Cinema e Argumento

Melhores de 2011 – Roteiro Original

Melancolia é, possivelmente, o filme mais surpreendente de Lars Von Trier. Livre de qualquer pretensão e da sua eterna vontade de querer chocar a todo momento, o diretor prova, em seu mais recente trabalho, que, ao contrário do que Cannes pensa, devemos julgar a obra e não a personalidade de seu autor. O roteiro que Lars Von Trier escreveu originalmente para Melancolia é certeiro em todas as emoções: desenvolve bem os dramas, cria uma excelente atmosfera de angústia e ainda traz personagens extremamente verossímeis. Através do texto, nós fazemos parte daquele mundo e conseguimos nos colocar na pele dos personagens. Parece que também somos assombrados pelo planeta Melancolia. Do prólogo até a impecável conclusão, o roteiro fala sobre os mais variados assuntos (família, amor, insatisfação, mágoas) e nunca se perde. Um trabalho exemplar que, junto com a ótima direção, trouxe um dos melhores filmes de 2011. É, pelo jeito, Anticristo foi um desvio de percurso. Melancolia é um Von Trier para todos. Um drama diferente, universal e que merece mais consideração – inclusive daqueles que não apreciam a carreira do dinamarquês. Eles, assim como eu, podem se surpreender. E muito.

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NAMORADOS PARA SEMPRE

Em Namorados Para Sempre, o excelente trabalho de Michelle Williams e Ryan Gosling não teria o mesmo impacto, claro, sem o texto incrivelmente realista e doloroso de Derek Cianfrance, Joey Curtis e Cami Delavigne. Muito mais do que um triste retrato sobre um relacionamento despedaçado, o roteiro também constrói uma história sobre decepções e outros sonhos que não deram certo. Um texto para os fortes e que, ao contrário do que o título nacional indica, não tem nada daquele amor idealizado. É um trabalho sobre a vida. Ou melhor, sobre os obstáculos dela.

MEIA-NOITE EM PARIS

Woody Allen é uma fonte inesgotável de originalidade. E Meia-Noite em Paris não foge à regra. É certo que os filmes verdadeiramente relevantes dele de tempos em tempos (o último, antes desse, foi Vicky Cristina Barcelona), mas, quando aparecem, são sempre gratas surpresas. Em Meia-Noite em Paris, encontramos um Woody Allen completamente apaixonado por Paris, mas que também faz uma notável homenagem ao mundo das artes. Por esse trabalho, venceu, inclusive, o Oscar de melhor roteiro original. Simplicidade e inteligência sem arrogância. Isso não é para qualquer um.

MEDIANERAS – BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL

A mais agradável surpresa do 39º Festival de Cinema de Gramado e que, infelizmente, não teve a mesma repercussão que outro longa argentino também exibido nos cinemas mais ou menos na época, Um Conto Chinês. Ricardo Darín que perdoe a todos, mas o seu filme não chega nem aos pés da originalidade de Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, cujo roteiro de Gustavo Taretto (que também é o diretor) transborda dinamismo em uma temática extremamente contemporânea. Altamente recomendado para qualquer cinéfilo e, principalmente, para os fãs do cinema argentino.

EM UM MUNDO MELHOR

Susanne Bier está muito longe de ser uma grande diretora, mas merecia reconhecimento por Em Um Mundo Melhor. Aqui, ela controla seus habituais melodramas e realiza, junto com o roteirista Anders Thomas Jensen, um excelente trabalho. Com uma história bem amarrada em termos de tensão, Em Um Mundo Melhor também tem um roteiro que sabe desenvolver vários temas paralelos, como uma dolorosa separação e a importante relação entre pais e filhos. Tudo isso com um bom ritmo e com uma trama que nunca deixa de despertar o interesse do espectador.

EM ANOS ANTERIORES: 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

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Escolha do público:

1. Melancolia (37,84%, 14 votos)

2. Meia-Noite em Paris (29,73%, 11 votos)

3. Namorados Para Sempre (16,22%, 6 votos)

4. Em Um Mundo Melhor (8,11%, 3 votos)

5. Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual (8,11%, 3 votos)

As dimensões de um clássico

Exatamente há 100 anos, acontecia um dos maiores naufrágios da história: o do Titanic nas águas do oceano Atlântico. O trágico evento que resultou em mais de 1.500 mortes deu origem também ao filme mais conhecido de nossa geração. Sim, apesar de Avatar ser a maior bilheteria da história (o que não quer dizer nada, já que, possivelmente, metade do lucro foi em função do alto preço dos ingressos 3D), a obra que todo mundo conhece é Titanic. Pergunte por aí: deve ser quase impossível conhecer alguém que não tenha assistido ao célebre longa-metragem dirigido por James Cameron em 1997. Agora, nessa época simbólica dos 100 anos do naufrágio, Titanic está novamente em cartaz. O que, a princípio, parece ser uma mera exploração financeira, revela-se um verdadeiro presente: a conversão para 3D é satisfatória e a sensação de rever esse clássico do cinema na tela grande é única.

