelo filme. Com isso, recebeu sua primeira indicação ao Oscar (ganharia depois com Vicky Cristina Barcelona) e firmou-se como um nome de confiança. Não apenas ela, mas também todo o elenco feminino (que, inclusive, ganhou a Palma de Ouro em Cannes) está eficiente.

Todavia, Volver parece que está sempre prestes a alçar vôos mais altos – o que nunca acontece. Essa linearidade quase banaliza o filme, mostrando que Almodóvar, além de reunir diversas das suas características, também poderia ter inovado mais. A duração também incomoda, especialmente porque são duas horas que poderiam ser mais enxutas com personagens secundários e subtramas que não mereciam tanto destaque. É um Almodóvar clássico, mas desprovido de inovações. Há quem aprove, mas também há outros, assim como eu, que precisam de inovações. Claro que ver um Almodóvar clássico é sempre bom, mas um pouquinho de ousadias também cai bem de vez em quando. Por sorte, Volver ainda sendo completamente “normal” consegue se sustentar muito bem do jeito que ficou.

FILME: 8.0

Tarde Demais

You and your red pen!

Direção: Shawn Ku

Elenco: Michael Sheen, Maria Bello, Kyle Gallner, Bruce French, Austin Nichols, Deidrie Henry, Alan Tudyk, Moon Bloodgood, Michael Call

Beautiful Boy, EUA, 2010, Drama, 100 minutos

Sinopse: Bill (Michael Sheen) e Kate (Maria Bello) são surpreendidos com a notícia de que a universidade onde o filho Sammy (Kyle Gallner) estuda foi alvo de um massacre. A chegada dos policiais confirma que Sammy está morto, mas traz ainda outra notícia estarrecedora: ele foi o causador do massacre. Entre a tristeza pela perda do filho e o choque diante da verdade, Bill e Kate tentam encontrar um motivo para que Sammy tenha cometido este ato. Ao mesmo tempo, eles precisam encontrar forças para seguir adiante, tendo que enfrentar as acusações dos familiares das vítimas e ainda a própria culpa que sentem.

Antes de aceitar o papel de Grace no filme Em Busca de Uma Nova Chance, Susan Sarandon não escondeu a sua relutância em interpretar mais uma mãe que acabara de perder o filho. A atriz, que nos últimos tempos, participou de três filmes onde fazia o papel de uma mãe que estava de luto pela morte de um filho, deveria estar mais do que certa em ser relutante: se o sofrimento do personagem já é visível na tela, imagine, então, o do ator, que precisa passar meses vivendo tais dramas. Tarde Demais, com Michael Sheen e Maria Bello, é mais um filme sobre esse assunto que nos faz refletir sobre como deve ser difícil para um ator mergulhar em tanto sofrimento. Principalmente quando o filme, como é o caso desse, consegue transmitir todas as angústias das figuras que estão na tela.

Aliás, esse é o primeiro passo para um filme sobre a perda de um filho dar certo: conseguir fazer com que o espectador sinta os dramas. Milhares de histórias já foram contadas no gênero, portanto, é no mínimo louvável a vitória de um diretor que ainda consegue envolver o público nessa tristeza. Tarde Demais, ainda que com ressalvas, entra no seleto grupo de filmes que transmite todo e qualquer sentimento dos personagens. E as circunstâncias tornam a história desse filme ainda mais incômoda: os pais não apenas perderam o filho, mas como também o perderam numa chacina onde ele era o assassino! Ou seja, se já não bastasse a missão de se desvencilhar dos clichês de perdas, Tarde Demais também teria que ser cauteloso ao lidar com uma história extremamente delicada e que poderia cair em discussões morais bobas.

Por sorte, o diretor Shawn Ku consegue tratar tudo com a devida dosagem. Aqui, encontramos questões importantes sendo desenvolvidas com precisão, como o respeito ao sofrimento, a responsabilidade na criação dos filhos e até que ponto os pais devem perdoar certas atitudes. O tema, que é muito atual, é colocado à mostra, mas nunca aprofundado em excesso: Tarde Demais deixa para que o espectador faça as suas interpretações. O que interessa aqui é a jornada dos pais, partindo da mistura de choque e dor ao receber a notícia de que o filho, além de ser suicida, é criminoso, até questões mais banais, como arrependimentos que não podem mais ser consertados. No meio disso tudo, ainda encontramos um casal que, antes de tal fato, enfrentava um período de silêncio, à beira de uma separação. A falta de comunicação entre os dois se mostra contundente no momento dessa nova dor, já que ambos têm uma imensa dificuldade em até mesmo dar um abraço para trazer conforto perante a perda do filho.

