Cinema e Argumento

Argo

Argo fuck yourself!

Direção: Ben Affleck

Roteiro: Chris Terrio, baseado em artigo de Joshuah Bearman

Elenco: Ben Affleck, Alan Arkin, Bryan Cranston, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Kyle Chandler, Chris Messina, Zeljko Ivanek, Clea DuVall, Kerry Bishé, Titus Welliver, Scoot McNairy, Christopher Denham

EUA, 2012, Drama, 120 minutos

Sinopse: Seis diplomatas, em plena Revolução Iraniana, conseguem escapar da embaixada americana tomada por rebeldes e se refugiam na casa do embaixador canadense. Para conseguirem escapar do Irã e chegarem de volta aos Estados Unidos, eles optaram por um plano ousado: eles fingiram ser integrantes da equipe de filmagens de uma ficção científica de Hollywood, chamada Argo. O plano foi coordenado por Tony Mendez (Ben Affleck), especialista da CIA em exfiltrações. (Adoro Cinema)

Um dos melhores filme lançados no Brasil em 2011, Tudo Pelo Poder apresentou uma qualidade bastante rara: falar de um assunto complicado de forma acessível e universal. E não foi por se comunicar de um jeito simples que o longa George Clooney deixou de ser instigante, inteligente e bem sucedido. Tal feito se repete agora em 2012 com Argo, longa de Ben Affleck sobre um especialista da CIA que tenta resgatar seis diplomatas estadunidenses em plena Revolução Iraniana. Na sua terceira investida como diretor, Affleck, cujo trabalho mais relevante até então era Atração Perigosa, atesta novamente sua maturidade atrás das câmeras e, pela primeira vez, já é considerado forte candidato para várias categorias principais da próxima temporada de premiações.

Argo já mostra ser um filme diferente nos primeiros minutos: a abertura explicativa que mostra fatos históricos através de storyboards é eficiente e a própria cena da captura dos diplomatas em território iraniano é um primor de execução, tanto em termos técnicos quanto no nervosismo que causa no espectador. E se, logo depois, o filme de Affleck parece se render aos diálogos excessivamente detalhistas e a esmiuçamentos pouco interessantes sobre o cotidiano da CIA, não demora muito para que o longa volte a ser plenamente acessível, com direito a brincadeiras relacionadas ao cinema Hollywoodiano e a personagens bastante divertidos (Alan Arkin e John Goodman, apesar de servirem quase apenas como alívio cômico, estão ótimos em cena).

Tenso e orquestrado com notável precisão, o terceiro filme de Ben Affleck ganha pontos especialmente quando a história se passa no Irã. Nesses momentos, Argo atesta toda sua capacidade de manipular – em um bom sentido – as emoções do espectador, fazendo com que a plateia realmente se sinta parte da missão do protagonista. Por isso, dá para perdoar pequenos momentos melodramáticos ou storylines que estão ali simplesmente para dizer que os personagens têm outro tipo de dimensão (é o caso do filho do protagonista, presente apenas para cumprir tabela). Problemas, contudo, contornados pela excelente direção de Affleck, que sempre consegue manter o ritmo da história e nunca subestima nem desafia demais a plateia.

Com um elenco de suporte televisivo (Bryan Cranston, de Breaking Bad; Zeljko Ivanek, que ganhou um Emmy por Damages; Chris Messina, que já passou por Six Feet Under; Kyle Chandler, de Friday Night Lights, entre outros), Argo não chega a ser um filme de atuações, mas toda sua forte verossimilhança é assegurada por elas, incluindo a do próprio Ben Affleck, contido na medida exata. Todos estão convincentes nesse excelente filme de resgate que apesar de, em (raros) momentos, subir a trilha mais do que deveria ou prolongar certas situações para ser mais, digamos, dramático, é tão bem contado que tais detalhes se tornam perfeitamente esquecíveis. Mais uma surpresa do segundo semestre 2012 que vem para salvar o ano. Muito bem, sr. Affleck!