O filme relançado agora é exatamente o mesmo: nem um minuto a mais, nem uma vírgula a menos. Ou seja, a mesma produção impressionante, e o mais importante: Titanic permanece majestoso mesmo com a constante evolução da tecnologia desde a sua primeira exibição. É um trabalho que não envelhece, já que, se dissessem que ele foi produzido nos dias de hoje, tal afirmação não seria nada absurda, até porque o longa vem de uma época onde a virtualidade excessiva na construção visual de um filme não era lei. Assim, lá vamos nós, de novo, entrar de corpo e alma no emblemático romance de Rose DeWitt Bukater (Kate Winslet), uma mimada garota que está noiva de um milionário para salvar a família da falência, e Jack Dawson (Leonardo DiCaprio), um jovem artista que vive de cidade em cidade, sem qualquer renda fixa.

Quase 15 anos depois de seu lançamento, o filme de James Cameron continua sendo uma verdadeira viagem cheia de emoções. Aqueles erros básicos continuam ali, a exemplo das abordagens extremas de personagens (basicamente todos os ricos são detestáveis, enquanto os pobres são pessoas injustiçadas de boa índole) e da péssima atuação de Billy Zane como o maquiavélico futuro marido da protagonista. Só que Titanic é tão impecável em todos os outros aspectos que fica difícil reclamar de tais detalhes. Assim, se por si só Titanic já é impressionante, o que falar, então, da oportunidade de revê-lo em tela grande (formato que ela merece), onde concluímos que o resultado sobreviveu de forma impecável durante mais de uma década? Titanic, afinal, também mexe com a nossa memória afetiva, o que é outro ponto muito positivo.

Mesmo que o público saiba exatamente o que acontece na trama, Titanic continua nos envolvendo naquela tragédia estranhamente fascinante e, principalmente, levando o espectador do choro ao riso e da tensão ao romance com uma facilidade assustadora. Merecidamente vencedor de 11 Oscars e sucesso estrondoso da década de 1990, Titanic foi exibido na TV à exaustão, bem como a música de Céline Dion foi reproduzida incansavelmente nas rádios. A repetição causa certa repulsa em muita gente, mas, sem ofensas, é extremamente limitado definir uma obra por aquilo que a mídia faz  com ela. Titanic é mais do que suas incansáveis exibições. TV nenhuma consegue estragar o verdadeiro prazer que é assistir a um filme como esse. E James Cameron tem todo o meu agradecimento por ter me dado a chance de ver Titanic no cinema pela primeira vez. Nunca vou esquecer. Obrigado.

FILME: 10.0

Melhores de 2011 – Fotografia

Emmanuel Lubezki é um verdadeiro mestre. Indicado cinco vezes ao Oscar, já merecia ter pelo menos duas estatuetas (mas não tem uma sequer). A primeira deveria ter sido por seu magnífico trabalho no subestimado Filhos da Esperança. A segunda pela fotografia igualmente impactante de A Árvore da Vida. Junto com a belíssima trilha sonora de Alexandre Desplat, o trabalho de Lubezki é o grande responsável por tornar o filme de Terence Malick tão sensorial. A história pode dividir opiniões, mas a unanimidade em torno da estética é mais do que coerente. Fica clara a forte ligação da fotografia com o trabalho de direção de Malick, especialmente na forma como a ela serve com perfeição ao clima proposto pelo filme. A fotografia de Lubezki traz uma estética encantadora, onde o resultado nunca se sobrepõe a outros setores do filme. Um trabalho singular e que, certamente, está entre os mais interessantes dos últimos anos.

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CISNE NEGRO

Todas as escolhas da fotografia de Matthew Libatique para Cisne Negro foram fundamentais para levar o espectador ao mundo de paranoia da protagonista Nina (Natalie Portman). Da escuridão dos momentos de suspense ao encantamento com o mundo do balé e suas coreografias, o trabalho de Libatique se ajustou perfeitamente ao mundo construído pelo diretor Darren Aronofsky – alcançando, junto com todo o filme, resultado mais do que singular nos minutos finais.