Tarde Demais deve ser valorizado pelas boas escolhas e pela forma contida que narra os fatos (notem a economia na trilha sonora e como as “explosões” dos personagens nunca soam apelativas), mas também deve ser criticado por optar pela obviedade em alguns momentos. E eles são vários, como a esposa sentimental enfrentando o marido que sofre em silêncio, a dor como forma de aproximar um casal afastado e como ambos tentam culpar um ao outro pela atitude do filho. São abordagens quase inevitáveis nesse temática, mas que o filme nunca deixa que se tonem aborrecidas. No entanto, isso não quer dizer que o longa tenha tantos méritos a ponto de se diferenciar com sobras de outros exemplares. Se fosse para recomendar o filme, seria mais pelos ótimos desempenhos de Michael Sheen e Maria Bello, ambos visivelmente submersos nas dores de seus personagens. E, como é sempre de se esperar em filmes desse estilo, são especialmente eles que fazem tudo valer a pena.

FILME: 7.5

O trailer de “A Dama de Ferro”

Longe de ser a tragédia que eu pensei que seria, esse trailer veio para dizer uma coisa: o filme terá BAFTA por todos os lados! Assim como O Discurso do Rei, deve ganhar prêmios até em categorias que não merece. De qualquer forma, Meryl parece estar sensacional, em mais uma caricatura que promete. Minhas ressalvas ficaram mesmo com a escolha completamente inapropriada das trilhas… De qualquer forma, é bom ver um material consistente sobre A Dama de Ferro, que, inexplicavelmente, estava sendo escondido pelos irmãos Weinstein – eles, inclusive, decidiram colocar a estreia somente para 30 de dezembro nos Estados Unidos (?!). Agora é só esperar o filme entrar em cartaz e ver se, de fato, o duelo é entre Meryl e Glenn Close.

Reféns

Direção: Joel Schumacher

Elenco: Nicolas Cage, Nicole Kidman, Cam Gigandet, Liana Liberato, Ben Mendelsohn, Jordana Spiro, Nico Tortorella, Dash Mihok, Emily Meade

Trespass, EUA, 2011, Suspense, 91 minutos

Sinopse: Kyle (Nicolas Cage) e Sarah (Nicole Kidman) são casados e vivem em uma elegante e confortável casa ao lado da filha, Avery (Liana Liberato). A vida deles segue sem problemas, até a casa ser invadida e o trio ser mantido refém por criminosos. A família se une para combatê-los, mas isto significa revelar alguns segredos.

Não importa se é Paul Thomas Anderson, Stephen Daldry, Christopher Nolan ou Quentin Tarantino. Todo cinéfilo tem um diretor que é capaz de despertar sua curiosidade só com a divulgação do título do próximo filme. Por um outro lado, também existem aqueles diretores que só o nome já causa pavor. É o caso de Joel Schumacher, responsável por bombas como Número 23 e Batman & Robin, que causa calafrios quando anuncia que comandará um filme. Se somente o nome de Schumacher já seria o suficiente para termos medo de Reféns, a situação se complica ainda mais quando o nome de Nicolas Cage encabeça o elenco ao lado de Nicole Kidman. E esse pavoroso filme cumpre tudo aquilo que era esperado: uma verdadeira bomba sem precedentes.

Não é nem de se surpreender que Schumacher e Cage façam filme horríveis, o preocupante mesmo é a capacidade de Nicole Kidman de destruir a sua própria carreira. Ela, que já esteve em filmes inesquecíveis, tinha feito várias bobagens até pouco tempo, mas parecia ter se reencontrado quando foi indicada ao Oscar este ano por Reencontrando a Felicidade. Só que tal honraria não parece ter inspirado Kidman que, logo após estrelar o longa de John Cameron Mitchell, resolveu colocar sua credibilidade no lixo ao aceitar fazer esse Reféns. Não entendo como a mesma pessoa pode se envolver com projetos tão distintos em qualidade. Bipolaridade pura. Ela e Cage (incrivelmente horroroso com choros péssimos e caricaturas irritantes, no pior desempenho da sua vida) formam uma dupla completamente sem química, que não desperta nem a torcida do espectador por eles.

Reféns, na realidade, já começa errado. Um filme de assalto cujo ato criminoso começa já nos dez primeiros minutos de filme precisa ter muita segurança para se sustentar durante todo o resto. Haja peito e coragem para tentar criar tensão e a qualidade falando sobre assalto durante esse tempo todo, principalmente quando essa temática já foi repetida à exaustão. Sem dúvida alguma existe a possibilidade de falar com qualidade sobre um casal rico em crise que é abalado por assaltantes ou qualquer abordagem do gênero. Só que Schumacher não é nenhum Michael Haneke para fazer Violência Gratuita ou David Fincher para realizar O Quarto do Pânico. Por isso, chega a ser uma torturta acompanhar Reféns.

Evidenciando a mediocridade desse diretor, que um dia chegou a entregar filmes agradáveis como Por Um Fio ou O Cliente, Reféns tem um roteiro completamente absurdo, com personagens completamente fora da realidade. Notem, por exemplo, como o pai coloca a família em risco durante todo o filme, provocando os assaltantes, tentando reagir às ameaças e não os obedecendo. Não sei se o pior é isso ou a tentativa de humanizar a personagem de Nicole Kidman com um romance inconvincente no meio da confusão toda. É o marido valente, a esposa solitária e o ladrão bonzinho que só quer dinheiro sem matar ninguém, entrando em conflito com os colegas E por falar em confusão, que confusão! Reféns é pura gritaria e choros do início ao fim, como se barulho fosse sinal de crescente tensão. Chega a causar dor de cabeça.