FILME: 8.5

Na Estrada

Direção: Walter Salles

Roteiro: Jose Rivera, baseado no livro homônimo de Jack Kerouac

Elenco: Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Tom Sturridge, Kirsten Dunst, Amy Adams, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Alice Braga, Elisabeth Moss, Terrence Howard

On the Road, EUA/Inglaterra/França/Brasil, 2012, Drama, 139 minutos

Sinopse: Nova York, Estados Unidos. Sal Paradise (Sam Riley) é um aspirante a escritor que acaba de perder o pai. Ao conhecer Dean Moriarty (Garrett Hedlund) ele é apresentado a um mundo até então desconhecido, onde há bastante liberdade no sexo e no uso de drogas. Logo Sal e Dean se tornam grandes amigos, dividindo a parceria com a jovem Marylou (Kristen Stewart), que é apaixonada por Dean. Os três viajam pelas estradas do interior do país, sempre dispostos a fugir de uma vida monótona e cheia de regras. (Adoro Cinema)

Walter Salles deveria voltar a fazer cinema só no Brasil. Desde que resolveu fazer cinema fora de sua terra natal, o diretor carioca nunca chegou perto de alcançar o mesmo brilhantismo das obras que realizou por aqui. A qualidade de Abril DespedaçadoCentral do Brasil, suas obras máximas, nunca foi repetida em longas como Água Negra e, agora, Na Estrada, filme que reúne o maior time de estrelas da carreira de Salles. Adaptado do prestigiado livro homônimo de Jack Kerouac, Na Estrada chegou a competir no 65º Festival de Cannes, mas passou pelo evento de forma muito tímida. E não é muito difícil entender o porquê: o filme estrelado por Garrett Hedlund, Sam Riley e Kristen Stewart tem pouca personalidade, além de não ser suficientemente interessante em aspectos que são fundamentais para o sucesso de um road movie.

Partindo do princípio de que esse “gênero” é sobre personagens que são transformados – ou, então, desafiados à reflexão – a partir de uma viagem, podemos dizer que Na Estrada pouco mostra a evolução dramática de seus personagens. Do fanfarrão vivido por Garret Hedlund até o aspirante a escritor de Sam Riley, as figuras apresentadas na adaptação de Jose Rivera são muito lineares, inflexíveis. Parecem os mesmos do início ao fim. E isso é um grande problema, pois Na Estrada é todo construído em cima de viagens e momentos que, supostamente, deveriam mudar a vida dos personagens. Só que o longa não consegue lidar muito bem com os fatos, principalmente porque a história muda constantemente não só de lugar (a equipe filmou no Canadá, México, EUA, Argentina e Chile), mas também de foco, sempre alternando o protagonismo dos personagens de Hedlund e Riley.

Mesmo com tempo suficiente para construir sua trama de forma consistente, Na Estrada deixa a incômoda sensação de que vários pontos não foram devidamente aproveitados, o que é claramente refletido no desenvolvimento de todos os personagens coadjuvantes. Com um elenco que traz nomes extremamente variados, figuras como Amy Adams, Viggo Mortensen e Steve Buscemi aparecem apenas para cumprir formalidades, sem momentos especiais. Assim, são muitas situações, viagens, avanços no tempo e personagens, mas nada é necessariamente instigante. Talvez porque Walter Salles tenha escolhido levar a obra original às telas com um respeito excessivo ao material original, especialmente porque o livro de Jack Kerouac é adorado mundialmente: quando o filme teve cortes no orçamento, a própria Kristen Stewart aceitou que seu salário fosse diminuído só para permanecer na adaptação.

Na Estrada está longe de alcançar o péssimo resultado de Água Negra, por exemplo, mas, infelizmente, sofre com o fator decepção. E é decepcionante em vários sentidos: esperava-se mais de Walter Salles (que, em Central do Brasil, mostrou pleno domínio do desenvolvimento dramático de um road movie e aqui parece não utilizar todo o seu conhecimento) e, principalmente, do roteiro de Jose Rivera. Falta uma certa “pegada” em Na Estrada, o que impossibilita o espectador de se impressionar um pouco mais com  Garrett Hedlund (que tira o melhor do personagem) e com a boa fotografia de Eric Gautier, sujeito que já trabalhou em filmes como Diários de Motocicleta (também de Salles) Na Natureza Selvagem. Se tivesse o espírito aventureiro e transformador desses dois filmes, Na Estrada seria, no mínimo, muito melhor.