MELANCOLIA

Nos últimos anos, o diretor Lars Von Trier se renovou ao virar um mestre da estética. Não só em relação aos belíssimos prólogos idealizados por ele, mas também ao impecável modo como sabe selecionar profissionais para desenvolver a fotografia de seus filmes. Em Melancolia, Manuel Alberto Claro apresentou um contundente trabalho ao transmitir toda angústia, tristeza e apreensão dos personagens criador por Von Trier. Fotografia subestimada.

BRAVURA INDÔMITA

Elogiar Roger Deakins é cair no lugar-comum. Se John Williams já alcançou, há muito tempo, o status de hors-concours em trilhas, Deakins também pode receber esse título Constantemente brilhante nas fotografias que realiza, Deakins, mais uma vez, foi impecável – dessa vez, em outra parceria com os irmãos Coen, no faroeste Bravura Indômita. Presente e futuro, inverno e escuridão, cenários e paisagens. Em todas as circunstâncias o trabalho de Deakins se sai formidavelmente bem. Só poderia vir de alguém como ele…

Roger Deakins

UM SONHO DE AMOR

Francês responsável pela fotografia de filmes como Swimming Pool – À Beira da Piscina e O Amor em 5 Tempos, Yorick Le Saux apresenta, por exemplo, toda a beleza de locações italianas em um trabalho sublime para Um Sonho de Amor. A fotografia é essencial para a ambientação do espectador, especialmente em momentos onde as imagens valem mais do que palavras (a cena de amor em uma paisagem ensolarada é maravilhosa). Outro trabalho que merecia mais reconhecimento.

EM ANOS ANTERIORES: 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira

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Escolha do público:

1. A Árvore da Vida (53,49%, 23 votos)

2. Melancolia (18,6%, 8 votos)

3. Cisne Negro (11,63%, 5 votos)

4. Bravura Indômita (11,63%, 5 votos)

5. Um Sonho de Amor (4,65%, 2 votos)

Drive

If I drive for you, you give me a time and a place. I give you a five-minute window, anything happens in that five minutes and I’m yours no matter what. I don’t sit in while you’re running it down. I don’t carry a gun… I drive.

Direção: Nicolas Winding Refn

Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Ron Perlman, Christina Hendricks, Bryan Cranston, Oscar Isaac, Jeff Wolfe, James Biberi, Russ Tamblyn

EUA, 2011, Drama/Suspense, 100 minutos

Sinopse: Durante o dia, um motorista (Ryan Gosling) trabalha como mecânico e dublê em filmes de Hollywood, enquanto que à noite ele presta serviços para a máfia. Ele não vê problemas neste duplo serviço, até que um dia a situação se torna pessoal. Ele precisa não ganhar dinheiro, mas evitar sua própria morte.

Drive já começa mostrando que é diferente. E isso não se refere apenas ao lado estético, mas também ao modo como o filme, logo de cara, já se mostra instigante. Acompanhamos o personagem de Ryan Gosling fazendo uma atividade ilícita e, durante mais ou menos dez minutos, somos brindados com uma sequência que deixa a sensação de que estamos prestes a assistir a um thriller cheio de tensão. E Drive é sim um filme que consegue ser inquietante – mas, ao mesmo tempo, não é um produto facilmente digerível,o que pode causar o distanciamento de certos públicos.

Drive tem como protagonista um sujeito que fala pouco. Ele é econômico em suas declarações, prefere acenar com a cabeça ao invés de dizer um simples “sim” e não faz muita questão de socializar. Podemos dizer que é até mesmo um anti-herói, pois ele também está longe de ser uma figura exemplar, uma vez que ajuda na realização de roubos, mesmo tendo outra renda. Ou seja, o longa de Nicolas Winding Refn (premiado em Cannes por sua ótima direção) já se diferencia por aí, apresentando um protagonista que não é unanimidade e que, inclusive, pode despertar desconfianças no espectador. Méritos, também, de mais um bom trabalho de Ryan Gosling.

O clima do filme é muito interessante. Utilizando, com eficiência, a escuridão para maximizar a tensão, as noites mostradas em Drive são sempre instigantes pela fotografia e por vários outros elementos narrativos que são bem comandados pelo diretor. Na realidade, todo Drive é inquietante: parece que algum problema sempre está prestes a aparecer ou que a vinda de uma tragédia é iminente. Essa sensação é agravada com a entrada do personagem de Oscar Issac, uma figura que finalmente começa a dar sentido para um filme até então meio vazio e com rumos não definidos.