As cafonices de Schumacher não poderiam deixar de estar presentes. Existem pelo menos dois momentos de revirar os olhos e se contorcer compulsivamente na cadeira, como aquele em que o personagem de Cage perde os óculos e a câmera se coloca no lugar dele, mostrando a sua visão embaçada. Seria uma tentativa de deixar o espectador nervoso? Outro momento é toda e qualquer vez que inventa de colocar flashbacks para explicar a história. Além de não trazer dinâmica e deixar tudo ainda mais aborrecido, são utilizados para detalhar tramas desinteressantes, que não precisavam sequer existir. Tudo isso, claro, sempre com a voz de um personagem em off explicando cada detalhe.

Ou seja, Schumacher não tem a mínima noção de como tornar interessante um filme desse gênero. É tudo muito bagunçado, histérico, mal atuado e dirigido sem qualquer bom gosto. No final, são tantas histórias sendo contadas ao mesmo tempo (ladrões brigando entre si, gente fugindo da casa, pessoas presas em incêndio, e por aí vai), que dá vontade de mandar uma carta ao diretor pedindo que ele se aposente. Por fim, não consegui pensar em nada de positivo para dizer sobre esse verdadeiro desastre, o que termina justificando a nota abaixo. É, definitivamente, um filme para se passar longe. Depois não digam que não avisei.

FILME: ZERO

Um voto para Tina!

Preparem-se: não teremos outro assunto durante um bom tempo a não ser o mistério de quem será o apresentador do próximo Oscar. Com a saída de Eddie Murphy – haja topete para colocar fora o (desmerecido) voto de confiança que a Academia lhe deu, hein? – e do produtor Brett Ratner, o Oscar se vê numa saia justíssima. Pode parecer que ainda falta muito tempo para a festa, mas não é bem assim: um evento da magnitude do Oscar precisa ser planejado em cada mínimo detalhe. Portanto, é no mínimo desesperadora a atual situação. Mas eles agiram rápido: Brian Grazer já assumiu o posto de produtor. É um nome de confiança e que a própria Academia já celebrou: ele produziu Uma Mente Brilhante e, neste ano, também chega com o mais novo trabalho oscarizável de Clint Eastwood, J. Edgar.

Resolvido o problema do produtor, agora a grande questão é: afinal, quem assumirá o cargo de Eddie Murphy? Desde Hugh Jackman o Oscar não acerta nas suas escolhas. Se Alec Baldwin e Steve Martin nem foram ruins (mas muito menos mostraram algo de relevante naquela festa monótona), a outra dupla escolhida, Anne Hathaway e James Franco, decepcionou meio mundo que, incompreensivelmente, esperava que eles fossem dar certo. Existe esse assunto que o Oscar quer atrair mais público e pessoas mais jovens. O problema é que não basta escolher um apresentar que seja reflexo da identidade e dos gostos do público. O apresentador precisa ter senso de humor, saber lidar com o inesperado, não falar bobagens e, acima de tudo, ter confiança suficiente para dar a cara a tapa (algo que os últimos apresentadores não tinham).

Já se foi o tempo em que o Oscar contratava comediantes natos para esse cargo. Billy Crystal, Whoopi Goldberg e tantos outros já deram a prova de que o humor é essencial para uma festa, mesmo que ela não seja tão atraente assim em sua distribuição de estatuetas. Portanto, aqui fica o voto do Cinema e Argumento para a próxima apresentadora do Oscar: Tina Fey. A mulher criou 30 Rock (a série de maior reputação dos últimos tempos, vencendo durante três anos seguidos o Emmy de melhor série), deixou sua marca em programas como Saturday Night Live e já foi coroada em diversos prêmios por suas interpretações cômicas. Além disso, é ótima roteirista! Lembram de Meninas Malvadas? E, como fã incondicional de Tina, devo reconhecer seu senso de humor inteligente, contemporâneo e nada ofensivo. Precisa de mais?

A escolha mais óbvia para trazer qualquer redenção para o Oscar seria Meryl Streep. Adorada por todos, respeitada por todos e infalível na sua inteligência: quem nunca ficou impressionado com a qualidade e senso de humor de seus discursos? Mas, bom, isso é apenas um sonho desse blogueiro que vos fala… O meu voto realista vai mesmo para Tina. Agora, o jeito mesmo é esperar e ver se o Oscar aprendeu com seus erros e, principalmente, com seus incompreensíveis votos de confiança em pessoas que não mereciam. Se não acertam nos prêmios, pelo menos deveriam nos entregar uma festa divertida e dinâmica – algo que vemos com extrema raridade ultimamente. E quanto a você? Qual o seu voto para a apresentação do próximo Oscar?

ATUALIZAÇÃO: E o Oscar escolheu Billy Crystal!