FILME: 6.0

Frankenweenie

Direção: Tim Burton

Roteiro: John August, baseado em roteiro de Leonard Ripss e em ideia de Tim Burton

Elenco (vozes originais): Charlie Tahan, Catherine O’Hara, Martin Landau, Winona Ryder, Christopher Lee, Atticus Shaffer, Conchata Ferrell, Tom Kenny, James Hiroyuki Liao, Melissa Stribling, Dee Bradley Baker, Frank Welker

EUA, 2012, Animação, 87 minutos

Sinopse: Victor (Charlie Tahan) adora fazer filmes caseiros de terror, quase sempre estrelados por seu cachorro Sparky. Quando o cão morre atropelado, Victor fica triste e inconformado. Inspirado por uma aula de ciências que teve na escola, onde um professor mostra ser possível estimular os movimentos através da eletricidade, ele constrói uma máquina que permita reviver Sparky. O experimento dá certo, mas o que Victor não esperava era que seu melhor amigo voltasse com hábitos um pouco diferentes. (Adoro Cinema)

Dizem que existe uma mola no fundo do poço. Se existe mesmo, ela funcionou para Tim Burton. Depois do já decepcionante Alice no País das Maravilhas, o diretor parecia ter alcançado à decadência definitiva com o terrível Sombras da Noite, lançado em junho desse ano. Mas tudo o que foi dito de depreciativo sobre Tim Burton no que tange suas duas últimas obras, pode – e deve – ser repensado agora com Franenweenie, animação que traz o velho estilo de bonecos em massinha. Ao contrário do que vinha realizando nos últimos anos, o novo longa de Burton traz justamente o que parecia estar perdido em sua carreira: paixão e uma nítida vontade de fazer cinema. Sim, Frankenweenie é um filme feito com o coração.

A primeira cena já apresenta a animação de forma muito interessante. Acompanhando uma família frente à TV, o diretor brinca com a questão do 3D: “coloquem os óculos”, diz o protagonista, “é em 3D!” – fazendo referência ao uso da tecnologia no próprio filme. E, ao longo de todo Frankenweenie, somos brindados com as mais diversas referências, seja no sobrenome dos personagens (alguns deles são da família Frankenstein, outros da Van Helsing) ou nos conceitos de cenas que fazem homenagens a longas como GodzillaGremlinsOs Pássaros. O preto-e-branco, muito bem justificado, exalta tais homenagens, reforçando a ideia de que Frankenweenie não é um caça-níquel e sim uma animação muito pessoal de Burton.

Apesar de ser uma animação, o filme não é necessariamente destinado aos pequenos: a história é sobre minorias, experimentos científicos com a morte e chantagens – para dizer o que está mais na superfície. Além disso, o clímax é quase como o de um filme de terror, tamanha a tensão e a adrenalina das cenas para os padrões de uma animação. Com isso, reflete-se, aqui, a clara tendência de que o nome de Burton se posiciona mais do que o selo da Disney no processo. Quem entra na brincadeira certamente terá uma sessão prazerosa, pois Frankenweenie também é um filme que passa por todos os gêneros, apresenta personagens irresistíveis e – o mais importante – nos faz torcer pelo protagonista. O público se importa com Victor, sentindo tudo o que ele sente. E isso, para uma animação, é um mérito a ser valorizado.

É muito simples: desde que a Pixar se aposentou de ideias originais para fazer continuações e se adaptar aos moldes da Disney, não víamos uma animação tão bem resolvida em todos os aspectos. Frankenweenie tem história (e sobrevive a todas as mudanças de tom), visual, ritmo e empatia. Mesmo sendo da Disney (que, recentemente, castrou o perfil diferenciado da Pixar em Valente), a animação não desaponta mesmo nos momentos mais “acessíveis” e “açucarados”. É, antes de tudo, uma luz no fim do túnel de Tim Burton, que realiza o seu melhor trabalho desde sabe-se lá quando. Esse sim é o diretor que conhecemos. E não será surpresa alguma vê-lo como o vencedor do próximo Oscar de melhor animação. Caso isso aconteça, será mais do que merecido.

FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Na coleção… Harry Potter e a Câmara Secreta

Em Harry Potter e a Câmara Secreta, vários aspectos do longa anterior, A Pedra Filosofal, foram aprimorados. Agora, a história já deixou de ser uma mera apresentação de personagens e situações para dar espaço à construção de personagens e ao desenvolvimento de histórias. Porém, o resultado é inferior ao primeiro filme, uma vez que o diretor Chris Columbus se repete demais atrás das câmeras. Em A Câmara Secreta, Harry Potter (Daniel Radcliffe) retorna à escola de magia e bruxaria de Hogwarts já com o alerta de que coisas terríveis vão acontecer por lá. E alguns dias são o suficiente para que o jovem bruxo veja pessoas sendo petrificadas e grandes ameaças – o que, claro, desperta o seu senso de herói para procurar a solução dos tais mistérios.

O livro homônimo de J.K. Rowling não é um dos mais interessantes da saga, mas o roteirista Steve Kloves conseguiu fazer um bom trabalho de adaptação, tornando a história relativamente mais interessante do que na obra original. O problema, aqui, é que Chris Columbus – diretor muito alegórico e “inocente” – não combina com a trama. Por isso, Harry Potter e a Câmara Secreta tem frequentes problemas de ritmo vindos da eterna vontade do diretor de querer ser o mais fiel possível na construção do universo para agradar público-alvo da época. Columbus, apesar da história mais sombria (adjetivo usado incansavelmente para descrever os próximos longas), não quer deixar de priorizar, uma vez ou outra, os cenários coloridos, os seres fantásticos e personagens que aparecem mais para lembrar o livro do que para acrescentar algo de fato ao enredo (o jovem fotógrafo, Colin Creevey, é um exemplo).

Assim, A Câmara Secreta é repleto de excessos, algo que se reflete principalmente na duração excessiva (é o filme mais longo da franquia). Talvez, isso seja consequência da produção apressada do filme, uma vez que a continuação estreou já um ano depois do primeiro longa. Não é raro ficar com a sensação de que A Câmara Secreta foi filmado na íntegra junto com A Pedra Filosofal. Tais detalhes, por outro lado, passam quase despercebidos pelos fãs de Harry Potter, porque esse segundo capítulo, apesar de carente de uma direção mais firme, aprimora vários aspectos que são fundamentais para o futuro da saga: o laço de amizade entre o trio principal é selado de uma vez por todas nesse volume, qualquer resquício de insegurança quanto à construção do universo mágico de Hogwarts foi apagado e a parte técnica se mostra cada vez mais consolidada.

Harry Potter e a Câmara Secreta também foi um filme de despedidas. Primeiro, de Richard Harris, responsável por eternizar a figura de Alvo Dumbledore – e que me desculpe Michal Gambon, que é um excelente ator e viria a assumir o papel depois, mas Harris é imbatível como o diretor de Hogwarts. E segundo de Chris Columbus, que deixou o cargo de diretor no momento correto (no próximo volume, seria substituído pelo mexicano Alfonso Cuarón). Como um filme de transição, A Câmara Secreta cumpre o seu papel, e com direito a gratas surpresas como Kenneth Branagh, impagável na personificação do professor Gilderoy Lockhart. Já se analisado separadamente, o filme não é um primor de segurança e personalidade. Se fosse um pouco mais objetivo e menos formal em certos aspectos (notem como o arco do mistério é devidamente esmiuçado, com direito até a discursos explicativos do vilão no confronto final), o filme conseguiria ser mais autoral e ir além do apenas atisfatório. Os fãs, entretanto, não saem decepcionados: A Câmara Secreta é extremamente fiel em sua adaptação. E isso, para o público-alvo da época, era essencial.

FILME: 8.0

Moonrise Kingdom

It’s been proven by history: all mankind makes mistakes.