Só que, se Drive consegue utilizar bem a atmosfera que constrói para criar o suspense, elogios já não podem ser feitos a qualquer outra tentativa de colocar humanização na história. A personagem de Carey Mulligan (uma atriz que precisa urgentemente se reinventar), por exemplo, serve apenas de pretexto para as atitudes do protagonista. Em nenhum momento ela, de fato, consegue impôr presença em cena, tornando-se uma figura mal explorada, quase unidimensional. E isso é um reflexo do maior problema de Drive: a falta de calor humano. Tudo é mecânico, frio e, por que não, calculado. Um filme bem produzido, é verdade, mas apoiado demais na razão.

Sem muito apelo comercial mas com várias plateias o considerando um pequeno grande filme, Drive certamente encontrará seu público: aqueles que curtem uma história onde algo dá errado e o protagonista se vê num jogo de gato e rato envolvendo uma fortuna. Não é à toa que o cartaz do filme tem a mesma frase de efeito de Onde os Fracos Não Têm Vez – aliás, ambas as produções encontram mesmo realismo em quesitos de morte e sangue. É uma equação que agrada muita gente: Ryan Gosling + boa trilha sonora + filme com cara de alternativo. Porém, isso não quer dizer que tenha um resultado necessariamente empolgante para todos. Pelo menos para mim, é um filme com bons resultados e que tem o meu respeito, mas que não chega a ser superlativo.

FILME: 8.0

Melhores de 2011 – Figurino

Jenny Beaven é uma especialista em filmes de época. Figurinista de produções como Retorno a Howards End e Razão e Sensibilidade, a vencedora do Oscar por Uma Janela Para o Amor foi uma escolha certeira para O Discurso do Rei. Beaven, que nunca se rende a excessos ou a roupagens exageradas, foi extremamente sutil ao criar os figurinos do filme de Tom Hooper. Além de reproduzir com bastante fidelidade o mundo do rei George VI (Colin Firth), o trabalho de Beaven fala muito sobre os próprios personagens, desde tonalidades até desenhos cheios de elegância. É um exemplo de como figurinos de filmes desse gênero não precisam ser cheios de adereços, cores vibrantes ou alegorias. Menos é mais no guarda-roupa de O Discurso do Rei, especialmente quando ele dialoga diretamente com a também satisfatória direção de arte.

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BURLESQUE

Se não fosse pelos figurinos e pela direção de arte, Burlesque seria ainda mais inexpressivo. Claro que muito do que se vê na tela é mera reprodução do que já vimos em outros filmes do gênero (mas, ora, até os números musicais da história são!), mas eles se encaixam com a proposta do longa. Figurinos satisfatórios e que, de certa forma, dão um pouco de vida para esse musical carente de diferenciais.

UM SONHO DE AMOR

Merecidamente indicado ao Oscar 2012, o trabalho de figurinos de Um Sonho de Amor é essencial para representar o mundo burguês da protagonista vivida por Tilda Swinton. A figurinista Antonella Cannarozzi alcança um resultado elegante, mas nunca caindo em exageros – o que por si só já justifica qualquer elogio para esse trabalho certeiro em sua contemporaneidade.

 

ÁGUA PARA ELEFANTES

Assim como a direção de arte, os figurinos de Água Para Elefantes são dignos de mais atenção. Se o filme estrelado por Robert Pattinson e Reese Witherspoon não é lá muito interessante, temos que reconhecer que, tecnicamente, tem seus atrativos. E os figurinos cumprem sua missão de reproduzir com realismo o mundo circense.

CISNE NEGRO

Se a trilha sonora de Clint Mansell e a precisa direção de Darren Aronofsky são fundamentais para ambientar o espectador no mundo do balé, tal missão também é cumprida com louvor pelos figurinos criados por Amy Wescott. A transformação de Nina (Natalie Portman) também é sentida através desse setor de Cisne Negro.

EM ANOS ANTERIORES: 2010 – A Jovem Rainha Victoria

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Escolha do público:

1. Cisne Negro (41,46%, 17 votos)

2. Um Sonho de Amor (26,83%, 11 votos)

3. O Discurso do Rei (19,51%, 8 votos)

4. Água Para Elefantes (7,32%, 3 votos)

5. Burlesque (4,88%, 2 votos)