Direção: Wes Anderson

Roteiro: Wes Anderson e Roman Coppola

Elenco: Bruce Willis, Edward Norton, Frances McDormand, Kara Hayward, Jared Gilman, Jason Shwartzman, Tilda Swinton, Bob Balaban, Harvey Keitel, L.J. Foley

EUA, 2012, Comédia, 94 minutos

Sinopse: Anos 60, em uma pequena ilha localizada na costa da Nova Inglaterra. Sam (Jared Gilman) e Suzy (Kara Hayward) sentem-se deslocados em meio às pessoas com que convivem. Após se conhecerem em uma peça teatral na qual Suzy atuava, eles passam a trocar cartas regularmente. Um dia, resolvem deixar tudo para trás e fugir juntos. O que não esperavam era que os pais de Suzy (Bill Murray e Frances McDormand), o capitão Sharp (Bruce Willis) e o escoteiro-chefe Ward (Edward Norton) fizessem todo o possível para reencontrá-los. (Adoro Cinema)

Foi com O Fantástico Sr. Raposo que Wes Anderson conseguiu me convencer pela primeira vez. Adorado por obras como Os Excêntricos Tenenbaums, o diretor sempre me pareceu superestimado, apresentando resultados questionáveis em estranhas comédias cheias de maneirismos como A Vida Marinha Com Steve Zissou. De qualquer forma, foi com sua primeira animação que ele me fisgou: visual radiante, trilha irresistível, personagens bem desenvolvidos e humor devidamente pontuado. Coincidência ou não, ele repete – e aprimora – tudo o que apresentou em O Fantástico Sr. Raposo em Moonrise Kingdom, que segue basicamente o mesmo estilo e entrega aquele que é, possivelmente, o seu filme mais interessante e melhor executado.

Moonrise Kingdom, logo em seus primeiros momentos, já instiga com o visual: direção de arte, fotografia e paisagens utilizam tons pasteis para construir um universo vintage e fabulesco, onde a inocência está justamente no foco da história, que mostra um casal de crianças que resolve fugir de suas respectivas rotinas para viver um grande amor. O filme ainda se utiliza de personagens excêntricos, liberdades narrativas e situações inusitadas sem nunca deixar de construir situações irresistivelmente palpáveis. O estilo idílico e o núcleo dos jovens escoteiros também trazem uma certa nostalgia para Moonrise Kingdom, que está longe de ser um filme de tom exclusivamente infantil. Pelo contrário: conforme se desenvolve, essa essência fica muitas vezes em segundo plano para dar lugar a outras abordagens.

Wes Anderson criou um filme que transita por praticamente todos os gêneros: da investigação à comédia, passando pelo romance com toques dramáticos, Moonrise Kingdom oferece ao espectador um sentimento genuíno de diversão, digno de matinê mesmo. Não podemos negar que, em um momento ou outro, a fusão de tantos gêneros deixa o resultado um pouco frenético, mas o que vale perceber é que todo o elenco entrou na brincadeira (incluindo veteranos como Tilda Swinton, Bill Murray e Bruce Willis) e que os jovens atores são todos ótimos. Aliás, as interpretações, além de estarem em plena sintonia com a proposta do diretor, não descambam para o caricatural, o que demonstra uma disciplina muito grande de seus intérpretes, já que os perfis dos personagens permitiriam o desvio de tom. Sim, entre crianças desajustadas, investigadores atrapalhados e traições, os personagens de Moonrise Kingdom poderiam ser exagerados. Mas tudo está no seu devido lugar.

É um longa divertido, prazeroso e original – o que, vale sempre lembrar, está cada vez mais raro nos dias de hoje – mas que também carrega, em suas entrelinhas, situações bastante agridoces. Sutilmente, Moonrise Kingdom ainda encontra espaço para falar sobre famílias desestruturadas, jovens problemáticos e casais que há muito tempo já deixaram de ser companheiros. É por fazer comédia com um tom muito controlado e por proporcionar diversão sem nunca abandonar questões mais complexas e existenciais, que Anderson se mostra cada vez mais maduro na concepção de seus universos particulares. Os cacoetes se foram e o diretor deixa bem claro que finalmente encontrou sua fórmula certeira. Um trabalho irresistível… Para qualquer plateia, arrisco dizer.

FILME: 8.5